                      A Villa
                        Nora Roberts
                          The Villa




Digitalizao e reviso: Zaira Machado
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2008


Traduo: Alda Porto
BERTRAND BRASIL
Copyright 2001 by Nora Roberts
Ttulo original: The Villa
Traduo Alda Porto
Capa: Leonardo Carvalho
Editorao: DFL
2008
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. 546p.
Traduo de: The Villa
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    famlia, que forma as razes. Aos amigos, que fazem brotar as
                                flores.


Prlogo
Na a noite em que foi assassinado, Bernardo Baptista jantou apenas po e
queijo, e tomou uma garrafa de Chianti. O vinho era um pouco novo, ele no.
Nenhum dos dois continuaria a envelhecer.
Como o po e o queijo, Bernardo era um homem simples. Vivia na mesma
casinha, nas suaves colinas ao norte de Veneza, desde o casamento, h
cinqenta e um anos. Os cinco filhos haviam sido criados ali e a mulher
morrera tambm ali.
Agora, aos setenta e trs anos, morava sozinho, com quase toda a famlia 
distncia de uma pedrada, nas cercanias do grandioso vinhedo Giambelli,
onde ele trabalhara desde a juventude.
Conhecia La Signora desde menina, e desde essa poca o ensinaram a tirar o
chapu sempre que ela passava. Mesmo agora, quando Tereza Giambelli
voltava da Califrnia para o castello e o vinhedo, ela parava sempre que o
via. E os dois conversavam sobre os velhos tempos, quando o av dela e o pai
dele trabalhavam nas vinhas.
Signore Baptista, como ela o chamava respeitosamente. Ele tinha grande
apreo por La Signora e fora leal a ela e aos seus a vida roda.
Durante mais de sessenta anos, Bernardo participara da feitura do vinho
Giambelli. Houvera muitas mudanas -- algumas boas, em sua opinio, outras
nem tanto. Ele j vira muito.
Segundo alguns, demais.
As vinhas, adormecidas pelo acalanto do inverno, logo seriam podadas. A
artrite impedia-o de fazer grande parte do trabalho braal como antes, mas
mesmo assim saa todas as manhs para ver os filhos e os netos darem
continuidade  tradio.
Um Baptista sempre trabalhara para a Giambelli. E, na mente de Bernardo,
sempre trabalharia.
Nessa ltima noite, aos setenta e trs anos, ele examinava as vinhas -- suas
vinhas --, vendo o que fora feito, o que precisava ser feito, ouvindo o vento
de dezembro assobiar por entre a estrutura da videira.
Da janela por onde o vento tentava esgueirar-se, Bernardo via os esqueletos
na firme subida pelas elevaes. Iam adquirir carne e vida com o tempo, e
no continuar secos e murchos como os de um homem. Era o milagre da uva.
Bernardo via as sombras e formas do majestoso castello, que governava
aquelas vinhas e todos que as cultivavam.
Era solitrio agora,  noite, no inverno, quando apenas os empregados
dormiam no castello e as uvas ainda tinham de nascer.
Ele queria a primavera, e o longo vero que a seguia, quando o sol lhe aquecia
as entranhas e amadurecia a fruta nova. Queria, como sempre parecera
querer, mais uma colheita.
Bernardo sentia dores causadas pelo frio no fundo dos ossos. Pensou em
aquecer um pouco de sopa que a neta trouxera, mas sua Annamaria no era a
melhor das cozinheiras. Com isso em mente, contentou-se com o queijo e
tomou o bom e encorpado vinho tinto junto  pequena lareira.
Orgulhava-se daquele trabalho de toda uma vida, parte do qual estava na
taa que captava a luz do fogo e fulgia num vermelho muito escuro. A
bebida foro um presente, um dos muitos que recebera na aposentadoria,
embora todos soubessem que a aposentadoria era apenas um detalhe
tcnico. Mesmo com os ossos doendo e o corao enfraquecido, Bernardo
percorria o vinhedo, provava as uvas, examinava o cu e cheirava o ar.
Vivia pelo vinho.
E por ele morria.
Tomava-o e balanava a cabea junto ao fogo, com uma manta enrolada nas
pernas finas. Por sua mente passavam imagens dos campos banhados de sol,
da mulher rindo, dele mesmo mostrando ao filho como escorar a vinha nova
para podar a madura. De La Signora parada a seu lado entre as fileiras que
seus avs haviam cultivado.
Signore Baptista, ela lhe dizia quando ainda tinham o rosto muito jovem,
recebemos um mundo. Precisamos proteg-lo.
E assim o fizeram.
O vento assobiava nas janelas da casinha. O fogo se extinguia em brasas.
E quando a dor estendeu a mo como um punho, esmagando-lhe o corao
para a morte, seu assassino, a quase dez quilmetros dali e cercado por
amigos e associados, saboreava um salmo ao vapor  perfeio e um
excelente Pinot Blanc.

PARTE UM
A poda
O homem  um feixe de relaes, um n de razes, que tem o mundo
como flor e fruto.
RALPH    WALDO       EMERSON

Captulo Um
A bela garrafa de Cabernet Sauvignon 1902, Castello di Giambelli, foi
leiloada por cento e vinte e cinco mil e quinhentos dlares americanos. Um
dinheiro, pensou Sophia, por um vinho misturado com sentimento. O vinho
na primorosa e velha garrara fora produzido com uvas colhidas no ano em
que Cezare Giambelli estabelecera o vinhedo Castello di Giambelli numa
faixa de terra montanhosa ao norte de Veneza.
Naquela poca o castello era uma verdadeira zombaria ou um supremo
otimismo, a depender do ponto de vista. A modesta casa e a pequena adega
de pedra de Cezare estavam longe de ser majestosas. Mas as vinhas eram
regias e ele construra um imprio a partir delas.
Aps quase um sculo, talvez at mesmo um superior Cabernet Sauvignon
fosse mais palatvel borrifado numa salada do que ingerido, mas no lhe
cabia discutir com o ricao que o arrematara. A sua av tinha razo, como
sempre. Pagariam, e regiamente, pelo privilgio de ter um pedao da
histria dos Giambelli.
Sophia anotou o lance final e o nome do comprador, embora no fosse
provvel que esquecesse os dois, para o bilhete que enviaria  av quando
terminasse o leilo.
Ela participava do evento no apenas como a relaes-pblicas executiva que
planejara e realizara a promoo e o catlogo do leilo, mas como
representante da famlia Giambelli nessa exclusiva comemorao de
abertura do centenrio.
Como tal, sentava-se discretamente nos fundos da sala para observar os
lances e a apresentao.
Tinha as pernas cruzadas numa linha longa e elegante. As costas retas, uma
disciplina adquirida em internato de freiras. Usava um terninho preto,
italiano, de riscas finas, feito sob medida, que conseguia parecer ao mesmo
tempo profissional e inteiramente feminino.
Era a idia exata que fazia de si mesma.
O rosto definido, um tringulo de dourado-claro dominado por grandes e
profundos olhos castanhos e a boca larga e inconstante. As mas do rosto
que pareciam esculpidas com picador de gelo, o queixo, uma ponta de
diamante, compondo um semblante parte ferico, parte guerreiro. Ela usava,
deliberada e brutalmente, o rosto como uma arma quando parecia mais
conveniente.
Acreditava que as ferramentas eram para ser usadas, e bem usadas.
Um ano antes, cortara os cabelos, que batiam na cintura, num curto gorro
preto, rematado por uma franja cheia de pontas na testa.
Combinava com ela. Sophia sabia exatamente o que lhe caa
bem.
Exibia a nica volta de prolas antigas que a av lhe dera em seu vigsimo
primeiro aniversrio, com uma expresso de polido interesse. Pensava nela
como a aparncia do escritrio do pai.
Seus olhos se iluminaram, e os cantos da boca larga curvavam-se
ligeiramente, quando se ps na vitrina o artigo seguinte.
Era uma garrafa de Barolo 1934, do barril que Cezare denominara Di
Tereza, em homenagem ao nascimento da av dela. Essa reserva privada
ganhara uma foto de Tereza aos dez anos no rtulo, o ano em que o vinho
amadurecera o suficiente e fora engarrafado.
Agora, aos sessenta e sete anos, Tereza Giambelli era uma lenda, cuja fama
como vinicultora ofuscava at mesmo a do av.
Aquela era a primeira garrafa desse rtulo oferecida  venda, ou passada
para fora da famlia. Como esperava Sophia, os lances foram rpidos e
animados.
O homem sentado ao lado dela bateu no catlogo em que se exibia a foto do
rtulo.
-- Voc se parece com ela.
Sophia mudou ligeiramente de posio, sorriu primeiro para ele -- um homem
distinto, que pairava desconfortvel em algum ponto perto dos sessenta
anos --, depois para a foto da moa olhando sria na garrafa de vinho tinto
do catlogo.
-- Obrigada.
Marshall Evans, ela lembrou. Corretor de imveis, segunda gerao dos
quinhentos mais ricos da revista Fortune. Ela fazia questo de conhecer os
nomes e as estatsticas vitais dos fanticos por vinho e colecionadores com
muito dinheiro e gostos autnticos.
-- Eu esperava que La Signora assistisse ao leilo de hoje. Ela est bem?
-- Muito bem. Mas, fora isso, ocupada.
O bipe no bolso de seu palet vibrou. Vagamente aborrecida com a
interrupo, Sophia ignorou-o para ver os lances. Percorreu a sala com os
olhos, observando os sinais. O erguer casual de um dedo na terceira fila
elevou o preo em mais quinhentos. Um sutil aceno de cabea na quinta
cobriu o lance.
No fim, o Barolo deixou para trs o Cabernet Sauvignon em mil e quinhentos,
e ela se voltou para estender a mo ao homem a seu lado.
Parabns, Sr. Evans. Sua contribuio  Cruz Vermelha Internacional ter
bom uso. Em nome dos Giambelli, a famlia e a empresa, espero que desfrute
o prmio.
-- Disso no h dvida. -- Ele tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios. -- Tive o
prazer de encontrar La Signora muitos anos atrs.  uma mulher
extraordinria!
-- , sim.
-- Talvez a neta aceitasse jantar comigo hoje  noite.
Era velho o bastante para ser pai dela, mas Sophia tambm era europia o
bastante para julgar isso um impedimento. Em outra ocasio, teria aceito e
sem dvida gostado da companhia dele.
-- Desculpe -- disse --, mas eu tenho um compromisso. Talvez em minha
prxima viagem ao leste, se voc estiver livre.
-- Vou dar um jeito de estar.
Pondo um certo calor no sorriso, ela se levantou.
-- Se me der licena.
Deslizou para fora da sala e pegou o bipe no bolso para conferir o nmero.
Foi at o salo do banheiro das mulheres, olhou o relgio de pulso e tirou o
telefone da bolsa. Aps teclar o nmero, sentou-se num dos sofs e ps a
caderneta de notas e a agenda eletrnica no colo.
Aps uma longa e exaustiva semana em Nova York, ainda estava acelerada e,
verificando os apontamentos, satisfeita por ter tempo para encaixar
algumas compras antes de precisar trocar de roupa para o jantar marcado.
Jeremy DeMorney, pensou. Isso queria dizer uma noite elegante e
sofisticada. Restaurante francs, discusso de pratos, viagem e teatro. E,
claro, vinho. Como descendia dos DeMorney da vincola La Coeur, e era um
alto executivo ali, e ela vinha da cepa dos Giambelli, haveria algumas
tentativas brincalhonas de arrancar segredos empresariais um do outro. E
champanhe. timo, ela estava no clima.
Tudo seguido de uma revoltante tentativa romntica de lev-la para a cama.
Ela imaginava se estaria no clima para isso tambm.
Ele era atraente, e a coisa podia ser divertida, pensou. Talvez se os dois no
soubessem que o pai dela um dia dormira com a esposa dele, a idia de um
pequeno romance entre eles no pareceria to incmoda, e meio incestuosa.
Ainda assim, vrios anos se haviam passado...
-- Maria. -- Sophia guardou Jerry e a noite prxima no canto da mente
quando a criada dos Giambelli atendeu. -- Tenho um telefonema de minha
me no celular. Ela pode atender?
-- Ah, sim, Srta. Sophia. Ela esperava a sua ligao. S um instante.
Sophia imaginou a mulher atravessando toda a ala, examinando os aposentos
em busca de alguma coisa para arrumar, quando Pilar Giambelli Avano j
teria, ela prpria, arrumado tudo.
Mama, pensou Sophia, ficaria contente numa pequena cabana coberta de
rosas, onde pudesse assar po, fazer o trabalho de agulha e cuidar do
jardim. Devia ter tido meia dzia de filhos, pensou com um suspiro. E teve
de se contentar comigo.
-- Sophia, eu estava saindo da estufa. Espere. Me deixe recuperar o flego.
No esperava que me ligasse de volta to rpido. Achei que estaria no meio
do leilo.
--Acabou. E acho que posso dizer que foi um absoluto sucesso. Vou mandar
por fax um memorando dos detalhes hoje  noite, ou logo cedo pela manh.
Agora preciso voltar e amarrar as pontas soltas. Est tudo bem a?
-- Mais ou menos. A sua av convocou uma conferncia de cpula.
-- Oh, Mama, ela no vai agonizar de novo. J passamos por tudo isso seis
meses atrs.
-- Oito -- corrigiu Pilar. -- Mas, fazer o qu? Sinto muito, querida, mas ela
insiste. Acho que no planeja morrer desta vez, mas planeja alguma coisa.
Chamou os advogados para outra reviso do testamento. E me deu o broche
de camafeu da me dela, o que significa que est pensando  frente.
-- Eu achei que ela j o tinha dado da ltima vez.
-- No, da ltima vez foram as contas de mbar. Ela mandou chamar todo
mundo. Voc precisa voltar.
-- Tudo bem. Tudo bem. -- Sophia olhou a agenda eletrnica e soprou um
beijo de despedida para Jerry DeMorney. -- Vou terminar aqui e irei. Mas
realmente, mame, esse novo hbito dela de morrer ou revisar o
testamento de poucos em poucos meses  muito inconveniente.
-- Voc  uma boa menina, Sophia. Vou deixar minhas contas de mbar pra
voc.
-- Muito obrigada.
Com uma risada, Sophia desligou.
Duas horas depois, j voava para o oeste e especulava se dali a quarenta
anos teria o poder de estalar os dedos e fazer todo mundo atender
correndo.
S a idia a fez sorrir ao recostar-se com uma taa de champanha e Verdi
tocando nos fones de ouvido.

NEM TODO MUNDO ATENDEU CORRENDO. TYLER MACMILLAN
podia estar a minutos, e no a horas, da Villa Giambelli, mas considerava as
vinhas uma atividade muito mais importante que uma convocao de La
Signora.
E foi o que disse.
-- Ora, Ty. Voc pode tirar algumas horas.
-- Agora, no. -- Ty andava de um lado para outro no escritrio, ansioso por
voltar aos campos. -- Sinto muito, vov. Voc sabe como  vital a poda do
inverno, e Tereza tambm. -- Transferiu o celular para o outro ouvido.
Odiava celulares. Vivia perdendo-os. -- As vinhas MacMillan precisam de
tanto cuidado quanto as Giambelli.
-- Ty...
-- Voc me ps no comando aqui. Estou fazendo meu trabalho.
-- Ty -- repetiu Eli. Sabia que com o neto tinha de pr tudo num nvel bem
bsico. -- Tereza e eu somos to dedicados  MacMillan quanto s vinhas
sob o rtulo Giambelli, e assim tem sido h vinte anos. Voc foi posto no
comando porque  um vinhateiro excepcional. Tereza tem planos. E esses
planos envolvem voc.
-- Na semana que vem.
-- Amanh. -- Eli no fincava p com freqncia; no era o seu jeito de agir.
Mas, se necessrio, sabia faz-lo de uma forma implacvel. -- Uma hora da
tarde. Almoo. E se arrume direito.
Ty franziu a testa e olhou as botas antigas e as bainhas pudas das calas
grossas.
--  o meio do maldito dia.
-- Voc  o nico na MacMillan capaz de podar vinhas, Tyler? Ao que parece,
perdeu vrios empregados durante a ltima estao.
-- Vou estar a. Mas me diga uma coisa...
-- Claro.
-- Esta  a ltima vez que ela vai morrer por algum tempo?
--  uma da tarde -- respondeu Eli. -- Tente chegar na hora.
-- T bom, t bom, t bom -- murmurou Tyler, mas s depois de desligar o
telefone.
Adorava o av. Adorava at mesmo Tereza, talvez por ser to teimosa e
irritante. Quando o av se casara com a herdeira Giambelli, Tyler tinha onze
anos. Apaixonara-se pelos vinhedos, a elevao das colinas, as sombras das
grutas, as grandes cavernas que eram as adegas.
E, num sentido muito real, apaixonara-se por Tereza Louisa Elana Giambelli,
a figurinha magrrima, reta como uma vara e meio aterrorizante que vira
pela primeira vez de botas e calas no to diferentes das suas,
atravessando a passos largos os ps de mostarda entre as fileiras de uvas.
Ela lhe dera uma olhada, erguera uma sobrancelha fina como um fio de
navalha e julgara-o frgil e urbano. Disse-lhe que, se ia ser seu neto, teria
de endurecer-se.
Ordenara-lhe que ficasse na villa durante o vero. Ningum pensara em
discutir a questo. Certamente no os pais dele, que haviam ficado mais que
felizes por verem-no pelas costas durante um extenso perodo e poderem
voar para festas e amantes. Por isso ele ficara, pensava Tyler agora,
dirigindo-se para a janela. Um vero aps outro, at as vinhas serem mais
um lar para ele que a casa em So Francisco, at ela e o av serem mais seus
pais que sua me e pai.
Ela o fizera. Podara-o aos onze anos e treinara-o para tornar-se o que era.
Mas no era dona dele. Irnico, ele pensou, que todo o trabalho de Tereza
moldara-o na nica pessoa sob a gide dela com mais probabilidade de
ignorar suas ordens.
Era mais difcil, claro, ignorar as ordens quando ela e o av se uniam. Com um
encolher de ombros, Tyler deixou o escritrio. Podia tirar algumas horas, e
eles sabiam tanto disso quanto ele. Os vinhedos MacMillan empregavam os
melhores, e ele podia facilmente ausentar-se a maior parte de uma estao
com confiana nos que deixava no comando.
O simples fato era que odiava os grandes e prolongados eventos que os
Giambelli geravam. Invariavelmente pareciam um circo, com todos os trs
picadeiros lotados de nmeros pitorescos. No se conseguia acompanhar os
acontecimentos, e sempre era possvel um dos tigres saltar fora da jaula e
partir para a garganta da gente.
Todas aquelas pessoas, questes, fingimentos e sombrias influncias
ocultas. Ele se sentia mais feliz andando pelos vinhedos, verificando os
barris ou conversando com um de seus vinicultores sobre as qualidades do
Chardonnay daquele ano.
Os deveres sociais eram simplesmente isso. Deveres.
Ele contornou a encantadora alameda da casa que pertencera ao av e
entrou na cozinha para reabastecer de caf a garrafa trmica. Meio
ausente, largou na bancada o celular que ainda trazia e comeou ento a
rearrumar seu programa na cabea para atender La Signora.
No era mais urbano, nem frgil. Tinha pouco mais de um metro e oitenta, o
corpo esculpido pelo trabalho no campo e uma preferncia pela vida ao ar
livre. Mos largas, duras de calos, dedos compridos que sabiam mergulhar
delicadamente sob as folhas e pegar as uvas. Os cabelos tendiam a
encaracolar se se ele esquecesse de mandar aparar, o que muitas vezes
acontecia; eram de um castanho-escuro que mostrava sinais de ruvo, como
um borgonha envelhecido  luz do sol. O rosto de ossos salientes era mais
spero do que bonito, com rugas que comeavam a abrir-se em leque dos
olhos azul-claros e calmos que podiam endurecer-se como ao.
A cicatriz no queixo, que ele ganhara com um tropeo numa pilha de pedras
aos treze anos, s o aborrecia quando comeava a barbear-se.
O que, lembrou a si mesmo, teria de fazer antes do almoo no dia seguinte.
Os que trabalhavam para ele consideravam-no um homem justo, embora s
vezes voltado a um nico objetivo. Tyler teria apreciado a anlise. Tambm o
consideravam um artista, e isso o teria intrigado.
Para ele, o artista era a uva.
Mergulhou no ar seco do inverno. Ainda restavam duas horas antes do pr-
do-sol e muitas vinhas a cuidar.

DONATO GIAMBELLI TINHA UMA DOR DE CABEA DE REVOLTANTES
propores. Ela se chamava Gina e era sua esposa. Quando chegara a
ultimao de La Signora, ele estava feliz da vida empenhado em fazer sexo
de revirar os olhos com a atual amante, uma aspirante a atriz de mltiplos
talentos e com fora suficiente nas coxas para quebrar nozes. Ao contrrio
da esposa, exigia apenas o ocasional badulaque e a suada travessura sexual
trs vezes por semana. No exigia conversa.
s vezes ele achava que era s o que Gina exigia.
Ela tagarelava com ele. Tagarelava com cada um dos trs filhos deles.
Tagarelava com a sogra at o ar no jato da empresa vibrar com a
interminvel torrente de palavras.
Entre ela, o berreiro do beb, as pancadas do pequeno Cezare e os pinotes
de Tereza Maria. Don pensava a srio em abrir o alapo e empurrar toda a
famlia para fora do avio rumo ao esquecimento.
S a me dele no falava, e apenas porque tomara um sonfero, um
comprimido contra enjo em avio, outro antialrgico, e Deus sabe o que
mais, mandara tudo para dentro com duas taas de Merlot antes de pr a
mscara nos olhos e apagar.
Ela passara a maior parte da vida, pelo menos a parte que ele conhecia,
medicada e apagada. No momento, ele considerava isso uma sabedoria
superior.
Restava-lhe apenas ficar sentado, as tmporas latejando e mandando a tia
Tereza para o inferno por insistir que toda a famlia fizesse aquela viagem.
Era vice-presidente executivo da Giambeili em Veneza, no era? Qualquer
negcio que se precisasse fazer exigia a sua presena, no a da famlia.
Por que Deus o atormentara com uma famlia como aquela?
No que Don no os amasse. Claro que amava. Mas o beb era gordo como um
peru, e l estava Gina puxando um seio para a boca faminta.
Antes, aquele seio fora uma obra de arte, pensou. Dourado, firme e com
gosto de pssego. Agora, esticado como um balo enchido demais e, se ele
estivesse a fim de provar, temperado com baba de beb.
E a mulher j estava fazendo alarde sobre ter ainda mais um.
A mulher com quem se casara era madura, sensual, com uma boa libido, mas
a cabea era vazia. Fora a perfeio. Em cinco breves anos, tornara-se
gorda, desleixada e s pensava nos bebs.
Era de admirar que ele buscasse conforto em outra parte?
-- Donny, eu acho que Zia Tereza vai dar uma grande promoo a voc, e
todos nos mudaremos para o castelo.
Ela cobiava a majestosa casa Giambeili -- todos aqueles belos aposentos,
todos os empregados. Os filhos seriam criados no luxo, com privilgios.
Belas roupas, as melhores escolas e, um dia, a fortuna dos Giambelli a seus
ps.
Era ela a nica que dava bebes a La Signora, no era? Isso contava muito.
-- Cezare -- disse ao filho quando ele arrancou a cabea da boneca da irm.
-- Pare com isso! Agora voc fez sua irm chorar. Vamos, vamos, me d a
boneca. Mama vai consertar.
O pequeno Cezare, olhos brilhando, olhou rindo para trs e comeou a
provocar a irm.
-- Ingls, Cezare! -- Ela brandiu o dedo para ele. -- Ns vamos para os
Estados Unidos. Voc vai falar ingls com a Zia Tereza e mostrar a ela como
 inteligente. Vamos, vamos.
Tereza Maria, chorando pela morte da boneca, pegou a cabea e correu de
um lado para outro da cabine, numa agitao de dor e raiva.
-- Cezare! Faa o que mame mandou.
Em resposta, o menino jogou-se no cho, debatendo-se. Don levantou-se,
saiu cambaleando e foi trancar-se no refgio de seu escritrio a bordo.

ANTHONY AVANO GOSTAVA DAS MELHORES COISAS. ESCOLHERA A
cobertura dplex na Back Bay em So Francisco com cuidado e deliberao,
depois contratara o mais caro decorador da cidade para equip-la ao seu
estilo. Status e classe eram altas prioridades. T-las sem precisar fazer
qualquer esforo verdadeiro, outra.
Ele no via como algum podia viver com conforto sem esses elementos
bsicos.
Os aposentos refletiam o que Anthony julgava um gosto clssico -- das
paredes em chamalote de seda aos tapetes orientais, at os reluzentes
mveis de carvalho. Ele, ou o decorador, escolhera ricos tecidos em tons
neutros com poucos salpicos de cores fortes artisticamente distribudos.
Haviam lhe dito que a arte moderna, que nada significava em absoluto para
ele, formava um ousadocontraponto com a elegncia moderna.
Anthony dependia muito dos servios de decoradores, alfaiates, corretores,
palheiros e marchands para cercar-se do melhor.
Sabia-se que alguns de seus detratores diziam que Tony Avano nascera com
gosto. E todo na boca. No seria ele quem iria contestar aquela afirmao.
Mas o dinheiro, em sua opinio, comprava todo o gosto necessrio.
Uma coisa ele conhecia. E era vinho.
Podia dizer-se que suas adegas se achavam entre as melhores da Califrnia.
Cada garrafa fora pessoalmente selecionada. Embora no distinguisse uma
uva Sangiovese de uma Semillon na videira, e no se interessasse pelo
cultivo da parreira, tinha um nariz superior. E esse nariz subia firme a
escada empresarial na Giambelli da Califrnia. Trinta anos antes, casara-se
com Pilar Giambelli.
O nariz levara menos de dois anos para comear a farejar outras mulheres.
Tony era o primeiro a admitir que as mulheres constituam a sua fraqueza.
Eram tantas, afinal. Amara Pilar to profundamente quanto era capaz de
amar outro ser humano. Sem dvida, amara a posio privilegiada na
organizao Giambelli como marido da filha de La Signora e pai da neta da
patroa.
Por esses motivos, durante muitos anos tentara ser bastante discreto com
sua fraqueza particular. Chegara mesmo a tentar, vrias vezes, corrigir-se.
Mas sempre havia outra mulher, macia e cheirosa ou quente e sedutora. Que
se ia fazer?
A fraqueza acabara por custar-lhe o casamento, num sentido tcnico,
embora no legal. Ele e Pilar viviam separados havia sete anos. Nenhum dos
dois dera um passo sequer para o divrcio. Ela, ele sabia, porque o amava. E
ele porque parecia problema demais e teria desagradado seriamente Tereza.
De qualquer modo, no que lhe dizia respeito, a atual situao convinha muito
bem a todos. Pilar preferia o campo; ele, a cidade. Os dois mantinham uma
relao de amizade polida, at mesmo razoavelmente amistosa. E ele
manteve a posio como o diretor-presidente de vendas da Giambelli na
Califrnia.
Durante sete anos eles trilharam essa linha civilizada. Agora ele receava
estar prestes a cair pela borda.
Rene insistia no casamento. Como um rolo compressor forrado de seda,
tinha um jeito de avanar para uma meta e aplainar todos os obstculos no
caminho. As discusses com ela deixavam Tony bambo e tonto.
A amante sentia um cime violento, arrogante, exigente e inclinado a glidos
amuos.
E ele era louco por ela.
Aos trinta e dois anos, Rene era vinte e sete mais moa que ele, fato que
acariciava o seu bem desenvolvido ego. O fato de saber que ela era to
interessada em seu dinheiro quanto no resto no o perturbava. Respeitava-a
por isso.
Receava que, se lhe desse o que queria, perderia o motivo de ela o querer.
Era uma situao dos diabos. Para resolv-la, Tony fez o que em geral fazia
em relao s dificuldades. Ignorava-as pelo tempo humanamente possvel.
Examinando a vista da baa, tomando um pouco de vermute, ele esperava que
Rene acabasse de se vestir para a sada noturna. E receava que seu tempo
houvesse acabado.
A campainha da porta o fez virar-se, com uma leve carranca. No esperavam
ningum. Na verdade, era a noite de folga do mordomo e ele foi verificar
quem era. A carranca desapareceu ao abrir a porta e ver a filha.
-- Sophia, que bela surpresa!
-- Pai.
Ela se ergueu um pouco nas pontas dos ps e beijou-o na face. Um homem de
beleza estonteante como sempre, pensou. Bons genes e um excelente
cirurgio plstico lhe serviram bem. Sophia fez o melhor possvel para
ignorar a instintiva e sbita pontada de ressentimento, e tentou concentrar-
se na igualmente instintiva e rpida pontada de amor.
Ela parecia viver puxada para lados opostos em relao ao pai.
-- Acabei de voltar de Nova York e queria ver voc antes de ir para a villa.
Examinou o rosto dele -- liso, quase sem rugas e, sem dvida,
despreocupado. Os cabelos negros raiados de um modo atraente com fios
cinza nas tmporas, os profundos olhos azuis lmpidos. Ele tinha um queixo
duplo com uma covinha no meio. Ela adorava enfiar o dedo ali quando criana
e faz-lo rir.
O amor por ele percorreu-a, misturando-se numa baguna com o
ressentimento. Era sempre assim.
-- Vejo que vai sair -- ela disse, notando o smoking.
-- Daqui a pouco. -- Ele pegou a mo dela e puxou-a para dentro. -- Mas
temos tempo suficiente. Sente-se, princesa, e me diga como vai voc. Toma
alguma coisa?
Inclinou para ela o copo que segurava. Sophia cheirou e aprovou.
-- O que voc est bebendo seria timo.
Ela examinou a sala quando ele se encaminhou para o armrio de bebidas. Um
dispendioso pretexto, pensou. Tudo exibio sem substncia. Tpico do pai.
-- Vai subir amanh? Subir pra onde?
Ela virou a cabea quando ele voltou.
-- Pra villa. No, por que?
Ela pegou a taa, pensando enquanto bebia.
-- No recebeu um telefonema?
-- Sobre o qu?
As lealdades puxavam e se embaralhavam de um lado para outro deli. Ele
tapeara sua me, ignorava com toda indiferena os votos matrimoniais desde
que Sophia se lembrava, e no fim deixara as duas quase sem um olhar para
trs. Mas ainda era famlia, e a famlia estava sendo chamada  villa.
-- La Signora. Uma de suas conferncias de cpula com os advogados,
segundo me disseram. Talvez voc quisesse estar presente.
-- Ah, bem, realmente, eu ia... interrompeu-se quando Rene entrou.
Se havia um pster da amante-trofu, pensou Sophia, o gnio fervendo,
seria de Rene Foxx. Alta, curvilnea e lourssima. O vestido Valentino
emoldurava um corpo bronzeado de arrasar e conseguia parecer discreto e
elegante.
Os cabelos puxados para cima caam lisos atrs para realar o belo rosto
emoldurado pela boca sensual -- botox, pensou Sophia, maldosa -- e astutos
olhos verdes.
Escolhera diamantes para combinar com o Valentino, e eles brilhavam e
tremeluziam contra a pele polida.
Exatamente quanto, pensou Sophia, custara ao pai aquelas pedras?
-- Oi. -- Sophia tornou outro gole de vermute para lavar um pouco do
amargor da lngua. -- Rene, no ?
-- Sou, e tenho sido h quase dois anos. Ainda  Sophia?
-- Sou, h vinte e seis.
Tony pigarreou. Nada, pensou, era mais perigoso que duas mulheres se
alfinetando.
-- Rene, Sophia acabou de chegar de Nova York.
--  mesmo? -- Divertindo-se, Rene pegou o copo de Tony e tomou um gole.
-- Isso explica por que voc est parecendo meio desgastada pela viagem.
Estamos indo a uma festa. Voc  bem-vinda para juntar-se a ns --
acrescentou, passando o brao pelo de Tony. -- Devo ter alguma coisa no
armrio que lhe cairia bem.
Se desejasse engalfinhar-se com Rene, pensou Sophia, no seria aps um
vo de costa a costa e no apartamento do pai. Escolheria o tempo e o lugar
certos.
--  uma coisa a pensar, mas eu me sentiria meio sem jeito usando um
vestido obviamente to grande. E -- acrescentou cobrindo de acar as
palavras -- estou indo para o norte. Negcios de famlia. -- Largou a taa.
-- Aproveitem a noite.
Dirigiu-se  porta, onde Tony a alcanou para dar-lhe no ombro um tapinha
rpido e tranqilizante.
-- Por que no vem com a gente, Sophia? Voc est tima assim como est.
Voc  linda.
-- No, obrigada. -- Ela se voltou e os olhos dos dois se encontraram. Era
uma expresso que ela j se acostumara demais a ver para ser eficaz. --
No estou me sentindo muito festiva.
Ele piscou os olhos quando a filha fechou a porta em sua cara.
-- O que ela queria? -- perguntou Rene.
-- S deu uma passada, como eu disse.
-- Sua filha jamais faz coisa alguma sem motivo. Ele deu de ombros.
-- Talvez tenha pensado que a gente podia ir junto de carro para o norte
pela manh. Tereza mandou uma intimao.
Rene estreitou os olhos.
-- Voc no me falou nisso.
-- Eu no recebi. -- Ele descartou todo o assunto e pensou apenas na festa,
que impresso causaria a entrada dele e de Rene. -- Voc est fabulosa,
Rene.  uma vergonha cobrir esse vestido, mesmo com pele de marta. Quer
que eu pegue sua capa?
-- Que quer dizer com no recebeu? -- Rene largou o copo vazio na mesa. --
Sua posio na Giambelli certamente  mais importante que a de sua filha. --
E ela pretendia fazer com que assim continuasse. -- Se a velha est
chamando a famlia, voc vai. Vamos de carro amanh.
-- Ns? Mas...
--  a oportunidade perfeita pra voc tomar uma posio, Tony. Vai dizer a
Pilar que quer o divrcio. Vamos voltar cedo da festa, para estarmos os dois
com as idias claras.
Ela se aproximou dele e correu o dedo pelas suas faces.
Sabia que, com Tony, a manipulao exigia firmes exigncias e recompensas
fsicas, em ponderada fuso.
-- E, quando voltarmos hoje a noite, vou mostrar a voc exatamente o que
pode esperar quando estivermos casados. Quando voltarmos, Tony... -- Ela
se ergueu e mordeu de leve o lbio inferior dele. -- Voc pode fazer o que
quiser.
-- Vamos simplesmente pular a festa.
Ela deu uma risada e escorregou para longe das mos dele.
--  importante. E vai dar tempo a voc pra pensar no que quer fazer
comigo. Pegue minha pele, sim, querido?
Ela prpria se sentia como uma pele de marta nessa noite, pensou, enquanto
Tony ia obedecer  sua ordem. Sentia-se rica nessa noite.

Captulo Dois
Uma fina camada de neve cobria o vale e as colinas que dele subiam. As
vinhas, soldados muito arrogantes e s vezes temperamentais, galgavam as
encostas, lanceando a silenciosa neblina com os galhos nus que
transformavam em sombras suaves as montanhas em volta.
Sob a madrugada perolada, os vinhedos tremiam e dormiam. Esse pacfico
cenrio ajudara a gerar uma fortuna, uma fortuna que seria mais uma vez
apostada, estao aps estao. Tendo a natureza como parceira e inimiga.
Para Sophia, a fabricao do vinho era uma arte, um negcio, uma cincia.
Mas tambm o maior jogo que havia.
De uma janela na villa da av, examinava o campo do jogo. Era a estao da
poda e ela imaginava enquanto viajava que as vinhas j haviam sido
acessadas, analisadas, e os primeiros estgios para o ano seguinte iniciado.
Sentia-se feliz por ter sido chamada de volta para ver parte disso ela
prpria.
Quando se ausentava, o negcio do vinho ocupava todas as suas energias.
Raras vezes pensava no vinhedo quando vestia a camisa empresarial. E
sempre que voltava, como agora, quase no pensava em outra coisa.
Ainda assim, no podia demorar-se muito. Tinha deveres em So Francisco.
Uma nova campanha publicitria a ser retocada. O centenrio da Giambelli
estava apenas levantando vo. E, com o sucesso do leilo em Nova York, as
prximas etapas iriam exigir sua ateno.
Um velho vinho para um novo sculo, pensou. Villa Giambelli: comea o novo
sculo de excelncia.
Mas eles precisavam de uma coisa nova, uma coisa atraente para o mercado
mais jovem. Os que compravam vinho de passagem -- um sbito impulso para
levar a uma festa.
Bem, pensaria nisso. Era seu trabalho pensar nisso.
E o fato de concentrar a mente nisso a tiraria do pai e da intrigante Rene.
No era da sua conta, pensou Sophia. No era absolutamente de sua conta
se o pai queria enganchar-se com uma ex-modelo de lingerie, com o corao
do tamanho e textura de uma uva-passa. Ele j bancara o bobo antes, e sem
dvida iria bancar de novo.
Ela desejava poder odi-lo por isso, por aquela pattica fraqueza de carter
e a benigna negligncia com a filha. Mas o amor firme e duradouro
simplesmente no se afastava. O que a tornava, supunha, to boba quanto
sua me.
Ele no ligava tanto para nenhuma das duas quanto para o corte de um terno.
E no lhes dedicava dois minutos de pensamento depois que saam de seu
campo de viso. Era um sacana. Totalmente egosta, esporadicamente
afetuoso e sempre despreocupado.
E isso, ela supunha, era parte do seu charme. Quisera no ter passado l na
noite anterior, desejava no se sentir obrigada a manter aquela ligao
entre eles, independentemente do que o pai fizesse ou deixasse de fazer.
Melhor, pensou, manter-se em movimento como fizera nos ltimos anos.
Viajando, trabalhando, enchendo o tempo e a vida com obrigaes
profissionais e sociais.
Dois dias, decidiu. Daria dois dias  av, para passar esse tempo com ela e a
famlia, no vinhedo e na fbrica da vincula.
A nova campanha seria a melhor da indstria. Ela providenciaria para que
fosse.
Ao examinar as colinas, viu duas figuras atravessando a neblina. O homem,
alto e magro, com um velho chapu pardo na cabea. A mulher, ereta como
uma vara, em botas e calas masculinas, os cabelos brancos como a neve em
que os dois pisavam. Uma collie Border andava com dificuldade entre eles.
Eram os avs, dando seu passeio matinal com a velha e eternamente fiel
Sally.
A viso dos dois elevou o nimo de Sophia. Mudasse o que mudasse em sua
vida, quaisquer que fossem os ajustes feitos, aquilo era uma constante. La
Signora e Eli MacMillan. E as vinhas.
Ela se precipitou da janela para pegar o casaco e ir juntar-se aos dois.

AOS SESSENTA E SETE ANOS, TEREZA GIAMBELLI TINHA O CORPO
e a mente esculpidos e afiados como navalhas. Ela aprendera a arte da vinha
sentada no joelho do av. Viajara com o pai para a Califrnia quando tinha
apenas trs anos, para transformar a terra do maduro vale em vinho.
Tornara-se bilnge e viajara de um lado para outro entre a Califrnia e a
Itlia como outras mocinhas viajavam para parques de diverso.
Aprendera a amar as montanhas, a floresta densa, o ritmo das vozes
americanas.
No era o lar, jamais seria o lar como fora o castello. Mas ela fizera ali o
seu lugar e sentia-se satisfeita com isso.
Casara-se com um homem que obtivera a aprovao de sua famlia e
aprendera a am-lo tambm. Com ele, gerara uma filha e, para sua dor
eterna, dois filhos natimortos.
Enterrara o marido quando ele tinha apenas trinta anos. E jamais adotara o
nome dele nem o dera  filha nica. Ela era Giambelli, e essa herana, essa
responsabilidade, era mais vital e mais sagrada at mesmo que o
casamento.
 Tinha um irmo a quem amava e que era padre e cuidava de seu rebanho em
Veneza. Outro morrera como soldado antes de ter de fato vivido. Ela
reverenciava a memria dele, apesar de vaga.
E tinha uma irm que considerava uma tola, na melhor das hipteses, que
trouxera ao mundo uma filha mais tola ainda.
Coubera-lhe continuar a linhagem da famlia, a arte da famlia. E o fizera.
Seu casamento com Eli MacMillan fora muito bem pensado,
escrupulosamente planejado. Ela o considerara uma fuso, pois seus
vinhedos eram de primeira e aninhavam-se abaixo dos dela no vale. Era um
bom homem e, o mais importante em seus clculos, um bom vinicultor.
Ele cuidara dela, mas outros homens tinham feito o mesmo. Ela gostava da
companhia dele, mas gostara da companhia de outros. No fim, julgara-o
parecido com uma uva Merlot, o mais suave suco adocicado misturado com o
dela, o mais forte e reconhecidamente mais spero da Cabernet Sauvgnon.
A combinao certa podia produzir excelentes resultados. Seu
consentimento  proposta de casamento com ele dependera de complexos e
detalhados arranjos comerciais, que beneficiaram as duas empresas e a
satisfizeram.
Mas Tereza, que raras vezes se surpreendia, surpreendera-se ao encontrar
conforto, prazer e simples satisfao num casamento que agora se
aproximava do vigsimo ano.
Ele ainda era um homem de bela aparncia. Tereza no fazia abatimentos
nesses assuntos, quando o assunto eram os genes. Para ela, o que formava
um homem era to importante quanto o que o homem fazia de si mesmo.
Embora fosse dez anos mais velho, ela no via sinal algum no marido de que
se curvasse a idade. Ainda se levantava ao amanhecer todo dia e caminhava
com ela, independentemente do tempo.
Confiava nele como no confiara em homem algum desde o av, e cuidava
mais dele do que de qualquer homem que no fosse do seu sangue.
Ele conhecia todos os planos dela, e a maioria de seus segredos.
-- Sophia chegou ontem  noite.
-- Ah. -- Eli ps a mo no ombro dela, enquanto os dois seguiam entre as
fileiras. Era um gesto simples e habitual para ele. Tereza levara algum
tempo para acostumar-se quele toque casual de um homem, de um marido.
Levaria um tempo maior ainda para passar a depender disso. -- Voc achava
que ela no viria?
-- Eu sabia que viria. -- Tereza acostumara-se demais a ser obedecida para
duvidar disso. -- Se tivesse vindo direto de Nova York, teria chegado mais
cedo.
-- Ento, tinha um encontro. Ou fez algumas compras.
Ela estreitou os olhos. Eram quase negros e ainda penetrantes na viso
distante. Tambm tinha voz penetrante e transmitia a msica extica de sua
terra.
-- Ou parou para ver o pai.
-- Ou parou para ver o pai -- concordou Eli, no seu jeito vagaroso e 
vontade. -- A lealdade  um trao que voc sempre admirou, Tereza.
-- Quando merecida. -- s vezes, por mais que ela gostasse dele, a
interminvel tolerncia do marido a deixava enfurecida. -- Anthony Avano
merece apenas repugnncia.
-- Um homem digno de pena, mau marido e pai medocre. -- O que o tornava,
pensou Eli, muito semelhante ao prprio filho. -- Mas ele continua a
trabalhar pra voc.
-- Eu o acolhi com demasiada intimidade na Giambelli nos primeiros anos. --
Ela confiara nele, pensou, vira potencial no marido da filha. Fora enganada
por ele. Isso, jamais perdoaria. -- Ainda assim, ele sabe vender. Eu uso
qualquer instrumento que desempenha sua tarda. Demiti-lo tempos atrs
teria sido uma satisfao pessoal e uma insensatez profissional. O que 
melhor para a Giambelli  que  o melhor. Mas eu no gosto de ver minha
neta paparicar o sujeito. Uh.
Afastou as lembranas do genro com um impaciente aceno da mo.
-- Vamos ver como ele recebe o que eu tenho a dizer hoje. Sophia deve ter
contado a ele que eu a chamei. Por isso ele veio.
Eli parou e voltou-se.
-- E isso era exatamente o que voc queria. Sabia que ela iria contar a ele.
Os olhos escuros dela falsearam e o sorriso era frio.
-- E da se eu queria?
-- Voc  uma mulher difcil, Tereza.
-- Sou, sim. Obrigada.
Ele riu e, balanando a cabea, recomeou a andar com ela.
-- Suas declaraes hoje vo causar problemas. Ressentimento.
-- Espero que sim. -- Ela parou para examinar algumas das vinhas mais novas
escoradas por telas de arame. Ali seria necessria a poda dos galhos,
pensou. S os mais fortes poderiam crescer. -- A complacncia torna-se
podrido, Eli. Deve-se respeitar a tradio e explorar a mudana.
Ela percorreu a terra com os olhos. A neblina era densa e o ar, mido. O sol
no iria atravess-la nesse dia, teve certeza.
Os invernos, pensou, tornavam-se mais longos a cada ano.
-- Eu plantei algumas dessas vinhas com minhas prprias mos -- continuou.
-- Vinhas que meu pai trouxe da Itlia.  medida que foram envelhecendo,
fizemos novas a partir delas. As novas devem sempre ter espao para
afundar as razes, Eli, e as maduras tm direito ao respeito delas. O que eu
constru aqui, o que ns construmos em nosso tempo juntos,  nosso. Eu
farei o que achar melhor com isso, e por isso.
-- Voc sempre fez. Neste caso, como na maioria das vezes, eu concordo
com voc. Isso no significa que teremos uma fcil temporada pela frente.
-- Mas uma estao de excelente qualidade, Este ano... -- Ela estendeu a
mo para virar um talo nu. -- Uma safra tima e rara, eu sei. Voltou-se e viu
a neta subindo a colina, correndo em direo a eles. -- Ela  to linda Eli.
-- . E forte.
-- Vai precisar ser -- disse Tereza e adiantou-se para tomar as mos de
Sophia nas suas. -- Buon giorno, cara. Come va?
-- Bene, bene. -- As duas se beijaram, de mos unidas. -- Nonna. -- Sophia
recuou e examinou o rosto da av. Era um rosto bonito, no fofo e bonitinho
como a moa no rtulo feito tanto tempo atrs, mas forte, quase feroz.
Esculpido, pensava sempre a neta, tanto pela ambio como pelo tempo. --
Voc est maravilhosa. E voc.
Virou-se para abraar Eli. Ali era tudo muito simples. Ele era Eli, s Eli, o
nico av que ela algum dia conhecera. Seguro, amoroso e sem complicao.
Ele a suspendeu um pouco ao abra-la, de modo que os dedos dos ps dela
apenas se ergueram do cho. Isso a fez rir e agarrar-se.
-- Eu vi vocs da janela. -- Recuou quando os ps tocaram o cho, depois se
abaixou para dar tapinhas e alisar a paciente Sally. -- Vocs trs so uma
pintura, O Vinhedo, eu diria -- continuou, endireitando-se para abotoar a
jaqueta de Eli na garganta, contra o frio. -- Que manh!
Fechou os olhos, inclinando a cabea para trs e inspirando fundo. Sentia o
cheiro da umidade, do sabonete do av e do tabaco que ele devia ter
escondido num dos bolsos.
-- Teve sucesso na viagem? -- perguntou Tereza.
-- Tenho memorandos. Meus memorandos tm memorandos acrescentou
Sophia, tornando a rir ao passar o brao pelos deles, para poderem andar
juntos. -- Voc vai ficar satisfeita, Nonna. E eu tenho algumas idias
brilhantes, digo com alguma modstia, sobre a campanha de promoo.
Eli olhou-a e, quando viu que Tereza no ia fazer comentrios, bateu na mo
da neta. O problema, pensou, iria comear muito cedo agora.
-- A poda comeou. -- Sophia notou os novos cortes nas vinhas. -- Na
MacMillan tambm?
-- Sim.  tempo.
-- Parece que ainda falta muito pra colheita. Nonna, vai me dizer por que
trouxe todos ns aqui? Sabe que eu adoro ver voc, e Eli, e Mama. Mas o
preparo das vinhas no  o nico trabalho que se exige na Giambelli.
-- Falaremos disso depois. Agora vamos tomar o caf-da-manh, antes que
aqueles monstros do Donato cheguem e nos deixem loucos.
-- Nonna.
-- Depois -- disse de novo Tereza. -- Ainda no chegaram todos.

A VILLA GIAMBELLI FICAVA NUMA PEQUENA ELEVAO NO CENTRO
do vale, ao lado de uma floresta que haviam deixado tornar-se selvagem. As
pedras da casa surgiam douradas, vermelhas e escuras quando a luz batia
nelas e eram muitas as janelas. A fbrica de vinho, ou o lagar, fora
construda como rplica de uma na Itlia e, embora a houvessem expandido
e modernizado de uma forma impiedosa, continuava funcionando.
Acrescentara-se uma sala de degustao, com atraentes acessrios, onde os
clientes podiam, com hora marcada, saborear os produtos junto com pes e
queijos. Os clubes de vinho eram recebidos com prdigos eventos quatro
vezes por ano, e os escritrios ali ou em So Francisco organizavam as
excurses.
Embarcava-se o vinho, comprado na prpria fbrica nessas ocasies, para
qualquer parte do mundo.
As caves, com seu ar frio e mido, que varavam as colinas, eram usadas para
armazenamento e envelhecimento do vinho. Os campos onde se haviam
construdo a Villa Giambelli e suas instalaes estendiam-se por mais de
quarenta hectares, e durante a colheita at o ar cheirava  promessa de
vinho.
O ptio central da villa fora calado com ladrilhos vermelhos Chianti e
ostentava uma fonte onde Baco, risonho, erguia para sempre a sua longa
taa. Quando passasse o inverno, poriam dezenas e dezenas de vasos para
que o espao se avivasse com flores e aromas.
A manso tambm tinha doze dormitrios e quinze banheiros, um solrio, um
salo de baile e uma sala de jantar formal para sessenta convidados. Havia
salas dedicadas  msica e outras que celebravam os livros. Salas de
trabalho e de contemplao. Nas paredes, uma coleo de arte italiana e
americana que no ficava atrs de nenhuma outra.
Havia piscinas dentro e fora da casa, e uma garagem para vinte carros. Os
jardins eram uma fantasia.
As sacadas e os terraos rendilhavam a pedra e uma srie de degraus
oferecia  famlia e aos hspedes entradas e sadas privadas.
Apesar do tamanho, as reas espaosas e os inestimveis tesouros, a casa
era, sem dvida, um lar.
Na primeira vez que Tyler a vira, julgara-a um castelo, cheio de aposentos
enormes e corredores intrincados. No momento, julgava-a uma priso, onde
fora condenado a passar demasiado tempo com demasiadas pessoas.
Queria estar do lado de fora, ao ar livre, cuidando das vinhas e tomando
caf forte de uma garrafa trmica. Em vez disso, via-se acuado no salo da
famlia bebendo um excelente Chardonnay, O fogo estalava alegremente na
lareira, elegantes tira-gostos e aperitivos estavam espalhados por toda a
sala em bandejas de cermica italiana colorida.
Ele no entendia por que as pessoas gastavam tempo e trabalho com aquelas
comidinhas minsculas quando montar um sanduche era to mais rpido e
fcil.
Por que a comida tinha de ser um acontecimento to maldito? E imaginava
que, se ele dissesse tal heresia numa casa de italianos, seria linchado na
hora.
Fora obrigado a trocar as roupas de trabalho por calas e suter -- sua
idia de traje formal. Pelo menos no se metera num terno como... como se
chamava o cara? Don. Don de Veneza, com a mulher que usava maquiagem
demais, jias demais e sempre parecia ter um beb se esguoelando grudado
em alguma parte do corpo
Tambm falava demais, e ningum, sobretudo o marido, parecia dar a menor
ateno.
Francesca Giambelli Russo, a me de Don, quase no falava. Um grande
contraste com La Signora, pensava Tyler. Jamais se diria que eram irms.
Ela era a magra e enxuta, uma mulherzinha etrea, que ficava pregada na
cadeira e parecia morrer de susto se algum lhe falasse diretamente.
Ty tinha sempre o cuidado de no fazer isso.
O menino pequeno, se  que se podia chamar de menino pequeno um pestinha,
esparramava-se no tapete esmagando dois caminhes um contra o outro. A
collie Border de Eli, Sally, escondia-se sob as pernas de Sophia.
Pernas sensacionais, notou Tyler, meio ausente.
Tinha uma aparncia elegante e polida, como sempre, uma coisa tirada de um
filme e jogada ali em trs dimenses. Parecia fascinada pelo que Don lhe
dizia e mantinha no rosto dele aqueles olhos grandes e cor-de-chocolate
escuro. Mas Ty viu quando ela discretamente empurrou para Sally os
aperitivos. O movimento fora furtivo e calculado demais, para no desviar a
ateno da conversa.
-- Pegue a. As azeitonas recheadas esto excelentes. Pilar juntou-se a ele
com uma pequena bandeja.
-- Obrigado. -- Tyler mexeu-se. De todos os Giambelli, era com ela que se
sentia mais  vontade, Pilar jamais esperava dele interminveis conversas s
para ouvir a prpria voz. -- Alguma idia de quando vai rolar essa reunio?
-- Quando Mama estiver pronta, no antes. Segundo minhas fontes, o
almoo foi marcado para as catorze horas, mas no consigo descobrir por
quem estamos esperando. Seja quem for, e do que se trate, Eli parece
contente.  um bom sinal.
Ele ia dar um grunhido, mas lembrou-se da boa educao.
-- Esperemos que sim.
-- No vemos voc por aqui h semanas... tem andado ocupado -- ela disse ao
mesmo tempo que ele falara, e rira. -- Naturalmente. O que andou
aprontando, alm dos negcios?
-- E existe outra coisa?
Com um balanar de cabea, ela tornou a empurrar-lhe as azeitonas.
-- Voc se parece mais com minha me do que qualquer de ns. No ia se
encontrar com algum no vero passado? Uma loura? Pat, Patty?
-- Patsy. Na verdade, no encontrar. Apenas tipo... -- Ele fez um gesto. --
Voc sabe.
-- Querido, voc precisa sair mais. E no apenas pra... voc sabe.
Era uma coisa to materna! a dizer que ele teve de sorrir.
-- Posso dizer a mesma coisa de voc.
-- Oh, eu sou apenas uma velha coroca.
--A coroca mais linda da sala -- ele respondeu, fazendo-a mais uma vez rir.
-- Voc sempre  um amor quando quer.
E o comentrio, mesmo de um homem que ela considerava uma espcie de
filho substituto, lhe animou o esprito, que parecia esmorecer nos ltimos
dias.
-- Mame, voc est monopolizando as azeitonas.
Sophia correu e pegou uma das bandejas. Ao lado da me, composta e bela,
ela era uma descarga eltrica, estalando de energia. Daquele tipo que nos d
choques repentinos e inesperados quando nos aproximamos demais.
Ou, pelo menos, assim parecia a Ty.
Por esse simples motivo, sempre tentara manter uma segura e confortvel
distncia.
-- Rpido, fale comigo. Voc ia simplesmente me deixar amarrada ao chato
do Don para sempre? -- resmungou Sophia.
-- Pobre Sophia. Bem, veja a coisa assim. Na certa  a primeira vez em
semanas que ele pde dizer cinco palavras ao mesmo tempo sem que Gina o
interrompesse.
-- Acredite, ele mereceu. -- Ela revirou os olhos negros e exticos. -- E a,
Ty, como vai voc?
-- Beleza.
-- Dando duro pra MacMillan?
-- Claro.
-- Conhece alguma palavra com mais de duas slabas?
-- Algumas. Eu achava que voc estivesse em Nova York.
-- E estava -- ela disse, imitando o tom dele e torcendo os lbios. -- Agora
estou aqui. -- Olhou para trs quando os dois pequenos primos comearam a
guinchar e soluar. -- Mame, se eu algum dia fui to chata, como voc
deixou de me afogar na fonte?
-- Voc no era chata, querida. Exigente, arrogante, temperamental, mas
nunca chata. Desculpe.
Ela entregou a bandeja a Sophia e foi fazer o que sempre fizera melhor. A
paz.
-- Creio que eu devia ter feito isso -- disse Sophia com um suspiro, olhando
a me pegar a insuportvel menininha. -- Mas nunca vi duas crianas to
pouco atraentes em minha vida.
-- Isso vem de serem mimadas e ignoradas.
-- Ao mesmo tempo? -- Ela pensou um pouco e examinou Don, que ignorava o
filho a berrar, e Gina a fazer-lhe arrulhos. -- Bem observado -- decidiu.
E ento, como os pirralhos no eram problema seu -- graas a Deus --,
voltou a ateno de novo para Tyler.
Ele era um... senhor homem, concluiu. Parecia uma coisa esculpida das
montanhas Vaca que guardavam o vale. E sem dvida mais atraente  vista
que o faniquito do pirralho malcriado l atrs.
Agora, se ao menos pudesse arrancar dele uma conversa razovel, teria uma
boa ocupao at servirem o almoo.
-- Alguma dica sobre o tema de nossa reuniozinha hoje? -- perguntou
Sophia.
-- No.
-- E diria se soubesse?
Ele encolheu os ombros e viu Pilar murmurando com a pequena Tereza,
enquanto a levava para a janela lateral Parecia espontnea. Tipo a Virgem
Maria, supunha que fosse a palavra adequada. E por causa disso a criana
irritvel e furiosa assumia uma aparncia atraente.
-- Por que acha que as pessoas tm filhos, quando no vo lhes dar qualquer
ateno verdadeira?
Sophia ia falar, mas interrompeu-se quando o pai e Rene entraram na sala.
-- Boa pergunta -- murmurou e, tirando a taa da mo dele, acabou de tomar
o vinho. -- Uma pergunta danada de boa.
Na janela, Pilar ficou tensa e todo o simples prazer que sentira distraindo a
infeliz menininha se esvaiu.
Sentiu-se na mesma hora desmazelada, sem atrativos, velha, gorda, azeda.
Ali estava o homem que a descartara. E a ltima da longa lista de
substitutas. Mais jovem, mais bela, mais sexy.
Como sabia que a me no o faria, porm, Pilar ps a criana no cho e
adiantou-se para receb-los. Encaminhava-se com um sorriso simptico e
descontrado, que adornava um rosto muito mais atraente do que ela
supunha. A cala e o suter simples que usava eram mais elegantes e mais
femininos que o sofisticado terno de executivo de Rene.
E os seus modos tinham uma classe inata que continha fascas mais
autnticas que os diamantes.
-- Tony, que bom que voc pde vir! Oi, Rene.
-- Pilar. -- Rene deu um sorriso fraco e levou a mo ao brao de Tony. O
diamante no dedo captou a luz. Ela esperou uma frao de segundo para ter
certeza de que a outra o visse e registrasse o significado. -- Voc parece...
descansada.
-- Obrigada -- disse Pilar, a parte de trs dos joelhos se dissolvendo.
Sentia-se perdendo apoio de uma forma to completa quanto se Rene
houvesse enfiado neles aponta do escarpim vermelho. -- Por favor, entrem,
sentem-se. Querem beber alguma coisa?
-- No se preocupe, Pilar. --Tony descartou-a, curvando-se para dar-lhe um
selinho na face. -- S vamos dizer um oi a Tereza.
-- V atrs de sua me -- murmurou Ty.
-- Como? -- perguntou Sophia.
-- V, d uma desculpa e tire sua me daqui.
Ela entendeu ento, viu o diamante no dedo de Rene, a palidez do choque no
rosto da me. Empurrou a bandeja para ele e atravessou a sala.
-- Mama, pode me ajudar numa coisa por um minuto?
-- Sim... S me deixe...
-- S vai levar um segundo -- continuou Sophia, puxando rpido a me para
fora da sala.
Apenas seguiu andando at chegarem bem longe no corredor e entrarem na
biblioteca em dois nveis. Ali, fechou as portas e encostou-se nelas.
-- Mama, eu sinto muito.
-- Oh. -- Tentando sorrir, Pilar passou a mo trmula pelo rosto. -- L se
vai a minha idia de que eu podia sair dessa.
-- E saiu magnificamente. -- Sophia correu para a me quando esta se
deixou cair numa poltrona. -- Mas eu conheo aquele rosto. -- Ela envolveu
as mos da me nas suas. -- E ao que parece Tyler tambm. O anel  pura
ostentao, e bvio, exatamente como ela.
-- Oh, querida. -- O riso de Pilar era tenso, mas ela tentou. -- 
deslumbrante, lindo... como ela. Est tudo bem. -- Mas j girava a aliana de
ouro que continuava a usar. -- Realmente, est tudo bem.
-- O diabo que est. Eu odeio essa mulher. Odeio os dois e vou voltar l e
dizer isso a eles agora mesmo.
-- No vai no. -- Pilar levantou-se, agarrou Sophia pelos braos. Revelaria
to claramente a dor que sentia nos olhos da filha a sua prpria? E era culpa
sua? Teria aquele limbo em que vivera arrastado a filha para o vcuo? -- No
vai resolver nada, mudar nada. Nao h sentido no dio, Sophia. S vai
prejudicar voc.
No pensou Sophia. No. Isso nos fortalece.
-- Tenha raiva! -- exigiu. -- Fique furiosa, ressentida e puta da vida.
Fique alguma coisa. Qualquer coisa, menos magoada e derrotada. Eu no
consigo suportar isso, pensou,
-- Fique voc, querida. -- Pilar correu as mos num gesto tranqilizador
pelos braos da filha acima e abaixo. --  muito melhor do que eu faria.
-- Entrarem aqui daquele jeito. Simplesmente entrarem e esfregarem isso
na cara da gente. Ele no tem o direito de fazer isso com voc, mame, nem
comigo.
-- Ele tem o direito de fazer o que quiser. Mas fez mal. Desculpas, admitiu.
A me passara quase trinta anos criando desculpas para Anthony Avano. Um
hbito difcil de abandonar.
-- No deixe que ele a magoe. Ainda  seu pai. Acontea o que acontecer,
sempre ser.
-- Ele jamais foi um pai pra mim. Pilar empalideceu.
-- Oh, Sophia.
-- No. No. -- Furiosa consigo mesmo, Sophia ergueu a mo. -- Eu sou
odiosa. Isso no  comigo, mas no posso evitar que seja. No  nem com ele
-- disse, acalmando-se. -- Ele  indiferente. Mas ela, no. Ela sabia o que
estava fazendo. Como queria fazer. E eu odeio Rene por vir  nossa casa dar
uma de grande senhora em cima de voc... no, porra, em cima de ns no.
Todos ns.
-- Voc est ignorando um fator, querida. Rene talvez ame seu pai.
-- Oh, por favor.
-- Voc  to ctica. Eu amei Tony, por que ela no poderia? Sophia afastou-
se num rodopio. Queria chutar alguma coisa, quebrar alguma coisa. E pegar
os cacos afiados e varr-los pelo perfeito rosto californiano de Rene.
-- Ela ama o dinheiro dele, a posio dele, a porra da conta bancria dele.
--  provvel. Mas ele  o tipo de homem que faz as mulheres am-lo...sem
esforo.
Sophia captou a tpica melancolia na voz da me. Ela mesma jamais amara um
homem, mas reconhecia o som de uma mulher que amara. Que ainda amava. E
isso, o desamparo disso, a fez extravasar sua raiva.
-- Voc no deixou de am-lo.
-- Se eu no tivesse deixado, estaria melhor. Sophie, me prometa uma coisa.
No provoque uma cena.
-- Eu detesto abrir mo dessa satisfao, mas creio que um glido
desinteresse ter mais impacto. De uma forma ou de outra, quero tirar
aquela expresso arrogante da cara dela.
Voltou, beijou as faces da me e abraou-a. Ali podia amar, e amava, sem
sombras nem manchas.
-- Vai ficar bem, mame?
-- Vou. Minha vida no muda, muda? -- Oh, e a idia disso era danosa. --
Nada muda de fato. Vamos voltar.
-- Eu lhe digo o que vamos fazer -- comeou Sophia, quando voltaram  sala.
-- Vou fazer uns malabarismos com minha agenda e conseguir uns dois dias
livres. A ns duas iremos a um spa. Vamos afundar at o pescoo na lama,
fazer tratamento facial, massagem, esfregar e hidratar o corpo. Gastar
montes de dinheiro em produtos de beleza muito acima do preo que jamais
vamos usar e descansar de roupo o dia todo.
A porta do banheiro se abriu quando elas passavam, e uma morena de meia-
idade saiu.
-- Ora, isso me parece maravilhosamente atraente. Quando partiremos?
-- Helen? -- Pilar levou a mo ao corao ao se curvar para beijar o rosto da
amiga. -- Voc quase me matou de susto.
-- Oh, me desculpe. -- Tive de correr pra fazer xixi. -- Helen ajeitou a saia
do duas-peas cinza-escuro nos quadris que vivia tentando reduzir, para
assegurar-se de que se achava no lugar. -- Foi todo aquele caf que tomei na
vinda. Sophia, voc est deslumbrante! E a... -- Mudou a bolsa de posio e
endireitou os ombros.
-- Os suspeitos de sempre no salo?
-- Mais ou menos. Eu no percebi que mame falava de voc, quando disse
que os advogados viriam -- explicou Sophia.
E, pensou Sophia, se a av chamara a juza Helen Moore, isso significava
coisa sria.
-- Porque Pilar tambm no sabia, nem eu, at alguns dias atrs. Sua av
insistiu que eu cuidasse deste assunto pessoalmente.
Helen direcionou os olhos argutos para o salo.
Estivera envolvida com os Giambelii e sua empresa, de uma forma ou de
outra, havia quase quarenta anos. Eles nunca deixavam de fascin-la.
-- Ela est mantendo todos vocs no escuro? -- perguntou.
--  o que parece -- murmurou Pilar. -- Helen, ela tem razo, no tem? Eu
interpretei essa ltima coisa de mudana do testamento e tudo o mais como
parte da fase que ela vem atravessando no ltimo ano, desde que o Signore
Baptista morreu.
-- At onde eu sei, em termos de sade, La Signora est saudvel como
sempre. -- Helen ajeitou os culos de aros escuros e dirigiu  mais velha
amiga um sorriso de estmulo. -- Como advogada de Tereza, no posso falar
mais de suas motivaes, Pilar. Mesmo que as compreendesse inteiramente.
O espetculo  dela. Por que no vamos ver se ela est pronta para a
apresentao?

Captulo Trs
La Signora jamais se apressava a dar as instrues. Planejava o menu
pessoalmente, estabelecendo o tom para o suntuoso e para o informal. Os
vinhos servidos eram dos vinhedos da Califrnia, Giambelli e MacMillan.
Tambm isso era planejado com toda meticulosidade.
No discutia negcios durante as refeies. Nem, para grande
aborrecimento de Gina, permitia que os trs filhos mal-educados dela se
sentassem  mesa.
Haviam sido mandados para o quarto das crianas com uma empregada que
receberia um extra, e o considervel respeito de Tereza, se agentasse uma
hora com elas.
Quando se dignou a falar com Rene, foi com fria formalidade. Por causa
disso, sentiu relutante admirao pela desfaatez da mulher. Outras, muitas
outras, teriam se encolhido visivelmente sob tal frieza.
Junto com a famlia, e Helen, a quem considerava um dos seus, convidara o
vinicultor de sua maior confiana e a mulher. Paulo Borelli trabalhara para a
Giambelli da Califrnia durante trinta e oito anos. Apesar da idade, ainda o
chamavam de Paulie. A mulher, Consuelo, era rechonchuda, alegre, tinha uma
sonora risada e fora antes auxiliar de cozinha na villa.
O acrscimo final era Margaret Bowers, chefe de vendas da MacMillan.
Divorciada, com trinta e seis anos, parecia no momento prestes a perder os
sentidos de tanta chateao com a conversa fiada de Gina, e desejava,
desesperadamente, um cigarro.
Tyler captou o olhar dela e deu-lhe um sorriso solidrio.
Margaret s vezes tambm o desejava, desesperadamente.
Aps retirar-se a comida e servir-se o vinho do Porto, Tereza recostou-se.
-- O Castello di Giambelli comemora seu centenrio daqui a um ano --
comeou. Logo a conversa parou. -- A Villa Giambelli vem fazendo vinho no
Napa Valley h sessenta e quatro anos. A MacMillan, h noventa e dois. --
Percorreu a mesa com os olhos. -- Cinco geraes de vinicultores e
negociantes de vinho.
-- Seis, Zia Tereza -- disse Gina, trmula. -- Com meus filhos, so seis.
-- Pelo que vi, seus filhos tm mais chance de ser assassinos em srie que
vinicultores. Por favor, no interrompa.
Ergueu o Porto, cheirou-o e tomou um gole devagar.
-- Nessas cinco geraes, ganhamos uma reputao, nos dois continentes,
por produzirmos vinho de alta qualidade. O nome Giambelli  vinho.
Estabelecemos tradies e as misturamos com novas formas, nova
tecnologia, sem sacrificar esse nome e o que ele significa, Jamais o
sacrificaremos. Vinte anos atrs, estabelecemos uma espcie de parceria
com uma outra excelente vinicultura. A MacMillan, do Napa Valley, correu
lado a lado com a Giambelli da Califrnia. A parceria envelheceu bem.  hora
de ser decantada. -- Ela sentiu, mais que viu, a tenso de Tyler. Deu-lhe
notas altas por segurar a lngua e agora recebia o olhar dele. As mudanas
so necessrias, e para o bem das duas empresas. Os prximos cem anos
comeam agora. Donato.
Ele saltou em posio de sentido.
-- Si, sim -- corrigiu, lembrando que ela preferia ingls  mesa da Califrnia.
-- Sim, tia Tereza.
-- As Giambelli da Itlia e da Califrnia tm corrido exclusivas uma da
outra. Separadas, isso no vai ocorrer mais. Voc vai prestar contas ao
executivo-chefe de operaes responsvel pela recm-formada empresa
Giambelli-MacMillan, que ter bases na Califrnia e em Veneza.
-- Que quer dizer isso? Que quer dizer isso? -- explodiu Gina em italiano,
levantando-se de um salto, desajeitada, da mesa. -- Donato  o responsvel.
 o prximo na linha de sucesso. Ningum mais deu filhos  famlia, alm de
mim e Donato. Quem vai continuar o nome da famlia quando voc se for
seno meus filhinhos?
-- Voc negocia com o tero? -- perguntou Tereza sem alterar a voz.
-- E frtil -- ela revidou, rspida, mesmo com o marido tentando empurr-la
de volta na cadeira. -- Mais do que o seu e do que o de sua filha. Um beb
cada uma, s. Eu posso ter uma dzia.
-- Ento que Deus nos ajude. Voc vai manter sua tima casa, Gina, e o
dinheiro no bolso. Mas no vai se ver como a senhora do castello. Meu
castello -- acrescentou friamente Tereza. -- Pegue o que lhe do ou perca
muito mais.
-- Gina, basta! Chega -- ordenou Don e levou um tapa na mo pelo
transtorno.
-- Voc  uma velha -- disse Gina entre os dentes. -- Um dia vai estar
morta, eu no. Ento veremos.
Saiu varrida da sala.
-- Zia Tereza, scusi-- comeou Donato e foi interrompido por um gesto
incisivo.
-- Sua mulher no lhe d crdito algum, Donato, e seu trabalho est aqum
das minhas expectativas. Tem de corrigir os problemas neste ano. Vai
permanecer no cargo na Giambelli at a poca da prxima poda. Ento vamos
reavaliar. Se eu estiver satisfeita, voc ser promovido, com um salrio e
as vantagens pertinentes. Caso contrrio, vai ficar na empresa apenas no
papel. No aceitarei que algum do meu sangue seja afastado, mas voc no
achar a vida to fcil quanto a que tem. Entendido?
Donato sentiu a gravata apertada demais e a refeio que acabara de fazer
ameaava revolver no seu estmago.
-- Eu trabalhei para a Giambelli durante dezoito anos.
-- Trabalhou doze. Tem comparecido nos ltimos seis, e mesmo esses
comparecimentos foram irregulares recentemente. Acha que no sei o que
voc faz ou o que deixa de fazer com seu tempo? Acha que desconheo qual
 seu trabalho quando faz viagens a Paris, Roma, Nova York e  Califrnia 
custa da Giambelli? -- Ela esperou o golpe pousar, viu o leve brilho de suor
no rosto dele. E se decepcionou mais uma vez com ele. -- Sua mulher  uma
idiota, Donato, mas eu no. Tome cuidado.
-- Ele  um bom menino -- disse Francesca, baixinho.
-- Talvez tenha sido. Talvez ainda seja um bom homem. Margaret, queira
perdoar a histrionice da famlia. Ns somos temperamentais.
-- Claro, La Signora.
-- Voc, Margaret, se preferir aceitar, vai supervisionar e coordenar os
chefes de venda das Giambelli-MacMillan da Califrnia e de Veneza. Isso
exigir viagens freqentes e mais responsabilidade de sua parte, com o
adequado aumento de salrio. Ser necessria em Veneza daqui a cinco dias
para estabelecer a base l e familiarizar-se com a operao. Tem at
amanh pra decidir se quer pensar nesse arranjo, e, se quiser,
conversaremos sobre os detalhes.
-- Eu no preciso de tempo para decidir, obrigada. -- Margaret manteve a
voz enrgica, uniforme, e o corao martelando como uma furiosa
arrebentao. -- Terei o maior prazer em conversar sobre os detalhes em
qualquer momento que lhe convier. -- Deslocou se para Eli e assentiu com a
cabea. Sou muito grata aos dois pela oportunidade.
-- Bem falado. Amanh ento. Paulie, j discutimos nossos planos e
agradeo o levantamento das informaes e a discrio. Voc vai ajudar na
coordenao da operao nos campos, no lagar. Conhece os melhores homens
aqui e na MacMillan. Vai trabalhar como capataz.
-- Eu tenho apenas respeito por Paulie. -- A voz de Ty saiu calma, embora
raiva e frustrao lhe pusessem garras gmeas na garganta. -- Pelos
talentos e instintos dele. Tenho apenas admirao pela operao aqui na
villa, e pelas pessoas nela envolvidas. E o mesmo pelo que sei da Giambelli de
Veneza. Mas temos uma operao e pessoas de alta qualidade na MacMillan.
No quero essa operao nem essas pessoas ofuscadas pelas suas, La
Signora. A senhora tem orgulho do que realizou e do que realizaram os seus,
do legado que herdou e pretende transmitir. Eu tambm tenho do meu.
-- timo. Ento escute. E pense. -- Ela fez um gesto para Eli.
-- Ty, Tereza e eu no chegamos a essa deciso da noite pro dia, nem de
forma leviana. Ns discutimos isso por um longo tempo.
-- Vocs no fizeram o favor de me incluir nessas discusses -- comeou Ty.
-- No. -- Eli interrompeu antes que o calor que viu acu-mulando-se nos
olhos do neto pudesse fulgir. -- No fizemos. Ns resolvemos, com Helen,
como deveriam ser satisfeitas as obrigaes impostas pela lei e as
formalidades. Planejamos as estratgias de como implementar essa
verdadeira fuso em proveito de todos os envolvidos... no s pra esta
estao, mas pra estao daqui a cem anos. -- Ele curvou-se para frente. --
Acha que quero menos pra MacMillan do que voc? E menos pra voc do que
quer pra si mesmo?
-- Eu no sei o que voc quer. Achei que soubesse.
-- Ento vou esclarecer, aqui e agora. Fazendo isso, vamos nos tornar no
apenas um dos maiores produtores de vinho do mundo, mas os melhores do
mundo. Voc vai continuar a supervisionar a MacMillan.
-- Supervisionar?
-- Com Paulie como capataz, e voc como operador, como vinicultor. Com
alguns adendos.
-- Voc conhece os campos, Ty -- disse Tereza. Entendia o ressentimento
dele. Isso a satisfazia. Aquela raiva quente, sufocante, significava que isso
tinha importncia para ele. Teria de ter uma grande importncia. -- Voc
conhece as vinhas e os barris. Mas o que faz e o que aprende pra na
garrafa.  hora de continuar a avanar da. H mais coisas no vinho que a
uva. Eli e eu pretendemos ver nossos netos unidos.
-- Netos? -- interrompeu Sophia.
-- Quando voc trabalhou pela ltima vez nos campos? -- Tereza exigiu
saber. -- Qual foi a ltima vez que provou vinho no desarrolhado de uma
bela garrafa tirada de um armrio ou um balde resfriado? Voc abandonou
suas razes, Sophia.
-- No abandonei nada -- disparou Sophia de volta. -- No sou fabricante de
vinho. Sou relaes-pblicas e divulgadora.
-- Vai passar a ser. E voc -- ela disse, apontando para Ty -- vai aprender o
que  vender, comercializar e embarcar o vinho pra ser transportado. Vo
ensinar um ao outro.
-- Oh, realmente, Nonna...
-- Calada. Voc tem este ano. Pilar, Sophia no vai ter muito tempo para se
dedicar aos seus compromissos habituais. Voc vai preencher esta lacuna.
-- Mama. -- Pilar teve de rir. -- Eu no sei nada sobre comercializao nem
promoo,
-- Tem uma cabea boa.  hora de tornar a us-la. Para sermos bem-
sucedidos, a gente vai precisar de toda a famlia. -- Tereza desviou o olhar
para Tony. -- E de outras pessoas. Voc vai continuar nas vendas e, por
enquanto, manter seu cargo e privilgios aqui. Mas vai prestar contas, como
fazem Donato e todos os chefes e gerentes de departamento, ao executivo-
chefe de operaes. De agora em diante, temos um relacionamento apenas
comercial. No venha mais  minha casa nem  minha mesa sem ser
convidado.
Um rebaixamento. O cargo dele era uma coisa. O salrio e as vantagens a
longo prazo, outras bem diferentes. Ela tinha o poder de tirar todo o
dinheiro dele. Tony usou o nico escudo que tinha:
-- Eu sou o pai de Sophia.
-- Eu sei o que voc .
-- Com a sua licena, signora. -- Rene falou com meticulosa polidez,
acentuada por ao. -- Se me permite falar.
-- Voc , convidada ou no, uma pessoa sob meu teto. Que deseja dizer?
-- Percebo que minha presena aqui no  muito bem-vinda. -- Ela no
alterou o tom de voz nem desgrudou os olhos dos de Tereza. -- E meu
relacionamento com Tony no tem sua aprovao. Mas ele , e foi, um
patrimnio para a sua empresa. Como eu pretendo ser um para ele, que s
pode beneficiar a senhora.
-- Isso ainda precisa ser visto. Queira nos dar licena. -- Tereza percorreu
a mesa com os olhos. -- Helen, Eli e eu precisamos falar com Sophia e Tyler.
O caf ser servido no salo. Aproveitem, por favor.
-- Voc manda -- comeou Sophia, tremendo de raiva quando os demais
saram em fila da sala --, e est feito. Nonna, voc se habituou tanto a isso
que acha que pode mudar vidas com algumas palavras?
-- Todo mundo tem uma opo.
-- Cad a opo? -- Sem poder continuar sentada, ela se levantou de um
salto. -- Donato? Ele nunca trabalhou fora da empresa, sua vida  absorvida
por ela. Tyler? Tem dedicado todo o seu tempo e energia para a MacMillan
desde que era menino.
-- Eu posso falar por mim mesmo -- rebateu Tyler.
-- Oh, feche a matraca. -- Ela o interrompeu. -- Cinco palavras seguidas do
ns  sua lngua. E eu devo ensinar voc a comercializar o vinho.
Ele levantou-se e, para choque dela, tomou-lhe as mos, puxando-as para
frente e virando as palmas para cima.
-- Como ptalas de rosa. Mimadas e delicadas. Devo ensinar voc a
trabalhar?
-- Dou tanto duro quanto voc no trabalho. S porque no suo ou pisoteio
por a em botas enlameadas no quer dizer que no dou o melhor de mim.
-- Vocs partiram para uma maneira dos diabos de comear, os dois. -- Eli
suspirou e serviu-se de mais vinho do Porto. -- Querem brigar, briguem. Vai
ser bom pra vocs. O problema  que nenhum dos dois j teve de fazer
qualquer coisa que no combinasse com vocs sob todos os pontos de vista.
Talvez fracassem, talvez os dois caiam de bunda no cho tentando fazer
outra coisa. Algo maior.
Sophia empinou o queixo.
-- Eu no fracasso.
-- Voc tem uma estao pra provar isso. Gostaria de saber o que ter no
fim? Helen? Explique -- pediu Tereza.
-- Bem, foi divertido at agora. -- Helen ergueu sua pasta e a ps na mesa.
--Almoo e um show, por um preo baixo, -- Retirou algumas pastas,
estendeu-as na mesa e tornou a pr a pasta no cho. Ajeitou os culos. --
Para fins de brevidade e abrangncia, vou manter isso em termos simples e
leigos. Eli e Tereza esto fundindo as respectivas empresas, para
moderniz-las e aperfeio-las, o que vai cortar alguns custos e passar a ter
outros. Creio que  uma deciso comercial muito sensata. Cada um de vocs
vai receber o cargo de vice-presidente de operaes. Cada um vai ter
tarefas e responsabilidades variadas, estipuladas nos contratos que esto
aqui comigo. O prazo do contrato  de um ano. Se no fim desse ano seus
desempenhos forem inaceitveis, sero transferidos para um cargo inferior.
Esses termos sero negociados ento, nessa eventualidade. -- Falando, ela
retirou dois contratos das pastas. -- Ty, voc vai continuar residindo na
MacMillan, e a casa e o que tem dentro dela vo continuar  disposio para
seu uso. Sophia, voc ter de se mudar para c. Seu apartamento em So
Francisco ser mantido pela Giambelli durante este ano, para seu uso,
quando se exigir que faa negcios na cidade. Ty, quando for solicitado a
fazer negcios l, sero fornecidas acomodaes. Viajar pra outros destinos
ser, claro, providenciado e pago pela empresa. O castello na Itlia continua
 disposio dos dois, se a viagem para l for a trabalho, prazer ou uma
combinao das duas coisas.
Ela ergueu os olhos e sorriu.
-- At aqui, no foi to ruim, certo? Agora o incentivo. Se no fim do
contrato de um ano, Sophia, seu desempenho for aceitvel, voc vai receber
vinte por cento da empresa, metade do lucro do castello e o cargo de co-
presidente. Reciprocamente, Tyler, se seu desempenho for aceitvel, voc
vai receber os mesmos vinte por cento, o lucro total da casa onde agora
mora e o cargo de co-presidente. Sero oferecidos aos dois quatro mil e
quinhentos hectares de vinhedos para criarem um rtulo prprio, se
quiserem, ou o valor de mercado disso, se preferirem.
Fez uma pausa e acrescentou o argumento final:
-- Pilar tambm receber vinte por cento, se concordar com os termos de
seu prprio contrato. Isso dar parcelas iguais a todos. Com a morte de Eli
ou de Tereza, as respectivas parcelas passaro de cnjuge pra cnjuge. No
dia em que, infelizmente, nenhum dos dois estiver mais com a gente, a
parcela de quarenta por cento deles ser distribuda da seguinte maneira;
quinze por cento para cada um de vocs e dez por cento para Pilar. O que
dar a cada um de vocs, com o tempo, trinta e cinco por cento de uma das
maiores empresas vincolas do mundo. S precisam respeitar as estipulaes
contratuais este ano.
Sophia esperou at ter certeza de que podia falar e manteve as mos bem
juntas e cerradas no colo. Ofereciam-lhe mais do que ela jamais teria
imaginado ou pedido. E ao mesmo tempo davam-lhe palmadas como numa
criana.
-- Quem decide sobre a aceitabilidade de nossos desempenhos?
-- Para fins de justia -- respondeu Tereza --, vocs vo avaliar um ao outro
numa base mensal. Eli e eu tambm daremos a vocs avaliaes de
desempenho, e essas sero acrescentadas s avaliaes gerais pelo
executivo-chefe de operaes.
-- Quem diabos  o executivo-chefe de operaes? -- perguntou Tyler.
-- Ele se chama David Cutter. Ainda h pouco da La Coeur, e com sede em
Nova York. Estar aqui amanh. -- Tereza levantou-se.
-- Vamos deixar vocs lerem seus contratos, conversarem, pensarem. -- Deu
um sorriso caloroso. -- Helen? Caf.

RENE SE RECUSOU A SAIR DO LUGAR. UMA COISA QUE ELA
aprendera na carreira de modelo, durante o breve perodo como atriz e na
escalada social de toda a vida. A nica direo a seguir  para cima.
Toleraria os insultos da velha, a agonia da esposa alienada e os olhares
mortferos da filha, desde que isso significasse vencer.
Desprez-los no a impedia de toler-los, desde que fosse necessrio.
Tinha um anel de diamante no dedo, que escolhera pessoalmente, e
pretendia que a aliana de casamento logo o seguisse. Tony era sua entrada
no mundo dos absurdamente ricos, e gostava mesmo dele. Quase tanto
quanto da idia da fortuna dos Giambelli.
Iria certificar-se de que ele fizesse todo o necessrio no prximo ano para
solidificar sua posio na Giambelli, e pretendia agir assim como sua esposa.
-- Diga a ela agora -- ela ordenou e pegou a xcara de caf.
-- Rene, querida. -- Tony mexeu os ombros. J sentia o peso das algemas. --
 um momento muito embaraoso.
-- Voc teve sete anos pra resolver isso, Tony. V at o fim e j. -- Ela
lanou um olhar a Pilar. -- Ou eu vou.
-- Est bem, est bem. -- Ele afagou-lhe a mo. Preferia o embarao 
vergonha. Com um sorriso afvel no rosto, levantou-se e atravessou o salo
at onde Pilar se achava sentada, tentando acalmar a levemente angustiada
e obviamente confusa Francesca. -- Pilar, posso trocar uma palavra com
voc? Uma palavra em particular.
Uma dezena de desculpas percorreu-lhe a cabea. Ela era, na ausncia da
mae, a anfitri. A sala estava cheia de convidados. Sua tia precisava de
ateno. Devia pedir que servissem mais caf.
Mas era apenas isso, desculpas, e nada faria alm de adiar o que tinha de
ser enfrentado.
-- Claro. -- Ela murmurou palavras tranqilizadoras em italiano para a tia, e
ento se voltou para Tony. -- Usamos a biblioteca?
Pelo menos, pensou Pilar, ele no trazia Rene consigo. Quando passaram por
ela, Rene disparou-lhe um olhar duro e brilhante como a pedra que tinha no
dedo.
Olhar de vitria, concluiu Pilar. Que ridculo! No tinha competio alguma
para ganhar, e nada a perder.
-- Lamento Mama ter decidido fazer esse anncio e ter essa discusso com
tanta gente presente -- comeou Pilar. -- Se ela tivesse me dito com
antecedncia, eu teria insistido que conversasse com voc em particular.
-- No tem importncia. Os sentimentos pessoais dela por mim so muito
claros. -- Como raras vezes Tony encrespava as penas, esses sentimentos
haviam resvalado dele durante anos. -- Em termos profissionais, bem, eu
talvez esperasse coisa melhor. Mas a gente vai atenuar tudo.
Atenuar tudo era a segunda coisa que ele fazia melhor. Ignorar tudo era seu
ponto forte.
Entrou na biblioteca e sentou-se numa das fundas poltronas de couro. Um
dia achara que poderia viver nessa casa, ou pelo menos manter uma base ali.
Por sorte, como se acabou constatando, preferia a cidade. Pouco havia a
fazer em Napa Valley, alm de ver as uvas crescerem.
-- Bem, Pilar. -- O sorriso dele continuava fcil e encantador como sempre.
-- Como est voc?
-- Como estou, Tony? -- Ela sentiu uma risada histrica querendo borbulhar
no fundo da garganta. Reprimiu-a. Esse era um dos seus pontos mais fortes.
-- Muito bem. E voc?
-- Bem. Ocupado, claro. Me diga, que pretende fazer sobre a sugesto de
La Signora de que assuma um papel mais ativo na empresa?
-- No foi uma sugesto e eu no sei o que pretendo fazer. -- A idia
continuava zumbindo lhe na cabea como um enxame de vespas. -- Ainda no
tive tempo de pensar a fundo.
-- Tenho certeza de que vai dar tudo certo,
Ele inclinou-se para frente, a expresso sria. Era, ela pensou com um raro
arroubo de ressentimento, parte da habilidade e fingimento do marido. A
simulao, o verniz, de interesse.
-- Voc  uma mulher encantadora e sem dvida um patrimnio para a
empresa em qualquer funo. Vai lhe fazer bem sair mais e se ocupar.
Talvez at descubra que tem talento para isso. Uma carreira poderia ser
exatamente o que voc precisa,
Ela quisera uma famlia. Marido, filhos. Nunca uma carreira.
-- Estamos aqui pra falar das minhas necessidades, Tony, ou das suas?
-- No so exclusivas de nenhum dos dois. Na verdade, no, Pilar, acho que
deveramos encarar essa nova direo que Tereza demarcou como uma
oportunidade para ns dois comearmos de novo. -- Ele tomou-lhe a mo da
maneira descontrada que tinha com as mulheres, envolvendo-a protetora e
provocativamente na sua. -- Talvez a gente precise desse empurro.
Entendo que a idia de divrcio tem sido difcil pra voc.
-- Entende?
-- Claro. -- Ela ia dificultar a coisa, ele pensou. Que chateao! O fato, Pilar,
 que j levamos vidas separadas h muitos anos.
Devagar, deliberadamente, ela puxou a mo.
-- Est falando da vida que levamos desde que voc se mudou pra So
Francisco ou a que levamos enquanto continuamos a manter o casamento de
faz-de-conta?
Muito difcil, ele pensou. E suspirou.
-- Pilar, nosso casamento fracassou. Dificilmente  construtivo tornar a
discutir os porqus, as culpas, os motivos, depois de todo esse tempo.
-- No creio que tenhamos de fato sequer discutido isso, Tony. Mas talvez
tenha passado da hora em que essa discusso faria alguma diferena.
-- O fato  que no terminamos nada legalmente e eu tenho sido injusto
com voc. E visvel que voc no teve condies de comear uma nova vida.
-- O que no foi um problema pra voc, no ? -- Levantou-se, dirigiu-se 
lareira e fitou o fogo. Por que combatia? Por que tinha importncia? --
Sejamos pelo menos honestos. Voc veio hoje aqui pra me pedir o divrcio, e
isso nada teve a ver com as decises de minha me. Decises sobre as quais
voc nada sabia quando ps aquele anel no dedo de Rene.
-- Seja como for,  tolice ns dois fingirmos que j no era sem tempo. Eu
adiei o divrcio por voc, Pilar. --Ao dizer isso, ele acreditava. Acreditava
mesmo, o que tornava seu tom inteiramente sincero. -- Assim como peo
agora, por voc.  hora de seguirmos em frente.
-- No -- ela murmurou. Ainda no se voltara, no ainda, para olh-lo,
aqueles olhos to tranqilamente sinceros que a gente acabava acreditando
na mentira. -- No podemos nem ser honestos. Se voc quer o divrcio, no
vou impedir. Duvido que possa, de qualquer modo. Rene no seria controlada
com tanta facilidade como eu -- acrescentou, voltando-se. -- Talvez seja
bom pra voc. Talvez ela seja certa para voc. Eu com certeza no fui.
Ele ouviu apenas que conseguiria o que desejava sem problemas.
-- Vou cuidar dos detalhes. Com discrio, claro. Depois de todo esse tempo,
no ser do interesse da imprensa. Na verdade, dificilmente envolve mais
que assinar alguns papis a esta altura. De fato, tenho certeza de que a
maioria dos nossos amigos ntimos acha que j somos divorciados. -- Como
ela nada disse, ele se levantou. -- Vamos ser todos mais felizes assim que
deixarmos isso para trs. Voc ver. Enquanto isso, acho que voc devia
conversar com Sophia.  melhor vir da me... de mulher pra mulher. Sem a
menor dvida, quando ela vir voc mais cordata, vai se sentir mais amistosa
em relao a Rene.
-- Voc subestima todo mundo, Tony?
Ele ergueu as mos.
-- Eu apenas acho que vamos todos nos sentir mais  vontade se pudermos
manter a situao amigvel. Rene vai ser minha mulher e, como tal, far
parte da minha vida profissional e social. Todos nos veremos de vez em
quando. Espero que Sophia seja educada.
-- Eu esperava que voc fosse fiel. Todos ns vivemos com nossas
decepes. Voc conseguiu o que veio buscar aqui, Tony. Sugiro que pegue
Rene e saiam antes de Mama terminar o Porto. Acho que j tivemos
dissabores o suficiente nesta casa por um dia.
-- Concordo. -- Ele se dirigiu  porta e hesitou. -- Desejo de verdade o
melhor pra voc, Pilar.
-- , acredito. Por algum motivo, eu tambm desejo o mesmo para voc. At
logo, Tony!
Quando ele fechou a porta atrs de si, ela se encaminhou com cuidado at
uma poltrona e sentou-se devagar, como se seus ossos fossem se quebrar
num movimento brusco demais.
Lembrou como era ter dezoito anos e estar loucamente apaixonada, cheia de
planos, sonhos e esplendor.
Lembrou como era ter vinte e trs anos e sentir o corao perfurado pelo
punhal da traio e a verdadeira perda da inocncia. E trinta, lutando para
agarrar-se aos fiapos de um casamento que estava se desintegrando, criar
uma filha e segurar um marido displicente demais para fingir que a amava.
Lembrou como era ter quarenta e resignar-se com a perda, esvaziada de
todos aqueles sonhos, aqueles planos com o esplendor escurecido e sem
brilho.
Agora, pensou, sabia que faria quarenta e oito anos, sozinha, sem quaisquer
iluses. Substituda, legalmente, pela nova e melhorada modelo, como fora
de forma descarada com tanta freqncia.
Ergueu a mo, deslizou a aliana at a primeira junta. Usara aquela aliana
simples durante trinta anos. Agora lhe mandavam descart-la, junto com as
promessas que fizera perante Deus, a famlia e os amigos.
As lgrimas queimavam-Ilie os olhos quando a retirou do dedo. O que era
aquilo, afinal, pensou, seno um crculo vazio? O perfeito smbolo do seu
casamento.
Jamais fora amada. Pilar deixou a cabea cair para trs. Que humilhao,
que tristeza, sentar-se ali agora e aceitar, admitir o que recusara aceitar e
admitir por tanto tempo. Nenhum homem, nem sequer o marido, a amara.
Quando as portas se abriram, ela fechou os dedos em volta da aliana e
determinou-se a segurar a vontade de chorar.
-- Pilar. -- Helen deu uma olhada e estreitou os lbios. -- Tudo bem, vamos
esquecer a sesso do caf de entretenimento de hoje.
A vontade, caminhou at um armrio pintado, abriu-o e escolheu uma
garrafa de cristal com conhaque. Serviu duas taas e foi sentar-se no
banquinho estofado defronte  poltrona de Pilar.
-- Beba, querida. Voc est plida.
Sem nada dizer, Pilar abriu a mo. O anel cintilou uma vez  luz da lareira.
-- , imaginei isso quando a piranha no parou de fazer fulgir a velha pedra
no dedo. Eles se merecem. Ele nunca mereceu voc.
-- Idiota, idiota, ficar abalada assim. No somos casados h anos, no em
qualquer sentido verdadeiro. Mas trinta anos, Helen. -- Ergueu o anel e,
olhando pelo crculo vazio, viu sua vida. Estreita e fechada numa cpsula. --
Trinta malditos anos. Ela usava fraldas quando eu conheci Tony.
-- Esse  o grande grito de dor. Ento ela  mais jovem e tem seios maiores.
-- Helen deu de ombros. -- Sabe Deus que s esses motivos bastam pra
odiar a porra do desplante dela. Estou com voc nisso, e todos aqui
presentes tambm. Mas pense melhor. Se ela ficar com ele, quando chegar 
nossa idade, vai alimentar Tony com comida de beb e trocar as fraldas
dele.
Pilar soltou uma risada gemida.
-- Odeio onde estou e no sei como chegar a algum outro lugar. Eu nem
revidei, Helen.
Ento no  guerreira. -- Helen levantou-se, sentou-se no brao da poltrona
e passou o seu pelo ombro de Pilar. -- Voc  uma mulher linda, inteligente e
boa que fez um mau negcio. E, droga, querida, se essa porta se fechar,
afinal, no  a melhor coisa pra voc.
-- Nossa, voc agora parece o Tony falando.
-- No precisa insultar. Alm disso, ele no foi sincero, e eu sou.
-- Talvez, talvez. No consigo ver com muita clareza agora. No vejo nem a
prxima hora, que dir o prximo ano. Meu Deus, eu nem fiz o desgraado
pagar. No tive coragem de fazer Tony pagar.
-- No se preocupe, ele vai pagar -- Helen curvou-se e beijou o alto da
cabea da amiga. Nenhum homem que cometeu deslizes como Tony devia
esgueirar-se pela vida sem pagar um preo, pensou. -- E se quiser escald-lo
um pouco, vou ajudar a esboar um acordo de divrcio que vai deixar Tony
com cicatrizes permanentes e broxa.
Pilar deu um leve sorriso. Sempre poderia contar com Helen.
-- Por mais divertido que talvez isso seja, simplesmente vai obrigar a
revelar coisas e tornar tudo mais difcil pra Sophia. Helen, que diabos vou
fazer com a nova vida que me jogaram no colo?
-- A gente pensa em alguma coisa.

A PRPRIA SOPHA VINHA PENSANDO MUITO. J GANHAVA UMA
dor de cabea com a leitura das pginas do contrato. Entendera os pontos
principais, mesmo atolados no jargo legal. E a essncia era que La Signora
mantinha o controle, como sempre. Ao longo do prximo ano, esperava-se
que Sophia provasse a si mesma, o que ela achara que faria. Se o fizesse,
para grande satisfao da av, parte desse to desejado controle passaria
s suas mos.
Bem, ela o queria. No lhe importava muito o caminho a percorrer para obt-
lo. Mas entendia o raciocnio.
O mais difcil estava quase sempre em conseguir entender o raciocnio da
av. Talvez porque, por trs de todo ele, as duas pensassem de forma muito
parecida.
Ela nunca sentiura um interesse profundo e ntimo pela preparao do vinho.
Amar os vinhedos pela beleza, conhecer os fundamentos bsicos, no era a
mesma coisa que investir tempo, emoo e esforo neles. E se um dia
quisesse ficar no lugar da av, precisaria fazer tudo isso.
Talvez preferisse a sala de reunio do conselho-diretor aos tanques de
fermentao, mas...
Olhou para Tyler, que examinava de cara feia o contrato.
Por sua vez, ele talvez preferisse os tanques  sala de reunio da diretoria.
O que os tornava um bom par comercial, ou o contrrio, imaginou. E ele tinha
tanto em risco quanto ela.
Sim, La Signora, mais uma vez, fora to brilhante quanto implacvel. Agora
que sua serenidade havia retornado, permitindo-lhe pensar melhor, com
clareza, ela conseguia ver no apenas que isso poderia funcionar, mas que de
fato iria funcionar.
A no ser que Ty pusesse tudo a perder.
-- Voc no gosta disso -- ela comentou.
-- Que porra tem pra gostar?  uma maldita de uma emboscada.
-- Concordo.  o estilo da Nonna. Os soldados se enfileiram mais rpido e de
forma mais organizada quando a gente d as ordens logo antes da batalha.
D a eles muito tempo pra pensar, pois eles podem desertar do campo. Est
pensando em desertar, Ty?
Ele ergueu o olhar, e ela viu um brilho de ao em seus olhos. Duros e frios.
-- Dirijo a MacMillan h oito anos. No vou desistir dela e dar o fora.
No, ele no iria pr tudo a perder.
-- Certo. Vamos comear daqui. Voc quer o que quer, eu quero o que quero.
Como conseguimos isso? -- Ela levantou-se e ps-se a andar de um lado para
outro. --  mais fcil pra voc.
-- Por qu?
-- Em essncia, abro mo do meu apartamento e volto pra casa. Voc tem de
ficar bem onde est. Eu tenho de fazer um curso rpido e intensivo de
vinicultura, e voc s precisa confraternizar e ir a algumas reunies de vez
em quando.
-- Acha que  fcil assim? Confraternizao envolve pessoas. Eu no gosto
de pessoas. E, enquanto vou a reunies sobre coisas para as quais estou
cagando, algum cara que nem conheo vai ficar me inspecionando pelas
costas.
-- Pelas minhas tambm -- ela rebateu, irritada. -- Quem diabo  esse tal de
David Cutter?
-- Um executivo -- respondeu Ty, repugnado.
-- Mais que isso -- murmurou Sophia. Se acreditasse, no teria se
preocupado. Sabia como lidar com executivos. -- Vamos ter de descobrir at
onde mais. -- Era uma coisa de que podia cuidar logo e com muito rigor. -- E
encontrar uma maneira de trabalhar com ele, e um com o outro. A ltima
parte no deve ser difcil. A gente se conhece h anos.
Ela se movia rpido onde ele preferia encontrar o prprio ritmo. Mas
maldito fosse se no iria manter o mesmo andamento.
-- No, a gente no se conhece. Eu no conheo voc, nem o que faz ou por
que faz.
Ela apoiou as palmas das mos e curvou-se para frente. Aproximou mais o
magnfico rosto do dele.
-- Sophia Tereza Maria Giambelli. Comercializo vinho. E fao isso porque
sou boa no que fao. E dentro de um ano serei dona de vinte por cento de
uma das maiores, mais bem-sucedidas e importantes empresas de vinho do
mundo.
Ele levantou-se devagar, imitando a pose dela.
-- Voc vai ter de ser boa no que faz, e muito mais, para isso. Vai ter que
sujar as mos, enlamear as botas de grife e arruinar as belas unhas
manicuradas.
-- Acha que no sei trabalhar, MacMillan?
-- Acho que voc sabe se sentar atrs de uma escrivaninha ou numa poltrona
de primeira classe num avio. Esse seu traseiro superior no vai ter uma
vida to confortvel no prximo ano. Giambelli.
Sophia sentiu uma nvoa surgir nos cantos de seus olhos, um sinal claro de
que a raiva assumia o controle e ela podia fazer alguma tolice.
-- Aposta secundria. Cinco mil dlares como sou melhor fabricante do que
voc  executivo, no fim da estao.
-- Quem decide?
-- Parte neutra. David Cutter.
-- Fechado. -- Ele estendeu o brao e tomou na sua mo grande e dura a mo
fina dela. -- Compre pra voc umas roupas grossas e botas feitas para
trabalho e no da moda. Esteja pronta pra comear a primeira aula amanh,
s sete da manh.
-- timo. -- Ela cerrou os dentes. -- Vamos interromper ao meio-dia, ir at
a cidade pra sua primeira aula. Pode tirar uma hora de folga pra comprar uns
ternos decentes, feitos por alfaiate da ltima dcada.
-- Voc tem de se mudar pra c. Por que temos de ir at a cidade?
-- Porque eu preciso de inmeras coisas no meu escritrio, e voc, se
familiarizar com a rotina de l. Tambm preciso de coisas no meu
apartamento. Voc tem as costas fortes e o traseiro no  mau tambm --
ela acrescentou, com um sorriso superficial. -- Pode me ajudar na mudana,
-- Tenho uma coisa a dizer.
-- Bem, minha nossa. Deixe eu me preparar.
-- No gosto da sua boca. Jamais gostei. -- Ele apertou as mos enfiadas
nos bolsos porque, quando ela sorria com afetao, como fazia agora, ele
tinha realmente apenas vontade de dar-lhe um tapa. -- Mas no tenho nada
contra voc,
-- Oh, Ty.  to... comovente.
-- Escute, basta fechar a matraca. -- Ele correu a mo pelos cabelos,
enfiou-a mais uma vez no bolso. -- Voc faz o que faz porque  boa nisso. Eu
fao o que fao porque amo o que fao. No tenho nada contra voc, Sophia,
mas, se parecer que vai me custar minhas vinhas, eu vou cortar voc.
Intrigada e desafiada, ela examinou-o de um novo ngulo. Quem teria
imaginado que o garoto da casa vizinha saberia ser implacvel?
-- Tudo bem, estou sabendo. E o mesmo vale pra voc, Ty. O que eu tiver de
fazer, vou proteger o que  meu. -- Exalando um sopro, ela baixou os olhos
para os contratos e depois os ergueu mais uma vez para os dele. -- Acho que
estamos na mesma pgina.
--  o que parece.
-- Tem uma caneta?
-- No.
Ela foi at uma cmoda e encontrou duas numa gaveta. Ofereceu-lhe uma e
folheou o contrato at a pgina da assinatura.
-- Acho que a gente pode ser a testemunha um do outro. -- Inspirou fundo.
-- No trs?
-- Um, dois, trs.
Em silncio, assinaram, deslizaram os contratos pela mesa, testemunharam.
Como sentia o estmago enjoado, Sophia pegou sua taa e esperou Tyler
erguer a dele.
--  nova gerao -- disse.
-- A uma boa estao.
-- No teremos uma sem a outra. -- Com os olhos nos dele, ela fez tintim. --
Salute.

Captulo Quatro
A chuva caa fina como uma lmina e castigava com o frio, uma garoa
miservel que varava os ossos e penetrava na alma. Transformava a clara
manta de neve num atoleiro de lama e a luz do amanhecer numa triste
mancha no cu.
Era uma dessas manhs em que uma pessoa sensata se aconchegava na cama.
Ou no mnimo se demorava numa segunda xcara de caf.
Tyler MacMillan, descobriu Sophia, no era uma pessoa sensata. O telefone
acordou-a, fazendo-a estender a mo relutante, tatear a procura do
receptor e arrast-lo para debaixo da coberta.
-- Que foi?
-- Est atrasada.
-- Hein? No estou. Ainda est escuro.
-- No est escuro, est chovendo. Levante-se, vista-se, saia e venha para
c. Voc est no meu horrio agora.
-- Mas... -- 0 zundo do tom de discar a fez armar uma carranca. -- Canalha
resmungou, mas no conseguiu reunir energia suficiente para por alguma
fora no xingamento.
Continuou ali imvel, ouvindo o rudo da chuva nas janelas, que pareciam ter
gelo em volta das bordas. No seria agradvel?
Bocejando, empurrou as cobertas e saiu da cama. Talvez estivesse no
horrio dele agora, pensou, mas dali a pouco ele estaria no dela.

A CHUVA PINGAVA DA ABA DO BON DE Tyler E DE VEZ EM
quando se enfiava sob a gola para deslizar pelas costas. Apesar disso, no
era forte o bastante para interromper o trabalho.
Inverno chuvoso era uma bno. E o inverno molhado, muito frio, o primeiro
passo crucial para uma vindima rara e de excepcional qualidade.
Ele controlava o que podia -- o trabalho, as decises, as precaues e as
apostas. E rezava para que a natureza embarcasse na equipe. A equipe
acrescida de mais uma pessoa, pensou, enganchando os polegares nos bolsos
e vendo Sophia caminhar penosamente pela lama, com botas de quinhentos
dlares.
-- Eu disse pra voc usar roupas grossas. Ela soprou uma baforada de ar e
viu a chuva dissolv-la.
-- Estas so as minhas roupas grossas. Ele examinou a elegante jaqueta de
couro, a cala feita sob medida, as botas de grife italiana.
-- Bem, sero antes de terminarmos.
-- Eu tinha a impresso de que a chuva atrasava a poda.
-- No est chovendo.
-- Oh? -- Ela estendeu a mo, a palma para cima, e deixou a chuva
tamborilar. -- Que estranho, eu sempre defini esta substncia molhada que
cai do cu como chuva!
-- Est garoando. Cad seu chapu?
-- No pus.
-- Deus do cu!
Irritado, ele tirou o bon e enfiou-o na cabea dela. Mesmo a feira surrada
e molhada do bon no depreciou sua classe. Ty imaginou que lhe era iunata,
como os ossos.
-- H dois motivos bsicos para a poda -- ele comeou.
-- Ty, eu sei quais so os motivos para a poda.
-- Beleza. Explique pra mim.
-- Pra direcionar o crescimento da vinha em certa posio -- ela disse entre
dentes. -- E se vamos ter uma aula oral, por que no podemos fazer isso l
dentro, onde ficaramos aquecidos e secos?
-- Porque as vinhas ficam do lado de fora -- respondeu, e porque, pensou, ali
ele comandava o espetculo. -- Podamos a direo das vinhas pra ajudar o
crescimento delas de uma forma que torne o cultivo e a colheita mais fceis,
e para controlar as doenas.
-- Ty...
-- Calada. Muitos vinhedos usam tcnicas de trelia em vez da poda manual.
Aqui, como o cultivo  uma experincia infindvel, usamos as duas. O
ripamento vertical de trelias, o apoio em T de Genebra e outros tipos. Mas
continuamos empregando o mtodo de poda manual. O segundo objetivo 
distribuir a madeira de apoio sobre a vinha pra aumentar a produo,
mantendo ao mesmo tempo a planta consistente com a capacidade de
produzir frutos de excepcional qualidade.
Quando a mandou calar-se, ele o fez como um pai faria com uma criana
pequena e irritvel. Ela imaginou que ele sabia disso e adejou as pestanas.
-- Vai haver um teste de conhecimento, professor?
-- Voc no vai podar minhas vinhas, nem aprender a ripar trelias, enquanto
no souber por que est fazendo isso.
-- A gente poda e ripa as trelias pra cultivar uvas. Cultiva uvas pra fazer
vinho. -- Ela movia as mos enquanto falava. Ele sempre achara que eram
como um bal. Graciosas e cheias de significado. -- E -- continuou -- eu
vendo o vinho com tcnicas inteligentes e inovadoras de marketing e
promoo. Que so, vou lembrar a voc, to essenciais pra este vinhedo
quanto as suas lminas de poda.
-- Beleza, mas estamos no vinhedo, no no seu escritrio. Voc no faz nada
aqui sem ter conhecimento das causas e das consequncias.
-- Eu sempre achei que se tratava mais de conhecimento das probabilidades.
 um jogo de apostas -- ela retrucou, gesticulando feito uma louca. -- Um
jogo de apostas altas, mas, em essncia, um jogo arriscado.
-- Voc joga por diverso.
Sophia sorriu, ento, e fez Tyler lembrar-se da av dela.
-- No  como eu jogo com elas, querido. Essas a so as vinhas mais velhas.
-- Ela examinou as fileiras de cada lado. A chuva encharcava os cabelos
dele, provocando aqueles destaques avermelhados, cor de um bom Cabernet
envelhecido. -- A poda  de cabea aqui ento.
-- Por qu?
Ela ajustou a aba do bon. -- Porque sim.
-- Porque -- ele continuou, sacando as podadeiras do cinturo , porque
queremos as ramificaes dos esporos distribudas uniformemente na copa
da vinha. --Virou-se e bateu com a ferramenta nas mos de Sophia. Afastou
um galho, expondo outro, guiou as mos dela para a planta e fez o corte com
ela. -- Queremos deixar o centro, o topo e a esquerda abertos. Precisa de
espao pra receber bastante sol.
-- Que tal uma poda mecnica?
-- Tambm fazemos isso. Voc, no.
Ele passou para o galho seguinte. Ela cheirava a mulher, decidiu. Um
contraponto ertico ao simples perfume de chuva e terra molhada. Por que
diabos tinha de esguichar perfume para trabalhar nos campos?, ele quase
perguntou, mas percebeu que no apreciaria nem entenderia os motivos e
deixou passar.
--Trabalhe com a mo -- explicou e esforou-se ao mximo para no aspirar
o cheiro dela. -- Galho por galho. Planta por planta. Fileira por fileira.
Ela examinou a infindvel torrente de arbustos, as vinhas incontveis
cuidadas por trabalhadores braais ou  espera de serem cuidadas. Sabia
que a poda se estenderia peloms de janeiro at fevereiro. Imaginava-se
perdendo os sentidos de tanta chateao com aquilo antes do Natal.
-- A gente pra ao meio-dia -- ela lembrou-lhe.
-- Uma. Voc se atrasou.
-- No tanto assim.
Ela virou a cabea e deslocou o corpo de lado junto ao dele. Curvado sobre
ela, Tyler tinha os braos  sua volta para cobrir as mos dela ao segurarem
o galho e a ferramenta. A ligeira mudana, embora no calculada, foi
potente.
Travaram os olhos, irritao nos dele, ateno nos dela. Sophia sentiu o
corpo tenso de Ty e o frmito de reao no seu. Uma leve acelerao no
pulso, uma espcie de cheiro instintivo do ar, e a resultante agitao dos
fluidos.
-- Ora, ora. -- Ela quase ronronou e deslizou o olhar at a boca de Tyler,
erguendo-o mais uma vez. -- Quem teria imaginado isso?
-- Corta essa.
Ele se endireitou e recuou um passo, como faria um homem ao ver-se
inesperadamente na iminncia de uma queda muito longa. Mas ela apenas
continuou a volta, para que os corpos tornassem a roar-se. E um segundo
passo de recuo o teria rotulado de covarde. Ou tolo.
-- No se preocupe, MacMillan, voc no  meu tipo. Grande, grosso,
elementar. Em geral.
-- Voc tambm no  o meu. Ferina, astuta, perigosa. Sempre. Se a
conhecesse melhor, ele teria percebido que tal afirmao
no era um insulto para ela. Mas um desafio. O interesse brando e apenas
bsico elevou-se a outro nvel.
--  mesmo? Como assim?
-- Eu no gosto de mulheres agressivas, metidas, com acessrios elegantes.
Ela riu.
-- Vai gostar. -- Voltou-se para as varas. --A gente interrompe ao meio dia e
meia. -- Mais uma vez ela virou-se para olh-lo atrs atrs de si. --
Concesso. Teremos de fazer muito disso durante toda esta estao.
-- Meio-dia e meia. -- Ele retirou as luvas e entregou-as a ela. -- Ponha. Vai
ficar com bolhas nessas mos de garota da cidade.
-- Obrigada. So grandes demais.
-- Vire-se com o que tem. Amanh traga as suas, e ponha um chapu. No, a
no -- ele disse quando ela comeou a cortar outro galho.
Mais uma vez passou para trs dela, cobriu-lhe as mos com as suas e ps a
ferramenta no ngulo certo.
E no viu o vagaroso e satisfeito sorriso dela.

A PESAR DAS LUVAS, ELA FICOU COM BOLHAS. INCOMODAVAM
mais que doam quando fez uma rpida troca de roupas para a tarde na
cidade. Vestida e refinada, pegou sua pasta e gritou uma despedida ao sair
mal-humorada pela porta. Durante o curto trajeto de carro at a MacMillan,
repassou as necessidades e obrigaes. Teria de embalar bastante coisa
num tempo muito curto,
Subiu zunindo at a entrada da espaosa casa de cedro e pedra no
trabalhada e deu duas buzinadas rpidas. Ele no a deixou esperando, o que
a agradou. E trocara de roupa, ela notou, portanto isso valia alguma coisa.
Embora a camisa de brim e a confortvel cala jeans desbotada ficassem
muito aqum do que Sophia considerava roupa de trabalho informal, decidiu
atacar o guarda-roupa dele depois.
Ty abriu a porta do BMW conversvel e fez uma cara feia para ela e o carro.
-- Espera que eu me dobre dentro deste brinquedinho?
-- H mais espao do que parece. Anda logo, voc est no meu horrio
agora.
No poderia ter vindo num de trao nas quatro rodas? ele se queixou ao
iar-se para o banco do carro.
Parecia, pensou, um grande e estranho boneco de molas numa caixa
elegante e muito pequena.
-- , mas no vim. Alm disso, gosto de dirigir meu prprio carro -- rebateu.
E ela provou isso, assim que ele prendeu o cinto de segurana, pisando fundo
e descendo a mil a alameda de carros.
Ela gostava dos vislumbres da montanha atravs da chuva. Como sombras
por trs de uma cortina prateada. E as fileiras aps fileiras de vinhas
desnudas,  espera, apenas  espera de sol e calor, para mais uma vez
encant-los com vida.
Passou a toda pelo vinhedo MacMillan, os tijolos esmaecidos revestidos de
vinhas, as empenas orgulhosas e austeras. Achava-a uma romntica e linda
entrada para os mistrios das adegas que abrigava. No interior, como nas
das Giambelli, trabalhadores estariam erguendo e girando as envelhecidas
garrafas de champanhe, ou aprontando a sala de degustao, caso houvesse
uma visita ou clube de vinho agendado naquele dia. Outros talvez
transferissem vinho de um barril para outro,  medida que ia se purificando
e clareando.
Trabalhava-se, ela sabia, nos prdios, nas adegas, nas plantas, mesmo
quando as vinhas dormiam.
E, pensou, trabalho a esperava em So Francisco.
Corria em disparada do vale, como uma mulher fugindo da cadeia. Tyler
perguntou-se se era assim que ela se sentia.
-- Por que meu assento est quente?
-- Seu o qu? Oh! -- Ela olhou de relance, rindo. --  apenas o meu jeitinho
de aquecer seu traseiro, querido. No gosta? -- Apertou o boto e desligou
o aquecimento do banco. -- Nossa prioridade mxima -- comeou --  a
campanha do centenrio. So vrios estgios, alguns dos quais, como o leilo
que ocorreu esta semana, j esto prontos. Outros continuam na prancheta.
Queremos uma coisa nova, mas que tambm honre a tradio. Uma coisa de
classe e discreta, atraente para as nossas contas do topo de linha e/ou mais
antigas, e uma coisa excitante, moderna, que fisgue a ateno do mercado
mais jovem e/ou menos afluente.
-- , certo.
-- Tyler, trata-se de uma coisa cujas causas e conseqncias voc tambm
tem de entender. Vender vinho  to essencial quanto o que voc faz. Do
contrrio, estaria fazendo apenas pra si mesmo, no ?
Ele deslocou-se no banco e tentou encontrar espao para as pernas. -- Veja,
voc produz nveis diferentes de vinho. O grau superior, que custa mais pra
produzir, mais pra engarrafar e assim por diante, e o mdio da linha at o
vinho de garrafo. Muito mais coisas entram no processo que apenas o vinho.
-- Sem o vinho, nada mais importa.
-- Que seja, mas mesmo assim -- ela disse com o que consistiu numa herica
pacincia --  parte do meu trabalho, e agora do seu, ajudar a vender esses
graus ao consumidor. O consumidor individual e as grandes contas. Hotis,
restaurantes. Atrair os negociantes de vinho, os intermedirios e fazer com
que vejam a necessidade de ter a Giambelli, ou o que ser agora Giambelli-
MacMillan, na sua lista.
-- A embalagem  coisa sem valor -- ele retrucou, encarando-a de propsito.
-- O que tem dentro  que pesa na balana.
-- Que insulto mais inteligente e sutil! Voc tem razo. Mas embalagem,
marketing e promoo so o que eleva o produto na escala, pra comear. Com
pessoas e com vinho. D pra gente cuidar apenas do vinho por enquanto?
Ele contraiu os lbios. O tom dela ficara glido e incisivo, um visvel sinal de
que ele marcara um ponto.
-- Claro.
-- Eu tenho de criar a idia de um produto intrigante, exclusivo, acessvel,
substancial, divertido, sexy. Por isso, preciso conhecer o produto e a a
gente est em terreno seguro. Mas tambm tenho de conhecer a conta e o
mercado que miro.  isso que voc precisa aprender.
-- Levantamentos, estatsticas, festas, pesquisas de opinio, reunies.
Ela estendeu o brao e deu-lhe um tapinha na mo.
-- Voc vai sobreviver. -- Fez uma pausa e diminuiu um pouco a velocidade.
-- Reconhece aquele furgo
Ele franziu a testa, estreitando os olhos para o pra-brisa, quando um
minifurgo escuro, ltimo modelo, surgiu  frente na rua e virou na entrada
para a Villa Giambelli.
-- No.
-- Cutter -- resmungou Sophia. -- Aposto que  Cutter.
-- A gente podia adiar a viagem a So Francisco e descobrir. Era tentador e
a esperana na voz dele a divertia. Mas ela fez que no com a cabea e
continuou em frente:
-- No, isso tornaria o cara importante demais. Alm do mais, vou perguntar
 minha me quando chegar em casa.
-- Estou nessa.
-- Pro melhor ou pior, Ty, voc e eu estamos nisso juntos. Vou manter voc
no meu crculo, voc me mantm no seu.

ERA UM LONGO CAMINHO DE COSTA A COSTA. EM ALGUNS
aspectos, outro mundo, um mundo onde todos pareciam estranhos. Ele
extirpara as razes que conseguira afundar no concreto de Nova York, com a
esperana de plant-las ali, nas colinas e vales do norte da Califrnia.
Se houvesse sido isso, apenas isso, David no teria se preocupado. Mas
considerava tudo uma aventura, um risco altssimo, do tipo que ele teria
apostado na juventude. Com quarenta e trs anos e dois adolescentes que
dependiam dele, porm, punha muita coisa em jogo.
Se tivesse certeza de que a permanncia na empresa La Coeur em Nova
York era o melhor para os filhos, continuaria l, asfixiado, encurralado no
vidro e ao de seu escritrio. Mas deixara de ter certeza quando o filho de
dezesseis anos fora detido por furto em uma loja, e a filha de catorze
comeara a pintar de preto as unhas do p.
Vinha perdendo contato com os filhos e, ao perd-lo, perdia o controle.
Quando lhe cara no colo a oferta da Giambelli-MacMillan, parecera um sinal.
Aceite a oportunidade comece de novo.
Sabia Deus que no seria a primeira vez que fazia as duas coisas. Mas agora
o fazia com a felicidade dos filhos em jogo nessa aposta arriscada.
-- Este lugar no meio do nada.
David olhou o filho no espelho retrovisor. Maddy ganhara no jogo de cara e
coroa em So Francisco, e ali sentada tentava desesperadamente parecer
chateada, no banco da frente.
-- Como -- perguntou David -- pode o nada ter um meio? Eu sempre quis
saber.
Alegrou-o ver Theo dar um sorriso forado, o mais prximo a que chegava
de um verdadeiro sorriso agora.
Parece-se com a me, pensou David. Uma verso masculina e jovem de
Sylvia. O que, sabia, nem Theo nem Sylvia apreciariam. Tambm tinham isso
em comum, os dois decididos a todo custo a serem vistos como indivduos.
Para Sylvia, significara dar o fora do casamento e afastar-se da
maternidade. Para Theo... o tempo diria, imaginava o pai.
-- Por que tem de estar chovendo? -- Maddy afundou no banco e tentou
impedir que seus olhos brilhassem de excitao ao examinar a imensa
manso de pedra diante do carro.
-- Bem, tem alguma coisa a ver com a umidade que se acumula na atmosfera,
depois...
-- Pai!
Ela deu umas risadinhas contidas, que para David eram msica. Iria
recuperar os filhos ali, no importava o que fosse necessrio.
-- Vamos conhecer La Signora.
-- A gente precisa cham-la assim? -- Maddy revirou os olhos.  to
medieval.
-- Vamos comear com Sra. Giambelli e a partir da. E tentar parecer
normais.
-- Mad no pode. Os imbecis nunca parecem normais.
-- Nem os esquisites.
Mad saltou do carro, pesadona, com as horrveis botas pretas de salto
plataforma de cinco centmetros. Ficou ali na chuva, olhando o pai como uma
espcie de princesa excntrica, os longos cabelos claros, lbios em biquinho
e olhos azuis com longas pestanas. O corpinho -- continuava ainda uma
coisinha -- envolto e enfaixado em camadas de preto. Trs correntes
prateadas pendiam-lhe da orelha direita -- uma concesso, pois David se
apavorara quando a filha comeara a fazer campanha para perfurar o nariz
ou um lugar ainda mais anti-higinico.
Theo era um agudo contraste. Alto, desengonado, os cabelos castanho-
escuros parecendo uma massa desgrenhada e encaracolada em volta do
rosto bonito, que se estendiam pelos ombros ossudos. Os olhos eram de um
azul mais claro e, com demasiada freqncia para o gosto do pai, encobertos
e infelizes. Ele caminhava agora, desleixado, de cala jeans larga demais,
tnis quase to feios quanto os da irm e um casaco que chegava abaixo dos
quadris.
Apenas roupas, David lembrou a si mesmo. Roupas e cabelos, nada definitivo.
No tinham seus pais o impelido  rebelio, atormentando-o sobre esse
estilo na adolescncia? E no prometera ele a si mesmo que no faria o
mesmo com os filhos?
Mas, Deus do cu, quem dera que pelo menos usassem roupas bem ajustadas.
David subiu a ampla quantidade de degraus, parou diante da porta da frente
da villa, esculpida em baixo relevo, e correu a mo pelos bastos cabelos
louros.
-- Que  que h, pai? Nervoso?
O tom afetado na voz do filho foi o bastante para retomar o fio que
mantinha coesa a compostura de David.
-- Me d uma folga, valeu?
Theo abriu a boca, uma sarcstica resposta na ponta da lngua. Mas captou o
olhar de advertncia que a irm lhe lanou e viu a expresso tensa do pai.
-- Escute, voc saber lidar com ela -- acabou por dizer.
-- Claro. -- Maddy deu de ombros. --  s uma velha italiana, certo?
Com um meio sorriso, David apertou com o dedo a campainha.
-- Certo.
-- Espere, preciso encontrar minha cara normal. -- Theo ps as mos no
rosto, empurrando-o, cutucando a pele, puxando os olhos para baixo e
torcendo a boca. -- No consigo encontr-la.
David passou um dos braos pelos ombros dele e o outro pelos da filha.
Daria tudo certo, pensou, e segurou-os. Tudo timo.
-- Eu atendo, Maria!
Pilar atravessou o saguo a toda, um ramo de rosas brancas nos braos.
Quando abriu a porta, viu um homem alto segurando duas crianas em
chaves de pescoo. Os trs sorriam.
-- Ol. Posso ajudar vocs?
No era italiana, pensou David, apressando-se a soltar os filhos. Apenas uma
bela mulher, com surpresa nos olhos e rosas apoiadas na curva do brao.
-- Estou aqui pra ver a Sra. Giambelli.
Pilar sorriu e examinou o rosto do menino e o da menina, incluindo-os.
-- Somos muitas.
-- Tereza Giambelli. Sou David Cutter.
-- Ah, Sr. Cutter, me desculpe. -- Ela estendeu a mo para a dele. -- No me
dei conta de que era esperado hoje. -- Nem que tinha famlia, pensou. A me
no era dada a detalhes. -- Por favor, entrem. Sou Pilar. Pilar Giambelli... --
Quase acrescentou o nome de casada, fora do hbito. Ento, determinada,
refreou-se. -- A filha de La Signora.
-- Voc chama sua me assim? -- perguntou Maddy.
-- s vezes. Quando a conhecer, vai ver por qu.
-- Madeline, minha filha. Meu filho, Theodore.
-- Theo -- resmungou o menino.
--  um prazer conhecer vocs. Theo. E Madeline.
-- Maddy, valeu?
-- Maddy. Venham at o salo. Tem uma lareira gostosa. Vou providenciar
alguma coisa pra beber, se quiserem. Que dia detestvel! Espero que no
tenha sido uma viagem terrvel.
-- No to ruim.
-- Infindvel -- corrigiu Maddy. -- Abominvel.
Mas arregalou os olhos para o salo quando entraram. Era como um palcio,
pensou. Uma gravura num livro, onde tudo tinha cores fortes e parecia
antigo e precioso.
-- Tenho certeza de que foi. Deixe-me pendurar seus casacos.
-- Esto molhados -- comeou David, mas simplesmente puxou-os da mo e
pendurou-os no brao livre dela.
-- Cuidarei deles. Por favor, sentem-se, fiquem  vontade. Vou avisar 
minha me que esto aqui e providenciar alguma coisa quente pra beberem.
Gostaria de caf, Sr. Cutter?
-- Com certeza, Sra. Giambelli.
-- Eu tambm.
-- No, voc no -- ele disse a Maddy e deixou-a mais uma vez emburrada.
-- Caf com leite, talvez?
-- Isso a  legal. Quer dizer -- ela corrigiu, quando o pai lhe lembrou as
boas maneiras --, sim, obrigada.
-- E Theo?
-- Sim, senhora, obrigado.
-- S vou levar um minuto.
-- Cara. -- Theo esperou ver Pilar bem distante da sala e se estatelou numa
poltrona. -- Eles devem ser megarricos. Esta casa parece um museu ou coisa
assim.
-- No ponha as botas a -- ordenou David.
--  um banco prs ps -- observou Theo.
-- Assim que voc enfia os ps nessas botas, deixam de ser ps.
-- Relaxe, pai. -- Maddy deu-lhe um incentivo e uma pancadinha penosamente
adulta nas costas. -- Voc  tipo executivo-chefe de operaes e tudo o
mais.
-- Certo. -- De vice-presidente de operaes a executivo-chefe de
operaes, num salto de quase cinco quilmetros. --As balas ricocheteiam
em mim -- murmurou e virou-se para o vo da porta, onde ouviu passos.
Fez meno de dizer aos meninos que se levantassem, mas no precisou dar-
se ao trabalho. Quando Tereza Giambelli entrava numa sala, as pessoas se
levantavam.
David esquecera como era pequena. Haviam se reunido duas vezes em Nova
York, frente a frente. Duas longas e complicadas reunies. E, apesar disso,
ele sara mais com a imagem de uma majestosa amazona do que da mulher
magra, membros finos, que caminhava agora em sua direo.
-- Sr. Cutter. Bem-vindo  Villa Giambelli.
-- Obrigado, signora. Tem uma linda casa, num cenrio magnfico. Minha
famlia e eu somos gratos pela sua hospitalidade.
Pilar entrou na sala a tempo de ouvir o afvel discurso e ver a formalidade
experiente com a qual foi proferido. No era, pensou, o que esperara do
homem que segurava dois adolescentes desgrenhados, dando-lhes uma
gravata, de brincadeira. No era, decidiu, notando os olhares de esguelha
dos filhos, aquilo com que estavam habituados da parte do pai.
-- Espero que a viagem no tenha sido tediosa -- continuou Tereza,
desviando a ateno para os meninos.
-- De modo algum. Adoramos. Signora Giambelli, eu gostaria de lhe
apresentar meus filhos. Meu filho, Theodore, e minha filha, Madeline.
-- Bem-vindos  Califrnia.
Ela estendeu a mo a Theo e, embora ele se sentisse um imbecil, apertou-a e
resistiu a enfiar a sua no bolso.
-- Obrigado. Maddy aceitou a mo.
--  um prazer estar aqui.
-- Voc espera que seja -- disse Tereza, com a sugesto de um sorriso. --
Por ora basta. Por favor, sentem se. Piquem  vontade. Pilar, venha se juntar
a ns.
-- Claro.
-- Vocs devem sentir orgulho de seu pai -- comeou Tereza, sentando-se.
-- E de tudo que ele realizou
-- Ah... claro.
Theo sentou-se, lembrou-se de no parecer desengonado. No sabia muito
sobre o trabalho do pai. Em seu mundo, o pai saa para o escritrio e depois
voltava para casa. Espezinhava sobre dever de casa, jantar queimado,
mandava trazer quentinhas.
Ou, com mais freqncia no ltimo ano, ligava para casa, dizia que ia se
atrasar e que Theo ou Maddy pedisse comida para viagem.
-- Theo se interessa mais por msica que por vinho, ou o negcio de vinho --
comentou David.
-- Ah. E voc toca?
Isso era coisa do pai, pensou Theo. Por que tinha de responder a tantas
perguntas? Os adultos no sacavam nada, de qualquer modo.
-- Guitarra. E piano.
-- Precisa tocar pra mim, um dia. Gosto de msica. Que tipo voc prefere?
-- S sei rock. Eu estou aprendendo techno e alternativa.
-- Theo compe -- interps David, e surpreendeu-se ao receber uma
piscadela do filho. -- O material  interessante.
-- Eu gostaria de ouvir, assim que todos se instalarem. E voc? -- dirigiu-se
Tereza a Maddy. -- Toca?
-- Tive aulas de piano. -- Meneou o ombro. -- No  bem o que me interessa,
na verdade. Quero ser cientista.
O ronco do irmo aumentou a irritao dela.
-- Maddy se interessa por tudo -- apressou-se a dizer David, antes que
corresse sangue. -- A escola de ensino mdio daqui, pelo que me disseram,
representa muito bem os interesses especficos de Theo e dela.
-- Arte e cincia. -- Tereza recostou-se. -- Puxaram ao pai, ento, pois o
vinho  as duas coisas. Suponho que vo precisar de alguns dias para se
instalarem continuou, quando entrou algum empurrando um carrinho. --
Novo cargo, novo lugar, nova gente. E, claro, nova escola e rotina para a sua
famlia.
 -- Papai diz que  uma aventura -- disse Maddy e recebeu um majestoso
assentimento da cabea de Tereza.
-- E vamos tentar fazer com que seja.
-- Estou  sua disposio, signora -- disse David e olhou para Pilar, que se
levantava para servir caf e bolo. --Agradeo, mais uma vez, o uso de sua
casa de hspedes. Tenho certeza de que a acomodao ali ser um prazer. --
Como a acompanhava com o olhar, raptou o rpido alargamento nos olhos de
Pilar. Ento, pensou, isso foi uma surpresa para voc. Gostaria de saber por
qu. -- Obrigado.
-- Saboreiem -- murmurou Pilar.
Depois que o caf foi servido, mergulharam numa conversa leve. David
seguiu a deixa de Tereza e deixou o trabalho de fora. Tempo suficiente,
concluiu, para chegar ao cerne.
Em precisos vinte minutos, Tereza levantou-se.
-- Lamento meu marido no poder v-lo hoje e conhecer seus filhos
encantadores. Seria conveniente se reunir conosco amanh?
-- Como quiser, signora. David levantou-se.
-- s onze, ento. Pilar, poderia mostrar aos Cutter a casa de hspedes e
cuidar para que tenham tudo que precisam?
-- Claro. Vou s pegar nossos casacos.
Que diabo era isso?, perguntou-se Pilar ao pegar os casacos. Em geral, ela
tinha bastante ingerncia na administrao da casa. Mas a me conseguira
lhe empurrar uma famlia inteira sem enviar um nico alarme.
Tantas mudanas, e quase da noite para o dia. Era hora de prestar mais
ateno, decidiu. No gostava de mudanas na ordem das coisas quando no
estava preparada.
Apesar disso, quando retornou, conversou descontraidamente e engrenou o
papel de graciosa anfitri:
--  uma ida curta de carro. Uma caminhada tranqila, em tempo bom.
-- A chuva de inverno  boa para as uvas.
David tomou-lhe o casaco e ajudou-a a vesti-lo
-- . Me lembro disso toda vez que reclamo do tempo. -- Ela saiu. -- Tem
uma linha direta que vai de uma casa  outra, portanto voc s tem de ligar
se precisar de alguma coisa ou tiver alguma pergunta a fazer. Nossa
governanta  Maria, e no h nada que ela no saiba fazer. Obrigada --
acrescentou quando David lhe abriu a porta lateral na frente do furgo. --
Vocs tm lindas vistas -- continuou, virando-se para falar com as crianas,
que entraram atrs. De qualquer quarto que escolherem. E uma piscina.
Claro, no vo poder aproveit-la no momento, mas so bem-vindos para usar
a interna aqui na casa principal, sempre que quiserem.
-- Uma piscina coberta? -- O humor de Theo se animou. -- Legal.
-- Isso no quer dizer voc aparecer de calo de banho sempre que tiver
vontade -- avisou o pai. -- No vai querer entregar a casa a eles, Sra.
Giambelli. Comearia a fazer terapia numa semana.
-- No funcionou pra voc -- disparou de volta Theo.
-- A gente gosta de ter gente jovem em volta. E  Pilar, por favor.
-- David.
Pelas costas dos dois, Maddy virou-se para o irmo e adejou, ensandecida,
as pestanas.
-- David. Basta pegar a bifurcao  esquerda. Veja a casa ali.  um belo
lugar e a chuva d um certo aspecto de conto de fadas.
--  esta? -- De repente interessado, Theo empertigou-se. --  bem grande,
-- Quatro quartos. Cinco banheiros. Tem uma linda sala de estar, mas a
cozinha, o esplndido cmodo,  mais aconchegante. Algum cozinha?
-- Papai finge que sim -- disse Maddy. -- E a gente faz de conta que come.
-- Muito espertinha. Voc cozinha? -- David perguntou a Pilar.
-- Sim, e muito bem, mas raras vezes. Bom, talvez sua mulher goste da
cozinha quando vier se juntar a voc.
O instantneo e absoluto silncio fez Pilar se encolher de agonia.
-- Sou divorciado. -- David encostou defronte  casa. -- Somos apenas ns
trs. Vamos conferir. A gente v tudo depois.
-- Sinto muito -- murmurou Pilar, quando os garotos saltaram como foguetes
do furgo. -- Eu no devia ter...
-- Suposio natural. Um homem, um casal de filhos. A gente espera ver a
famlia completa. No se preocupe. -- Ele afagou-lhe a mo com a sua,
descontrado, e estendeu-a para abrir a porta. -- Voc sabe, vai ter briga
pelos quartos. Espero que no se incomode com cenas de gritaria.
-- Sou italiana. -- Foi apenas o que ela disse e desceu do furgo para a
chuva.

Captulo Cinco
Italiana, pensou David mais tarde. E linda. Reservada e graciosa ao mesmo
tempo. No era uma atitude fcil. Nessa rea, era mesmo igual  me.
Ele sabia interpretar as pessoas, um inestimvel segredo do ofcio na
escorregadia subida executiva em qualquer grande empresa. A
interpretao que fizera de Pilar Giambelli era que ela se habituara tanto a
dar ordens quanto a receb-las.
Sabia que ela era casada, e com quem, mas, como no usava aliana, imaginou
que o casamento com o infame Tony Avano acabara ou passava por srios
problemas. Teria de descobrir antes de permitir-se pensar nela num nvel
mais pessoal.
Uma filha. Todo mundo nesse ramo ouvira falar de Sophia Giambelli. Com
fama de ser fogo, e de ter classe e ambio em alto grau. Ele iria conhec-la
ao longo do caminho, e perguntava-se como ela recebera sua nomeao para
COO. Talvez tivesse de agir com tato poltico, e estendeu a mo para pegar
o mao de cigarros no bolso. S para lembrar que no estava ali, porque
deixara de fumar h trs semanas e cinco dias.
E isso o vinha matando.
Pense em outra coisa, ordenou a si mesmo, e sintonizou-se com a msica que
tocava em volume brutal no novo quarto do filho. Graas a Deus ficava no
outro extremo do corredor.
Houve o esperado combate sobre os quartos. Apesar de tudo, os filhos, de
modo geral, haviam sido muito contidos. Ele atribuiu isso s maneiras
relutantes diante de uma estranha. De qualquer modo, a rixa fora inusitada
e sem verdadeiro calor, pois todos os quartos eram atraentes.
Quase uma maravilhosa perfeio, concluiu, com a cintilante madeira e os
azulejos, paredes sedosas e mveis luxuosos.
A perfeio, o estilo de elegncia informal e a absoluta ordem das coisas
causavam-lhe calafrios. Mas esperava que os meninos logo acertassem tudo
 sua maneira. Arrumados, no eram. Assim, por mais polido que fosse o
exterior, o contedo em breve seria bagunado e todos se sentiriam mais 
vontade.
J exausto de desfazer as malas, David foi at uma das janelas e
contemplou os campos l fora. Pilar tinha razo. A vista era estonteante.
Tudo fazia parte de sua vida agora. Ele pretendia deixar sua marca.
No corredor, Maddy saa do seu quarto. Tentara agir com descontrao em
relao ao aposento, depois de brigar com Theo sobre quem ficaria com
qual. A verdade  que se sentia eletrizada. Pela primeira vez na vida, no
tinha de dividir um banheiro com o idiota do irmo. E o dela era decorado
em tons bacanas de azul e vermelho escuros, com grandes flores salpicadas,
e por isso imaginou que tomar um banho ali seria como nadar num jardim
misterioso.
E mais, tinha uma cama de quatro colunas. Trancara a porta para poder rolar
nela toda com privacidade.
Ento se lembrou de que no iria ver Nova York ao olhar pelas janelas, nem
ligar para uma das amigas e passar o tempo em algum lugar. No podia ir ao
cinema sempre que estivesse a fim. Tampouco fazer qualquer coisa que se
habituara a fazer.
A saudade de casa instalara-se to quente e pesada no estmago que doa. A
nica pessoa com quem podia falar era Theo. A pior das opes, em sua
opinio, mas a nica que restara.
Abriu a porta dele para o estrondo dos Chemical Brothers. Deitado na cama,
a guitarra atravessada no peito, Theo tentava acompanhar o ruidoso refro
no estreo. O quarto j estava um caos, como ela imaginara que ficaria at
ele partir para a faculdade.
Que porco!
-- Voc devia estar tirando as coisas das caixas -- disse Maddy.
-- Voc devia estar se metendo no que  da sua conta -- rebateu o irmo.
Ela caiu de bruos sobre os ps da cama.
-- No tem nada pra fazer aqui.
-- Acabou de sacar isso? -- perguntou Theo.
-- Talvez papai deteste e a gente volte pra casa.
-- Nem pense nisso. Voc viu como ele se derreteu com a velha senhora? --
Como tambm sentia saudades de casa, ps a guitarra de lado e optou por
conversar sobre a perdio de sua existncia. -- Que quer dizer aquilo?
-- Ele parecia uma coisa sada de um filme. Voc sabe, do jeito que fica
quando pe um dos ternos pra uma reunio? -- Ela rolou de costas. -- Parecia
igual ento. Nada vai ser a mesma coisa agora. E olhava para aquela mulher.
-- Hum?
-- A tal da Pilar. Que tipo de nome  este?
-- Acho que  italiano ou coisa assim. Que quer dizer com olhava pra ela?
-- Voc sabe. Vistoriando.
-- Sem essa.
-- Cara, os garotos no notam nada. -- Sentindo-se superior, ela sentou-se e
jogou os cabelos para trs. -- Ele no tirava os olhos da mulher.
-- E da? -- Theo deu uma sacudida no corpo, um encolher horizontal de
ombros. -- Ele no tirava os olhos de outras mulheres antes. Escute, aposto
que j fez sexo com algumas delas.
-- Nossa, acha mesmo? -- Enquanto gotejava o sarcasmo, ela se levantou da
cama e foi at a janela. -- Chuva e vinhas, vinhas e chuva. Talvez, se ele
fizer sexo com a filha do patro, seja apanhado, despedido e a gente volta
pra casa.
-- Casa onde? Ele perde o emprego, a gente no tem lugar algum pra ir.
Cresa, Maddy.
Ela curvou os ombros.
-- Que coisa mais sacal!
-- E eu no sei?

Ty PENSAVA A MESMA COISA SOBRE A VIDA EM GERAL QUANDO
Sophia o chama para uma reunio -- uma reunio de crebros, um debate
livre para obter novas idias, como ela a descreveu. Matraqueava nomes
para ele, enquanto passava zunindo pelo departamento de propaganda.
Gesticulava, gritava ordens e cumprimentos, e pegava mensagens no
caminho.
Ele no lembrava nenhum dos nomes, claro, e todos os rostos eram borres,
enquanto acompanhava os passos de Sophia. Ela se movimentava como um
zagueiro com a bola interceptada. Rpida e astuciosa.
Agora encontravam trs outras pessoas na sala, todas lhe parecendo
Guerreiros Urbanos com roupas da moda, cabelos da moda, culos pequenos
de aros fininhos e palmtops. Nem para salvar a prpria vida ele poderia
lembrar quem era quem, pois todos tinham nomes andrginos.
Puseram-lhe na mo um tipo de caf elegante que ele no queria, e todos
falavam ao mesmo tempo, mastigando biscoitos.
Tyler comeava a ter uma dor de cabea mortal.
-- No, Kris, o que procuro  sutil, mas no poderoso. Uma imagem forte,
com uma mensagem emocional. Trace, esboo rpido: casal... jovem,
descontrado, vinte e poucos anos. Relaxando numa varanda. Sensual, mas
mantenha isso descontrado.
Como o cara de cabelos louros cortados em pontas curtas pegou lpis e
bloco de desenho, Tyler deduziu tratar-se de Trace.
--  o pr-do-sol -- continuou Sophia, levantando-se da mesa e percorrendo
a sala de um lado a outro. -- Fim do dia. Um casal liberal, no garotos, em
ascenso varivel, mas estabelecidos.
-- Balano na varanda -- sugeriu a petulante negra de tnica vermelha.
-- Acomodado demais. Rural demais. Namoradeira de vime, talvez -- disse
Sophia. -- Cor forte nas almofadas. Velas na mesa. Das grossas, no crios.
Curvou-se sobre os ombros de Trace e emitiu uns rudos de apreciao.
-- Bom, bom, mas faa assim. Faa os dois olhando um pro outro, talvez a
perna dela sobre os joelhos dele. Intimidade amistosa. Arregace as mangas
dele, coloque-a de cala jeans, no, caqui. -- Ela sentou-se na borda da mesa,
os lbios franzidos enquanto pensava. -- Quero os dois conversando.
Relaxados, curtindo o momento. Apreciando a companhia um do outro depois
de um dia movimentado,
-- Que tal um deles servir o vinho? Segurar a garrafa.
-- Vamos tentar isso. Quer fazer o esboo desse, P. J.?
Com um atrevido assentimento da cabea, como agora Tyler pensava nela, P.
J. pegou o bloco.
-- Devia pr gua -- disse a segunda mulher, uma ruiva que parecia
entediada e chateada, e reprimiu um bocejo.
-- Vejo que interrompemos o cochilo de Kris -- disse Sophia, com doura, e
Tyler captou o rpido e frvido olhar em silncio sob as pestanas abaixadas.
-- Cenas suburbanas me entediam. Pelo menos a gua acrescenta um
elemento, e sensualidade subliminar.
-- Kris quer gua. -- Sophia assentiu com a cabea. -- Um tanque, um lago.
Podemos conseguir boa luz com isso. Reflexos. D uma olhada Ty. Que acha?
Ele deu o melhor de si para sintonizar-se e parecer inteligente quando
Trace virou o esboo ao contrrio,
-- No sei nada de propaganda.  um esboo legal.
-- Voc olha anncios -- lembrou-lhe Sophia. -- O tempo todo, quer absorva
ou no conscientemente a mensagem. Que  que isso lhe diz?
-- Que esto sentados na varanda, tomando vinho. Por que no podem ter
filhos?
-- Por que deveriam?
A gente tem um casal, numa varanda. Varanda, em geral, significa casa. Por
que eles no podem ter filhos?
-- Porque no queremos crianas num anncio de bebida alcolica --
respondeu Kris, com um laivo de desdm na voz. -- Artigo 101 da
propaganda.
-- Indcio de filhos, ento. Voc sabe, alguns brinquedos na varanda. A
daria a entender que essas pessoas tm famlia, esto juntas h algum
tempo e continuam felizes o bastante pra se sentar na varanda juntas e
tomar uma taa de vinho no fim do dia. Isso  sensual.
Kris comeou a abrir a boca, mas notou o brilho que chegava aos olhos de
Sophia. E sabiamente tornou a fech-la.
-- Bom. Excelente -- disse Sophia, -- Ainda melhor para este. Jogue
brinquedos na varanda, Trace. Mantenha a garrafa de vinho na mesa com as
velas. Eis ento nosso casal aconchegante, mas moderno. Comemore o pr-
do-sol -- ela murmurou. --  o seu momento. Relaxe com Giambelli.  o seu
vinho.
-- Mais aconchegante que moderno -- resmungou Kris.
-- A gente usa um cenrio urbano pro moderno. Dois casais, amigos reunidos
pra uma noite. Cena de apartamento. Faa todos jovens, elegantes. Mostre a
cidade pela janela. Luzes e silhuetas.
-- Mesa de caf -- contribuiu P. J., j esboando, -- Dois deles sentados no
cho. Os outros refestelados no sof, todos falando ao mesmo tempo. A
gente quase ouve a msica tocando. Comida espalhada pela mesa. Embalagens
para viagem.  a que se serve o vinho.
-- Bom, perfeito. Comemore na tera-feira. Alguns adesivos.
-- Por que tera-feira? -- quis saber Ty.
-- Porque a gente nunca faz grandes planos pra tera-feira. -- Sophia
deslizou mais uma vez para a borda da mesa e cruzou as pernas. -- Faz
planos pro fim de semana. Fora isso, incorre em planos. A noite de tera-
feira com amigos  espontnea. Queremos que as pessoas escolham uma
garrafa do nosso vinho por um impulso repentino. S porque  tera-feira. O
momento delas, o vinho delas. Esse  o tom.
-- Os vinhos Giambelli-MacMillan. Ela assentiu com a cabea.
-- Correto. Precisamos identificar isso tambm na campanha. Um casamento.
Comemorar nossa unio. Champanhe, flores, um casal deslumbrante.
-- Lua-de-mel mais sexy -- comentou Trace, refinando o outro esboo. -- Os
mesmos elementos, mas num hotel moderno e elegante. O vestido de noiva
pendurado na porta e nosso casal de lbios colados com champanhe no gelo.
-- Se esto de lbios colados, no vo pensar em beber -- comentou Ty.
-- Boa observao. Suspenda o beijo, mas o resto  excelente. Mostre... --
Ela comeou a gesticular. -- Expectativa. Seda, flores, e ponha uma flte na
mo deles. Quero olhos travados, em vez de lbios colados. Vo, meus
meninos, e criem magia. Vejam o que podem me mostrar em algumas horas.
Pensem: momentos. O especial e o comum. -- Tornou a cruzar as pernas
quando a equipe comeou a retirar-se, falando uns com os outros. -- Nada
mau, MacMillan. Nada mau mesmo.
-- timo. Podemos ir pra casa agora?
-- No. Tenho um monte de coisas a resolver aqui, e mais a embalar pra
montar um escritrio na villa. Sabe desenhar?
-- Claro.
--  uma vantagem a mais.
Ela saltou da mesa, foi at o outro lado e pegou um bloco de desenho numa
parede de prateleiras.
As prateleiras tinham muitas coisas, notou Tyler. No apenas entulho de
trabalho, mas as quinquilharias que as pessoas, sobretudo as mulheres, em
sua opinio, pareciam colecionar. Liderando o bando de catadores de poeira,
viam-se sapos. Sapinhos verdes, sapos maiores, de bronze, sapos danantes,
sapos gr-finos, na moda e sapos que pareciam estar acasalando.
No pareciam em harmonia com a mulher elegantemente vestida que varava
como uma bala os corredores, de salto alto e cheirando a uma noite na
floresta.
-- Procurando um prncipe?
-- Hum? -- Ela olhou para trs, acompanhando o gesto dele. Ah. No, os
prncipes exigem demasiada ateno pra funcionar bem. Gosto apenas de
sapos.  assim o que vejo. Uma espcie de montagem. Os vinhedos, a
imensido deles  luz do sol. Vinhas prenhes de uvas. Uma figura solitria
caminhando pelas fileiras. Ento, close-up, enormes cestas de uvas recm-
colhidas.
-- No usamos cestas.
-- Trabalhe comigo nisso, Ty. Simplicidade, acessibilidade, tradio. Mos
nodosas segurando a cesta. Depois passa para os barris, fileiras e fileiras
de barris de madeira, luz baixa das adegas. O mistrio, o romance. Uma
dupla de caras em roupas de trabalho e aparncia interessante sangrando
um barril. Vamos usar tinto, um lindo jorro de vinho tinto saindo de um
barril. Em seguida, dois trabalhadores diferentes provando, testando.
Depois, por fim, uma garrafa. Talvez duas taas e um saca-rolha ao lado. "Da
vinha para a mesa. Cem anos de excelncia." No, "De nossas vinhas para a
sua mesa." Ela franziu a testa ao imaginar o anncio na mente. -- Abrimos
com os cem anos de excelncia, depois a montagem, e abaixo: "De nossas
vinhas para a sua mesa. A tradio Giambelli-MacMillan contnua."
Sophia voltou para perto dele, olhou por cima do seu ombro e resfolegou.
Ele estava desenhando enquanto ela falava e o resultado eram crculos,
homens rijos e uma coluna torta que ela imaginou ser uma garrafa de vinho
tinto.
-- Voc disse que sabia desenhar.
-- Eu no disse que sabia desenhar bem.
-- Entendo, temos um problema. Esboo no  o meu trunfo, embora,
comparada com voc, sou Da Vinci. Trabalho melhor quando tenho ajuda
visual. -- Exalou um sopro e andou de um lado para outro. -- Temos de nos
contentar com o possvel. Mandarei minha equipe enviar os esboos por fax.
Vamos coordenar os horrios pra podermos realizar uma sesso semanal
aqui ou no meu escritrio na villa. -- Sentou-se no brao da cadeira dele e
armou uma carranca para o espao. Sintonizava-se com sua equipe, e sentira
as tendncias ocultas. Era uma coisa que tinha de resolver j. -- Preciso de
meia hora. Por que no vai at a Armani e eu me encontro com voc l?
-- Por que tenho de ir  Armani?
-- Porque precisa de roupas.
-- Tenho muitas roupas.
-- Meu bem, suas roupas so como seu desenho. Satisfazem  definio
bsica, mas no vo ganhar prmios. Tenho de produzir voc, e depois voc
pode comprar o traje de vinicultor correto pra mim.
Deu-lhe no ombro um tapinha despreocupado e levantou-se. Ele pensou em
argumentar, mas no quis perder tempo. Quanto mais cedo terminassem e
rumassem ao norte, mais feliz ficaria.
-- Onde fica a Armani?
Ela encarou-o. O cara vivia a uma hora de So Francisco fazia anos. Como
podia no saber?
-- Fale com a minha assistente, ela vai indicar a direo certa. Chegarei l
logo depois de voc,
-- Um terno -- avisou Tyler ao encaminhar-se para a porta. --  isso a.
-- Humm. -- Iriam tratar disso ela pensou. Seria divertido vesti-lo com
aprumo um pouco. Algo como modelar argila. Mas, antes de comear a
diverso, tinha de trabalhar. Voltou  mesa e pegou o telefone. -- Kris,
posso falar com voc um minuto? , agora. Meu tempo est muito apertado.
Com uma girada dos ombros, Sophia comeou a juntar pastas e discos.
Trabalhava com Kris havia mais de quatro anos e tinha plena conscincia do
considervel ressentimento da moa quando Sophia, recm-sada da
faculdade, assumira a chefia do departamento. Haviam chegado a um
acordo, delicadamente, mas ela no tinha a menor dvida de que Kris estava
agora seriamente contrafeita.
A situao precisava ser remediada, pensou. Tinha de ser resolvida.
Ouviu-se uma rpida batida e Kris entrou.
-- Sophia, tenho uma pilha de trabalho.
-- Eu sei. Cinco minutos. Vai haver uma difcil mistura de atividades entre
aqui e Napa Valley nos prximos meses. Estou no maior aperto, Kris.
--  mesmo? No parece apertada.
-- Porque voc no me viu podando vinhas ao amanhecer. Escute, minha av
tem motivos pra fazer o que faz e como faz. Eu nem sempre entendo, e
muitas vezes no gosto dessas decises, mas a empresa  dela. Eu s
trabalho aqui.
-- Certo. Ah.
Sophia parou de embalar, apoiou as mos na mesa e recebeu em cheio o
olhar de Kris.
-- Se voc acha que vou gostar de fazer malabarismo com meu tempo entre
o trabalho que eu amo e me enlamear nos vinhedos, est louca varrida. E se
acha que Tyler vai batalhar por uma posio aqui nos escritrios, pense duas
vezes.
-- Me desculpe, mas ele agora tem um cargo nestes escritrios.
-- E um que voc julga que devia ser seu, No vou discordar, mas apenas
direi que  temporrio. Preciso de voc aqui. No vou conseguir vir de
carro todo dia, nem dirigir todas as reunies e atribuies. Em essncia,
Kris, voc acabou de ser promovida. No ganha um novo cargo, mas farei
tudo ao meu alcance pra lhe dar uma compensao financeira pelas
responsabilidades extras que esto prestes a ser jogadas em cima de voc.
-- No se trata de dinheiro.
-- Mas dinheiro nunca faz mal -- concluiu Sophia. -- A posio e o cargo de
Ty aqui so nominais. Ele no sabe nada de promoo e marketing, Kris, e no
est muito interessado em nenhuma das duas coisas.
-- Interessado o suficiente pra fazer comentrios e sugestes esta manh.
-- S um minuto. -- Ela sabia ser paciente, pensou Sophia, mas no seria
pressionada. -- Espera que ele fique aqui como um imbecil? Tem direito a
expressar uma opinio, e por acaso deu sugestes muito decentes. Foi
atirado de um penhasco, sem pra-quedas, e enfrentou a barra. Aprenda a
lio.
Kris cerrou os dentes. Trabalhava na Giambelli havia quase dez anos e
estava farta de ser passada para trs por aquela preciosa linhagem.
-- Ele tem pra-quedas, e voc tambm. Os dois j nasceram com os seus.
Se qualquer um de vocs ferrar tudo, saltam. O mesmo no ocorre com o
restante de ns.
-- No vou entrar em assuntos de famlia com voc. Vou dizer que voc  um
membro valorizado da Giambelli, e agora da organizao Giambelli-
MacMillan. Lamento se acha que suas habilidades e talentos tm sido
negligenciados ou subvalorizados. O que eu puder fazer pra corrigir isso
ser feito. Mas esses ajustes tambm precisam ser feitos, e nos prximos
meses pagaro a todos ns pra terem a certeza de que no ferraremos com
nada. Preciso ter condies de contar com voc. Se no puder, quero que me
diga, pra que eu possa fazer outros arranjos.
-- Eu farei meu trabalho. -- Kris voltou-se para a porta. -- E o seu.
-- Bem -- murmurou Sophia, quando a porta bateu com fora. -- Foi
divertido. Com um suspiro, ela tornou a pegar o telefone. -- P. J., preciso de
um minuto.

-- NO, QUEREMOS ALGO CLSSICO. ESSA RISCA-DE-GIZ MUITO
sutil, pra comear.
-- timo, maravilha. Eu levo. Vamos embora.
-- Tyler. -- Sophia franziu os lbios e deu-lhe um tapinha na face. --
Experimente, como um bom menino.
Ele agarrou o pulso dela.
-- Mame?
-- Sim, querido?
-- Corta essa.
-- Se voc fizesse mais que remoer sozinho durante os ltimos trinta
minutos, a gente j estaria quase porta afora. Este -- disse, entregando-lhe
o terno marrom-escuro de riscas finas -- e este. -- Escolheu um clssico,
preto, de trs peas. Para eliminar quaisquer queixas, afastou-se dele para
examinar as camisas. -- Shawn? -- Gesticulou para um dos scios que
conhecia de vista. -- Meu amigo, o Sr. MacMillan. Vai precisar de orientao.
-- Cuidarei bem dele, Srta. Giambelli. Alis, seu pai e a noiva estiveram aqui
esta manh mesmo.
-- Verdade?
-- , fazendo compras pra lua-de-mel. Se estiver procurando alguma coisa
especial pro casamento, temos uma jaqueta fabulosa de noite que ficaria
espetacular em voc.
-- Estou um pouco apertada de tempo hoje -- ela conseguiu dizer. -- Vou
voltar e ver na primeira oportunidade que tiver.
-- S me avise. Terei o prazer de enviar algumas selees pra sua aprovao.
Vou j verificar o Sr. MacMillan.
-- Obrigada.
Pegou uma camisa social as cegas, fitando com raiva o desenho tom sobre
tom. No h um minuto a perder, pensou. Compras para a lua-de-mel antes
de concluir o divrcio. Espalhando a notcia em todo o redor.
Talvez fosse melhor ela manter-se fora do circuito habitual na cidade por
algum tempo. No queria esbarrar nas pessoas e tagarelar sobre o
casamento do pai toda vez que desse meia-volta.
Por que vinha deixando isso mago-la? E se o fazia at a, quanto mais
magoava a me?
No havia sentido em enfurecer-se, disse a si mesma, e comeou a examinar
as camisas como uma mulher que peneira ouro num crrego veloz. No havia
sentido em ficar mal-humorada.
No havia sentido em continuar pensando nisso.
Passou das camisas para as gravatas, e j tinha uma pequena montanha de
opes quando Ty saiu do provador.
Parecia chateado, levemente mortificado e decididamente deslumbrante.
 s tirar o fazendeiro do vale, ruminou, e veja o que a gente consegue.
Ombros grandes, largos, quadris estreitos e longas pernas num clssico
terno italiano.
-- Minha nossa. -- Ela inclinou a cabea, aprovando. -- Bem-vestido, voc
arrasa, MacMillan. Deixe a moda com os italianos que no tem como errar.
Chame o alfaiate, Shawn, e vamos pr este show na estrada.
Ela aproximou-se dele com duas camisas, a tom sobre tom e uma marrom-
escura, e segurou-as junto ao palet.
-- Que foi que houve? -- perguntou-lhe Ty.
-- Nada. As duas vo lhe cair muito bem.
Ele tornou a pegar o pulso dela, segurando-o at ela o olhar.
-- Que foi que houve, Sophia?
-- Nada -- ela repetiu, perturbada por ele ter conseguido ver a preocupao
cozinhando em fogo brando dentro dela. -- Nada importante. Voc est
timo -- acrescentou, esforando-se por sorrir. -- Muito musculoso e sexy.
-- Apenas roupas. Ela levou a mo ao corao e recuou um passo, hesitante.
-- MacMillan, se acha que  isso, ainda temos um longo caminho a percorrer
at chegar ao meio-campo. -- Ergueu uma gravata e passou-a pela camisa. --
, com certeza. Como est a cala? -- comeou e abaixou a mo para
verificar a cintura.
-- Se importa?
Agitado, ele afastou a mo dela.
-- Se eu fosse bolinar, comearia mais embaixo -- provocou Sophia. -- Por
que no pe o terno preto? O alfaiate pode se entusiasmar com voc.
Ele resmungou com a formalidade, mas sentiu-se aliviado por escapar para a
intimidade do provador. Ningum iria se entusiasmar com ele por mais um ou
dois minutos.
No se sentia atrado por Sophia. De modo algum. Mas ela ficara
examinando-o, apalpando-o. Ele era humano, no? Homem. E tivera uma
reao masculina inteiramente humana.
Que no iria partilhar com algum alfaiate nem com um vendedor esqueltico
chamado Shawn.
Iria, sim, acalmar-se e deixar que medissem o que precisava ser medido.
Comprara tudo que Sophia lhe empurrara e sofrera aquela provao.
Desejava saber o que se passara entre a hora em que fora a primeira vez 
rea prpria para experimentar roupas e tornara a sair. Fosse o que fosse,
pusera infelicidade naqueles olhos grandes e escuros dela. O tipo de
infelicidade que lhe dera vontade de oferecer-lhe um ombro para se apoiar.
Tambm era uma reao normal, tranqilizou-se ao despir o risca-de-giz e
vestir o preto. No gostava que nada nem ningum se machucassem.
Apesar disso, naquelas circunstncias, teria de reprimir quaisquer reaes
normais a ela.
Olhou-se no espelho e balanou a cabea. Quem diabos iriam os
dois enganar pondo-lhe num elegante terno de trs peas? Era um maldito
fazendeiro e se sentia feliz por s-lo.
Ento cometeu o erro de olhar a etiqueta. Jamais imaginara que uma srie
de nmeros podia, de fato, fazer o corao parar de bater. Continuava
chocado, e j nem remotamente excitado, quando Shawn entrou gorjeando
no provador com o alfaiate a reboque.

-- PENSE NISSO COMO UM INVESTIMENTO -- ACONSELHOU SOPHIA,
ao volante, rumando para o norte, na sada da cidade. -- E, querido, voc
ficou mesmo fabuloso.
-- Calada. No estou falando com voc.
Nossa, ele era mesmo uma gracinha, ela pensou. Quem sabe?
-- No comprei tudo que voc me mandou? At aquela medonha camisa de
flanela?
-- , e o que custou a voc? Camisas, algumas calas, um chapu e botas.
Menos de quinhentos dlares. Minha conta chegou a quase vinte vezes isso.
Eu no acredito que comprei roupas por dez mil dlares.
-- Vai parecer em tudo um executivo bem-sucedido. Sabe, se eu o
conhecesse metido naquele terno preto, teria querido voc.
--  mesmo? -- Ele tentou esticar as pernas no carro pequeno e no
conseguiu. -- Eu no vestia o terno esta manh e voc me quis.
-- No. Tive uma momentnea onda de desejo sexual. Inteiramente
diferente. Mas alguma coisa num homem de terno de trs peas bem
talhado mexe comigo. -- Que  que mexe com voc?
-- Mulher nua. Sou um cara simples.
Ela riu e, satisfeita por chegar  estrada aberta, pisou na tbua.
-- No, no . Achei que fosse, mas no . Voc se saiu muito bem no
escritrio hoje. Manteve sua posio.
-- Palavras e imagens. -- Ele deu de ombros. -- Que grande coisa h nisso?
-- Oh, por favor, no estrague. Ty, eu no disse nada antes de comearmos,
porque no queria que suas impresses fossem tingidas por minhas opinies
ou minha experincia, mas acho que devo fazer um resumo bsico da
personalidade das pessoas com quem voc vai trabalhar mais de perto na
minha ponta.
-- O cara se vira com relativo sucesso. Ele tem um bom crebro pro que faz
e gosta do trabalho. Na certa  solteiro, por isso no tem algum a empurr-
lo na questo da ambio. E gosta de trabalhar com mulheres atraentes.
-- Acertou quase em cheio. -- Impressionada, ela o olhou. --  um resuminho
conciso pra algum que diz no gostar das pessoas.
-- No gostar delas no quer dizer que eu no saiba interpret-las. A
petulante, P. J., agora... -- Ele baixou a voz quando ela o olhou e riu. -- Que
foi? -- perguntou.
-- A petulante P. J., perfeito.
-- , bem, ela tem muita energia. Voc a intimida, mas ela tenta no deixar
isso transparecer. Quer ser como voc quando crescer, mas  jovem demais
pra mudar de idia,
--  uma pessoa fcil pra gente trabalhar. Pega tudo que a gente lhe joga e
faz brilhar.  boa pra encontrar novos ngulos, e aprendeu a no ter medo
de combater uma idia defendida por um de ns.
-- Porque a ruiva j me detesta -- concluiu Ty. -- E no tem voc em alta
estima, tampouco. No quer ser como voc quando crescer. Quer ser agora,
e no se importaria muito se voc tivesse um repentino e sangrento acidente
que a tirasse da jogada, pra ela tomar seu lugar e dirigir o espetculo.
-- Voc obteve muito mesmo de seu primeiro dia na escola. Kris  boa, boa
de verdade, com conceitos, campanhas e, quando se trata de alguma coisa
em que acredita, detalhes. No  boa gerente porque reprova com sarcasmo
os erros das pessoas e tende a ser arrogante com os outros membros da
equipe. E voc tem razo, no momento ela o detesta s porque voc existe
no que ela considera ser seu espao. Nada pessoal.
-- ,  sim. Sempre  pessoal. No me preocupa, mas, se eu fosse voc,
tomaria cuidado com as suas costas. Ela gostaria de deixar marcas em todo
o seu traseiro.
-- J tentou e no conseguiu. -- Despreocupada, Sophia tamborilou com as
unhas no volante. -- Sou muito mais dura do que as pessoas me julgam.
-- Eu j saquei isso.
Tyler recostou-se o melhor que pde. Veriam at que ponto ela era dura
aps algumas semanas no campo. Seria um longo e gelado inverno.

Captulo Seis
Pilar j estava quase adormecendo quando o telefone tocou, s duas da
manh. Sentou-se de um salto na cama e agarrou-o, com o corao subindo
para a garganta. Um acidente? Morte? Tragdia?
-- Al. Sim?
-- Sua piranha ignorante. Acha que pode me intimidar pra eu dar o fora?
-- Como?
A mo tremia quando a correu pelos cabelos.
-- No vou tolerar voc nem suas deplorveis tentativas de importunao.
-- Quem fala? -- quis saber Pilar, tateando  procura de luz, e depois piscou
os olhos com o repentino claro.
-- Sabe muito bem quem . Voc teve a porra de um descaramento quando
ligou pra mim e cuspiu sua imundcie. Cala a boca, Tony. Vou dizer o que
tenho de dizer.
-- Rene? -- Reconhecendo a voz apaziguadora do marido ao fundo, Pilar
lutava para clarear a mente, pensar acima das furiosas marteladas do
corao. -- De que se trata? Qual o problema?
-- Corte simplesmente esse maldito nmero de inocncia. Talvez funcione
com Tony, mas comigo no. Sei quem  voc.  voc que  a puta, querida,
no eu. Voc  a porra da mentirosa, a porra da hipcrita. Se tornar a ligar
pra c de novo...
-- No fui eu que liguei. -- Esforando-se para se acalmar, Pilar puxou as
cobertas at o queixo. -- No sei do que voc est falando.
-- Ou voc ou a piranha da sua filha, pra mim tanto faz. Entenda bem o
seguinte: voc est fora do quadro, e h anos.  uma desculpa seca e frgida
pra uma mulher. Virgem de cinqenta anos. Tony e eu j procuramos os
advogados e vamos tornar legal o que todo mundo j sabe h anos. Homem
nenhum no mundo quer voc. A no ser que seja pelo dinheiro da sua me.
-- Rene. Rene. Pare. Pare j. Pilar?
Pilar ouviu a voz de Tony ao sentir o jorro de sangue na cabea.
-- Por que est fazendo isso?
-- Sinto muito. Algum ligou pra c, disse coisas inteiramente vis a Rene. Ela
est muito transtornada. -- Ele precisou berrar acima dos gritos agudos: --
Claro que disse a ela que voc jamais faria uma coisa dessas, mas ela... ela
est transtornada -- repetiu, parecendo esgotado. -- Preciso ir. Ligo pra
voc amanh.
-- Est transtornada -- sussurrou Pilar e comeou a balanar-se quando o
tom de discar zumbiu em seu ouvido. -- Claro que precisava ser acalmada. E
eu? E eu?
Desligou o telefone, puxou de volta as cobertas, cedeu ao primeiro instinto
e curvou-se numa bola defensiva.
Tremia quando puxou um roupo e escavou no fundo da gaveta de lingeries 
procura do secreto mao de cigarros de emergncia. Enfiou-os num bolso,
abriu as portas de batente e correu para a noite.
Precisava de ar. Precisava de um cigarro. Precisava, pensou ao atravessar o
terrao a toda e descer os degraus de pedra, de paz.
No bastava que o nico homem a quem amara, o nico homem a quem j se
entregara, no a amasse? No a houvesse respeitado o suficiente para
cumprir as promessas feitas? Tinha de ser atormentada agora pela mais
recente substituio? Acordada no meio da noite, tratada com gritos e
xingamentos?
Afastou-se da casa, entre os jardins, mantendo-se junto s sombras para
que, se algum l dentro ainda estivesse acordado, no a visse pelas janelas.
Manter as aparncias, pensou, furiosa ao ver as faces molhadas. Precisamos
manter as aparncias a todo custo. No ficaria bem um dos empregados ver
a Sra. Giambelii fumando nas moitas densas no meio da noite. No ficaria
bem ningum ver a Sra. Giambeli fazer o possvel para evitar um colapso
nervoso com tabaco.
Dezenas de pessoas poderiam ter ligado para Rene, ocorreu-lhe, ressentida.
E era muito provvel que ela merecesse a agresso que recebera por
qualquer uma. Pelo tom da voz de Tony, Pilar soube que ele tinha uma tima
idia de quem simplesmente tinha feito a chamada. Era mais fcil, imaginou,
amargurada, deixar Rene acreditar que fora ela, a mulher descartada, do
que uma amante mais recente.
Mais fcil deixar a eterna sofredora Pilar levar os tapas e insultos.
-- No sou cinqentona -- resmungou, lutando com o isqueiro. -- Nem virgem,
porra.
-- Nem eu.
Ela girou sobressaltada e deixou o isqueiro cair com um pequeno rudo de
metal em pedra. A raiva guerreava com a humilhao quando David Cutter
avanou para o luar.
-- Desculpe se a assustei. -- Ele curvou-se para pegar o isqueiro. -- Mas
achei que tinha de dizer que estava aqui antes de voc continuar sua
conversa. -- Acendeu o isqueiro, examinando no claro as faces manchadas
de lgrimas dela e as pestanas molhadas. Como ela tinha as mos trmulas,
ele as firmou. -- No consegui dormir -- continuou. -- Nova casa, nova cama.
Sa pra dar uma caminhada. Quer que eu siga em frente?
S a sua educao, ela imaginou, a impediu de bater em rpida e indignada
retirada.
-- Eu no fumo. Oficialmente.
-- Nem eu. -- Mesmo assim, ele deu uma profunda e apreciativa aspirada no
ar cheio de fumaa. -- Parei. Est me matando.
-- Eu nunca fumei oficialmente. Por isso, de vez em quando, saio sem ser
vista e peco.
-- Seu segredo est seguro comigo. Sou muito discreto. s vezes desabafar
com um estranho faz maravilhas. -- Como ela apenas fez que no com a
cabea, ele enfiou as mos nos bolsos da cala jeans. -- Bem,  uma noite
agradvel, aps a chuva. Quer caminhar?
Ela queria correr de volta para dentro, enfiar-se sob as cobertas at passar
a nova mortificao. Tinha muitos motivos para saber que os
constrangimentos passavam mais rpido quando se ficava de p e se seguia
em frente.
Assim, caminhou com ele.
-- Voc e sua famlia j se instalaram? -- perguntou, quando acertaram o
passo.
-- Estamos bem. Perodo de adaptao. Meu filho se meteu em algumas
encrencas em Nova York. Coisa de adolescente, mas dentro de um padro.
Eu quis mudar de ambiente.
-- Espero que eles sejam felizes aqui.
-- Eu tambm. -- Ele retirou um leno do bolso da cala, passou-o em silncio
para ela. -- No vejo a hora de dar uma boa olhada nos vinhedos amanh.
So espetaculares agora, com um pouco de luar e uma sugesto de geada.
-- Voc  bom nisso -- ela murmurou. -- Em fingir que no deu de cara com
uma mulher histrica no meio da noite.
-- Voc no parecia histrica. Parecia triste e furiosa.
E linda, pensou. Roupo branco e noite escura. Como uma fotografia
estilizada,
-- Recebi um telefonema angustiante -- ela explicou. -- Algum ferido?
-- Ningum alm de mim, e a culpa  minha.
Ela parou, curvou-se para esmagar o cigarro e enterr-lo no esterco ao lado
do caminho. Depois se voltou e deu-lhe uma longa olhada.
Era um rosto agradvel, decidiu. Queixo forte, olhos claros. Olhos azuis,
lembrou, um azul-escuro que parecia quase preto  noite. Um levssimo
sorriso nos lbios revelou-lhe que ele sabia que ela o examinava, analisava. E
ele era paciente e confiante o bastante para deix-la fazer isso.
Lembrou a forma como ele ria quando pusera os braos em volta dos filhos.
Um homem que amava os filhos, e os entendia o bastante para destacar seus
interesses a estranhos, como fizera com a me dela, inspirava-lhe confiana.
De qualquer modo, era difcil manter as aparncias de roupo com aquele
homem no meio da noite.
-- J decidiu? -- ele perguntou.
-- Acho que sim. Em todo caso, como voc quase vai viver com a famlia, logo
ouvir coisas. Meu marido e eu vivemos separados faz inmeros anos. Ele me
informou recentemente, muito recentemente, que amos nos divorciar. A
futura mulher dele  muito jovem. Linda, mordaz. E... muito jovem -- ela
repetiu com um meio sorriso. --  ridculo, imagino, como esta parte me
incomoda. De qualquer modo,  uma situao complicada e difcil.
-- Ser mais complicada e difcil pra ele se der uma boa olhada no que
abandonou.
Ela precisou de um instante para adaptar-se ao elogio.
--  muita bondade sua -- disse.
-- No, no . Voc  linda, elegante e interessante. -- E no est habituada
a ouvir isso, ele percebeu quando ela apenas o fitou. Isso, tambm, era
interessante. --  muita coisa pra um homem abandonar. O divrcio  duro
-- acrescentou. -- Uma espcie de morte, sobretudo quando a gente leva o
casamento a srio, para comear. Mesmo quando tudo que resta dele  a
iluso,  um choque infernal ver o casamento se despedaar.
-- . -- Ela se sentia reconfortada. -- ,  sim. Acabei de ser informada que
os advogados vo legalizar o fim do meu casamento muito em breve. Por isso,
imagino que seja melhor comear a juntar os cacos.
-- Talvez devesse apenas varrer alguns do caminho. -- Ele tocou de leve o
ombro dela, deixando os dedos apenas encostados, quando a sentiu ficar
tensa e afastar-se um pouco. -- Estamos no meio da noite. Algumas das
regras da luz do dia no se aplicam s trs da manh, por isso vou ser
franco: eu me sinto muito atrado por voc.
Ela sentiu um pequeno aperto no estmago. De prazer ou excitao, no
tinha a menor pista.
-- Isso  muito lisonjeiro.
-- No  lisonjeiro,  um fato. Lisonja  o que se ouve de um cara num
coquetel pensando em fazer um avano sobre voc. Eu devo saber.
Ria para ela agora, aberto e descontrado, como rira na primeira vez que o
vira. O aperto voltou, mais forte e profundo dessa vez. Ela percebeu,
estupefata, que era pura atrao animal.
-- Eu fiz muitas lisonjas ao longo do caminho -- ele disse. -- Assim como
imagino que voc se desviou de muitas. Por isso estou sendo franco e direto.
-- Agora o sorriso se desfazia e os olhos, escuros nas sombras, tornavam-se
tranqilos e srios. -- Assim que voc abriu a porta hoje, foi como se um
raio tivesse me atingido. No sinto isso h muito tempo.
-- David.
Ela recuou outro passo e depois se aproximou de repente, quando ele
estendeu o brao para tomar sua mo.
-- No vou fazer nenhum desses avanos sobre voc. Mas pensei. --
Continuou a olh-la, firme, intenso, sentindo ao mesmo tempo que o pulso
dela comeava a disparar. -- O que na certa foi o motivo de eu no conseguir
dormir.
-- Ns mal nos conhecemos. E eu sou...
Uma virgem de cinquenta anos. No, ela pensou, no era mesmo, droga. Mas
quase. Muito prximo.
--  a pura verdade. Eu no pretendia trazer isso  tona to cedo, mas
pareceu o momento. Uma linda mulher de roupo branco, um cheiro de lar
num jardim. No se pode querer que um homem resista a tudo. Alm disso,
isso lhe d alguma coisa pra pensar.
-- , com certeza, d. Preciso ir.
-- Aceita jantar comigo? -- Ele levou a mo dela aos lbios... Pareceu o
momento tambm para isso. Gostou do tremor e do sutil perfume ali. -- Em
breve?
-- No sei. -- Ela puxou a mo e sentiu-se uma menina tola, atrapalhada. --
Eu... boa-noite,
Voltou correndo pela alameda e chegou ofegante aos degraus. Tinha o
estmago embrulhado, o corao falhava as batidas no peito. Eram
sensaes que no tinha durante tanto tempo que pareciam quase
vexatrias.
Mas no se sentia mais furiosa. Nem triste.

ERA APENAS MEIA-NOITE EM NOVA YORK QUANDO JEREMY
DeMorney recebeu o telefonema. Considerava a pessoa do outro lado da
linha no mais que um instrumento, a ser manipulado quando necessrio.
-- Estou pronto. Pronto pra passar ao prximo estgio.
-- Bem. -- Sorrindo, Jerry serviu-se de uma taa de conhaque. -- Levou
muito tempo pra se decidir.
-- Tenho muito a perder.
-- E mais a ganhar. A Giambelli est usando voc, e vai chut-lo sem
pestanejar se isso convier aos seus propsitos.
-- Meu cargo continua seguro. A reorganizao no mudou isso.
-- Por enquanto. Dificilmente voc me ligaria se no estivesse
receoso.
-- Estou farto, s isso. Farto de no ser apreciado pelos meus esforos.
No gosto de ser vigiado nem avaliado por estranhos.
Claro. Sophia Giambelli e Tyler MacMillan vm sendo preparados para
ocupar os lugares tradicionais, e, meream ou no, vo ocupar. Agora tem
David Cutter. Um homem inteligente. La Coeur lamenta a perda dele. Vai dar
um sria examinada em todas as reas da empresa. Uma sria examinada
que poderia muito bem revelar certas... discrepncias.
-- Tenho sido cuidadoso.
-- Ningum nunca  cuidadoso o bastante. Que pretende levar para a mesa
agora? Vai ter de ser mais que a aposta que discutimos antes.
-- O centenrio. Se houver problema durante a fuso, sangramento ao longo
da campanha publicitria do prximo ano, isso vai corroer a fundao da
empresa. Posso fazer algumas coisas.
-- Envenenar um velho, por exemplo?
-- Isso foi um acidente.
O pnico, a insinuao de gemido no tom de voz, fez Jerry sorrir. Era tudo
to perfeito.
--  assim que chama?
-- A idia foi sua. Voc disse que s deixaria o velho doente.
-- Oh, eu tenho um monte de idias. -- Ocioso, Jerry examinou as unhas. La
Coeur pagava-o tanto por suas idias, suas idias menos radicais, quanto por
chamar-se DeMorney. -- Voc ps a idia em prtica. E ferrou tudo.
-- Como eu ia saber que ele tinha o corao fraco?
-- Como eu disse antes, ningum nunca  cuidadoso o bastante. Se voc ia
matar algum, devia ter preferido a prpria velha. Com o desaparecimento
dela, eles no poderiam tapar os buracos no dique to rpido quanto
poderamos perfur-los.
-- No sou assassino.
-- Tomo a liberdade de discordar. --  exatamente o que voc , pensou
Jerry. E por causa disso far tudo, tudo o que quero agora. -- Eu me
pergunto se a polcia italiana estaria interessada o bastante pra exumar o
corpo de Baptista e fazer exames se, por acaso, receber um telefonema
annimo e esclarecedor. Voc assassinou -- disse, aps uma longa pausa. - 
melhor estar preparado pra fazer o que for necessrio pra escor-lo. Se
quiser minha ajuda e meu apoio financeiro para continuar, comece a me
mostrar o que pode fazer por mim. Pode comear a me conseguir cpias de
tudo. Os documentos legais, os contratos, os planos pra campanha
publicitria. Cada passo dela. Os dirios dos produtores, Veneza e Mapa.
-- Ser arriscado. Levar tempo.
-- Voc ser pago pelo risco. E pelo tempo. -- Era um homem paciente, rico e
podia dar-se ao luxo das duas coisas. Investiria nas duas para enterrar os
Giambelli. -- No entre mais em contato comigo enquanto no tiver alguma
coisa til.
-- Eu preciso de dinheiro. No posso conseguir o que voc quer sem...
-- Me d alguma coisa que eu possa usar. Ento eu lhe darei o seu
pagamento. Pagamento contra a entrega da mercadoria, amigo.  assim que
funciona.

-- SO VIDEIRAS. GRANDE COISA !
-- Vo ser grande coisa pra ns. As videiras -- informou David ao filho
emburrado -- representam aquilo que vai pagar seus hambrgueres com
batata frita pelo futuro previsto.
-- Vo comprar meu carro? David olhou-o no espelho retrovisor.
-- No force a barra, amigo.
-- Pai, no d pra viver aqui na Cidade do Fim do Mundo sem rodas.
-- Assim que voc parar de reclamar, vou pesquisar na revendedora de
carros usados mais prxima.
Trs meses antes -- que inferno, pensou David --, trs semanas antes, esse
comentrio teria resultado no glido silncio do filho ou numa observao
sarcstica. O fato de a resposta de Theo ter sido engolir em seco, arregalar
os olhos e desabar arquejando no banco de trs aqueceu o corao do pai.
-- Eu sabia que devamos ter feito aquelas aulas de ressuscitao pulmonar
comentou David, distrado,ao virar nos lagares MacMillan.
-- Est tudo bem. Ele bate as botas, sobram mais batatas pra gente.
Maddy no se incomodou de sair cedo. Nem de passear de carro pelas
colinas e vales. O que a incomodava era no ter nada o que fazer. A maior
esperana no momento era que o pai, numa folga, iria comprar um carro para
Theo. Ento poderia espezinhar o irmo para lev-la a qualquer lugar.
Qualquer lugar,
-- Belo cenrio. -- David parou o furgo, saltou para contemplar os campos e
os trabalhadores que podavam com firmeza as vinhas na manh gelada. -- E
isto, tudo isto, meus filhos -- continuou, deslizando um brao em volta de
cada um quando se juntaram a ele --, nunca ser de vocs.
-- Talvez um deles tenha uma gatinha como filha. A gente se casa e, ento,
voc trabalha pra mim.
David encolheu os ombros.
-- Voc est me assustando, Theo. Vamos dar uma conferida.

Tyler LOCALIZOU O TRIO, QUE SE DIRIGIA PELAS FILEIRAS
abaixo, e xingou baixinho. Turistas, pensou, esperando uma visita e um guia
simptico. No tinha tempo para simpatia. E no queria forasteiros em seus
campos.
Adiantou-se para cortar caminho e conduzi-los para fora, parou e examinou
Sophia. Esta, decidiu, era a praia dela. Que lide com as pessoas, e ele lidaria
com as vinhas.
Desviou-se at ela, notou com m vontade que ela fazia a tarefa, e fazia
bem.
-- Alguns turistas esto vindo pra c -- avisou-a. -- Por que no tira uma
folga aqui e leva os trs pro lagar, a sala de degustao? Devia ter algum
aqui pra acompanh-los numa visita-padro.
Sophia se endireitou e voltou-se para dar uma examinada nos recm
chegados. O pai e o filho pareciam sados de uma loja L. L. Bean, de artigos
de inverno, concluiu, enquanto a filha dera uma guinada  esquerda, para a
Gothland, a terra dos espectros de visual macabro.
-- Claro, eu levo. -- E tomo uma gostosa xcara de caf pelo trabalho. -- Mas
uma rpida olhada nos campos e uma breve e informativa explicao da fase
de poda acabariam magnificamente na adega e deixariam o pai mais inclinado
a comprar algumas garrafas.
-- No quero estranhos circulando pelos meus campos.
-- No seja to territorial e mal-humorado.
Ela abriu um belo sorriso, tomou deliberadamente a mo de Ty e arrastou-o
em direo  famlia.
-- Bom-dia! Bem-vindos aos Vinhedos MacMillan. Sou Sophia. Tyler e eu
teremos o maior prazer de responder a quaisquer perguntas que desejarem
fazer.  o tempo da poda de inverno no momento. Uma parte essencial, at
crucial, do processo da fabricao de vinho. Esto excursionando pelo vale?
-- Por assim dizer. -- Ela tinha os olhos da me, pensou David. A forma e a
profundidade. Os de Pilar eram mais meigos, mais claros e com um toque de
dourado. -- Na verdade, eu esperava conhecer vocs dois. Sou David Cutter.
Estes so meus filhos, Theo e Maddy.
-- Oh. -- Sophia logo se recuperou, aceitando a mo oferecida por David,
embora sua mente saltasse  frente. Inspecionando todos ns, pensou. Bem,
isso seria bom nos dois sentidos. At ento, sua pesquisa s desenterrara
que David Cutter era um pai divorciado com dois filhos que galgara a escada
empresarial na La Coeur com mo firme e competente durante duas
dcadas. Descobriria mais num cara a cara. -- Ora, mais uma vez sejam bem-
vindos. Todos vocs. Gostariam de entrar no lagar ou na casa?
-- Eu gostaria de dar uma olhada nos campos. Faz um bom tempo que vi uma
poda em andamento. -- Avaliando o clima, a cautela e o ressentimento, David
virou-se para Tyler. -- Tem um belo vinhedo, Sr MacMillan. E um produto
superior.
-- Acertou. Tenho trabalho a fazer.
-- Vai precisar desculpar Tyler. -- Cerrando os dentes, Sophia enlaou o
brao no dele como uma corda para mant-lo no lugar. -- Ele tem uma
concentrao muito escassa e, no momento, s v as vinhas. Acrescente a
isso o fato de no ter talentos sociais visveis. Tem, MacMillan?
-- As vinhas no precisam de conversa fiada.
-- Tudo que se cultiva se sai melhor com estimulao auditiva. -- Maddy no
se acovardou com a expresso aborrecida de Ty. -- Por que vocs podam no
inverno? -- perguntou. -- Em vez de no outono ou no incio da primavera?
-- Podamos durante a estao de hibernao.
-- Por qu?
-- Maddy -- comeou David.
-- Tudo bem. -- Tyler examinou-a com mais ateno. A menina podia vestir-
se como um aprendiz de vampiro, pensou, mas tinha um rosto inteligente. --
Esperamos a primeira geada intensa, que fora as vinhas  hibernao. A
poda ento as prepara para o novo crescimento, na primavera. A do inverno
diminui a produo. O que buscamos  qualidade, no quantidade. As vinhas
sobrecarregadas produzem uvas inferiores em demasia. -- Tornou a olhar
para David. -- Imagino que vocs no tm muitos vinhedos em Manhattan.
--  isso mesmo, e um dos motivos de eu aceitar essa oferta. Eu sentia falta
dos campos. Vinte anos atrs, passei um janeiro muito frio e chuvoso, em
Bordeaux, podando vinhas para La Coeur. Tenho feito algum trabalho de
campo intermitente ao longo dos anos, s pra no perder a mo. Mas nada
como aquele inverno muito longo.
-- Pode me mostrar como se faz isso? -- pediu Maddy a Tyler.
-- Bem, eu...
-- Eu comeo com vocs. Sentindo pena de Tyler, Sophia irradiou alegria: --
Por que voc e Theo no vm comigo? Vamos dar uma olhada de perto em
como se faz isso, antes de irmos para o lagar,  um processo fascinante,
realmente, embora esta fase parea muito bsica. Exige preciso e prtica
considervel. Vou mostrar a vocs.
Arrebanhou os garotos para fora do alcance do ouvido.
-- Theo vai tropear na lngua. -- David exalou um suspiro. -- Ela  uma bela
mulher. No posso culp-lo.
-- , tem uma boa aparncia.
O tom de advertncia fez David lutar com um sorriso. Assentiu, contido,
com a cabea.
-- E sou velho o bastante pra ser pai dela, por isso no tenha receios nessa
direo.
Do ponto de vista de Tyler, Cutter era o tipo exato que Sophia preferia.
Mais velho, mais elegante, mais requintado. Sob a vestimenta grossa, via-se
classe. A condio de fazendeiro no significava que ele no pudesse v-la.
Mas isso no vinha ao caso.
-- No h nada entre mim e Sophia -- disse, muito decidido.
-- No importa. Vamos apenas desanuviar o ar, certo? No vim aqui pra me
meter no seu caminho, nem interferir em sua rotina. Voc  o vinicultor,
MacMillan, eu no. Mas pretendo fazer meu trabalho e me manter em dia
com cada passo e fase dos vinhedos.
-- Voc tem os escritrios. Eu tenho os campos.
-- No inteiramente, no. Fui contratado pra coordenar, supervisionar, e
porque conheo as vinhas. No sou apenas um executivo, e, com toda
franqueza, j estava farto de tentar ser um. -- Se importa? -- Ele pegou o
podo no invlucro, no cinturo de Tyler, e virou-se para a fileira mais
prxima. Sem luva, ergueu galhos, examinou e fez o corte. Foi rpido,
eficiente e correto. -- Conheo as vinhas -- repetiu. -- Mas isso no as torna
minhas.
Irritado, Tyler tomou de volta a ferramenta e enfiou-a na bainha, como uma
espada.
-- Tudo bem, vamos desanuviar mais o ar. No gosto de ningum me vigiando
pelas costas, nem de saber que vai me dar notas, como quando eu estava na
escola. Estou aqui para fazer vinho, no amigos. Sou eu quem dirige este
vinhedo.
-- Dirigia disse David, sem alterar a voz. -- Agora ns o dirigimos quer
gostemos ou no.
-- Ns no gostamos -- ele rebateu, curto e grosso, e afastou-se.
Cabea-dura, inflexvel e territorial, pensou David. Seria uma batalha
interessante. Olhou para onde Sophia entretinha os filhos. Os hormnios
palpitantes de Theo quase transmitiam raios de luz vermelha, tipo loucos
por sexo. E isso, pensou David, cansado, seria complicado.
Foi caminhando at l e viu, com aprovao, a filha cortar um galho.
-- Bom trabalho. Obrigado -- disse a Sophia.
--  um prazer. Imagino que queira se encontrar comigo para saber o
resumo de meus planos da campanha promocional. Estou instalando um
escritrio na villa. Esta tarde ficaria bem para voc? Talvez s duas.
Menina inteligente, ele pensou. D o primeiro passo, estabelece o terreno.
Que famlia!
-- Claro, est bem para mim. Vou s tirar esses dois do seu caminho.
-- Eu quero ver o resto -- disse Maddy. -- De qualquer modo, no tem nada
para fazer em casa.  chato.
-- No acabamos de desfazer as malas.
-- Tem muita pressa nisso? -- Sophia ps a mo no ombro de Maddy. -- Se
no tiver, pode deixar Theo e Maddy comigo. Preciso voltar para villa daqui
a mais ou menos uma hora, e posso deix-los. Vocs esto na casa de
hspedes, certo?
-- Isso mesmo. -- David conferiu as horas no relgio de pulso. Tinha algum
tempo antes de sua reunio. -- Se no forem atrapalhar.
-- De jeito nenhum.
-- timo! Vejo voc s duas. Vocs, caras, no se metam em apuros.
-- Voc acha que a gente est atrs disso -- resmungou Maddy baixinho.
Se no se meterem -- disse Sophia quando David se afastou -- no vo se
divertir o bastante. -- Gostara dos garotos. O intenso interrogatrio de
Maddy era divertido e a mantinha alerta. Era gostoso ver-se o objeto da
paixonite  primeira vista de um adolescente.
Alm disso, quem sabia mais sobre um homem, como ele se comportava,
como pensava, como planejava, do que seus filhos? Uma manh com os
adolescentes de David Cutter seria interessante e, ela acreditava,
informativa.
-- Vamos arrastar Tyler -- sugeriu -- e fazer com que nos leve ao lagar. No
conheo to bem a operao da MacMillan quanto a da Giambelli. -- Guardou
a ferramenta. -- Vamos todos aprender alguma coisa.

PILAR ANDAVA DE UM LADO A OUTRO NA SALA DO TRIBUNAL DA
juza Helen Moore e tentava no se afligir. A vida, pensou, parecia fugir ao
seu controle. No tinha a menor idia de como agarr-la de volta. Pior ainda:
no tinha mais certeza de quanto queria conserv-la.
Acima de tudo, precisava de uma amiga.
Mal vira a me ou a filha naquela manh. De propsito. Era covardia,
imaginou, evitar os mais ntimos. Mas precisava de tempo para absorver os
estragos, tomar suas decises, proteger a ridcula ferida que ainda lhe
arranhava as entranhas.
Estendeu instintivamente a mo para brincar com a aliana e sentiu o rpido
sobressalto de no encontr-la mais ali. Teria de habituar-se quele dedo
nu. No, o diabo que teria. Iria sair nessa tarde mesma e comprar alguma
bugiganga daquelas que ofuscam os olhos, de preo descomunal, e pr no
anular da mo esquerda.
Um smbolo, disse a si mesma. De liberdade e novos comeos.
De fracasso.
Num suspiro de derrota, desabou numa poltrona assim que Helen entrou
apressada.
-- Lamento, passamos um pouco da hora.
-- Tudo bem. Voc sempre fica to distinta e esplndida nessas togas.
-- Se algum dia eu perdesse estes sete quilos extras, passaria a usar um
biquni por baixo.
Despiu a toga e pendurou-a. Em vez de um biquni, usava um discreto duas-
peas marrom.
Matronal demais, pensou Pilar. Quadrada demais. E muito Helen.
-- Agradeo de corao voc arranjar tempo para mim hoje. Sei como anda
ocupada.
-- Temos duas horas. -- Helen instalou-se na cadeira atrs da mesa, tirou os
sapatos e mexeu os dedos dos ps. -- Quer sair para almoar?
-- Na verdade, no, Helen... Sei que no  advogada de divrcio, mas... Tony
est agindo para finalizar tudo bem rpido. No sei o que fazer.
-- Posso cuidar disso para voc, Pilar. Ou recomendar algum. Conheo
vrios tubares escorregadios que se desincumbiriam bem dessa tarefa.
-- Eu me sentiria muito mais  vontade se voc cuidasse do caso, e se fosse
mantido o mais simples possvel. E limpo.
-- Ora, que decepo! -- Fechando a cara, Helen encaixou no rosto os culos
pendurados. -- Eu adoraria deixar Tony sangrando pelas orelhas. Vou
precisar de seus documentos financeiros -- comeou, puxando para si um
bloco amarelo de anotaes. -- Por sorte, forcei voc a separar suas
finanas das dele anos atrs. Mas vamos manter seu traseiro coberto. Ele
pode muito bem fazer exigncias monetrias, imobilirias e assim por
diante. Voc no vai concordar com nada. -- Ela baixou os culos para fitar
Pilar por cima dos aros com um olhar que apavorava os advogados. -- Falo
srio, Pilar. Ele no leva nada. Voc  a parte lesada. Foi ele quem entrou
com a petio de divrcio. Quer se casar de novo. No vou deixar que lucre
com isso. Entendeu?
-- No se trata de dinheiro.
-- No para voc. Mas ele leva uma vida muito cara e vai querer continuar
levando. Quanto voc tem canalizado para ele durante a ltima dcada?
Sem graa, Pilar mudou, de posio na poltrona.
-- Helen...
-- Exatamente. Emprstimos jamais pagos. A casa em So Francisco, a casa
na Itlia. A moblia nas duas.
-- Ns vendemos...
-- Ele vendeu -- corrigiu Helen. -- Voc no quis me escutar ento, mas
agora ou escuta ou procura outro advogado. Nunca recebeu de volta a justa
parcela da propriedade paga com seu dinheiro, para comear. E estou careca
de saber que ele tambm desviou muitas de suas jias e bens pessoais para
o bolso dele. Isso danou. -- Ela reps os culos e recostou-se. O gesto e a
linguagem do corpo mudaram de juza para amiga: -- Pilar, eu amo voc e vou
lhe dizer o seguinte: voc deixou que ele a tratasse como um capacho.
Droga, quase bordou "Bem-vindo" nas tetas e o convidou a lhe pisar de cima
a baixo. E eu e os outros que a amam detestamos ver isso.
-- Talvez eu tenha feito isso. -- Ela no iria chorar agora; apenas absorver
a nova dor. -- Eu o amava e em parte achava que, se precisasse muito de
mim, ele iria retribuir esse amor. Aconteceu uma coisa ontem  noite, e tudo
mudou, me mudou, imagino.
-- Conte.
Levantando-se, Pilar vagueou pelo escritrio e falou a Helen do telefonema.
-- Quando ouvi Tony dar aquelas desculpas indiferentes, desligar na minha
cara para acalmar Rene depois que ela me atacou, fiquei enojada de todos
ns. E mais tarde, quando tornei a me acalmar, percebi uma coisa. No o amo
mais, Helen. Talvez no o ame h anos. Isso me torna digna de pena.
-- No mais, no mesmo. -- Helen pegou o telefone. -- Vamos pedir a comida.
-- Vou explicar o que precisa ser feito. Depois, querida, vamos fazer tudo.
Por favor. -- Estendeu a mo. -- Me deixe ajudar voc. Ajudar para valer.
-- Tudo bem. -- Pilar suspirou. -- Tudo bem. Leva mais de uma hora?
-- Creio que no. Carl, pea sanduches de peito de frango, saladas de
acompanhamento, dois cappuccinos e uma garrafa grande de gua mineral.
Obrigada.
Ela desligou o telefone.
-- Perfeito. -- Pilar sentou-se mais uma vez. -- Tem alguma joalheria boa,
bem cara, perto daqui?
-- De fato, tem. Por qu?
-- Se voc tiver tempo antes de tornar a se enfatiotar nessa toga, pode me
ajudar a comprar uma coisa simblica e vistosa. -- Ergueu a mo esquerda. --
Uma coisa que deixe Rene louca quando vir.
Helen assentiu com aprovao.
-- Agora falamos a mesma lngua.

Captulo Sete
Domingo deslizou semana adentro como um blsamo numa branda porm
irritante comicho. Sophia no iria gastar as horas da manh coberta de l,
flanela e podando vinhas.
No iria ficar com Ty bafejando em seu cangote  espera de ela cometer um
erro.
Podia ir de carro at a cidade fazer algumas compras revigorantes e ver
gente. Lembrar o que era ter uma vida.
Com isso em mente, pensou em chamar uma de suas amigas e estabelecer
algumas horas de confraternizao. Depois decidiu que preferia passar esse
tempo frvolo com a me.
No prximo dia livre, resolveu, faria planos com os amigos. Passaria um fim
de semana em So Francisco, daria uma festa e ofereceria um jantar no
apartamento, iria a uma boate. Agora atiaria a me a tirar um dia de
meninas.
Deu batidinhas enrgicas na porta da me e depois a abriu sem esperar
resposta. Jamais tinha de esper-la.
A cama j se achava feita, as cortinas abertas para a vacilante luz do sol.
Quando Sophia entrou, Maria chegou do banheiro anexo.
-- Mama?
-- Ah, h muito se levantou e saiu. Acho que est na estufa.
-- Eu a encontro. -- Sophia recuou e hesitou. -- Maria, eu mal vi mame a
semana inteira. Tudo bem com ela?
Maria contraiu os lbios e ocupou-se  toa e sem necessidade com as rosas
amarelas na cmoda de Pilar.
-- Ela no dorme bem. Eu sei. Come como um passarinho, e s se a gente
insistir. Ralhei com ela outro dia, e ela me disse que  estresse de fim de
semana. Que estresse? -- Maria ergueu as mos viradas para cima. -- Sua
me adora o Natal.  aquele homem quem a aborrece. No quero falar mal do
seu pai, mas, se ele fizer meu beb adoecer, vai ter de se ver comigo.
-- Voc vai ter de entrar na fila -- murmurou Sophia. -- Vamos cuidar dela,
Maria. Vou ver onde est agora.
-- Faa com que ela coma!
Natal, pensou Sophia, descendo apressada as escadas. Era o pretexto
perfeito. Iria pedir  me que lhe desse uma mozinha com algumas compras
de ltima hora.
Examinou a casa ao atravess-la rpido. Os bicos-de-papagaio vermelhos e
as estrelas brancas da me, em dezenas de vasos de prata, misturavam-se
com miniaturas de azevinhos em luxuriantes arranjos por todo o saguo. A
folhagem nova, verde e entrelaada com minsculas luzes brancas e uma
brilhante fita vermelha formava grinaldas em volta dos vos das portas.
Os trs anjos Giambelli exibidos na longa mesa da sala de jantar. Tereza,
Pilar e Sophia, ela pensou, os rostos esculpidos que refletiam cada uma delas
aos doze anos.
Como pareciam umas com as outras. V-los era sempre um leve sobressalto,
um pequeno puxo de divertido prazer. A continuidade, o inegvel elo de
sangue das trs geraes. Emocionara-se quando ganhara o seu anjo alguns
anos antes. Emocionara-se ao ver as prprias feies no corpo gracioso e
sinuoso. E, percebeu, passando a ponta do dedo no trio, ainda se emocionava.
Um dia recairia sobre ela a encomenda do anjo para um filho seu. Que idia
estranha, ruminou. No desagradvel, mas com certeza estranha. A prxima
gerao, quando chegasse a hora, cabia a ela comear.
Avaliada pelas que tinham vindo antes, ficava um pouco atrs nesse dever
familiar especfico. Mas tambm no era uma coisa que pudesse escrever no
seu calendrio mensal. Apaixonar-se. Casar-se. Conceber filhos.
No, essas coisas no se incluam  perfeio na agenda de uma vida. Ela
imaginava que gostaria de ter tudo isso com o homem certo e na hora certa.
Mas era to fcil cometer um engano. E amor, casamento e filhos no
podiam ser riscados da pgina de lembretes como uma inconveniente
consulta ao dentista.
A no ser que se fosse Anthony Avano, corrigiu-se, aborrecendo-se com a
automtica pontada de ressentimento que veio na cola da idia. Nessa rea
no tinha a menor inteno de seguir o exemplo do pai. Quando fizesse a
escolha, e as promessas que a acompanhavam, iria cumpri-las.
Ento, por enquanto, trs anjos tinham de bastar.
Ela virou-se para examinar a sala. Velas em espiges, nacos de prata e ouro
e mais folhagens verdes magistralmente dispostos. A grande rvore, uma
das quatro que pela tradio se punham na villa, transbordante de guirlandas
de cristal, cheia de preciosos enfeites trazidos da Itlia, erguia-se regia
perto das janelas. Os presentes j se achavam amontoados embaixo
cheirava a pinheiro e cera de
vela.
O tempo fugira, pensou, culpada. Grande parte. A me, a av e os
empregados haviam trabalhado como troianos na decorao da casa para os
feriados, enquanto ela se enterrara no trabalho.
Devia ter tirado tempo, criado tempo para ajudar. No ps isso na sua
agenda, ps, Sophiia?, pensou com um estremecimento. A festa anual de
Natal j quase chegara e ela nada fizera para ajudar no planejamento ou
nmos preparativos.
Iria corrigir isso imediatamente.
Saiu pela porta lateral, arrependendo-se no mesmo instante por no ter
parado e pego um casaco quando o vento a atingira. Em conseqncia, seguiu
correndo pela sinuosa alameda de pedras e cortou  esquerda rumo  estufa.
O calor quente e mido pareceu muito convidativo.
-- Mama?
-- Aqui. Sophie, espere at voc ver meus narcisos. So espetaculares. Acho
que vou lev-los junto com as aucenas para o salo. So muito festivos.
Pilar parou e ergueu os olhos.
-- Cad seu casaco?
-- Esqueci.
Sophia curvou-se, beijou a face da me e deu uma boa e longa olhada.
Tinha o antigo suter arregaado nos cotovelos e bem frouxo nos quadris,
os cabelos puxados para trs, presos na nuca.
-- Est emagrecendo.
-- Ah, no estou. -- Pilar descartou a afirmao com as mos metidas nas
luvas de jardinagem manchadas. -- Voc andou falando com Maria. Se no
me empanturro trs vezes por dia, ela se convence de que vou definhar. Na
verdade, roubei dois biscoitos doces no caminho para c, e imagino que
despontem dos quadris a qualquer momento.
-- Isso deve sustentar voc at o almoo. Que eu vou comprar. Estou to
atrasada com as compras. Socorro!
-- Sophia. -- Com um balano de cabea, Pilar transferiu a guirlanda de
narcisos e comeou a ocupar-se com as tulipas que acomodava. Elas vo
florescer, pensou, e trazer cor para esses sombrios dias de inverno. -- Voc
comeou a fazer compras de Natal em junho e terminou em outubro. Como
sempre, para deixar o resto de ns com dio.
Tudo bem, voc me pegou. -- Sophia iou-se para a bancada de trabalho. --
Mesmo assim, estou morrendo de vontade de ir  cidade e me divertir
algumas horas. Foi uma semana brutal. Vamos tirar o resto do dia de folga.
-- Estive l dois dias atrs. -- Franzindo o cenho, Pilar ps as tulipas de lado.
-- Sophie, essa nova ordem das coisas que sua av estabeleceu  demais
para voc? Acorda ao amanhecer todo dia, e depois passa horas no
escritrio aqui. Sei que no tem visto nenhum dos seus amigos.
-- Eu vicejo na presso. Apesar disso, preciso de uma assistente e creio que
voc devia dar conta desse recado.
-- Cara, ns duas sabemos que eu seria intil para voc.
-- No, eu no sei disso. Tudo bem, a gente muda pro plano B. Vou pr voc
para trabalhar. Fez toda a decorao da casa e est linda, alis. Sinto muito
no ter ajudado.
-- Tem andado ocupada.
-- Eu no devia ter andado to ocupada. Mas agora  o horrio de escritrio,
e isso abrange o tempo de planejar uma festa. Precisa me manter
informada, o que  parte do dever de uma assistente. Muito bem, que flores
vai levar l para dentro? Vou ajudar voc com elas, depois a gente liga o
relgio.
A filha, pensou Pilar, fazia a sua cabea rodopiar.
-- Sophie, realmente.
-- , realmente. Voc  a estagiria. Eu sou a chefe. -- Ela deslizou da
bancada e esfregou as mos uma na outra. Tenho de compensar todos os
anos que voc mandou em mim. Sobretudo entre os doze e os quinze anos.
-- No, os anos da puberdade no. Voc no seria to cruel.
-- Pode apostar. Voc perguntou se esse novo sistema era demais para mim.
No . Mas chega bem perto. O negcio  o seguinte. No estou acostumada
a preencher os meus arquivos, etiquetas de telefone e digitar. Como no
estou a fim de admitir para Nonna, nem para MacMillan, o mnimo do que me
sinto espremida, voc podia me ajudar a sair desta.
Pilar bufou e tirou as luvas.
-- Est fazendo isso para me manter ocupada, como Maria me persegue para
comer.
-- Em parte -- admitiu Sophia. -- Mas isso no muda o fato de que eu perco
tempo todo dia fazendo trabalho bsico de escritrio. Se puder delegar
isso, talvez consiga na verdade comear mais uma vez a namorar nesta
dcada. Sinto falta de um homem.
-- Tudo bem, mas no me culpe se no conseguir encontrar nada nos
arquivos. -- Pilar puxou a fina fita dos cabelos e correu a mo por eles. --
No fao trabalho bsico de escritrio desde os dezesseis anos, e mesmo
ento era to ruim que a Mama me despediu.
Virou-se, desatou a rir e ento notou que Sophia, boquiaberta, olhava sua
mo.
Sem graa, Pilar quase escondeu a mo, e o rubi de cinco quilates e lapidao
quadrada no dedo, atrs das costas.
--  um pouco demais, no ?
-- No sei. Acho que fiquei cega pelo claro. -- Sophia tomou a mo da me,
examinou a pedra e os estonteantes diamantes, tambm quadrados,
embutidos em fileira numa ranhura em volta do quadrado. -- Uau. Magnfico,
-- Eu queria alguma coisa. Devia ter contado a voc. Mas tem andado to
ocupada... Droga. -- Pilar tentou explicar. -- Usei seu horrio para evitar
conversar com voc. Sinto muito.
-- No tem de se desculpar comigo por comprar um anel, Mama. S que, para
mim, seria possvel considerar esse um pequeno monumento.
-- Eu estava furiosa. A gente no devia fazer nada quando est furiosa. --
Para ter alguma coisa com que se ocupar, Pilar pegou as ferramentas de
jardinagem e comeou a substitu-las. -- Filha, Helen est cuidando do
divrcio para mim. Eu devia ter...
-- timo. Ela no vai deixar que escalpem voc. No me olhe assim, Mama.
Voc tem cuidado de mim, toda a minha vida teve o cuidado de jamais falar
contra o meu pai. Mas eu no sou cega, nem idiota.
-- No. -- Dominada pela tristeza, Pilar ps de lado a pequena p de
transplante. -- No, voc jamais foi qualquer das duas coisas. E viu, e
entendeu muito mais que devia uma criana.
-- Se voc deixasse, ele tomaria seu dinheiro e qualquer outra coisa que no
estivesse definida. No poderia evitar. Eu me sinto melhor sabendo que tia
Helen est cuidando dos seus interesses. Agora vamos levar estas flores
para casa.
-- Sophie. -- Pilar ps a mo no brao da filha, quando ela pegou um vaso de
aucenas. -- Sinto muito que isso a magoe.
-- Voc nunca me magoou. Ele sim, sempre. No acho que ele possa evitar
isso tambm. -- Pegou um segundo vaso. -- Rene vai engolir a lngua quando
vir essa pedra.
-- Eu sei. Era essa a idia.

DURANTE MAIS DE CINQENTA ANOS, A GIAMBELLI DA CALIFR-
nia realizara luxuosas festas de Natal para a famlia, amigos, empregados e
associados. Com o crescimento da empresa, tambm se estendeu a lista de
convidados.
Seguindo a tradio estabelecida pela sucursal italiana da empresa, as
festas se realizavam simultaneamente no ltimo sbado antes do Natal.
Abria-se a casa  famlia e aos amigos, e o lagar que abrigava a adega aos
empregados. Os associados, dependendo da posio na cadeia hierrquica,
eram includos no lugar adequado.
Os convites para a casa-grande eram selecionados como ouro e muitas vezes
usados como smbolo de status ou sucesso. Mesmo assim, os Giambelli no
economizavam nas festividades do lagar. Comida elegante e copiosa, vinho
fluindo livremente e decoraes e entretenimentos de primeira classe.
Esperava-se que cada membro da famlia desse o ar de sua presena nos
dois locais de festejos.
Aps faz-lo desde os quinze anos, Sophia sabia muito bem que a festa do
lagar era de longe mais divertida. E muito menos cheia de parentes
irritantes.
Ouvia a prole da prima Gina esganiando-se uns com os outros no fim do
corredor. Vira frustradas as esperanas de que Don e o rebanho
permanecessem na Itlia na noite anterior com a chegada deles.
Apesar disso, sua presena no seria to importuna quanto a do pai e de
Rene. A me fincara p que fossem convidados, batendo de frente com La
Signora sobre a questo. O consolo era que o convite aos dois fora para o
lagar.
Isso, ela pensou apertando o fecho dos brincos de diamante em forma de
lgrima, ficaria entalado no gog de Rene.
Recuou e examinou os resultados no espelho giratrio. O tremeluzente longo
prateado, com bolero curto e ajustado, caa bem. O grande decote formava
uma bela moldura para o colar de diamantes que, como os brincos, haviam
sido presentes da av.
Virou-se, conferiu o caimento da saia e gritou um convite  batida que ouviu
na porta.
-- Mas olhe s voc! -- Helen entrou, bonita e rechonchuda de rosa fosco. --
Cintila para todos os lados.
--  lindo, no? -- Sophia deu outra volta, de farra. -- Comprei em Nova
York, pensando no Ano-novo, mas no consegui resistir a us-lo esta noite.
No est exagerado demais com os diamantes?
-- Diamantes nunca so demais. Querida. -- Ela fechou a porta. -- Eu queria
um minuto. Detesto trazer isso  tona agora, bem antes de voc ter de se
confraternizar com centenas de pessoas, mas Pilar me disse que Tony e
Rene vm.
-- Que  que tem?
-- O divrcio foi concludo. Ontem. No passou, na verdade, de uma
formalidade aps esses anos todos. Como Tony tinha pressa e no complicou
0 processo com negociaes financeiras, trataram apenas de preencher os
documentos.
-- Entendo. -- Sophia pegou a bolsa da noite, abriu e fechou a lingueta. --J
contou  Mama?
-- Sim. Acabei de contar. Ela est tima. Pelo menos parece. Sei como 
importante para ela que voc faa o mesmo.
-- No se preocupe comigo, tia Helen. -- Ela atravessou o quarto, tomou as
mos da tia. -- Voc  formidvel. No sei o que ela faria sem voc.
-- Pilar precisa seguir em frente.
-- Eu sei.
-- E voc tambm. -- Helen apertou as mos de Sophia. -- No deixe Rene
ter a satisfao de ver que isso a magoa, em nvel algum.
-- No vou deixar.
-- timo. Agora tenho de descer e vigiar meu marido. Se deixar James
sozinho l embaixo to cedo, ele vai surripiar os canaps e arruinar o buf.
-- Helen abriu a porta e olhou para trs. -- Tony no fez muitas coisas
admirveis na vida. Voc  uma delas.
-- Obrigada.
Sozinha, Sophia exalou um longo suspiro. Depois empertigou os ombros e
voltou ao espelho. Abrindo a bolsa, pegou o batom. E pintou os lbios de
vermelho-assassinato sangrento.

DAVID TOMOU UM GOLE DE UM MERLOT BEM ENCORPADO,
misturou-se aos convidados amontoados junto das imponentes paredes de
pedra do lagar, tentou sintonizar-se com as ousadas msicas da banda que
no momento entretia o filho, e examinou a rea em busca de Pilar.
Sabia que os Giambelli iriam comparecer por algum tempo. Fora bem
treinado na pompa e protocolo das festas dos dias santos. Esperava-se que
dividisse seu tempo entre as festas, o que -- embora no expresso nesses
termos exatamente -- era ao mesmo tempo um privilgio e um dever.
Vinha aprendendo rpido que quase toda atribuio na organizao tinha
com epgrafe as duas coisas.
No via do que se queixar. Haviam lhe oferecido um desafio, o que ele
precisava. Estava sendo bem compensado em termos financeiros, o que
apreciava. E associava-se a uma empresa que respeitava. E valorizava.
Tudo que vira nas ltimas semanas confirmara que a Giambelli-MacMillan era
uma organizao orientada pela famlia, dirigida com muita eficincia e
pouco sentimento. No fria, mas calculada.
O rei e a rainha eram o produto. O dinheiro, embora respeitado e esperado,
no era a meta. O vinho, sim. Ele descobrira a verdade oposta nos ltimos
anos na La Coeur.
Agora, vendo o filho divertir-se de verdade, observando a filha interrogar
intermnavelmente o coitado de um vinicultor sobre algum ponto do
processo, sentia-se satisfeito.
A mudana fora exatamente o que todos precisavam.
-- David. Bom ver voc.
Ele voltou-se e a breve surpresa registrou-se quando viu o rosto sorridente
de Jeremy DeMorney.
-- Jerry, que surpresa v-lo por aqui.
-- Eu tento nunca perder uma animada festa anual da Giambelli, e sempre
venho  adega antes de ir  villa. Muito democrtico da parte de La Signora
convidar representantes da concorrncia.
--  uma lady e tanto.
-- Uma espcie rara. Como tem sido sua adaptao em trabalhar para ela?
-- Ainda so os primeiros dias. Mas a mudana foi boa. Fico feliz por tirar os
meninos da cidade. Como vai tudo em Nova York?
-- Estamos conseguindo andar, mas tateando sem voc. -- A pequena
ferroada na declarao no se suavizou com o sorriso afetado. -- Lamento,
continuamos magoados. Detestei te perder, David.
-- Nada dura para sempre. Algum mais por aqui de La Coeur?
-- Duberry veio de avio da Frana. Conhece a velha senhora h cem anos.
Pearson, representando o grupo local. Alguns altos executivos de outros
rtulos. Isso nos d uma chance de tomar o vinho dela e espionar uns aos
outros. Tem alguma fofoca para mim?
-- Como eu disse, ainda so os primeiros dias. -- Embora falasse com
descontrao, manteve-se cauteloso. O programa de ao de Jerry, fofocas
e punhalada empresarial pelas costas, fora um dos motivos de ter sido to
fcil deixar La Coeur. -- Mas  uma grande festa. Com licena, chegou a
pessoa que eu esperava.
Talvez por toda a vida, pensou David, ao deixar Jerry sem olhar para trs e
abrir caminho entre a multido, ao encontro de Pilar.
Ela usava azul. Veludo azul-escuro com um longo cordo de prolas. Parecia
calorosa, majestosa e, ele diria, inteiramente confiante, se no notasse o
rpido lampejo de pnico nos olhos dela.
Pilar virou o rosto, e logo seus olhos encontraram os dele. E, meu Deus, ela
corou. Ou, pelo menos, experimentou algo diferente. S de pensar no que ela
sentiu, sua mente comeou a trabalhar com agitao.
-- Estava aguardando sua chegada. -- Ele tomou a mo dela antes que ela
pudesse reagir. -- Como um garoto aguarda uma colega de classe na festinha
da escola. Sei que voc veio aqui para confraternizar com todos, mas preciso
de um minutinho apenas. Era como ser arrebatada com um nico aceno
caloroso.
-- David...
-- No pode confraternizar sem vinho. No fica bem. -- Ele a conduziu para
a frente. -- Falaremos de negcios, do clima. S vou dizer umas cinco ou dez
vezes que voc est linda. -- Pescou uma flte de champanhe numa bandeja.
-- No vejo como oferecer outra coisa com essa elegncia.
A mesma agitao retornou ao estmago dela.
-- No consigo acompanhar o seu ritmo.
-- Nem eu mesmo consigo me acompanhar. Estou deixando voc nervosa. --
Tocou a flte de leve na dela. -- Eu diria que lamento, mas seria mentira. 
melhor comear um relacionamento com franqueza, no acha?
-- No. Sim. Pare. -- Ela tentou rir. Ele parecia um sofisticado
cavalheiro naquele preto formal, com os belos cabelos louros cintilando  luz
trmula. -- Seus filhos vieram?
-- Vieram. Gemeram diante da idia de serem arrastados para c, e agora se
divertem como nunca na vida. Voc est linda. Eu disse que ia repetir isso,
no disse?
Ela quase deu umas risadinhas contidas, mas lembrou que tinha quarenta e
oito anos, no dezoito, e imaginou que no iria cair nessa.
-- , acho que disse.
-- Acho que no podemos encontrar um canto escuro para ficar de chamego,
que acha?
-- No.  definitivo.
-- Ento ter apenas de danar comigo, e me dar uma chance de fazer voc
mudar de idia.
Ela sentiu-se tonta ao pensar que ele poderia faz-la mudar de idia. Que
desejava que o fizesse. Incompetente, disse a si mesma com firmeza.
Ridculo. Era anos mais velha que ele.
Deus do cu, que deveria fazer? Falar? Sentir?
-- Milhes de pensamentos passam pela sua cabea -- ele murmurou. -- Eu
gostaria que me contasse todos.
-- Nossa. -- Ela apertou com a mo a barriga, onde uma sensao suave e
estranha deslizou em meio s palpitaes. -- Voc  bom demais nisso.
-- Que bom que acha isso, porque comeo a me sentir desajeitado toda vez
que vejo voc.
-- Me faz de boba. -- Ela inspirou fundo e se acalmou. -- David, voc  muito
atraente...
-- Voc acha? -- Ele tocou-lhe os cabelos, no pde evitar. Adorava o jeito
como caam, curvos em volta do rosto dela. -- Pode ser mais especfica?
--  muito charmoso -- ela acrescentou, esforando-se por manter a voz
firme. -- Estou muito lisonjeada, mas ainda no conheo voc. E, alm disso...
-- Baixou a voz, imobilizando o sorriso. -- Ol, Tony. Rene.
-- Pilar. Voc est linda disse Tony, curvando-se para beij-la no rosto.
-- Obrigada. David Cutter, apresento Tony Avano e Rene Foxx.
-- Rene Foxx Avano -- corrigiu-a Rene com um ronronado. Ergueu a mo,
girou os dedos para fazer fulgir a aliana de casamento cercada por
diamantes. --A partir de hoje.
No fora uma punhalada no corao, percebeu Pilar, como imaginara que
seria. Mais um ardor, porm, um rpido choque, que tanto a irritara quanto
machucara.
-- Parabns. Sei que sero felizes juntos.
-- Oh, j somos. -- Rene enlaou o brao no de Tony. -- Vamos voar para
Bimini logo depois do Natal. Deve ser adorvel estar fora desse frio e
chuva. Voc realmente devia tirar um tempo para curtir umas frias, Pilar.
Est plida.
-- Que estranho! Ainda agora eu pensava em como ela parece cheia de vida
esta noite. -- Avaliando o terreno, David ergueu a mo de Pilar e beijou-lhe
os dedos. -- Deliciosa, de fato. Que bom que tive a chance de conhecer
voc, Tony, antes de deixar o pas. -- Com toda tranqilidade, David passou
o brao pela cintura de Pilar. -- Tive muita dificuldade para encontrar voc
nos ltimos dias. -- Lanou um olhar a Rene, apenas alguns graus abaixo de
delicado. -- Agora entendo por qu. Informe ao meu escritrio seus planos
de viagem, sim? Temos negcios a discutir.
-- Meu pessoal sabe dos planos.
-- Parece que o meu no. Queiram nos dar licena, por favor? Precisamos
cumprimentar algumas pessoas antes de irmos para villa.
-- Isso foi indelicado -- sussurrou Pilar.
-- E da? -- Fora-se o encanto do flerte. Em seu lugar, instalara-se a fora
da fria e implacvel natureza. No ficava, ela pensou, nem um pouco menos
atraente nele. -- Alm de eu no gostar dele, a princpio, sou o COO e devia
ter sido informado de que um dos vice-presidentes iria sair do pas. Ele vem
se esquivando de mim h dias, evitando meus telefonemas. No gosto disso
-- Tony simplesmente ainda no se habituou a ter de prestar contas a voc,
nem a ningum.
-- Ter de se ajustar. -- Por cima da cabea dela, David localizou Tyler. --
Como tero tambm os outros. Por que no ajuda a abrir um pouco o caminho
e me apresenta a algumas das pessoas que esto se perguntando que diabos
eu fao aqui?

TYLER TENTAVA SER INVISVEL. DETESTAVA FESTAS GRANDES.
Gente demais com quem falar, poucas demais a quem tinha alguma coisa a
dizer. J fizera seus planos. Uma hora no lagar, uma hora na casa principal.
Depois podia sair sem ser visto, rumar para casa, assistir a um jogo pela
ESPN e ir dormir.
Pelo que percebia, a msica era alta demais, o lagar apinhado demais e a
comida calrica demais. No se importava de olhar as pessoas, sobretudo
quando pareciam to elegantes, educadas e tentando parecer melhores do
que aquelas com quem conversavam.
Era como assistir a uma pea e, desde que pudesse ficar em segurana na
platia, dava para agentar um pouco.
Vira o pequeno drama entre Pilar e Rene. Tyler gostava tanto de Pilar que
teria sacrificado seu canto e ficado ao lado dela se David Cutter j no
estivesse l. Cutter irritava-o antes de mais nada, mas tinha de dar-lhe
pontos pela rpida ao. O beijinho na mo fora uma boa jogada, que
parecera aborrecer Rene e Avano.
E qualquer coisa que tivesse dito varrera logo aquele sorriso idiota da cara
de Avano.
Avano era um imbecil, pensou Tyler, tomando o vinho. Mas com Rene
incitando-o, podia ser perigoso. Se Cutter conseguisse mant-lo na linha,
quase valia a pena t-lo na composio.
Quase.
-- Por que est a parado sozinho?
Tyler baixou os olhos e franziu a testa para Maddy.
-- Porque no quero estar aqui.
-- Ento por que est? Voc  adulto. Pode fazer o que quiser.
-- Continue pensando assim, menina, que est fadada  decepo.
-- Voc simplesmente gosta deser irritvel.
-- No, eu simplesmente sou irritvel.
Ela franziu os lbios e fez que sim com a cabea.
-- Certo. Posso tomar um gole do seu vinho?
-- No.
-- Na Europa, ensinam as crianas a apreciar vinho.
Disse isso de forma to majestosa, ali parada, coberta com camadas de
preto e uns sapatos medonhos de matar, que Tyler teve vontade de rir.
-- Ento, v para a Europa. Aqui isso se chama contribuir para a
delinqncia.
-- Estive na Europa, mas no me lembro muito bem. Vou voltar. Talvez more
em Paris por algum tempo. Eu estava conversando com o Sr. Delvecchio, o
fabricante de vinho. Ele disse que o vinho era um milagre, mas na verdade 
apenas uma reao qumica, no ?
--  as duas coisas. E nenhuma das duas.
-- Tem de ser. Eu ia fazer uma experincia e imaginei que voc podia me
ajudar.
Tyler piscou os olhos para ela, uma menina bonita, pessimamente malvestida
e com uma mente inquiridora.
-- Como? Por que no fala com seu pai?
-- Porque voc  o vinicultor. Achei que eu podia pegar algumas uvas, botar
numa tigela e ver o que acontece. Pegaria outra tigela, com o mesmo tipo e
peso de uvas, e faria algumas coisas. O tipo de coisa que voc faz.
-- Eu como uvas numa tigela -- ele disse, mas ela despertara seu interesse.
-- Veja, uma das tigelas seria deixada de lado, milagre do Sr. Delvecchio. A
outra, eu processaria com aditivos e tcnicas. Forando a reao qumica.
Depois ia ver qual tinha funcionado melhor.
Mesmo que use o mesmo tipo de uva, ter variaes entre os testes.
-- Por qu?
-- Voc fala das compradas em loja nesta poca do ano. Talvez no tenham
vindo do mesmo vinhedo. Mesmo que tenham, envolvem variaes. Tipo de
solo, fertilidade, penetrao da gua . Quando so colhidas. No se podem
testar as uvas na videira, porque j esto fora. O sumo em cada tigela
poderia ser muito diferente, mesmo que voc deixasse as duas de lado.
-- O que  sumo?
-- Suco. -- Vinho de tigela, ele pensou. Interessante. -- Mas, se quiser fazer
a experincia, deve usar tigelas de madeira. A madeira dar ao sumo uma
certa personalidade. No muita, mas um pouco.
-- Uma reao qumica -- disse Maddy com um sorriso. -- Est vendo? 
cincia, no religio.
-- Meu bem, o vinho  isso e muito mais. Sem pensar, ele ofereceu-lhe a
taa.
Ela tomou delicadamente, desviando o olhar apenas para garantir que o pai
no se achava por perto. Experimentando, deixou o vinho rolar na lngua
antes de engolir.
--  muito bom.
-- Muito bom? -- Com um abano de cabea, ele tomou de volta a taa. --
Este  de uma excepcional safra Pinot Noir. S um brbaro o acharia "muito
bom".
Ela deu um sorriso encantador, porque agora sabia que o tinha.
-- Voc vai me mostrar os grandes barris de vinho e as mquinas um dia?
-- Vou. Claro.
-- O Sr. Delvecchio disse que vocs fazem o branco em ao inoxidvel e os
tintos em madeira. No tive chance de perguntar a ele por qu. Por qu?

MAS NAO ERA UMA GRAA? PENSOU SOPHIA. O GRANDE E MAL-
humorado MacMillan absorto no que parecia uma conversa sria com a
Mortcia em miniatura. E, a julgar pelas aparncias, divertia-se. Estava com
uma bela aparncia.
Essa constatao alegrou-a ainda mais, por ter decidido no levar nenhum
acompanhante. Um convidado especfico significava que iria precisar
dedicar-lhe toda ateno. Livre, ela tinha muito mais espao para circular e
curtir a companhia de algum que mais a intrigasse.
No momento, achou que Tyler se encaixava nesse papel.
Levaria algum tempo para conseguir chegar at ele. Afinal, tinha obrigaes
a cumprir. Mas o mantinha no canto da viso quando comeou a abrir
caminho entre a multido.
-- Sophia. Estonteante como sempre.
-- Jerry. Boas festas, -- Ela curvou-se e beijou-lhe as duas faces. -- Como
vo os negcios?
-- Tivemos um ano de campanha publicitria. -- Ele passou o brao pelos
ombros dela e guiou-a por entre os grupos na sala de degustao, em
direo ao bar. -- E esperamos outro. Um passarinho me contou que voc
anda planejando uma brilhante campanha promocional.
-- Esses passarinhos falam demais, no acha? -- Ela deu um belo sorriso ao
barman. -- Champanhe, por favor. Outro do rebanho gorjeou sobre o
lanamento de um novo rtulo. Mercado mdio, alvo americano.
-- Algum ter de abater esses pssaros. Eu vi a matria elogiosa na Vino
sobre o seu Cabernet 1984.
-- Uma excelente safra.
-- E o leilo correu muito bem para voc. Que pecado o seu, Sophia, me
deixar em p, parado, quando estava em Nova York. Sabe como eu
aguardava, ansioso, para sair com voc.
-- No pude evitar. Mas no faltarei ao compromisso na prxima viagem.
-- Conto com isso.
Era um homem atraente, elegante, de uma atrao quase delicada. O mnimo
toque de fios grisalhos nas tmporas realava a classe, a leve covinha no
queixo acrescentava charme.
Nenhum dos dois falaria no pai dela, nem no mal guardado segredo da
infidelidade da mulher de Jerry, Em vez disso, manteriam o encontro como
um leve e amistoso flerte.
Entendiam um ao outro, pensou Sophia, muito bem. A concorrncia entre a
Giambelli e a La Coeur era intensa, e muitas vezes acirrada. E Jeremy
DeMorney no estava acima de usar quaisquer meios disponveis para puxar
sua ponta da corda. Ela admirava isso.
-- Eu at vou dar um pulo at l, para um jantar -- ela acrescentou. -- E o
vinho. Vinho Giambelli-MacMillan. amos querer o melhor, afinal.
-- Ento talvez o conhaque La Coeur, no meu apartamento.
-- Ora, voc sabe como me sinto em relao  mistura de negcios e...
negcios.
-- Voc  uma mulher cruel, Sophia.
-- E voc, um homem perigoso, Jerry. Como vo os filhos?
-- Esto timos. A me foi passar o Natal com eles em Saint Moritz.
-- Deve sentir saudades.
-- Claro. Achei que podia passar um ou dois dias no Valley antes de voltar
para casa. Que tal a gente misturar prazer e prazer?
--  tentador, Jerry, mas estou atolada. Acho que s vou voltar  superfcie
depois do dia primeiro. -- Ela captou um movimento pelo canto dos olhos e
viu a me afastar-se para o banheiro das mulheres. Com Rene alguns passos
atrs. -- Por falar em atolada, tenho de resolver uma coisa agora mesmo.
Adorei ver voc.
-- E voc -- ele respondeu, quando ela j se encaminhava por entre a
multido.
Seria ainda mais adorvel v-la, pensou Jerry, quando ela e o resto da
famlia estivessem arruinados.
Ajudar a causar isso seria misturar negcios com negcios, decidiu. E prazer
com prazer.

RENE CRUZOU A PORTA DO BANHEIRO DAS SENHORAS,CONFOR-
tvel e revestido de madeira, um passo atrs de Pilar. -- Conseguiu cair de
p, no foi?
Rene se apoiou na porta, para desencorajar algum de entrar atrs delas.
-- Voc teve o que queria, Rene. -- Embora sentisse que iria icar com as
mos trmulas, Pilar abriu a bolsinha e pegou o batom. Pretendia ter dois
minutos ntimos antes de fazer as ltimas rodadas e dirigir-se para a villa.
-- Eu no devia ser mais um problema para voc.
-- As ex-mulheres so sempre um problema. Oua o seguinte: no vou
tolerar que me ligue, nem para Tony, e cuspa seus insultos neurticos.
-- Eu no liguei.
-- Voc  uma mentirosa. E covarde. Agora vai se esconder atrs de David
Cutter. -- Ela agarrou a mo de Pilar e virou-a para cima, de modo que o anel
fulgiu nas luzes. -- Que tinha voc para conseguir arrancar isso dele, sua
bajuladora?
-- Eu no preciso de um homem para comprar jias, nem qualquer outra coisa
para mim, Rene.  uma das diferenas elementares entre ns.
-- No, vou dizer qual  a diferena elementar entre ns. Eu corro atrs do
que quero, s claras. Se acha que vou deixar Tony se escafeder da jogada
porque voc corre gemendo para sua famlia, se enganou. No vai descart-
lo, nem David Cutter vai. Se voc tentar... pense s em toda a informao
que ele poderia passar aos seus concorrentes.
-- Ameaar a famlia, ou a empresa, no ajudar Tony a garantir a posio
dele na empresa. Nem a sua.
-- Veremos. Sou agora a Sra. Avano. E o Sr. e a Sra. Avano vo se juntar 
famlia, e aos outros executivos de alto escalo, na villa esta noite, lenho
certeza de que seu convite foi mal direcionado.
-- Vai apenas se constranger -- disse Pilar.
-- Eu no me constranjo facilmente. Lembre-se do seguinte: Tony tem uma
parte da Giambelli, e eu uma parte dele. Sou mais jovem que voc e muito
mais jovem que sua me. Ainda estarei aqui quando vocs se forem.
-- Estar? -- Deliberadamente, Pilar virou-se para o espelho, devagar, e
com todo cuidado pintou os lbios. -- Quanto tempo acha que vai levar para
o Tony enganar voc ?
-- Ele no ousaria. -- Segura do seu poder, Rene sorriu. -- Ele sabe que, se
fizer, eu o matarei. No sou uma esposa paciente, passiva. Tony me disse
que abominvel companheira de cama voc era. A gente deu boas risadas.
Meu conselho? Se quiser trazer Cutter na coleira, passe ele para sua filha.
Ela me parece algum que sabe entreter um homem na cama.
To logo Pilar deu meia-volta, Sophia abriu a porta.
-- Oh, que divertido! Conversa de meninas? Rene, que coragem a sua usar
esse tom de verde com seu colorido.
-- Foda-se, Sophia.
-- Erudita, como sempre. Mama, precisam de voc na villa. Sei que Rene vai
nos dar licena. Precisa de espao e intimidade para retocar a maquiagem.
-- Ao contrrio, vou simplesmente deixar as duas a ss para voc segurar
sua me quando ela se dissolver em lgrimas indefesas. No estou acabada,
Pilar -- acrescentou Rene, abrindo a porta. -- Mas voc, sim.
-- Que divertido! -- Sophia examinou o rosto da me. -- Parece que voc no
vai se dissolver em lgrimas, indefesas ou no.
-- No, acabei com elas. -- Pilar largou o batom de volta na bolsa e fechou-a
com um estalo. -- Sophie, querida, seu pai se casou com ela hoje.
-- Ora, que ele v pro inferno! -- Num longo suspiro, ela avanou, envolveu a
me nos braos e apoiou a cabea em seu ombro. -- Feliz Natal.

Captulo Oito
Sophia esperou o momento propcio. Precisava pegar o pai sozinho para dizer
o que tinha a dizer, e no com Rene toda enroscada nele como uma hera
venenosa no tronco de uma rvore. Prometeu a si mesma que seria calma,
madura e clara como cristal. Perder as estribeiras no era uma boa opo.
Fez sala enquanto esperava e danou com Theo, to divertido que quase
curara seu humor azedo.
Quando viu Rene na pista de dana com Jerry, ps-se em movimento.
No se surpreendeu ao ver o pai enfiado numa mesa de canto, flertando com
Kris. Isso a revoltou um pouco, mas no a surpreendeu v-lo jogar charme
em cima de outra mulher no dia do casamento.
Ao aproximar-se, porm, captou os sinais sutis -- um leve toque, um olhar
promissor que lhe revelaram ser mais que um flerte. E a sim, surpreendeu-
se.
O pai, teve certeza, traa Rene com Kris. Mesmo assim, era to tpico dele,
to ridiculamente ele, que mal deteve o seu avano.
No sabia qual dos trs naquele desastrado tringulo era o maior idiota, e
no momento isso no era problema seu.
-- Kris, lamento interromper este afetuoso momento, mas preciso falar com
meu pai. A ss.
--  um prazer ver voc tambm. -- Kris levantou-se. -- Faz tanto tempo que
se deu ao trabalho de aparecer no escritrio que quase esqueci como voc .
-- No creio que eu deva prestar contas a voc, mas no deixarei de enviar
uma foto.
-- Ora, princesa -- comeou Tony.
-- No enche. -- Sophia manteve o tom de voz tranqilo, nivelado, mas o
olhar que disparou ao pai fez desaparecer a cor do rosto dele e fechar sua
boca. -- Vamos atribuir toda esta situao  insanidade da festa de Natal.
Teremos uma reunio, Kris, no meu escritrio, quando meu horrio permitir.
Por esta noite, deixemos os negcios de lado em favor de assuntos pessoais.
Pode se considerar com sorte por ter sido eu quem viu vocs antes de Rene.
Agora preciso falar com meu pai sobre negcios de famlia.
-- Com voc ao volante, sua famlia no vai ter muito do que se pode chamar
de negcios. -- Deliberadamente, Kris curvou-se e passou a ponta do dedo
pelas costas da mo de Tony. -- Mais tarde -- murmurou e saiu sem pressa.
-- Sophie, voc teve uma impresso totalmente errada. Kris e eu estvamos
apenas tomando um drinque de confraternizao.
O olhar dela varou-o como uma lmina.
-- Poupe isso para Rene. Eu conheo voc h mais tempo. O tempo suficiente
para no ter o mnimo interesse por suas trepadas. Por favor, no
interrompa -- disse, antes que ele pudesse expressar um protesto nervoso.
-- No vai levar muito tempo. Entendo que as congratulaes so
necessrias. Ou, se no necessrias, exigidas pela mais elementar educao.
Ento aceite a porra dos meus parabns.
-- Ora, Sophie. Ele se levantou, estendeu o brao para tomar a mo da filha,
mas ela se ps fora de alcance. -- Sei que voc no gosta de Rene, mas...
-- Eu no dou a mnima para Rene e, no momento, no dou muito mais para
voc.
Ele parecia sinceramente surpreso e magoado. Ela se perguntou se treinara
a expresso no espelho ao se barbear.
-- Sei que no fala a srio. Lamento que esteja contrariada.
-- No, no lamenta. Lamenta eu estar encostando voc na parede e
cobrando o seguinte: voc se casou hoje, e no se deu ao trabalho de me
dizer. Esse  o primeiro ponto.
-- Princesa, foi uma cerimnia simples, pequena. Nem eu nem Rene achamos...
-- S feche a matraca. -- A resposta dele fora rpida e tranqila, mas
Sophia sabia a verdade. Nem sequer lhe ocorrera contar a ela. -- Voc veio
para uma reunio de famlia, e sob o manto profissional; ser uma reunio de
famlia, exibir-se e  sua nova mulher, alm de inoportuno ...  bastante
insensvel de sua parte, mas se agrava muitos nveis acima, porque voc no
teve a decncia de primeiro contar  Mama sobre o casamento. Esse  o
segundo ponto.
Elevara a voz, apenas o suficiente para fazer virarem algumas cabeas.
Constrangido, Tony chegou mais perto. Tomou o brao dela e puxou-o com
delicadeza.
-- Por que no vamos l para fora, que eu explico? No h necessidade
alguma de fazer uma cena aqui.
-- Ah, h sim. Toda necessidade. Estou resistindo desesperadamente 
tentao de fazer s isso. Porque eis a sacanagem, seu filho-da-me. Voc
jogou essa mulher na cara de minha me. -- Espetou um dedo no peito dele
quando a raiva se elevou e assumiu o controle. Voc deixa Rene encurralar
minha me, cuspir nela toda, fazer mias, feri-la, e fica sentado aqui,
babando por mais uma mulher... e jovem o bastante para ser sua filha, se
voc se lembra que tem uma. Esse  o terceiro ponto, maldito seja voc.
Terceiro e voc est fora. Fique longe dela e de mim. Mantenha distncia e
cuide para que sua esposa faa o mesmo. Caso contrrio, eu vou machucar
voc, prometo, vou fazer voc sangrar
Ela deu uma brusca meia-volta, recuperou-se, captou o divertido e falso
sorriso no rosto de Kris. Deu um passo nessa direo, mais um, no
inteiramente segura de aonde pretendia ir. Ento sentiu agarrarem-lhe o
brao e afastarem-na multido adentro.
-- M idia -- disse Tyler, tranqilo, deslizando o aperto do brao para a
cintura, a fim de mant-la perto. -- Na verdade, pssima idia assassinar
membros do quadro executivo na festana da empresa. Vamos l para fora.
-- No quero ir l para fora.
-- Mas precisa. Est frio. Voc esfria. At agora s entreteve um punhado
de pessoas que estavam perto o bastante para ouvir voc perfurar Avano.
Parabns, alis. Mas, soltando fumaa assim, vai acabar encenando um
espetculo para festa toda.
Ele quase a empurrou pela porta.
-- Pare de empurrar, pare de me arrastar. No gosto de ser guiada por um
homem.
Desprendeu-se com um safano, contornou e por um triz no o acertou.
-- V em frente. O primeiro golpe  grtis. Depois deste, eu revido.
Ela inspirou fundo, exalou e tornou a inspirar, olhando-o furiosa. A cada
exalao, o longo cintilante disparava centelhas no luar.
Era, pensou, escandalosa e magnfica. E perigosa como um punhado de
dinamites com os pavios j sibilando.
--  isso a -- ele disse, assentindo com a cabea. -- Mais algumas e talvez
voc consiga ver alm do sangue nos olhos.
-- Que canalha!
Ela se afastou das paredes cobertas de hera do lagar, dos arbustos envoltos
em luzes festivas. Longe das risadas, da msica que pulsava contra as
janelas altas e estreitas. Dirigiu-se  sombra dos velhos ciprestes, onde
podia descarregar a raiva at ficar mais uma vez calma.
Ele ouviu-a resmungando em italiano. Parte, ele entendia e nada daquilo
parecia especialmente agradvel.
-- No pude evitar -- ela disse, voltando-se para onde ele estava,  espera
de extravasar de vez.
Baixou as mos agitadas lateralmente.
-- No, no imagino que pudesse. Sempre foi uma moleca mimada e
malcriada.
Como fazia frio, e ela comeava a tremer, ele tirou o palet e passou-o em
volta dos ombros dela.
O acesso de raiva se extinguira, deixando-a ferida e vazia por dentro.
-- No me incomodo com ele e Kris, apesar de isso complicar o meu
departamento. Sei lidar com isso, com ela. Mas ele magoa minha me.
-- Ela est se arranjando, Sophie. Vai ficar bem. -- Ty enfiou as mos nos
bolsos, para no ceder  enorme vontade de acarici-la e abra-la. Ela
parecia muito infeliz. -- Lamento que ele tenha magoado voc.
-- . Bem, qual a novidade? -- A exploso de raiva deixara-a com uma
maante dor de cabea e o estmago em carne viva. -- Acho que devo
agradecer a voc por ter me tirado de l antes que eu perdesse o controle
com os espectadores.
-- Se voc se refere a Kris, ela no me parece espectadora.  mais uma
operadora. Mas, por qualquer das duas coisas, dispenso os agradecimentos.
Ela virou-se, viu pela expresso em seu rosto que ele comeava a ficar sem
graa. Como achou isso enternecedor, ergueu-se nas pontas dos ps e
beijou-o de leve na face.
-- Mesmo assim, obrigada. Eu no estava gritando, estava? Perco a noo
quando tenho um ataque de raiva.
-- No muito, e o conjunto tocava alio.
-- J  alguma coisa, ento. Bem, creio que j terminei meu trabalho aqui.
Que tal me acompanhar a p at a villa? Pode garantir que eu no tenha mais
uma exploso de raiva.
-- Acho que sim. Quer seu casaco?
-- Seria muito bom. -- Ela sorriu e fechou mais o palet dele na frente. --
Eu estou com o seu.

OS JARDINS DA VILLA CINTILAVAM COM MILHARES DE LUZES
fericas. Os terraos aquecidos eram enfeitados com flores e rvores
ornamentais. Grupos de mesa atraam os convidados a aflurem  luz das
estrelas, aproveitarem a noite e a msica que saa ondulando pelas portas e
janelas do salo de baile.
Pilar usou isso como pretexto para ter um momento ao ar livre antes de
retornar ao interior e circular entre os convidados, e como um dever.
Pensou em esgueirar-se para fumar um cigarro de emergncia.
-- Est se escondendo?
Ela saltou no canto sombrio e depois relaxou quando viu que era o padrasto,
-- Voc me pegou de surpresa.
-- Eu tambm dei uma fugida aqui para fora. -- Num movimento exagerado,
ele espichou o pescoo, olhando para um lado e outro, e suspirou. -- Voc
tem um a?
A risada soou maravilhosa.
-- S um -- ela sussurrou de volta. --A gente pode dividir.
-- Acenda, parceira. Sua me est ocupada. Temos tempo suficiente para
fumar um.
Ela acendeu o cigarro e os dois ficaram ali nas sombras, amigvel e
conspiratoriamente passando o cigarro entre si.
Tranqila na companhia dele, ela encostou-se  parede da casa e prestou
ateno. As luzes brilhavam nos campos, destacando os entrelaamentos e
dedos nus das vinhas. Atrs delas, o glamour da msica avolumava-se.
--  uma linda festa.
-- Como sempre. -- Com muito pesar por ambos, Eli apagou ofinal do
cigarro. -- Voc, sua me e Sophia se superaram este ano.
Espero que Tereza tenha lhe dito o quanto a gente apreciou todo o trabalho
que vocs tiveram neste evento.
-- Disse.  maneira dela.
-- Ento me deixe agradecer  minha. -- Envolveu-a nos braos e guiou-a
numa dana. -- Uma mulher bonita jamais deveria ficar sem par de dana.
-- Oh, Eli. -- Ela apoiou a cabea no ombro dele. -- O que eu faria sem voc?
Ando numa confuso to grande.
-- Voc no, Pilar, voc j era adulta, com uma filha, quando me casei com
sua me. Tentei no interferir na sua vida.
-- Eu sei.
-- Tereza j faz o suficiente por ns dois -- ele disse, levando-a a dar
risadinhas. -- Vou dizer o que penso. Ele nunca foi bom o bastante para voc.
-- Eli...
-- Jamais seria bom o bastante. Voc desperdiou muitos anos com Tony
Avano, mas conseguiu ter uma filha maravilhosa. Valorize isso e no
desperdice o resto de sua vida querendo saber por que no deu certo.
-- Ele se casou com Rene. Assim, sem mais nem menos.
-- Tanto melhor. -- Ele fez que sim quando ela se virou para olh-lo. -- Para
voc, para Sophia, e todos os envolvidos. Eles se combinam, assim como so.
E o casamento deles simplesmente o conduz um passo a mais para fora da
sua vida. Se fosse do meu jeito, ele tambm estaria fora da empresa.
Totalmente fora. E desconfio que  o que vai acontecer no prximo ano.
-- Ele  bom no que faz.
-- Outros sero igualmente bons, e no me daro indigesto. Sua me tem
l suas razes para mant-lo. Mas no to importantes quanto antes. Deixe
que ele se v -- disse Eli beijando lhe a testa. -- Vai afundar ou nadar. Nos
dois casos, no  mais problema seu.
Do terrao abaixo, Tony ouviu, e sua boca endureceu. Continuava
atormentado pelo que fora um ataque completamente desnecessrio e
inconveniente da prpria filha, repetia sem parar a si mesmo. Conseguira
livrar-se, mas fora em pblico. Em pblico e num evento empresarial.
Que de empresarial, pensou, nada tivera.
No acreditava, no mesmo, que os Giambelli fossem demiti-lo. Mas
tornariam difcil a sua vida.
Achavam que ele era idiota, descuidado. Mas se enganavam. J tinha um
plano em andamento para garantir uma slida segurana financeira. Sabia
Deus que precisava de dinheiro, e muito. Rene j esgotara os recursos que
ele tinha.
Claro que fora insensato envolver-se com Kris. Vinha se esforando o
mximo para romper o caso, com delicadeza. At ento, fora um pouco mais
problemtico do que previra. Era realmente lisonjeiro que uma linda jovem
como Kris fosse to afeioada, to relutante a seguir o prprio caminho. E
furiosa, lembrou, furiosa o bastante para telefonar a Rene no meio da noite.
Mesmo assim, tudo se resolvera. Rene deduzira que quem ligara fora Pilar, e
ele no a corrigira. Por que corrigiria?
Tomou o vinho, apreciou a luz das estrelas e, como era de seu feitio,
comeou a afastar os problemas antes que se enraizassem.
Tambm vinha se conduzindo bem com Kris, decidiu. A promessa de ajud-la
no avano para o cargo de Sophia na Giambelli represara essa inundao, to
magnificamente quanto uma pequena jia em geral represava as inundaes
de Rene.
Tudo se resumia, pensou, a conhecer a fraqueza da presa.
E conhec-la, us-la, mantinha o status.
Pretendia continuar levando a vida que julgava merecer. Era hora de
canalizar seus recursos, um pouco mais aqui, um pouco mais ali. E aguardar
com ansiedade o futuro.

SOPHIA ANDAVA PELO CRCULO DE AMIGOS E FAZIA O MELHOR
possvel para evitar a prima Gina. A mulher vinha se tornando mais que uma
peste. Elevara o nvel do constrangimento. No apenas vestia o que parecia
uma tenda vermelha de Natal com vinte quilos de lantejoulas, mas se
ocupava em trombetear qualquer um que acuasse o brilhantismo do marido.
Sophia notou que Don se mantinha bem perto do bar. Semi-embriagado,
tentava parecer invisvel.
-- Tudo bem com sua me? Ela parou e sorriu para Helen.
-- Quando a vi pela ltima vez, sim. Oi, tio James. Virou-se para dar um
abrao apertado no marido de Helen.
James Moore fora uma das pessoas constantes em sua vida, e muito mais um
pai que o seu prprio.
Ele se deixara ficar gorducho, perdera mais cabelos que conservara, porm,
por trs dos culos de aros prateados, lampejou os olhos verdes para ela.
Era como o tio preferido de qualquer um, e um dos mais sorrateiros
advogados de defesa na Califrnia,
-- A moa mais bonita na sala, no , Helen?
-- Sempre.
-- No aparece para me ver h semanas -- queixou-se James.
-- Vou compensar, -- Ela deu-lhe o segundo beijo na fece. -- La Signora anda
me mantendo muito ocupada,
-- Foi o que eu soube. Trouxemos um presente para voc.
-- Adoro presentes, me d.
-- Est ali, marcando passo com aquela ruiva.
Sophia olhou e soltou um rpido ganido de prazer ao ver Lincoln Moore.
-- Eu achava que Linc ainda continuava em Sacramento.
-- Ele vai pr voc a par -- disse James. -- V at l. Convena-o a se casar
com voc desta vez,
-- James. -- Helen arqueou uma sobrancelha. -- Vamos procurar Pilar. V se
divertir.
Lincoln Moore era alto, moreno e bonito. E tambm a coisa mais prxima de
um irmo que Sophia tinha. Em vrios estgios da vida dos dois, haviam
usado os dois meses que ela era mais velha em proveito prprio.A amizade
das mes fora o elo que garantira a criao dos dois juntos. Por isso
nenhum deles jamais se sentira filho nico.
Ela chegou por trs, passou o brao pela curva do dele e perguntou  ruiva:
-- Este cara est dando em cima de voc?
-- Sophie. -- Rindo, ele levantou-a do cho e deu-lhe um rpido giro. --
Minha irm adotiva -- disse  ruiva. -- Sophia Giambelli, Andra Wainwright.
Minha namorada. Seja boazinha.
-- Andra. -- Sophia ofereceu a mo. -- A gente conversa depois.
-- No, nada disso. Ela mente sobre mim.  um passatempo.
--  um prazer conhec-la. Linc me fala muito sobre voc.
-- Ele tambm mente. Vocs dois vieram de Sacramento?
-- Na verdade, no, sou residente do Hospital San Francisco, no turno do
pronto-socorro.
-- Machucado no basquete. -- Linc ergueu a mo direita e exibiu um dedo
engessado. -- Desloquei tentando encestar. Andy deu uma olhada e o
consertou. Depois eu dei em cima dela.
-- Na verdade, deu em cima de mim antes do conserto do dedo. Como no
pude deslocar o resto das juntas, aqui estou. E  uma festa maravilhosa.
-- Estou morando de novo em So Francisco -- disse Linc a Sophia. -- Decidi
dar um impulso em meu pai num trabalho na firma dele. Quero uma
verdadeira experincia legal antes de me aprofundar na rea poltica. Sou
um reconhecido assistente judicial, e no tanto assim, mas vai me dar o que
preciso at passar para o Tribunal de Justia.
-- Que maravilha ! Linc,  fabuloso. Sei que seus pais devem estar
emocionados por terem mais uma vez voc em casa. Vamos arranjar tempo
para pr o papo em dia, certo?
-- Certssimo. Eu soube que voc anda sobrecarregada no momento.
-- Sempre se d um jeito. Quando faz os exames?
-- No prximo ms.
-- Ele  brilhante, voc sabe -- ela disse a Andy. -- Isso s vezes
 um verdadeiro p no traseiro.
-- No comece, Sophie.
-- Divirtam-se. -- Ela avistou Ty entrando, a expresso infeliz. -- O dever
me chama. No saia  francesa, sem ver minha me. Sabe como ela 
maternal com voc.
-- Pode deixar. Vou ligar para voc.
--  melhor mesmo. Foi um prazer conhecer voc, Andra. -- Voc tambm.
-- Andy ergueu os olhos para Linc. -- Ento, voc  brilhante?
-- . Uma maldio.
Rindo, ele a arrastou para a pista de dana.
-- Sorria, MacMillan.
Ty baixou os olhos para Sophia.
-- Por qu?
-- Porque vai danar comigo.
-- Por qu? -- Ele reprimiu um suspiro quando ela lhe tomou a mo. --
Desculpe. Fiquei tempo demais com Maddy Cutter. A garota no pra de
fazer perguntas.
-- Vocs dois parecem estar se dando bem. A gente danaria melhor se voc
me tocasse de verdade.
-- Certo. -- Ele passou a mo pela cintura dela, --  uma garota interessante
e inteligente. Voc viu meu av?
-- No o vejo h algum tempo. Por qu?
-- Quero falar com ele, e com La Signora. Depois imagino que, tendo
liquidado isso, possa ir para casa.
-- Voc  um verdadeiro animal festeiro. -- Ela deslizou a mo pelo ombro e
enfiou-a, brincalhona, nos cabelos dele. Muito cheios, pensou. Todo grosso e
rebelde. -- Viva um pouco, Ty.  Natal.
-- Ainda no. Resta muito trabalho a fazer antes do Natal, e depois.
-- Escute. -- Ela cutucou mais uma vez os cabelos dele para que ele parasse
de percorrer com os olhos os convidados  procura do av e a encarasse. --
No tem trabalho a fazer esta noite, e eu ainda devo a voc por ter me
resgatado.
-- Voc no estava em apuros. Todos os demais estavam. -- No era gratido
o que ele buscava, mas distncia. Uma distncia segura. Ela era sempre
perigosa, mas colada num homem era letal. -- E quero examinar alguns
grficos e desenhos. Qual a graa? -- exigiu saber, quando ela desatou a rir.
-- Eu s estava imaginando como seria se voc algum dia se soltasse um
pouco. Aposto que  um selvagem, MacMillan.
-- Eu me solto -- ele resmungou.
-- Me diga alguma coisa. -- Ela roou os dedos pela nuca dele, gostou do
jeito como seus olhos azuis lacustres fulgiram de aborrecimento. -- Uma
coisa que no tenha nada a ver com vinho ou trabalho.
-- Que mais existe?
-- Arte, literatura, uma divertida experincia infantil, uma fantasia ou um
desejo secreto.
-- Minha fantasia atual  me mandar daqui.
-- Capriche. Vamos l. A primeira coisa que lhe vier  cabea.
-- Arrancar este vestido de voc, e ver se seu gosto  igual ao cheiro. -- Ele
esperou um instante. -- Beleza, isso calou voc.
-- Apenas momentaneamente, e s porque estou avaliando minha reao.
Porque me vejo muito mais intrigada pela imagem do que esperava. -- Ela
inclinou a cabea para trs e examinou o rosto dele. Oh, sim, gostava dos
olhos, sobretudo agora, quando lanavam centelhas de calor. -- O que voc
imagina que seja isso?
-- J respondi a perguntas suficientes por uma noite.
Ele comeou a recuar, mas ela o impediu apertando a mo no seu ombro.
-- Que tal a gente cumprir o dever aqui e depois ir para sua casa?
-- E to fcil assim para voc?
-- s vezes, .
-- No para mim, mas obrigado. O tom dele se tornou desinteressado e frio
quando afastou mais uma vez o olhar dela e circulou-o pelo salo. -- Mas eu
diria que voc tem um monte de alternativas aqui, se estiver a fim de uma
ficada rapidinha de uma noite s. Eu vou para casa.
Ele recuou e afastou-se.
Ela levou quase dez segundos para recuperar a respirao, e mais trs para
a fria irromper e esfolar-lhe a garganta. A demora permitiu que ele sasse
da sala e descesse o primeiro lance de escada, antes que ela o segurasse,
-- No, no vai. -- Ela sibilou as palavras, baixinho, e o contornou. -- Aqui
dentro.
Entrou no salo da famlia e fechou as portas com estrondo.
-- Cazzo ! Culo ! Seu filho-da-me.
Mesmo ento, a voz saiu baixa e controlada. Ele no sabia o quanto isso lhe
custara.
-- Voc tem razo. -- Ele interrompeu-a antes que ela cuspisse todo o
veneno. -- Aquilo foi despropositado e desnecessrio, e eu sinto muito.
A desculpa, dada com tranqilidade, transformou a raiva em lgrimas, mas
ela as reprimiu por pura fora de vontade.
-- Sou uma puta, em sua opinio, porque penso em sexo como um homem.
-- No. Nossa. -- Ele no quisera dizer isso, mas apenas irrit-la como ela o
irritada. Depois se afastar dela como do diabo. -- No sei o que pensar.
-- Estaria tudo muito bem, no estaria, se eu fingisse relutncia, se
deixasse voc me seduzir. Mas, como sou honesta, sou barata.
-- No. -- Ele prendia os braos dela agora, esperando firmar os dois. --
Voc me deixa excitado. Sempre deixou. Eu no devia ter dito o que disse.
Nem feito o que fiz. Pelo amor de Deus, no chore.
-- Eu no vou chorar.
-- timo. Tudo bem. Escute, voce  linda, excessiva e alm da compreenso.
Consegui manter as mos longe de voc at agora e vou continuar mantendo.
-- Est com elas em mim agora.
-- Desculpe. -- Ele deixou os braos carem dos lados. -- Desculpe.
-- Est me dizendo que me insultou porque  covarde?
-- Escute, Sophie. Vou para casa esfriar a cabea. Vamos voltar ao trabalho
amanh e esquecer que isso aconteceu.
-- Acho que no. Eu deixo voc excitado, ? -- Ela deu-lhe um
empurrozinho, avanando, e ele recuou. -- E sua resposta  me dar um tapa.
-- Foi a resposta errada. J pedi desculpa.
-- Nada boa. Tente isto.
J se lanara sobre ele antes que ele pudesse agir. S restou a reao.
Ela tinha a boca quente, macia e muito hbil. Provava, voraz, a dele. O corpo
sensual, gostoso e muito feminino. Colava-o intimamente no dele,
Ele ficou com a mente vazia. Admitiria isso depois -- apenas passara do
ligado para o desligado como um interruptor, no lhe restando escudo algum
contra o salto de pantera da excitao. Ela tinha o gosto igual ao cheiro; at
a, ele ficou sabendo.
Escuro, perigoso e feminino.
Ele puxou-a mais para perto, antes que ela pudesse evitar, e respondeu ao
cortante belisco dos dentes dela, mesmo quando seu corao acelerou alm
do suportvel.
Num minuto, ela se enrascava nele como uma trepadeira extica,
estranguladora, e no seguinte desprendeu-se dele, deixando-o sem um pingo
de sangue na cabea.
-- D um jeito nisto.
Ela correu um dedo levemente pelo seu lbio inferior e voltou-se para mais
uma vez abrir as portas com fora.
-- Espere um minuto, droga.
Ele prendeu-lhe o brao e virou-a para si. No sabia o que planejava fazer,
mas no seria nada agradvel.
Ento viu o absoluto choque no rosto dela. Antes que pudesse reagir, ela o
empurrou pata o lado e atravessou correndo o salo at a mesa.
-- Dio ! Madonna, quem faria uma coisa dessas?
Viu ento os trs anjos Giambelli. Tinta vermelha riscava de cima a baixo os
trs rostos esculpidos como sangue de ferimentos de chibatadas. Escritas
de um lado ao outro do peito de cada um, no mesmo violento matiz, as cruis
mensagens:
                                PIRANHA N 1
                                PIRANHA N 2
                                PIRANHA N 3
-- Sente-se, Sophie. Vou tirar os anjos antes que sua me ou sua av vejam.
Vou lev-los para casa e limpar.
-- No, eu fao isso. Acho que  esmalte de unha. Uma abominvel
sacanagem de menina -- ela disse, sem se alterar. Perder a calma de nada
adiantaria, pensou, juntando as trs estatuetas. E no conseguia encontrar
raiva sob a tristeza. -- Rene, eu imagino. Ou Kris. As duas odeiam as
Giambelli no momento.
-- Me deixe cuidar disso para voc. -- Ele apoiou as mos nos ombros dela.
-- Quem quer que tenha feito isso sabia que ia ferir voc. Posso limpar e pr
de volta a antes que algum note.
Ela queria empurrar os anjos naquelas mos grandes e fortes, e ir junto com
eles. Por isso, recuou.
-- Cuido disso sozinha, e voc est com pressa para ir para casa.
-- Sophie.
Ele falou num tom to paciente, to bondoso, que ela suspirou.
-- Preciso fazer isso eu mesma. E ficar furiosa com voc por mais algum
tempo. Portanto, v embora.
Ele deixou-a, mas, assim que chegou l fora, voltou-se e subiu os degraus de
pedra para o salo de baile. Ficaria ali por algum tempo, decidiu. S para
assegurar-se de que a nica coisa machucada naquela noite fossem os anjos
de madeira,
                                   + + +
EM SEU QUARTO, SOPHIA LIMPOU COM TODO CUIDADO AS
estatuetas. Eram, como desconfiara, manchas de esmalte vermelho forte.
No se podiam destruir as Giambelli to facilmente. Um ato de vandalismo,
mesquinho e medonho, mas no permanente.
Levou-os de volta para o primeiro piso, recolocou-os no lugar e viu que esse
nico ato devolveu-lhe o equilbrio.
Mais fcil, percebeu, do que se estabilizar contra o que se passara entre ela
e Tyler.
Babaca, pensou, dirigindo-se a um espelho antigo e acrescentando uma nova
camada de p-de-arroz ao nariz. O babaca sem dvida sabia beijar quando
fazia algum esforo, mas isso no o tornava menos babaca. Esperava que
sofresse. Esperava que passasse uma noite longa, suada e desconfortvel.
Se chegasse cansado e infeliz no dia seguinte, ela poderia simplesmente
ajud-lo a sair da difcil situao.
Mas, em compensao...
Olhou-se no espelho ao desenhar os lbios com o dedo.
Deixou logo cair a mo para pegar o batom na bolsa, quando as portas se
abriram.
-- Sophia.
-- Nonna. -- Ela lanou um olhar aos trs anjos. Tudo nos conformes. -- S
dando alguns retoques. J vou voltar.
Tereza fechou as portas atrs de si.
-- Vi voc correr atrs de Tyler.
-- Humm.
Deixando a coisa por a, Sophia pintou com cuidado os lbios.
-- Voc acha, porque sou velha, que no reconheo a expresso no seu olhar?
-- Que expresso, Nonna?
-- Sangue quente.
Sophia deu uma leve encolhida dos ombros e reps a tampa no batom.
-- Tivemos uma discusso.
-- Uma discusso no exige a substituio do batom. Rindo agora, Sophia se
virou.
-- Que olhos penetrantes voc tem, vov. Ns tivemos uma discusso, e eu
resolvi  minha maneira. Para mim,  legal e moral beijar Ty, Nonna. No
somos parentes consangneos.
-- Eu amo voc, Sophia. E amo Tyler.
Sophia amoleceu. Tais palavras raras vezes saam da boca de Tereza.
-- Eu sei.
-- Eu no pus os dois juntos para machucarem um ao outro.
-- Por que nos ps juntos?
-- Pelo bem da famlia. -- Como o dia fora longo, Tereza entregou os pontos
e sentou-se. -- O sangue quente obscurece o julgamento. Trata-se de um
ano crucial, e j antes de comear temos uma sublevao. Voc  uma linda
jovem.
-- Alguns dizem que me pareo com minha av,
Tereza se permitiu um pequeno sorriso. Tambm ela olhou os trs anjos e
seus olhos se suavizaram.
-- Um pouco, talvez. Voc lembra mais, porm, seu av. Ele era lindo, como
uma pintura. Eu me casei por dever, mas no foi uma provao. E ele era
bondoso. A beleza  uma arma, cara. Cuidado com o uso que faz dela, pois
sem essa bondade vai se voltar e revidar em voc.
Sophia sentou-se.
-- Eu sou... dura, Nonna?
-- .
Tereza estendeu o brao e tocou de leve a mo da neta.
-- No  uma coisa ruim. Uma mulher frgil  moldada com demasiada
facilidade e ferida igualmente com demasiada facilidade Sua me sofreu as
duas coisas. Ela  minha filha, Sophia -- acrescentou av, friamente, quando
Sophia se enrijeceu. -- Vou dizer o que penso. Voc no  frgil e segue o
seu caminho. Estou satisfeita com voc. Acho apenas que ser dura pode
torn-la frgil, se no tiver cuidado. Tome cuidado.
-- Est satisfeita comigo, Nonna, porque, ao seguir meu caminho, eu sigo o
seu?
-- Talvez. Voc  uma Giambelli. O sangue se revela.
-- Tambm sou Avano.
Tereza inclinou a cabea, enfurecendo a voz:
-- Voc  a prova, no , de qual descendncia  a mais forte? Seu pai est
em voc. Ele  um homem astuto, e voc sabe ser.  ambicioso e voc
tambm. Mas a fraqueza dele jamais foi a sua. A falta de vontade dele o
arruinou tanto quanto a falta de coragem. Voc tem vontade e coragem, e
por isso pode ser dura e no frgil.
-- Sei que voc odeia meu pai -- disse Sophia, baixinho. -- Esta noite, eu
tambm.
-- dio  uma palavra forte. No devia us-la contra seu pai, no importa o
que ele seja, nem o que fez. No sinto o menor dio por Anthony Avano. --
Tereza tornou a lievantar-se. -- No tenho quaisquer sentimentos por ele
agora. Ele fez a ltima opo no que se refere a mim. Vamos lidar um com o
outro uma ltima vez, depois ele no existir mais para mim.
-- Pretende demiti-lo.
-- Ele fez sua opo -- repetiu Tereza. -- Agora ter de arcar com as
conseqncias. No  para voc se preocupar. -- Estendeu a mo. -- Venha,
voc devia estar na festa. Vamos procurar sua me e mostrar a eles as trs
geraes das mulheres Giambelli.

ERA MUITO TARDE QUANDO TONY ABRIU A PORTA E ENTROU NO
apartamento. Imaginava se algum sabia que ele tinha a chave, depois de
todo esse tempo.
Levara a prpria garrafa de vinho, um seleto da adega pessoal. O Barolo
manteria as coisas civilizadas. As conversas comerciais, a palavra
"chantagem" jamais lhe passou pela mente, deviam sempre ser conduzidas
de maneira civilizada.
Desarolhou a garrafa na cozinha, deixou o vinho na bancada para respirar e
escolheu duas taas. Embora se decepcionasse por no encontrar frutas
frescas na geladeira, virou-se com o queijo Brie.
Mesmo s trs da manh, a apresentao importava.
Fora uma sorte ter marcado o encontro to tarde. Exigira-lhe certa faanha
baixar o facho de Rene. Ela passara mais de uma hora, mesmo depois da ida
de carro para casa, fazendo-lhe um sermo sobre as Giambelli, o tratamento
dispensado a ela, o futuro dele na empresa. E dinheiro.
Dinheiro era o principal problema, claro.
Dificilmente podia culp-la por isso.
O estilo de vida deles exigia muito dinheiro. Ao contrrio de Pilar, Rene no
era rica, nem contribua com nada para as despesas do casal. E, ao contrrio
da ex-mulher, gastava dinheiro como se logo tornasse antiquado ter algum
no bolso.
No importa, pensou, arrumando biscoitos salgados com o queijo. Seria uma
questo simples e civilizada aumentar o fluxo de caixa.
As Giambelli pretendiam deslig-lo da empresa. Tinha certeza disso agora.
Nem Pilar nem Sophia se levantariam em sua defesa. Sabia que havia uma
possibilidade, mas preferira ignor-la e esperar o melhor. Ou mais
exatamente, admitia ali, em privado, deixara Rene encost-lo na parede.
Mas tinha opes. Vrias opes. A primeira das quais chegaria a qualquer
minuto.
Esse primeiro acordo comercial seria um tapa-buraco, ganharia tempo para
ele. Tinha outras possibilidades, que podiam ser ampliadas se necessrio.
Tinha contatos e perspectivas.
Tereza Giambelli lamentaria muito t-lo subestimado. Numerosas pessoas
lamentariam muito.
No fim, cairia de p, como sempre. No tinha a menor dvida.
A batida  porta o fez sorrir. Serviu duas taas de vinho, arrumou-as com a
garrafa numa bandeja com o queijo e os biscoitos. Ps a bandeja na mesa de
centro na sala de estar.
Puxou os punhos da camisa, alisou os cabelos e encaminhou-se at a porta,
pronto para comear as negociaes.


PARTE DOIS
O Cultivo
No  ter e descansar, mas cultivar e transformar-se, que constitui a
natureza da perfeio na concepo da cultura.
MATTHEW ARNOLD

Captulo Nove
Eu no sei por que tinhamos que voltar aqui -- queixou-se Ty.
-- Porque eu preciso de mais algumas coisas. -- Podia ter adiado, admitiu
Sophia. Mas nenhum motivo para desperdiar uma viagem a So Francisco
sem parar no seu apartamento. J no tivera pena de Tyler e pegara o SUV
de Eli, em vez de seu conversvel? -- Escute -- continuou. -- Eu expliquei que
no incio vou ter de fazer uma verificao aleatria nos escritrios. Kris vai
continuar a resistir  nova cadeia de comando. Ela precisa nos ver juntos,
como uma equipe.
-- Que equipe!
-- Estou me arranjando. -- Ela parou no estacionamento e puxou o freio. --
Acho que a gente podia fazer uma trgua de festas de fim de ano. No
momento,Ty, no tenho tempo para brigar com voc.
Saltou do carro, bateu a porta e enfiou as chaves na sua pasta.
-- Qual o problema? -- perguntou Tyler.
-- Eu no tenho problema. O problema  voc.
Ele contornou o carro at ela e inclinou-se sobre o pra-choque.
Sophia andava nervosa fazia dois dias, pensou. Tempo suficiente para
qualquer um preocupar-se. No achava que a causa fosse o incidente na
festa de Natal. Ela sara por cima.
-- Uma equipe, lembra? Continua transtornada com os anjos?
-- No. Cuidei deles, no? Esto como novos.
-- , cuidou muito bem. Ento, qual o problema agora?
-- Quer saber o problema? timo. Detesto acordar ao raiar de todo dia e
andar pelos campos no frio. Mas tenho feito isso. Depois volto ao trabalho
que fui formada para fazer. E sou obrigada a fazer malabarismos da villa
aos escritrios aqui, onde tenho uma pessoa no comando que no apenas
dorme com meu pai, mas est pronta para puxar meu tapete.
-- Despea-a.
-- Ah,  uma idia. -- Ela bateu o dedo na tmpora, a voz desprendendo
desdm. -- Como no me ocorreu isso? Seria talvez porque estamos h
semanas numa reorganizao, no meio de uma imensa, intensa e vital
campanha promocional, e no tenho ningum qualificado para assumir o
trabalho dela? Sim, voc sabe, acho que talvez seja este o motivo de eu no
ter chutado aquele traseiro odioso e traioeiro.
-- Escute, menina malcriada, se est com areia no sapato, sacuda o p para
limpar.
-- No tenho tempo -- ela rebateu, irritada, e, para prov-lo, retirou a
agenda estufada. -- Gostaria de dar uma olhada aqui, ver meus horrios nas
prximas semanas?
Tornou a guard-la, brusca, na pasta.
-- Ento est com dificuldades. -- Ele encolheu de leve os ombros. -- Tire as
manhs de folga para fazer o que tem de fazer. Eu fao seu trabalho nos
vinhedos.
Ela disparou-lhe um olhar que parecia uma bala.
-- Ningum faz meu trabalho por mim, Mac<illan. Mas voc acertou em cheio
ao dizer que estou sob grande presso. Preciso treinar minha me, que tem
pouco a nenhum interesse por relaes pblicas. Tive de desmarcar trs
encontros, com trs homens muito interessantes, porque estou enterrada
em trabalho. Minha vida social j comea a ir pela descarga abaixo. No
consegui passar por Rene durante dois dias e entrar em contato com meu
pai, que no apareceu no escritrio dele. E  imperativo que eu fale com ele
sobre uma das nossas principais contas nas prximas quarenta e oito horas,
pois algum, que infelizmente no ser eu, vai precisar voar a San Diego
para uma reunio daqui a quarenta e nove horas.
-- Que tal Margaret? Achei que ela ia assumir a maioria das contas
maiores.
-- Acha que j no tentei? Tenho cara de imbecil? -- Cansada, frustrada e
farta, ela se dirigiu pisando forte no elevador da garagem e apunhalou o
boto. -- Ela viajou para a Itlia ontem  tarde. Nem ela nem o escritrio
esto inteiramente atualizados sobre a conta da Twiner, porque sempre foi
a queridinha do meu pai. Como no quero que o pessoal da Twiner saiba que
temos um buraco no grupo, venho sapateando com eles h quatro dias.
-- Ningum faz o seu trabalho -- observou Ty. -- Mas voc est fazendo o
do seu pai.
-- No. Estou cheia de fazer isso. Mas vou fazer o da Giambelli, e por isso o
tenho coberto enquanto puder. No gosto disso, estou de saco cheio e com
uma dor de cabea de amargar.
-- Tudo bem. -- Ele surpreendeu os dois estendendo a mo para massagear-
lhe os ombros enrijecidos quando entraram no elevador. -- Tome uma
aspirina, depois a gente trabalha para resolver tudo, um passo de cada vez.
-- Ela no tem o direito de me impedir de falar com meu prprio pai. Nem no
nvel pessoal nem no profissional.
-- No, no tem. -- Esta, pensou Ty, era a verdadeira dor de cabea. --  um
jogo de poder. Ela no vai conseguir o que deseja, a no ser que voc a deixe
saber como isso a irrita. Tente contorn-lo.
-- Se eu fizer isso, vou fazer com que parea um... maldito seja.  um idiota.
Sinto tanta raiva dele por me colocar nessa posio. Se eu no resolver isso
at o fim do dia...
-- Vai resolver at o fim do dia.
-- . -- Ela soprou forte e saiu do elevador no terceiro andar. Virou-se para
examin-lo. -- Por que est sendo to legal comigo?
-- Para livrar voc da presso. Alm disso, a Twiner  uma grande aposta. Eu
no passo o tempo todo nos campos -- ele disse, ao v-la arquear as
sobrancelhas. -- Se me dissesse que estava tentando encontrar seu pai, eu
teria lhe dado uma mo. Voc no procurou Cutter.
Ela comprimiu os lbios.
-- No. Mas imagino que ele saiba que algum anda aprontando alguma. Vai
identificar o alvo muito em breve.
-- Ento teremos de ser mais rpidos. Trabalho em equipe, lembra?
-- S porque voc antipatiza mais com ele do que comigo.
-- E isso significa o qu?...
A pergunta a fez rir ao enfiar a chave na fechadura.
-- Que  um motivo to relevante quanto qualquer outro. Preciso apenas
pegar algumas coisas, entre elas umas pastas antigas que quero que minha
me examine. E acho que talvez eu tenha algumas anotaes sobre a Twiner
que vo tapar parte desse buraco. Deixarei voc em casa por volta do
jantar. -- Ela parou e virou-se. -- A no ser -- disse, acrescentando com um
sorriso vagaroso -- que queira encomendar e experimentar um novo tipo de
trabalho em equipe.
-- Corta essa.
-- Voc gostou de me beijar.
Quando eu era garoto, gostava de ma verde. Descobri que fazem um
inferno no organismo.
-- Eu sou madura.
Ele estendeu a mo  frente dela para virar a maaneta.
--  o que voc diz.
Ela deu lhe um aperto amistoso no brao ao virar-se.
-- Estou comeando a gostar de voc, MacMillan. Que diabos vamos fazer
em relao a isso?
Abriu a porta, avanou um passo para dentro e estancou.
-- Pai?
Teve uma breve impresso, no mais que um borro, antes de Ty empurr-la
mais uma vez porta afora. Mas aquela imagem manchada e gravada na mente
era s o que via.
O pai, desabado na poltrona, o lado do rosto, o prateado cintilante nas
tmporas, a frente da camisa toda coberta de uma crosta escura. E os
olhos, os belos e inteligentes olhos, enevoados e arregalados.
-- Pai. Ele est... Eu tenho de... Meu pai.
Plida como um lenol, ela j comeava a tremer quando Ty a empurrou
contra a parede do lado de fora do apartamento.
-- Escute, Sophia. Oua. Use o celular. Ligue para a emergncia. Ligue j.
-- Uma ambulncia. -- Ela lutava para atravessar o nevoeiro que queria
tomar-lhe a mente, e comeou a lutar com Tyler. -- Ele precisa de uma
ambulncia. Preciso ir ter com ele.
-- No.
Ele prendeu-lhe os braos e deu-lhe uma sacudida forte. -- Voc no pode
ajudar seu pai.
Engavetou a idia de voltar e checar ele mesmo. No podia deixar Sophia
sozinha. E j vira o suficiente para saber que no havia mais nada a fazer.
Puxou-a para o cho, abriu sua pasta e retirou o celular.
-- Preciso chamar a polcia -- disse.
Sophia levou a cabea aos joelhos ao ouvi-lo dar  telefonista de emergncia
as informaes necessrias. No conseguia pensar. No queria pensar ainda.
De algum modo tinha de refazer-se e superar o choque.
-- Estou muito bem -- disse. A voz saiu baixa, quase calma, embora as mos
a contradissessem. -- Sei que ele est morto. Tenho de ir at ele.
-- No. -- Tyler instalou-se no cho ao lado dela e passou o brao pelos seus
ombros tanto como conteno quanto reconforto. -- No sabe. No est
bem. Sinto muito, Sophia. No pode fazer mais nada.
-- Sempre h alguma coisa. -- Ela ergueu a cabea. Tinha os olhos secos.
Ardendo de secura. --Algum matou meu pai e tenho de fazer alguma coisa.
Eu sei como ele era. -- A voz falhou e as lgrimas que escaldavam na
garganta afloraram e derramaram-se. -- Ainda  meu pai.
-- Eu sei.
Tyler forou mais o aperto at ela apoiar a cabea em seu ombro. Precisava
fazer alguma coisa, pensou, enquanto ela chorava. Mesmo que fosse apenas
esperar.

ELE NO A DEIXOU. SOPHIA DISSE A SI MESMA PARA LEMBRAR
que, independentemente do que acontecera ou no, entre os dois, quando
tudo ficara o pior imaginvel, Tyler continuara com ela.
Ela sentou-se no sof do apartamento do outro lado do corredor defronte
ao seu. Fora a duas festas ali, lembrou. O casal gay que ali morava dava
festas deliciosas. E Frankie, um artista grfico que muitas vezes trabalhava
em casa, abrira a porta para ela e a polcia. E, abenoado fosse, fechara-se
discretamente no quarto para dar-lhes intimidade.
Sem dvida, a notcia iria percorrer o prdio como fogo eltrico. Mas por
enquanto estava sendo um amigo. Ela tambm se lembraria disso.
-- No sei o que ele fazia no meu apartamento -- repetiu Sophia.
Tentava examinar o rosto do homem que a interrogava. Como era o seu nome
-- detetive Lamont? Claremont? -- suas feies continuavam deslizando
para fora de foco.
-- Seu pai, ou outra pessoa, tinha uma chave?
O nome era Claremont. Alexander Claremont.
-- No, eu... Sim. -- Sophia ergueu a mo, apertou o dedo na tmpora como
para libertar o pensamento. -- Meu pai. Eu dei uma chave a ele pouco depois
de me mudar. Ele ia fazer uma reforma no apartamento dele, e eu ia sair do
pas. Ofereci-lhe usar meu apartamento enquanto eu estivesse fora. Acho
que nunca recebi a chave de volta. Nem tornei a pensar mais nisso.
-- Ele usava o apartamento com freqncia?
-- No. Nem usou quando ofereci; ele se hospedou num hotel. Ou disse que
se hospedara, ela pensou. Usara o apartamento na ocasio, e desde ento?
Ela no chegara na volta de uma viagem e sentira que algum estivera l em
sua ausncia?
Poucas coisas fora do lugar.
No, era idiotice. Teria sido o servio de limpeza. O pai no tinha motivo
algum para usar aquele apartamento. Tinha o seu prprio, com Rene.
Ele enganou a sua me, murmurou-lhe uma voz na mente. Enganava Rene.
-- Srta. Giambelli?
-- Sinto muito. Que foi que disse?
-- Quer um pouco d'gua? Alguma coisa? -- interrompeu Tyler, querendo
dar-lhe um momento para sintonizar-se mais uma vez.
-- No, no, obrigada. Desculpe, detetive. Estou perdendo o fio da meada,
-- Tudo bem. Eu perguntei quando foi a ltima vez que voc teve contato
com seu pai?
-- Na noite de sbado. Houve uma festa em nosso vinhedo.  um evento
anual. Meu pai estava l.
-- A que horas ele saiu?
-- Eu no sei dizer. Eram muitos convidados. Ele no se despediu de mim.
-- Foi sozinho?
-- No, sua mulher foi com ele. Rene.
-- Seu pai era casado?
-- , se casou no dia da festa. Rene Foxx. No entraram em contato com
ela?
-- Eu no sabia dela. Posso encontrar essa senhora no endereo de seu pai?
-- Sim, eu... sim -- ela repetiu, mordendo de volta o que quase escapara da
lngua.
-- Voc tem uma arma, Srta. Giambelli?
-- No.
-- No guardava nenhuma arma no apartamento?
-- No. No gosto de armas.
-- Seu pai tinha?
-- No sei. No que eu saiba.
-- Quando foi a ltima vez que voc esteve no apartamento?
-- H algumas semanas. Como eu disse, estou hospedada basicamente na
cidade de Napa pelos prximos meses. Vim hoje aqui, depois que o Sr.
MacMillan e eu samos do escritrio no centro, para pegar mais algumas
coisas.
-- Como era seu relacionamento com seu pai? Ela se enrijeceu. Sentado a
seu lado, Tyler sentiu.
-- Ele era meu pai, detetive. Que tal eu lhe poupar o trabalho de me
perguntar se o matei? No, no matei. Nem sei quem o matou ou porqu.
A voz de Claremont continuou firme:
-- Ele tinha inimigos?
-- Obviamente.
-- Que voc soubesse? -- ele acrescentou sem titubear.
-- No. No conheo ningum que poderia t-lo matado. Claremont baixou os
olhos para o bloco e pareceu examinar algumas anotaes.
-- H quanto tempo seus pais se divorciaram?
-- J esto separados de fato ha sete anos.
-- Separados?
-- , No viviam juntos, em nenhum verdadeiro sentido, desde que eu era
criana.
-- Essa Rene Foxx seria a segunda mulher do seu pai?
-- Correto.
-- Casados h apenas dois dias.
-- Assim me informaram.
-- Quando seus pais se divorciaram, Srta. Giambelli?
Formou-se ento uma bola fria no estmago dela. No iria deix-lo perceber
os nervos  flor da pele.
-- Creio que o divrcio saiu na vspera de meu pai se casar com Rene. Foi
apenas uma formalidade, detetive. -- Embora com os joelhos trmulos, ela
se levantou. -- Sinto muito, tenho de ver minha famlia. No quero que
saibam pelo noticirio da noite nem por um estranho. Preciso ir para casa.
Pode me dizer... o que acontecer com meu pai agora? Que providncias
precisam ser tomadas?
-- Vamos continuar com a investigao. Minha parceira est trabalhando no
outro lado do corredor com a equipe na cena do crime. Vou conversar sobre
as providncias com o parente mais prximo.
-- Sou filha nica do meu pai.
-- A esposa dele  a parenta mais prxima, Srta. Giambelli. Ela abriu a boca
e fechou-a. Quando ergueu a mo trmula, Tyler simplesmente tomou-a na
sua e segurou-a.
-- Entendo. Claro. Preciso ir para casa, Ty.
-- Ns j vamos.
-- Sr. MacMillan, tenho algumas perguntas a lhe fazer.
-- Eu lhe dei meu endereo. -- Tyler olhou para trs ao conduzir Sophia at
a porta. -- Sabe onde me encontrar.
-- . -- Claremont deu um tapinha no bloco quando a porta se fechou. --
Isto eu sei.
Tinha o pressentimento de que ele e a parceira iriam fazer um passeio pelo
campo, muito em breve.
Foi at a porta do quarto, certo de que, se a abrisse, o vizinho ia estatelar-
se porta afora, primeiro a orelha. Em vez disso, bateu. Era melhor manter
as coisas amistosas enquanto fazia mais perguntas.
                                    + + +

ALEXANDER CLAREMONT GOSTAVA DE VINHO FRANCS, SAPATOS
italianos e do estilo do blues americano. Criado em So Francisco, era o
filho do meio de pais de classe mdia, que tinham dado duro para garantir
uma vida boa e educao para os trs filhos.
O irmo mais velho era pediatra; o caula, professor em Berkeley.
Alexander Claremont planejara ser advogado.
Nascera para ser policial.
Nas mos de um tira, a lei era uma entidade diferente em relao ao que era
nas de um advogado. Para este, existia para ser moldada, torcida,
manipulada e feita sob medida para encaixar-se nas necessidades do cliente.
Ele entendia e, num nvel muito bsico, respeitava isso.
Para o policial, era a linha a ser trilhada.
A linha de ao que Claremont venerava.
Agora, mal se haviam passado duas horas aps entrar no local do crime,
pensava na linha a trilhar.
-- Que acha da filha?
Ele no respondeu a princpio, mas a parceira j se habituara a isso. Era ela
quem dirigia, porque chegara primeiro ao carro.
-- Rica -- ele acabou por dizer. -- Classuda. Cabea-dura. No disse nada
que no queria. Passaram montes de coisas pela sua mente, mas tomou
cuidado com as palavras,
-- Famlia grande, importante. Um grande e suculento escndalo --
comentou Maureen Maguire, freando no sinal.
Tamborilou com os dedos no volante.
Ela e Claremont eram dois plos opostos, o que em sua opinio explicava por
que haviam encontrado o ritmo certo aps os atritos iniciais, trs anos
atrs, e trabalhavam bem juntos.
Mais branca impossvel, irlandesa, sardenta, ela tinha cabelos louro
avermelhados, olhos azul-claros e umacovinha na face esquerda. Aos trinta e
seis anos, mais quatro que Claremont, era confortavelmente casada, e ele,
um solteiro radical, levava uma uma aconchegante vida suburbana, enquanto
ela, uma elegante vida urbana numa rea residencial elegante.
-- Ningum viu o cara entrar. Nenhum veculo. Estamos levantando as
empresas de txi pra saber se deixaram algum l. Pela aparncia do corpo,
ele foi morto nas ltimas trinta e seis horas. Tinha a chave do apartamento
no bolso, junto com trezentos dlares, trocados, e muitos cartes de
crdito. Um Rolex de ouro, abotoaduras de ouro com bonitos
diamantezinhos. O apartamento  cheio de objetos que poderiam ser
levados facilmente. Nada foi roubado.
Ele lanou-lhe um olhar.
-- No brinca.
-- Acabei de conferir a lista. Duas taas de vinho, uma cheia, outra quase.
S uma com impresses, as dele. Baleado onde estava sentado. Sem luta,
nenhum sinal de luta. Pelo ngulo dos disparos, o assassino estava sentado no
sof. Agradvel festinha tipo queijos e vinhos e, oh, me desculpe, bam, bam,
bam. Voc est morto.
-- O cara se divorciou e casou de novo no espao de um dia. O interldio
romntico deu errado?
-- Talvez. -- Maureen franziu os lbios. -- Difcil saber pela cena do crime.
Trs disparos, calibre vinte e cinco, eu diria, e  queima-roupa. No foi um
estrondo muito grande, mas  surpreendente ningum ter ouvido nada num
prdio elegante como aquele. Estranho, h, como um homem recm-casado
no volta pra casa e a esposa no comunica seu desaparecimento.
Ela estacionou e olhou para outro prdio elegante.
-- Vamos descobrir por qu.

RENE ACABARA DE CHEGAR DE UMA SESSO DE TRS HORAS NO
salo de beleza. Nada lhe levantava mais o astral que um longo paparico. A
no ser as compras. Mas ela tambm cuidara disso com uma rpida incurso
na Neiman's, onde se tratara com generosidade.
Tony, pensou, ao servir-se uma tacinha de vermute, ia pagar, e pagar caro
por esse ataque de mau humor.
Ele sara assim antes, durante dois dias numa ocasio, quando ela o
pressionara sobre algum problema. O bom era que sempre voltava, sempre
com alguma jia muito atraente, e, claro, concordava em fazer qualquer
coisa que ela exigisse, para comear.
No se importava muito, pois lhe dava algum tempo livre para si mesma.
Alem disso, agora era legal e certo. Ergueu a mo esquerda e examinou o
brilho dos anis. Era a Sra. Anthony Avano e pretendia continuar assim.
Ou arrancar-lhe tudo num divrcio.
Quando a campainha tocou, ela sorriu. Seria Tony, de volta, a rastejar.
Sabia que no devia usar a prpria chave quando sumia. A ultima vez que o
fizera, ela lhe apontara uma arma.
Uma coisa a favor de Tony: ele aprendia rpido.
Ela abriu a porta, preparada para faz-lo implorar, e franziu o cenho para o
casal que exibia distintivos.
-- Sra. Avano?
-- Sim. De que se trata?
-- Sou o detetive Claremont e esta  a minha parceira, detetive Maguire, do
Departamento de Polcia de So Francisco. Podemos entrar?
-- Por qu?
-- Por favor, Sra. Avano. Podemos entrar?
-- Tony est na cadeia? -- ela sibilou entre dentes ao recuar. -- Que diabos
ele fez?
-- No, senhora, ele no est na cadeia. -- Maureen entrou. -- Lamento, Sra.
Avano. Seu marido est morto.
-- Morto? -- Rene soltou uma lufada irritada de ar. -- Que ridculo! Vocs
cometeram um engano.
-- Nao  engano algum, Sra. Avano -- disse Claremont. -- Podemos nos
sentar?
Rene sentiu um leve aperto no estmago e recuou.
-- Espera que eu acredite que Tony est morto. Morto simplesmente?
-- Lamentamos muito, senhora. Que tal nos sentarmos?
Maureen comeou a tomar-lhe o brao, mas ela afastou de chofre.
Perdera um pouco da cor no rosto, mas continuava com os olhos cheios de
vida. E raiva.
-- Foi um acidente?
-- No, senhora. Poderia nos dizer quando viu seu marido, ou teve contato
com ele, pela ltima vez?
Rene arregalou os olhos para Claremont.
-- Na noite de sbado, madrugada de domingo, eu acho. Que foi que
aconteceu com Tony?
-- No ficou preocupada por no ter notcias dele?
-- Tivemos uma briga -- ela respondeu, bruscamente. -- Tony muitas vezes
fica amuado depois. No sou me dele.
-- No, senhora -- concordou Maureen. --  a esposa dele. Vocs se casaram
h pouco, no?
-- Isso mesmo. Que foi que aconteceu com ele?
-- Anthony Avano foi baleado e morto.
Ela jogou a cabea para trs, mas quase imediatamente a cor retornou-lhe
de repente ao rosto.
-- Eu sabia ! Avisei a ele que ela ia fazer uma loucura, mas ele no me ouviu.
Ela andava nos atormentando, no andava? Esses tipos calados, a gente no
pode confiar neles.
-- Quem  ela, Sra. Avano?
-- A ex-mulher dele. -- Ela inspirou fundo, voltou-se e foi pegar o drinque. --
Ex-mulher. Pilar Giambelli. A cadela o matou. Se no foi ela, a vagabundinha
da filha.

ELE NO SABIA O QUE FAZER POR ELA, ALI SENTADA NO BANCO
do carona, os olhos fechados. Mas sabia que no estava dormindo. A postura
era um verniz fino e flexvel, e ele no tinha certeza do que encontraria se
conseguisse quebr-lo.
Ento lhe ofereceu seu silncio na longa estirada para o norte. A energia, a
vitalidade que Sophia possua como ar, desaparecera. Era o que mais o
preocupava. Parecia uma boneca sentada a seu lado. Talvez fosse uma bolha,
um vazio entre o choque e o estgio seguinte, de dor da perda. Ele no
conhecia nada disso. Jamais perdera algum importante. Com certeza jamais
perdera algum de forma to brutal e repentina.
Quando ele virou na alameda, ela abriu os olhos. Como se pressentisse a
casa. Entrelaou os dedos no colo.
A bolha explodiu, pensou Ty, vendo as juntas embranquecerem.
-- Vou entrar com voc -- ofereceu-se.
Ela comeou a recusar, aquela resposta condicionada tipo eu consigo fazer
sozinha. Era duro admitir que no sabia se poderia fazer qualquer coisa
sozinha naquele momento. E ele era da famlia. Ela precisava de famlia.
-- Obrigada. Minha me. -- Teve de engolir em seco quando ele parou o
furgo na base dos degraus. -- Vai ser muito difcil para minha me.
-- Sophia. -- Ele ps a mo na dela e cerrou o aperto quando ela quis afast-
la. -- Sophia -- repetiu, at ela olhar para ele. -- As pessoas sempre acham
que tm de ser fortes. No tm.
-- As Giambelli tm. Estou entorpecida, Ty. E receio o que vai acontecer
quando no estiver. Receio comear a pensar. Receio comear a sentir. S
posso fazer a coisa seguinte.
-- Ento faremos a coisa seguinte.
Ele saltou do carro e contornou-o at o lado dela. Num gesto que fez a
garganta dela arder, tomou-lhe a mo.
A casa estava quente e perfumada pelas flores da me. Sophia olhou o
majestoso saguo em volta como uma estranha. Nada mudara. Como era
possvel nada haver mudado?
Viu Maria vindo pelo corredor. Tudo se move como um sonho, pensou. At os
passos ecoam como um sonho.
-- Maria, onde minha me est?
-- L em cima, trabalhando no seu escritrio. Srta . Sophia?
--E La Signora?
 Nervosa, Maria olhou para Tyler.
-- Nos campos com o Sr. Mac.
-- Pode mandar algum cham-los, por favor? Chamar meus avs?
-- Sim, agora mesmo.
Ela saiu rpido, enquanto Sophia se virava em direo s escadas, a mo
fechada na de Tyler. Ouviu uma msica que vinha do escritrio. Uma melodia
ligeira e superficial. Quando atravessou o umbral, viu a me, os cabelos
puxados para trs, curvada sobre o teclado do computador.
-- Que quer dizer com voc cometeu uma operao ilegtima? Maldito, eu
odeio voc.
Outra hora a confusa frustrao teria divertido Sophia, Agora isso e tudo o
mais davam-lhe vontade de chorar.
-- Mama?
-- Oh, graas a Deus, Sophia, fiz alguma coisa. No sei o qu. J estou
treinando h uma hora e continuo intil nesta coisa.
Ela recuou da mesa, ergueu os olhos... e imobilizou-se.
-- Que ? Que foi que houve? -- Conhecia cada linha, cada curva, cada
expresso do rosto da filha. Sentiu o estmago revirar-se dolorosamente ao
precipitar-se para o outro lado do aposento. -- Que aconteceu?
-- Mama, -- Tudo muda agora, pensou Sophia. To logo dissesse, nada jamais
seria de novo como antes. -- Mama,  o papai.
-- Est doente? Ferido?
-- Ele...
Ela no saberia dizer as palavras, Em vez disso, soltou a mo de Ty e deu um
abrao apertado na me.
A revirada no estmago de Pilar parou. Tudo dentro dela parou.
-- Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. -- Colando o rosto no de Sophia, comeou a
balanar. -- No. Oh, filhinha, no.
-- Sinto, sinto muito, Mama. A gente o encontrou. No meu apartamento.
-- Algum... algum o matou l.
-- Como? Espere.        Tremendo, ela recuou, -- No.
Sente-se, Pilar.
Tyler j levava as duas para o sof de dois lugares encostado na parede.
-- No, no. No pode ser. Eu preciso...
-- Sentem-se -- repetiu Tyler, e baixou-as gentilmente. -- Me escutem.
Olhem pra mim. -- Esperou Pilar tatear em busca da mo da filha. -- Sei que
 difcil para as duas. Avano estava no apartamento de Sophia. No sabemos
por qu. Parecia que tinha ido se encontrar com algum l.
Pilar piscou. Sua mente falhava, como se faltasse uma pea na engrenagem.
-- No apartamento de Sophia? Por que diz isso? Que quer dizer?
-- Tinha uma garrafa de vinho na mesa. Duas taas. -- Ele lembrava a cena.
Uma morte rematada com silenciosa elegncia. --  provvel que a pessoa
com quem ele se encontrou l o tenha matado. A polcia j interrogou
Sophia.
-- Sophia. -- Ela apertou os dedos da filha como uma pina. -- A polcia.
-- E vo fazer mais perguntas a ela. A voc. Talvez a todos ns. Sei que 
difcil,  difcil pensar direito, mas vocs precisam se preparar pra lidar
com eles. Acho que deviam chamar um advogado. As duas.
-- Eu no quero um advogado. No preciso de advogado. Por Deus, Ty, Tony
foi assassinado.
-- Exato. No apartamento da sua filha, apenas dias depois de se divorciar de
voc e se casar com outra. Apenas dois dias depois de Sophia acuar o pai em
pblico.
A culpa, terrvel e violenta, cravou seus dentes no ntimo de Sophia.
-- Maldito seja, Ty, se alguma de ns fosse matar meu pai, j teria feito
anos atrs.
Tyler desviou o olhar para o de Sophia. A energia voltara, notou, e furiosa.
O que, decidiu, era uma vantagem.
--  isso que vai dizer aos tiras? Vai dizer aos reprteres quando
comearem a ligar? A publicidade  o seu ofcio, Sophie. Pense.
A respirao dela chegava rpido demais. No podia det-la. Alguma coisa
dentro de si queria explodir, romper a frgil pele do controle e gritar. Ento
sentiu a mo da me trmula na sua, e arrastou tudo de volta ao ntimo.
-- Tudo bem. Mas ainda no. Temos o direito de ficar de luto primeiro. --
Puxou a me mais para junto de si. Temos o direito de ser humanas primeiro.
-- Levantou-se e foi at a porta com pernas que pareciam frgeis e
vacilantes. -- Voc poderia descer agora, conversar com a Nonna e Eli? Diga
a eles o que precisam saber. Quero ficar a ss com minha me.
-- Certo. Pilar. -- Ele curvou-se e tocou-lhe o joelho. -- Sinto muito.
Encontrou os olhos de Sophia ao sair. Viu apenas a grande e escura
profundidade daqueles olhos ao fechar a porta entre os dois.

Captulo Dez
Ty tinha razo, mas Sophia s ia preocupar-se com isso mais tarde. Talvez
ajudasse ter alguma coisa insignificante para ruminar. Os reprteres
comearam a ligar menos de dez minutos depois de ela contar  me e antes
que conseguisse descer e falar com a av.
Sabia a linha de ao que iriam adotar. Unidade. E dispunha-se a chocar-se
de frente com a polcia e com isso amortecer o golpe para a me.
No haveria comentrios  imprensa enquanto ela no tivesse condies de
redigir o comunicado certo. Nem entrevistas. Tinha plena conscincia de que
o assassinato do pai geraria um circo na mdia, mas os Giambelli no
entrariam no picadeiro central para apresentar-se.
Isso significava que tinha de dar inmeros telefonemas para os membros da
famlia e empregados principais. Mas o primeiro -- maldito Tyler -- era para
Helen Moore.
Precisavam de assistncia legal.
-- Liguei para tia Helen -- disse a Tereza.
-- timo. -- Sentada no salo da frente, as costas bem retas, a av tinha o
rosto composto. -- Sua me?
-- Ela precisou de alguns minutos a ss.
Com um assentimento de cabea, Tereza ergueu a mo e tomou a de Sophia.
Era uma ligao, e bastava.
-- Em quem voc mais confia pra redigir uma declarao  imprensa e
filtrar os telefonemas?
-- Em mim. Quero fazer eu mesma, Nonna.
-- timo. -- Tereza deu-lhe um aperto e soltou a mo. -- Sinto pela sua dor,
cara. Tyler nos contou tudo que aconteceu. No me agrada que tenha sido
interrogada antes de falar com Helen ou James.
-- No tenho nada a esconder. No sei de nada. Meu pai foi baleado sentado
na poltrona em meu apartamento. Como poderia deixar de dizer a eles
qualquer coisa que ajude a encontrar quem o matou?
-- Se no sabe de nada, no poderia dizer nada que ajudasse. -- Ela
descartou a polcia com um gesto impaciente. -- Tyler, pegue um pouco de
vinho pra Sophia.
Quando o telefone tocou mais uma vez, ela bateu a mo no brao da
poltrona.
-- Eu vou cuidar disso -- comeou Tyler.
-- No, no queremos algum da famlia falando com a imprensa hoje. --
Sophia esfregou a testa, ordenou-se a pensar. -- Voc devia buscar David.
Pea que venha. Se der, explique tudo a ele, vou preparar uma declarao.
Por enquanto,  apenas isto: a famlia se isolou e no tem comentrios a
fazer.
-- Eu o trago aqui. -- Tyler atravessou a sala at ela e ergueu seu rosto com
a mo no queixo. -- Voc no precisa de vinho, precisa de uma aspirina.
-- No preciso de nenhuma das duas coisas. -- Ela recuou. -- Me d meia
hora -- disse  av.
-- Sophie. -- Eli saiu do lado de Tereza e abraou-a -- Descanse um pouco.
-- No posso.
-- Tudo bem, faa o que for melhor pra voc. Vou comear a dar os
telefonemas.
-- Eu posso fazer isso.
-- Pode, mas eu farei. E tome a aspirina.
-- Est bem, por voc.

AJUDOU. A ASPIRINA E O TRABALHO. UMA HORA DEPOIS, ELA SE
sentia mais equilibrada, tinha a declarao esboada e resumira os fatos
para David.
--Vou cuidar da imprensa, Sophia. Cuide de voc e de sua me.
-- Superaremos tudo. Voc precisa ficar atento a algum reprter
empreendedor que tente se aproximar da villa e da MacMillan. Voc tem
filhos, e essa ligao com a famlia tambm ser feita.
-- Vou falar com os meninos. Eles no vo vender uma matria aos tablides
sensacionalistas, Sophia.
-- Me desculpe. Eu no quis dar a entender isso. Mas ainda so crianas.
Podem ser atormentados e pegos desprevenidos.
-- Vou falar com eles -- ele repetiu. -- Sei que isso  duro pra voc. Nem
consigo imaginar como  duro pra voc. E sua me. -- Levantou-se. --
Qualquer coisa que eu puder fazer  s me avisar.
-- Agradeo a voc. -- Ela hesitou, avaliando-o enquanto o fazia.
Sentimentos mesquinhos, programas de ao da empresa tinham de ser
postos de lado. -- Meus avs confiam em voc, seno no estaria aqui. Assim,
tambm vou confiar. Vou instal-lo aqui em casa pra cuidar dos telefones. E
dar meu espao, mas talvez eu precise dele.
Ela dirigiu-se  porta e ento simplesmente parou no meio da sala. Olhou-o,
ele pensou, sem expresso. Como se algum mecanismo interno se houvesse
encerrado.
-- Por que no descansa um pouco?
-- No posso. Desde que continue a me movimentar, dou conta. Sei o que as
pessoas achavam dele. Sei o que vo dizer dele, aos sussurros em coquetis,
em artigos jocosos na imprensa. -- O que eu pensava dele. O que eu disse a
ele. Oh, meu Deus, no pense nisso agora. -- Nada mais pode feri-lo. Mas
pode e vai ferir minha me. Por isso, no devo parar. -- Ela apressou-se a
sair. -- Acho que a biblioteca seria o melhor lugar -- ela comeou. -- Vai ter
privacidade l, e  conveniente se precisar de alguma coisa em que no
pensou. Ela estava no meio das escadas, descendo, quando Maria abriu a
porta da frente para a polcia. Claremont olhou por cima da cabea da
governanta e viu Sophia.
-- Srta. Giambelli.
-- Detetive. Est tudo bem, Maria. Vou cuidar disso. Tem mais alguma
informao pra mim? -- ela perguntou, continuando a descer as escadas.
-- Desta vez, no. Gostaramos de falar de novo com voc, e com sua me.
-- Minha me est descansando. David, este  o detetive...
-- Claremont -- ele concluiu. -- E minha parceira, detetive Maguire.
-- David Cutter, detetives Claremont e Maguire. O Sr. Cutter  o executivo-
chefe de operaes da Giambelli-MacMillan. Vou lev-los at o salo e
estarei com vocs em apenas um instante.
-- Sua me est em casa, Srta. Giambelli?
-- Eu disse que minha me est descansando. Ela no tem condies de falar
com vocs neste momento.
-- Sophia. -- Pilar desceu as escadas, segurando o corrimo com uma das
mos, Helen logo atrs. -- Tudo bem. Quero fazer o que puder.
-- A Sra. Avano -- comeou Helen, com o cuidado de usar o nome de casada
de Pilar -- deseja responder s suas perguntas. Sei que levaro seu estado
emocional em considerao. Juza Moore -- acrescentou com um frio aceno
de cabea. -- Sou uma velha amiga da famlia.
Claremont a conhecia. E fora submetido a um interrogatrio rigoroso pelo
marido dela. Advogados a postos.
-- Est representando a Sra. Avano, juza Moore?
-- Estou aqui pra oferecer apoio e conselhos  minha amiga, caso sejam
necessrios.
-- Que tal nos sentarmos? -- sugeriu Pilar. -- Sophia, poderia pedir a Maria
que providencie caf?
-- Claro.
Refinada e civilizada, pensou Claremont. Viu onde a filha obtivera aquela
classe. Mas mulheres de classe tambm matam, assim como todos os outros
tipos.
Sobretudo quando so abandonadas por uma modelo mais jovem.
Apesar disso, ela respondeu s perguntas diretamente.
No vira nem falara com o falecido desde a famosa festa. No ia ao
apartamento da filha fazia mais de um ms. No tinha a chave. No possua
arma, embora admitisse, antes que a juza a interrompesse, a existncia de
armas na casa.
-- Ficou perturbada quando seu marido concluiu o divrcio pra se casar com
Rene Foxx?
-- Sim -- concordou Pilar, mesmo com Helen abrindo a boca. --  tolice
negar, Helen. Claro que fiquei perturbada. No considero o fim de um
casamento motivo pra comemorar. Mesmo quando o casamento tinha se
tornado uma mera formalidade. Ele era pai da minha filha.
-- Vocs brigaram?
-- No. -- Ela curvou os lbios e suscitou na mente de Claremont uma
Madona com o porte elegantemente pesaroso. -- Era difcil brigar com Tony.
Ele contornava a maioria das discusses. Eu lhe dei o que ele queria. Nada
mais havia a fazer, havia?
-- Eu cuidei do divrcio para a Sra. Avano Interveio Helen. -- Foi
amigvel dos dois lados. Em termos legais, to simples quanto  possvel
nessas questes.
-- Mas ficou perturbada, mesmo assim -- declarou Maureen. -- Perturbada
o bastante para ligar para a residncia do seu ex-marido na semana passada,
no meio da noite, e fazer certas acusaes e ameaas.
-- Eu no fiz nada disso. -- Pela primeira vez surgiu a luz de uma batalha nos
olhos dela. -- Jamais liguei pro apartamento de Tony, nem sequer falei com
Rene. Ela imaginou isso.
-- Sra. Avano, podemos facilmente investigar as ligaes telefnicas.
-- Ento, por favor, faam isso. -- Ela enrijeceu a espinha e tambm a voz:
-- Por mais descontente que eu estivesse com as escolhas que Tony fazia,
eram as escolhas dele. No tenho o hbito de ligar pra ningum no meio da
noite e fazer ameaas ou acusaes.
-- A atual Sra. Avano afirma o contrrio.
-- Ento ela est enganada, ou mentindo. Ela, sim, ligou pra mim no meio da
noite, e me acusou disso, foi insultuosa e descontrolada. O senhor vai
encontrar essa chamada nos registros telefnicos, detetive, mas no a
minha.
-- Por que ela mentiria?
-- Eu no sei. -- Com um suspiro, Pilar esfregou a tmpora. -- Talvez no
mentisse. Sei que algum ligou de fato pra ela, e ela imaginou que tivesse
sido eu. Estava furiosa, me detestava acima de tudo.
-- Sabe a que horas o Sr. Avano deixou as dependncias aqui na noite da
festa?
-- No. Com franqueza, eu o evitei o mximo possvel, bem como a Rene,
naquela noite. Era embaraoso e constrangedor pra mim.
-- Sabe por que ele foi ao apartamento de sua filha s... -- A empresa de
txi j dera a informao. Claremont olhou o bloco, como se refrescasse a
memria. -- Trs da manh?
-- No.
-- Onde estava nessa hora?
-- Na cama. A maioria dos convidados j tinha ido embora por volta de uma
da manh. Fui para o meu quarto algum momento antes das duas. Sozinha
acrescentou, prevendo a pergunta. -- Dei boa-noite a Sophia e fui direto
para a cama, porque estava cansada. Tinha sido um longo dia.
-- Poderia nos dar licena um momento? -- pediu Helen, e indicou com um
gesto que os detetives sassem da sala.
-- D pra ir daqui a So Francisco em uma hora -- especulou Maureen no
corredor. -- Ela no tem libi algum para a hora em questo. Tem um motivo
decente.
-- Por que se encontrar com o ex no apartamento da filha?
-- Tudo em famlia.
-- Talvez -- respondeu Claremont, e retornou quando a juza os chamou.
-- Detetives, a Sra. Avano reluta em trazer  tona uma informao. Anthony
Avano foi seu marido por muitos anos e eles tm uma filha. Ela se aflige em
dizer alguma coisa que prejudique a reputao dele. Mas, como eu a
aconselhei,  mais construtivo passar essa informao, pois talvez seja til
na sua investigao. E, alm disso... Alm disso, Pilar -- ela disse, tranqila --
eles vo ter o quadro muito em breve de outras fontes.
-- Est bem. -- Pilar levantou-se e andou pela sala, -- Est bem. Voc me
perguntou se eu tinha alguma idia do motivo de ele ter ido ao apartamento
de Sophia. No sei com certeza, mas... Tony tinha uma fraqueza por
mulheres. Algumas pessoas bebem, algumas jogam, algumas tm casos
amorosos. Tony tinha os ltimos. Talvez tenha combinado encontrar algum
l, pra romper um caso ou...
-- Sabe com quem poderia estar envolvido?
-- No, parei de procurar h muito tempo. Mas havia algum. Ele sabia quem
tinha ligado pra Rene naquela noite, tenho certeza. E parecia nervoso na
festa. Isso era incomum em Tony. Raras vezes se irritava. Foi meio rude
com David Cutter, e no to socivel como era do seu costume. Acho,
revendo a situao, que estava metido em alguma encrenca. No sei. Nem
quis saber, para no ter nada a ver com aquilo. Se eu tivesse querido ... sei
que teria feito diferena.  doloroso.
Clarermont levantou-se.
-- Agradecemos sua cooperao, Sra. Avano. Gostaramos de conversar com
os outros membros da famlia agora, o Sr. Cutter e todos os membros de
sua equipe presentes durante a festa.
Queria especificamente interrogar mais uma vez Sophia. Conduziu-a a ss,
enquanto a parceira acompanhava David Cutter.
-- Voc no disse que teve uma briga acalorada com seu pai na noite em que
ele foi morto.
-- , no disse porque voc no me perguntou. Agora que o fez, eu preciso
esclarecer. Uma briga  entre duas pessoas sobre um ponto de desacordo.
No houve briga alguma.
-- Ento como qualificaria isso?
-- Palavras duras. Palavras duras que vinham sendo acumuladas fazia muito
tempo.  difcil pra mim, detetive, saber que foram as ltimas palavras que
disse a ele. Embora fossem sinceras, e eu quisesse diz-las,  difcil. Estava
furiosa. Ele tinha se casado horas depois da concluso do divrcio com
minha me. No se deu ao trabalho de me falar de seus planos, nem de fazer
 minha me a cortesia de inform-la, e veio a um evento de famlia com a
nova mulher no brao. Foi uma coisa descuidada, insensvel e bem tpica dele.
Eu disse isso a ele.
-- Minha informao  de que voc ameaou seu pai.
-- Ameacei? Talvez tenha ameaado. Eu estava furiosa, magoada,
envergonhada. Rene tinha encostado minha me contra a parede e a
atacado... verbalmente. O que era de todo desnecessrio, pois j tinha o que
queria. Ele deixou que isso acontecesse. Meu pai era brilhante em deixar
que as coisas acontecessem e permanecer de algum modo alheio aos
estragos feitos.

A NOTCIA SE ESPALHOU POR TODO O PAS E CHEGOU AO OUTRO
lado do Atlntico. Sentado no escritrio, no primeiro andar de sua casa,
Donato tomava conhaque e pensava. A casa silenciara, afinal, embora ele
esperasse que o beb acordasse aos berros muito em breve.
Gina dormia e, se no fosse pelo circo habitual do meio da noite, ele teria se
esgueirado e passado uma hora relaxante com a amante.
Melhor no correr o risco.
Tony Avano morrera.
A reunio marcada com Margaret Bowers na manh seguinte seria e
precisaria ser adiada. Isso lhe daria tempo para tomar a deciso iminente.
Preferira manter as transaes comerciais com Tony. Sabia exatamente
onde estava com Tony Avano.
Agora Tony morrera e haveria uma grande sublevao. Falatrio, fofocas,
atrasos, problemas. Ele podia usar tudo em proveito prprio.
Precisava voltar  Califrnia, claro. Teria de oferecer apoio e condolncias a
Pilar e Sophia. E assegurar a La Signora que faria tudo que ela lhe exigisse
para manter a produo da Giambelli.
Como faltavam apenas dois dias para o Natal, convenceria Gina de que
precisava ficar em casa e no perturbar as crianas. Sim, isso era bom. E
ele poderia levar sua linda dama como companhia.
Ningum notaria a diferena.
, e isso lhe daria tempo para decidir o que tinha de ser feito, e como faz-
lo.
Coitado do Tony, pensou, e ergueu o conhaque. Descanse em paz.

JEREMY DEMORNEY DIMINUIU O VOLUME DO NOTICIRIO DA
noite e tirou o smoking. Alegrava-o ter terminado cedo a noite. Era melhor
estar em casa, sozinho, que em pblico, quando a notcia o alcanasse.
Tony Avano, o desprezvel canalha, morrera.
Quase lamentvel, em certo sentido. O clima atual amadurecera Avano para
a colheita. E Jerry esperara um bom e longo tempo por isso.
Deixara para trs uma ex-esposa pesarosa, imaginou, uma viva alegre e uma
filha enlutada. Muito mais do que merecera.
Ao despir-se, pensou em voar de volta  Califrnia e comparecer a qualquer
servio fnebre planejado pelos Giambelli. Depois descartou a idia.
Era pblico e notrio que o falecido e no-pranteado Avano dormira com a
mulher de Jeremy.
Ah, eles haviam resolvido tudo como pessoas civilizadas, claro. Sem contar o
lbio partido que dera  mulher adltera como presente de separao.
Divrcio, acordo financeiro e uma simulada boa educao em pblico.
Bem, pensou Jerry, haviam sobrepujado todos no fingimento.
Enviara uma mensagem pessoal  famlia expressando solidariedade e pesar.
Era melhor, em todos os aspectos, manter distncia da famlia por enquanto.
Faria sua jogada l quando estivesse pronto.
No momento, teria uma festinha independente. Maldito fosse se no iria
abrir uma garrafa de champanhe e comemorar o assassinato.

SOPHIA PASSOU QUASE UMA SEMANA CUIDANDO DO assassinato do pai como uma atribuio profissional. Com as emoes em suspenso,
deu telefonemas, tomou providncias, fez perguntas, respondeu a elas e
zelou pela me como um falco.
Quando corria de encontro a uma parede, e topava com muitas, fazia o
possvel para transp-la ou tentava atravess-la por um acesso subterrneo.
A polcia nada lhe dava alm da mesma conversa. A investigao continuava
em andamento. Todas as pistas vinham sendo ativamente seguidas.
Tratavam-na com ressentimento, ela pensou, no diferente do que fariam
com uma reprter. Ou suspeita.
Rene recusava-se a atender aos telefonemas, e ela cansou-se de deixar
dezenas de recados na secretria. Mensagens solidrias, preocupadas,
polidas, irritadas e ressentidas.
O pai teria uma cerimnia fnebre. Com ou sem a informao ou cooperao
da viva.
Desculpou-se com a me, citando alguns problemas no escritrio de So
Francisco que exigiam sua ateno, e preparou-se para ir de carro  cidade.
Tyler encostava o carro na entrada para veculos quando ela saiu da casa.
-- Aonde vai?
-- Tenho negcios a tratar.
-- Onde?
Ela tentou desviar-se dele para a garagem e viu-o interceptar-lhe
a passagem.
-- Escute, estou com pressa. V podar uma vinha.
-- Onde?
Ela sentiu os nervos querendo rebentar, e no podia deix-los aflorarem.
-- Preciso correr at a cidade. Tenho trabalho a fazer.
-- timo. A gente vai no meu carro.
-- No preciso de voc hoje.
-- Trabalho de equipe, lembra?
Ele reconhecia uma mulher que vinha oscilando numa corda-bamba e no iria
deix-la dirigir.
-- Posso cuidar disso, MacMillan.
Por que diabo ela no disse que ia fazer compras?
-- , voc pode cuidar de tudo. -- Ele ps a mo no brao dela e abriu a
porta com a outra. -- Entre.
-- J lhe ocorreu que eu preferia ficar sozinha?
-- J lhe ocorreu que no estou nem a? -- Para resolver o problema, ele
apenas a ergueu no colo e sentou-a no banco. -- Prenda o cinto -- ordenou e
bateu a porta.
Ela pensou em abrir a porta com um chute e depois dar outro nele. Mas
temia nunca mais parar. Sentia tanta raiva por dentro, enfurecida por
tamanha dor. E lembrou a si mesma, como prometera que faria, que ele
ficara a seu lado no pior momento.
Ele deslizou para trs do volante. Talvez isso se devesse ao fato de
conhec-la por mais de metade da sua vida. Talvez por ter prestado mais
ateno a ela nas ltimas semanas do que nos ltimos vinte anos. Em
qualquer das duas hipteses, pensou, conhecia aquele rosto bem demais. E a
compostura no era uma verdadeira mscara, pelo menos no momento.
-- Ento.
Eie ligou o carro e olhou-a.
-- Aonde vai mesmo?
-- Procurar a polcia. No consigo obter as respostas por telefone.
-- Tudo bem.
Ele engrenou a primeira e desceu a entrada para carros.
-- No preciso de um co de guarda, Ty, nem de um ombro grande e largo ou
de um apoio emocional,
-- Tudo bem. -- Ele continuou dirigindo. -- Oficialmente, eu concordaria,
desde que voc tambm no precisasse de um saco de pancadas.
Como resposta, ela cruzou os braos e fitou direto em frente. Uma
mortalha de nevoeiro cobria as montanhas, rendilhada de neve, como uma
fotografia de foco suave. A vista estonteante nada fez para anim-la. Em
sua mente, s via uma pgina arrancada de uma revista da indstria que
chegara junto com a correspondncia na vspera.
A fotografia dela, da av e da me, publicada meses antes, fora corrompida,
como os anjos Giambelli. Tinham usado caneta vermelha desta vez,
retalhando de vermelho-sangue o rosto das trs, rotulando-as de piranhas
assassinas.
Era a resposta aos repetidos telefonemas a Rene?, perguntou-se Sophia.
Acharia a tal mulher que essa trapaa infantil a assustaria? Nao iria deixar
que isso a assustasse. E quando queimara a pgina nas chamas da lareira
sentira repugnncia, raiva, mas no medo.
Mesmo assim, um dia depois, no conseguia tir-la da cabea.
-- Eli pediu a voc pra ser minha bab? -- perguntou a Tyler.
-- No.
-- Minha av?
-- No.
-- Ento quem?
-- O negcio  o seguinte, Sophia. Eu recebo ordens no trabalho quando sou
obrigado. No as recebo na vida pessoal. Isto  pessoal. Est claro?
-- No. -- Ela desviou ento os olhos das montanhas e examinou o igualmente
irresistvel perfil dele. -- Voc nem gostava do meu pai, e no  to louco
assim por mim.
-- Eu no gostava do seu pai. -- Ele disse isso sem se desculpar e sem
prazer. E apenas por isso no aguilhoava. -- O jri continua a fora, em cima
de voc. Mas eu gosto, sim, da sua me, e no gosto mesmo de Rene, nem do
fato de tentar incitar os tiras contra Pilar, e talvez contra voc, no
assassinato.
-- Ento vai ficar emocionado ao saber que minha segunda parada hoje 
Rene. Preciso fazer uma visita ou duas a ela para falar sobre a cerimnia
fnebre.
-- Cara, no vai ser divertido? Acha que vai haver puxes de
cabelos e mordidas?
-- Vocs, homens, tm mesmo um orgasmo com esse tipo de coisa, no tm?
 simplesmente doentio.
-- .
Ele suspirou, forte e desejoso, fazendo-a rir, a primeira risada
descontrada e genuna em dias.

OCORREU A SOPHIA QUE ELA NA VERDADE NUNCA ESTIVERA NUMA
delegacia de polcia real. A idia que fazia fora ficcionalmente gerada, e por
isso esperava corredores escuros e midos, com linleo gasto no piso,
escritrios barulhentos, superlotados, personagens resmungonas, de olhos
carrancudos, e o mau cheiro de caf ruim servido em copinhos de papel.
Em segredo, buscava com ansiedade a experincia.
Em vez disso, encontrou uma atmosfera de trabalho com pisos limpos e
largos corredores que emanavam um leve cheiro de desinfetante. No diria
que era silenciosa como um tmulo, mas, quando se encaminhou para o
gabinete dos detetives com Ty, ouviu os saltos clicarem no cho.
A rea dos detetives era dispersa com escrivaninhas, utilitrias, mas no
gastas e arranhadas como esperara. Desprendia-se um cheiro de caf, sim,
mas fresco e saboroso. Via armas, logo j era alguma coisa. Presas em
cintures ou penduradas a tiracolo. Parecia estranho v-las na sala bem
iluminada onde o rudo mais alto era o estalo dos teclados de computador.
Examinando o espao em volta, conectou-se com Claremont. Ele olhou para
uma porta na lateral da sala, levantou-se e dirigiu-se para eles.
-- Srta. Giambelli.
-- Eu preciso falar com voc sobre meu pai. Sobre as providncias para o
enterro e a investigao.
-- Quando falei com voc ao telefone...
-- Sei o que me disse ao telefone, detetive. Quase nada. Acho que tenho
direito a mais informao, e com certeza de saber quando vo liberar o
corpo do meu pai. Saiba que meu prximo passo ser passar por cima de
voc. Vou comear a usar toda a conexo que tenho. E, acredite, minha
famlia tem muitos contatos.
-- Eu sei. Que tal usarmos o escritrio do tenente? Indicou-o com um gesto
e, depois, xingou baixinho quando a porta lateral se abriu e sua parceira saiu
com Rene.
Magnfica de preto. As faces plidas, os cabelos brilhando como o sol e
enrascados na nuca, era a imagem perfeita da viva socialite. Sophia
imaginou que ela estudara cuidadosamente os resultados antes de sair e no
resistira a aliviar o preto com um delicado brochinho cravejado de
diamantes.
Fitou o broche por um longo momento e desviou a ateno para a dona.
-- Que est acontecendo aqui? -- exigiu saber a viva. -- Eu disse que ela
tem me importunado. Ligando pra mim constantemente, me ameaando. --
Apertou com fora um leno na mo. -- Quero registrar uma ordem pra que
ela no se aproxime de mim. Pra todas elas. Elas mataram o coitado do meu
Tony.
-- Vem treinando esse nmero h muito tempo, Rene? -- perguntou Sophia
friamente. -- Ainda precisa de um pouco mais de ensaio.
-- Quero proteo policial. Elas mandaram matar Tony por minha causa. So
italianas. Tm ligaes com a Mfia.
Sophia desatou a rir, um rudo borbulhante a princpio e que se avolumou e
avolumou, at ela no conseguir parar. Recuou cambaleando e sentou-se no
banco baixo junto  parede.
-- Oh,  isso a,  isso a. H um viveiro de crime organizado na casa da
minha av. Bastou apenas uma ex-modelo, uma vagabunda arrivista social e
cavadora de ouro, pra desmascarar tudo. -- No se dera conta de que a
risada se transformara em pranto, que as lgrimas lhe escorriam pelas
faces. -- Quero enterrar meu pai, Rene, me deixe fazer isso. Me deixe
participar disso que nunca mais vamos ter de nos ver novamente, nem
falarmos uma com a outra.
Rene tornou a enfiar o leno na bolsa. Atravessou a sala, que ficara muito
silenciosa. E esperou Sophia mais uma vez levantar-se.
-- Ele me pertence. E voc no vai participar de nada.
-- Rene.
Sophia estendeu o brao e arquejou quando sua mo foi bruscamente
afastada com um tapa.
-- Sra. Avano.
O tom de Claremont ao segurar o brao de Rene foi de advertncia.
-- No vou tolerar que ela me toque. Se voc ou algum de sua famlia ligar
mais uma vez pra mim, vo ter de se haver com meus advogados.
Empinou o queixo E saiu a passos largos da sala.
-- Pura maldade -- murmurou Sophia. -- Pura maldade.
-- Srta. Giambelli. -- A detetive Maureen tocou-lhe o brao. -- Por que no
vem se sentar e me deixa trazer um pouco de caf pra voc?
-- No quero caf. Vai me dizer se h algum progresso em sua investigao?
-- No temos nada de novo pra lhe dizer. Lamento.
-- Quando o corpo do meu pai ser liberado?
-- O corpo de seu pai ser liberado ainda esta manh para o parente mais
prximo.
-- Entendo. Perdi meu tempo, e o seu. Com licena.
Saiu da sala e j puxava o telefone da bolsa. Tentara Helen Moore primeiro,
e soubera apenas que a juza estava no tribunal e indisponvel.
-- Acha que pode deter Rene? -- perguntou Ty.
-- No sei. Tenho de tentar. -- Ligou em seguida para o escritrio de James
Moore, e ficou frustrada ao ser informada de que ele se encontrava numa
reunio. Como ltimo recurso, mandou chamar Linc. -- Linc?  Sophia.
Preciso de ajuda.

PILAR SENTOU-SE NUM BANCO DE PEDRA NO JARDIM. FAZIA FRIO,
mas, Deus do cu, precisava de ar. Sentia-se encurralada em casa de uma
forma que jamais sentira antes. Encurralada pelas paredes e as janelas,
guardada pelas pessoas que mais a amavam.
Vigiada, pensou, com tanto cuidado quanto uma invlida que poderia falecer
a qualquer momento.
Pensavam que sofria, e ela os deixava pensar assim. Seria esse o maior dos
seus pecados?, perguntou-se. Permitir que todos acreditassem que se
achava arrasada de sofrimento?
Quando nada sentia. Nem podia sentir.
A no ser, de forma horrvel, uma levssima pontada de alvio.
Sentira choque, pesar e dor, mas tudo passara muito rpido. E a ausncia de
sentimento a envergonhava, tanto que evitava a famlia o mximo possvel. A
ponto de passar quase todo o Natal em seus aposentos, sem condies de
reconfortar a filha, por temer que ela visse a falsidade da me.
Como uma mulher passava to rpido do amor ao desamor,  insensibilidade?,
perguntava-se. Teria existido o tempo todo falta de paixo e compaixo em
seu ntimo? E teria sido essa falta que rechaara Tony dela? Ou fora o que
ele fizera to sem considerao durante o casamento que acabara com
qualquer capacidade que ela tivera de sentir?
Pouca importncia tinha isso agora. Ele morrera, e ela se sentia vazia.
Levantou-se, voltou-se em direo  casa e parou quando viu David na
alameda
-- Eu no quis incomodar voc.
-- Tudo bem.
-- Venho tentando no atrapalhar.
-- No era necessrio.
-- Achei que sim. Parece cansada, Pilar. E solitria, ele pensou.
-- Acho que estamos todos. Sei que voc trabalhou dobrado nos ltimos
dias. Espero que saiba o quanto apreciamos isso. -- Quase recuou quando ele
avanou em sua direo. -- Como foi seu Natal?
-- Movimentado. Digamos que ficarei feliz com a virada de janeiro e o incio
da escola dos meninos. Posso fazer alguma coisa por voc?
-- No, nada, verdade. -- Ela pretendia pedir licena e fugir para seus
aposentos. Mais uma vez. Viu, porm, alguma coisa nele. E, olhando-o, ouviu
as palavras jorrarem-lhe da boca: -- Sou to intil aqui, David. No sei
ajudar Sophia. Sei que ela est tentando desligar a mente de tudo
relacionado ao trabalho, e perdendo muito tempo tentando me treinar no
escritrio aqui, Eu simplesmente estrago tudo.
-- Que coisa mais tola para dizer!
-- No . Estrago sim. Jamais trabalhei de verdade num escritrio e o
curto perodo em que trabalhei foi h mais de vinte e cinco anos. Tudo
mudou. No consigo fazer o maldito do computador funcionar e no conheo
a linguagem, nem entendo a finalidade quase o tempo todo. Em vez de dar
como devia com a palmatria nas minhas mos pelos erros que cometo, ela
afaga minha cabea porque no quer me afligir. E  ela que est aflita, e eu
no posso ajudar a minha filha. -- Apertou a tmpora com os dedos. -- Por
isso fujo. Sou danada de boa em fugas. Ela est adoecendo em relao a
Tony, tentando impedir que Rene exija o corpo dele. No se permite chorar
pela dor da perda. No se tem concluso alguma pra dar fim a isso, e no
ter nenhuma at a polcia... Mas ela precisa do rito, desse ritual, e Rene no
aceita.
-- Ela precisa lidar com tudo  sua prpria maneira. Voc sabe. Assim como
voc precisa lidar  sua.
-- No sei qual  a minha. Preciso entrar. Tenho de encontrar as palavras
certas.
No querendo deix-la sozinha, David foi andando com ela at a casa.
-- Pilar, acha que Sophia no sabe o que ela significa pra voc?
-- Ela sabe. Assim como sei o que no significava para o pai.  difcil um filho
ter de conviver com isso.
-- Eu sei. Mas convivem.
-- Voc algum dia temeu no ser o bastante pra eles?
-- Todo dia.
E!a deixou escapar o incio de uma gargalhada.
-- Que coisa terrvel de minha parte, mas  um alvio ouvir voc dizer isso.
Abriu a porta lateral e viu a filha no sof, o rosto branco como giz, com Linc
Moore sentado ao seu lado, segurando a mo dela.
-- Que foi? -- Pilar atravessou correndo a sala e agachou-se diante de
Sophia. -- Oh, filhinha, que foi?
-- Chegamos tarde demais. Linc tentou, conseguiu at uma ordem de
proteo judicial temporria, mas era tarde demais. Ela mandou cremar meu
pai, Mama. J tinha tomado as providncias.
-- Sinto muito. -- Ainda segurando a mo de Sophia, Linc estendeu a outra
para Pilar. -- Ela o levou direto para o crematrio. J tinha comeado antes
de conseguirmos a ordem de proteo judicial temporria.
-- Ele se foi, Mama.

Captulo Onze
Durante o longo inverno, as vinhas dormiram. Os campos estendiam-se,
hectare por hectare, sugavam as chuvas, endureciam-se com as geadas e
mais uma vez suavizavam-se com as curtas e sedutoras temporadas de calor.
Para um fazendeiro, para uma colheita, o ano era um crculo que se repetia
infinitas vezes, com as variaes e surpresas, os prazeres e tragdias
absorvidos no todo.
A vida parecia uma contnua espiral a girar.
Prximo a fevereiro, as pesadas chuvas atrasaram o ciclo de poda e
trouxeram frustrao e o inverno molhado de uma boa safra. A neblina
escureceu os campos e montanhas.
Fevereiro era a espera. Para alguns, parecia que j durava uma eternidade.
No terceiro andar da Villa Giambelli, Tereza mantinha o escritrio. Preferia
aquele, longe do enxame da casa. E adorava ver das janelas aquela
imponncia que lhe pertencia.
Todo dia subia os lances de escadas, uma boa disciplina para o corpo, e
trabalhava durante trs horas. Nunca menos, raras vezes mais. O aposento
era confortvel. Ela acreditava que os ambientes confortveis aumentavam
a produtividade. Tambm acreditava em satisfazer-se onde importava.
A escrivaninha fora do pai. Antiga, de carvalho escuro e gavetas fundas. A
tradio. Em cima, um telefone de duas linhas e um computador de alta
potncia. O progresso.
Embaixo, a velha Sally roncava baixinho. O lar.
Ela acreditava, com absoluta convico, nas trs coisas.
Por isso o escritrio era agora ocupado pelo marido e seu neto, a filha, a
neta, David Cutter e Paulo Borelli.
O velho e o novo, ela pensou.
Esperou que servissem o caf, e a chuva batesse como suaves punhos no
telhado e nas janelas.
-- Obrigada, Maria. -- Isso assinalava o fim do interldio social e o incio do
trabalho. Tereza cruzou as mos quando a governanta saiu e fechou a porta.
-- Lamento -- comeou -- no termos tido condies de nos reunir todos
antes. A perda do pai de Sophia e as circunstncias da morte dele adiaram
certas reas de trabalho. E a recente doena de Eli impediu a realizao
dessa reunio.
Olhava-o ento. O marido ainda lhe parecia um pouco frgil. A gripe
transformara-se to rpido em febre e calafrios que a assustara,
-- Eu estou bem -- ele disse, mais para tranqiliz-la que aos demais. --
Ainda com as pernas meio fracas, mas me restabelecendo. O homem no tem
muitas opes alm de se restabelecer quando tantas enfermeiras o
espetam.
Ela sorriu, porque sabia que era o que ele queria, mas ouviu o fraco chiado
da respirao no peito do marido.
-- Enquanto Eli se recuperava, eu o mantinha o mximo possvel a par dos
movimentos da empresa. Sophia, tenho seu relatrio e as projees
relativas  campanha do centenrio, Embora a gente tambm v discutir isso
individualmente, gostaria que voc mantivesse todos atualizados.
-- Claro. -- Sophia levantou-se, abriu um portflio que continha prottipos
dos anncios, junto com relatrios sobre as mensagens completas ao
pblico-alvo, estatsticas de consumidor e os locais de eventos selecionados.
-- A primeira fase da campanha vai comear em junho, com a propaganda
colocada como indicada nos pacotes -- comeou, passando os pacotes em
volta. -- Criamos uma campanha direcionada a trs segmentos, tendo como
alvo o consumidor superior, sofisticado, o de classe mdia e o mais efmero,
o jovem e casual bebedor de vinho com oramento limitado.
Enquanto ela falava, Tyler se desligava. Ouvira o relato antes. Tinha, Deus o
livrasse, participado de vrios estgios do desenvolvimento da campanha. A
exposio ensinara-lhe o valor do que ela fazia, mas no conseguira
despertar-lhe nenhum interesse verdadeiro por isso.
Relatrios de longo alcance do tempo prognosticavam uma tendncia de
aquecimento. Demasiadas coisas, muito em breve, levariam algumas
variedades de uva a sair da dormncia. Ele precisava manter um olho afiado
nisso, nos sinais reveladores do mnimo movimento nos brotos, no suave
sangramento nos cortes de poda.
Um corte antes da hora significava o perigo dos danos da geada.
Preparara-se para cuidar disso, quando chegasse o momento, mas...
-- Vejo que estamos mantendo Tyler acordado -- disse Sophia com doura e
trouxe-o de volta.
-- No, no esto. Mas, como voc interrompeu meu cochilo, a segunda fase
trata da participao pblica. Degustaes de vinho, visitas ao vinhedo,
eventos sociais, bailes de gala aqui e na Itlia, o que gera publicidade. -- Ele
levantou-se para pegar mais caf no carrinho. -- Sophia sabe o que faz.
Acho que ningum aqui vai discordar disso.
-- E nos campos? -- perguntou Tereza. -- Sophia sabe o que faz? Ele no se
apressou a responder e tomou o caf.
-- Est se saindo muito bem, para uma mo-de-obra principiante no campo.
-- Por favor. Ty, vai me deixar encabulada com todos esses elogios
excessivos.
-- Muito bem -- murmurou Tereza. -- David? Comentrios sobre a
campanha?
-- Inteligente, refinada, completa. Minha nica preocupao, como pai de
adolescentes,  que os anncios dirigidos ao mercado da garotada de vinte e
um a trinta anos faam o vinho parecer uma diverso muito boa.
-- E  mesmo -- observou Sophia.
-- E que desejamos projetar que seja -- ele concordou. -- Mas me preocupo
ao fazer anncios to eficientes e atraentes para um pblico jovem que
possam influenciar os ainda mais jovens. Trata-se de conversa de pai --
admitiu. -- Mas tambm fui um garoto que quando queria beber at passar
mal fazia isso sem nenhuma influncia de marketing. -- Pilar emitiu um
ruidozinho e calou-se. Mas, como David se sentava ao lado dela, fizera
questo de sentar-se-, ouviu. -- Pilar? Idias?
-- No, eu s... bem, na verdade, acho a campanha maravilhosa e sei o duro
que Sophia deu trabalhando nela, e Tyler, claro, e a equipe dela. Mas acho
que David tem certa razo sobre esse, bem, terceiro segmento.  difcil
comercializar uma coisa que atrai o grupo do mercado jovem sem seduzir as
idades inadequadas a beber. Se pudssemos fazer algum tipo de ressalva...
-- As ressalvas so chatas e diluem a mensagem -- comeou Sophia, mas
franziu os lbios ao tornar a sentar-se. -- A no ser que a gente faa uma
coisa divertida, brilhante, responsvel e que se funda com a mensagem. Por
favor, me deixem pensar nisso.
-- timo. Agora, Paulie.
Ento foi Sophia que se desligou, enquanto o capataz falava das vinhas e de
vrias vindimas testadas nos barris e tanques.
Idade, ela pensou. Idade. Vindima. Maturidade. Perfeio. Precisava do
gancho. Pacincia. O bom vinho exige pacincia para ser feito. Recompensas.
Idade, recompensas, pacincia. Ela encontraria.
Sentia comicho nos dedos para pegar papel e escrever. Trabalhava melhor
quando anotava as palavras e as via no papel. Levantou-se para pegar mais
caf e, de costas para a sala, escreveu rpido num guardanapo.
Dispensaram Paulie e foi a vez de David. Em vez de projees de marketing,
anlises de custo, previses e nmeros que Sophia esperava, a av largou o
relatrio escrito dele de lado.
-- Cuidaremos disso depois. No momento, gostaria de sua avaliao de
nossas pessoas-chave aqui.
-- Tambm tem meus relatrios escritos sobre isso, La Signora.
-- Tenho -- ela concordou e apenas ergueu as sobrancelhas.
-- Tudo bem. Tyler no precisa de mim nos vinhedos e sabe disso. O fato de
que  meu trabalho supervision-los e eu ser outro par de mos competente
ainda no abrandou a resistncia dele. Uma resistncia pela qual no posso
culp-lo, mas que interfere, sim, na eficincia. Fora isso, os vinhedos da
MacMillan so to bem dirigidos quanto qualquer outro com que me associei.
Como so os da Giambelli. Ajustes continuam sendo feitos, mas o trabalho
dele fundindo as operaes e coordenando as equipes  excelente.
"Sophia se sai muito bem no vinhedo, embora no seja seu forte. Assim
como o marketing e a promoo no so o de Tyler. O fato de ela suportar o
peso ali, e ele no campo, resulta numa mistura razoavelmente boa e bastante
interessante. Mas h algumas dificuldades nos escritrios de So
Francisco."
-- Eu tenho conhecimento das dificuldades -- disse Sophia. -- Estou
resolvendo.
-- Uma s -- corrigiu David. -- Sophia, voc tem uma empregada difcil,
raivosa, no-cooperadora e que h vrias semanas vem tentando solapar sua
autoridade.
-- Tenho uma reunio marcada com ela amanh  tarde. Conheo minha
gente, David. Posso cuidar disso.
-- O que eu quero saber  qual o grau de dificuldade, raiva e no-cooperao
de Kristin Drake. -- Ele esperou um instante. -- Ela anda falando com outras
empresas. Seu currculo chegou a meia dzia de mesas nas ultimas duas
semanas. Uma de minhas fontes na La Coeur me disse que ela vem fazendo
inmeras reivindicaes e acusaes, com voc sendo o seu alvo preferido,
quando acha que tem o ouvido certo.
Sophia absorveu a traio, a decepo e assentiu com a cabea.
-- Eu cuido dela.
-- Cuide mesmo -- aconselhou Tereza. -- Quando no  leal, uma empregada
precisa, no mnimo, ser digna. No vamos tolerar um membro da equipe
usando fofoca e insinuaes como meio de negociao para um cargo em
outra empresa. E Pilar?
-- Est aprendendo -- disse David. -- Trabalho de escritrio no  o forte
de Pilar. Acho que a tem empregado mal, La Signora.
-- Como foi que disse?
-- Em minha opinio, sua filha seria mais bem aproveitada como porta-voz,
uma ligao para a empresa onde no se desperdiassem o charme e a
elegncia dela como no trabalho de digitao. Eu me pergunto por que no
pede a Pilar que ajude nos passeios e nas degustaes, oportunidade em que
os visitantes poderiam ser regalados com sua companhia e ter a vantagem
extra do contato pessoal com um membro da famlia. Ela  uma excelente
anfitri, La Signora. Mas no  uma excelente secretria.
-- Est dizendo que cometi um erro esperando que minha filha aprendesse o
trabalho da empresa?
-- Estou -- respondeu David, tranqilamente, e fez Eli ter um ataque de
tosse.
-- Desculpe, desculpe. -- Eli acenou com a mo quando Tyler se levantou de
um salto para servir-lhe um copo d'gua. --  que eu tentei engolir a risada.
No devia. Nossa, Tereza, ele tem razo, e voc sabe disso. -- Pegou o copo,
bebeu com cuidado at a presso no peito acalmar-se. -- Ela detesta ter
uma viso errnea, e quase nunca tem. Sophia? Como sua me vem se saindo
no trabalho de sua assistente aqui?
-- Ela quase no teve tempo para...  terrvel -- admitiu Sophia e desatou a
rir. -- Oh, Mama, eu sinto tanto, mas voc  a pior auxiliar de escritrio que
j existiu. Eu no podia mandarvoc  cidade trabalhar com minha equipe
nem em um milho de anos. Voc tem idias -- acrescentou, preocupada
quando a me nada disse. -- Como hoje, sobre a ressalva. Mas no opina, a
no ser quando pressionada, e mesmo ento no sabe como p-la em prtica.
Mais que tudo, odeia cada minuto que fica presa em meu escritrio.
-- Eu tenho tentado. E obviamente fracassado -- disse Pilar, levantando-se.
-- Mama...
-- No, est tudo bem. Prefiro que voc seja franca a que me trate com
condescendncia. Peo que me deixem tornar isso mais fcil pra todos os
envolvidos. Eu desisto. Agora, se me derem licena, vou procurar uma coisa
em que seja boa. Tipo me sentar em algum lugar e parecer elegante e
charmosa.
-- Eu vou falar com ela -- comeou Sophia,
-- No vai. -- Tereza ergueu a mo. -- Ela  adulta, no uma criana que a
gente apazigua. Sente-se. Vamos terminar a reunio.
Era, pensou Tereza ao levar o caf  boca, animador ver a filha mostrar
uma reao de raiva e um trao de autoridade.
Finalmente.

ELE NO TEVE TEMPO PARA APLACAR O CONSTRANGIMENTO DE
Pilar, mas, como achava que participara do constrangimento, David foi atrs
dela. Nas ltimas semanas, Maria tornara-se um de seus canais de notcias
da dinmica familiar. Com a ajuda dela, foi procurar Pilar na estufa.
Encontrou-a ali com luvas de jardinagem e um avental, replantando mudas
em vasos que haviam brotado de podas.
-- Tem um minuto?
-- Tenho todo o tempo do mundo -- ela disse, sem dispensar-lhe sequer um
olhar ou um grama de cordialidade. -- Eu no fao nada.
-- Voc no faz nada num escritrio que a satisfaa ou realize uma meta. 
diferente. Lamento que a minha avaliao tenha magoado voc, mas...
-- Mas negcios so negcios. Ela o olhou ento de frente.
-- . Negcios. Voc quer digitar e cuidar de arquivos, Pilar? Participar de
reunies sobre campanhas publicitrias e estratgias de marketing?
-- Quero me sentir til. -- Ela largou a pazinha. Ser que todos a julgavam
igual s flores de que cuidava?, perguntou-se. Era? Uma coisa que exigia um
clima controlado e um cuidadoso manuseio para nada fazer alm de ser
atraente num cenrio bonito? -- Estou cansada. Farta e cheia de me
fazerem sentir que nada tenho a oferecer. Sem habilidade, talentos nem
crebro.
-- Ento voc no ouviu.
-- Oh, eu ouvi voc. -- Ela arrancou as luvas e tambm as largou. -- Devo ser
elegante e charmosa. Como uma boneca bem confeccionada, que pode ser
tirada na hora certa, no lugar certo e ser guardada no armrio o resto do
tempo. Bem, no, obrigada. J fiquei guardada tempo demais.
Comeou a empurr-lo para passar, puxou com fora o brao quando ele
fechou a mo nele. Depois o fitou em choque, quando ele simplesmente lhe
tomou o outro brao e a impediu de afastar-se.
Ningum a segurava assim. Simplesmente no.
-- Espere um instante.
-- Tire as mos de mim.
-- Num minuto. Primeiro, charme  talento. Elegncia  habilidade. E exige
crebro saber a coisa certa a dizer na hora certa e fazer as pessoas se
sentirem bem-vindas. Voc  boa nessas coisas, ento por que no as usa?
Segundo, se acha que cuidar de turistas, dar explicaes em degustaes e
visitas  um trabalho sem valor, vai pensar diferente se tiver coragem de
experimentar.
-- No preciso que voc me diga...
-- Parece que sim.
Pilar quase ficou boquiaberta quando ele a interrompeu. Era outra coisa que
raras vezes se fazia. Lembrou como ele lidara com Tony na noite da festa.
Usava agora aquele mesmo tom frio e claro com ela.
-- Lembre-se de que eu no trabalho pra voc.
-- Lembre-se -- ele rebateu -- que em essncia trabalha. A no ser que saia
arrogante como uma criana mimada, vai continuar a trabalhar pra mim.
-- Va'al diavolo.
-- No tenho tempo pra uma viagem ao inferno no momento -- ele
respondeu, sem alterar a voz. -- Sugiro que ponha seus talentos na arena
certa. Precisa conhecer a empresa para cuidar das visitas ao lagar e ter
pacincia pra responder s perguntas que ouvir repetidas vezes. Empurrar
o produto sem parecer que est empurrando. Ser graciosa, informativa e
divertida. E, antes de comear, tem de dar uma boa e intensa olhada em si
mesma e parar de ver a esposa descartada de um homem que s valorizava a
si mesmo.
Ela ficou boquiaberta, sim, e os lbios tremeram antes de conseguir formar
as palavras:
-- Que coisa horrvel de dizer!
-- Talvez. Mas j era hora de algum dizer. Desperdcio me aborrece. Voc
se deixou desperdiar, e isso comea a me encher o saco.
-- Voc no tem o direito de me dizer essas coisas. Seu cargo na Giambelli
no lhe d liberdades pra ser cruel.
-- Meu cargo na Giambelli no me d o direito de falar a verdade como a
vejo. Tampouco me d o direito de fazer isto -- acrescentou e puxou-a para
junto de si. -- Mas desta vez  pessoal.
Pilar estava chocada demais para det-lo ou expressar o mnimo protesto. E,
quando ele colou a boca na sua, rijo e furioso, ela nada pde fazer alm de
sentir.
A boca de um homem -- quente e firme. As mos de um homem -- exigentes
e fortes. O choque de sentir o corpo apertado no dele, sentir aquele calor,
aquelas formas. A ameaa sexual.
O sangue precipitou se para sua cabea, uma longa e imensa onda de fora. E
o corpo, o corao, famintos, saltaram na inundao de prazer.
Com um gemido baixo, ela passou os braos em volta dele. Os dois bateram
na mesa de trabalho, fazendo tombar os vasos. Vaso contra vaso, um rudo
igual ao choque de espadas. Nervos e necessidades, h tanto tempo
amortecidos, ganharam bruscamente vida e chiaram por todo o organismo
dela. Tudo parecia despertar ao mesmo tempo, ameaando sobrecarga,
quando, com os joelhos enfraquecidos, ela avanou a boca, sedenta, sobre a
dele.
-- Qu? -- Ofegante, ela conseguiu apenas um arquejo quando ele a ergueu
do cho e deitou-a na bancada. -- Que estamos fazendo?
-- A gente pensa nisso depois.
Ele tinha de toc-la, apalpar a carne sob as mos. J lhe puxava o suter,
impulsionado por um mpeto sexual que o fazia sentir-se como um
adolescente no banco de trs de um carro.
A chuva aoitava as paredes de vidro e o ar era quente e mido, perfumado
de flores, de terra e do perfume dela. Pilar gemia colada nele, tremores
fortes e rpidos. Deliciosos ruidozinhos zumbiam em sua garganta.
Ele queria devor-la, engoli-la inteira e deixar as sutilezas para depois. No
lembrava a ltima vez que sentira esse desejo feroz de acasalar-se se
precipitando por dentro.
-- Pilar, me deixe...
Lutava com o boto da cala dela.
Se ele no tivesse dito seu nome, ela o teria esquecido, esquecido tudo e
simplesmente se entregado s exigncias de seu prprio corpo. Mas o nome
a trouxe de volta num sobressalto. E trouxe a primeira palpitao de pnico.
-- Espere. Isto ... no podemos. -- Ela o empurrou, embora jogasse a
cabea para trs e tremesse com o roar dos dentes dele em sua garganta.
-- David. No. Espere. Pare.
-- Pilar. -- Ele no conseguia retomar a respirao, encontrar o equilbrio. --
Eu quero voc.
Fazia quantos anos desde que ouvira essas palavras? H quantos anos as via
nos olhos de um homem? Tantos, pensou Pilar, que no podia confiar em si
mesma para pensar nem agir racionalmente.
-- David. No estou pronta pra isso.
Ele continuava com as mos nela, envolvendo sua cintura, bem abaixo do
suter, onde a pele era quente e ainda trmula.
-- Mas me pareceu.
-- Eu no esperava... -- Ele tinha mos muito fortes, ela pensou. Palmas
fortes e duras. To discrepante. -- Por favor, poderia se afastar?
Ele ficou exatamente onde estava.
-- Eu quis voc no primeiro minuto em que a vi. Assim que abriu a porta da
frente.
O prazer disparou por todo o corpo dela, perseguido pelo pnico e a
perplexidade.
-- Eu estou...
-- No. -- Ele logo a cortou. -- No diga que est lisonjeada.
-- Claro que estou. Voc  muito atraente e... -- E ela no conseguia pensar
direito quando ele a tocava. -- Por favor. Quer se afastar?
-- Est bem. -- Mas lhe custou. -- Voc sabe que o que aconteceu aqui no
acontece o tempo todo, com todo mundo.
-- Acho que pegamos um ao outro de surpresa -- ela comeou e com cuidado
deslizou para fora da bancada.
-- Pilar, no somos crianas.
-- No, no somos. -- Ficou agitada por ter de ajeitar o suter, lembrar a
sensao das mos dele embaixo. Nela. -- O que  um dos motivos. Tenho
quarenta e oito anos, David, e voc... bem, voc no tem.
Ele no imaginara que alguma coisa na situao o faria rir. Mas fez.
-- No vai querer usar um punhado de anos como desculpa.
-- No  desculpa.  um fato. Outro  que s nos conhecemos h pouco
tempo.
-- Dois meses e dois dias. O tempo que me imaginei pondo as mos em voc.
-- Ele correu os dedos pelos cabelos dela, que o encarava. -- No planejava
saltar sobre voc na estufa e arrancar suas roupas no meio de vasos de
turfa. Mas funcionou pra mim na hora. Quer uma coisa mais convencional?
Pego voc s sete para jantar.
-- David. Meu marido morreu apenas h algumas semanas.
-- Ex-marido -- ele disse, glido. -- No o ponha entre ns, Pilar. No vou
tolerar isso.
-- Quase trinta anos no podem ser descartados da noite para o dia, no
importam as circunstncias.
Ele tomou-a pelos ombros, levantou-a do cho, antes que ela percebesse
como estava furioso.
-- Tony Avano deixou de ser sua zona de segurana, Pilar. Lide com isso. E
lide comigo. -- Beijou-a mais uma vez, forte e demoradamente, e soltou-a. --
Sete horas -- declarou e saiu a passos largos para a chuva.
O desqualificado filho-da-me, no tmulo, no ia complicar a sua vida nem a
de Pilar, decidiu David. Com longas passadas, os ombros curvados, a fria
borbulhava sob sua pele.
No iria permitir. Teria de haver uma conversa franca, com todos os
segredos e sombras projetadas na luz. Muito em breve.
Como ele seguia com o olhar furioso para baixo, e Sophia olhava onde pisava
ao sair numa corridinha pela chuva, os dois colidiram-se na alameda.
-- Opa -- ela conseguiu dizer e bateu a mo no chapu que enfiara s
pressas para proteg-la do pior da gua. -- Achei que voc tinha ido pra
casa.
-- Eu tinha de fazer uma coisa primeiro. Acabei de tentar seduzir sua me
na estufa. Voc tem algum problema com isso?
Sophia deixou a mo tombar do lado.
-- Como?
-- Voc me ouviu. Eu me sinto atrado por sua me e apenas agi de acordo.
Pretendo seriamente agir de novo o mais cedo possvel.  problema para
voc?
-- H...
-- No tem uma interpretao rpida? Uma resposta inteligente?
Mesmo no nevoeiro de choque, ela reconheceu um homem furioso e
frustrado.
-- No, me desculpe. Estou processando.
-- Bem, quando terminar, me mande um maldito memorando. Quando David
saiu, desabalado, Sophia quase viu o vapor que subia dele. Dividida entre o
choque e a preocupao, bateu mais uma vez a mo no chapu e precipitou-
se para a estufa.
Quando irrompeu porta adentro, viu Pilar ali parada, em p, fitando a
bancada de trabalho. Vasos espalhados, derrubados, e vrias mudas
esmagadas, alm de qualquer salvao.
Isso lhe deu uma tima idia do que acontecera, e onde.
-- Mama?
Pilar saltou e apressou-se a pegar as luvas de jardinagem.
-- Sim?
Devagar agora, Sophia avanou. A me tinha as faces afogueadas, os cabelos
em desordem como ficam os cabelos de uma mulher quando um homem corre
as mos por eles.
-- Acabei de ver David.
Pilar deixou as luvas carem dos dedos, que haviam ficado dormentes, e logo
as pegou.
-- Ah?
-- Ele disse que tentou seduzir voc.
-- Ele o qu?
No era pnico agora, mas horror que subira para a garganta de Pilar.
-- E pela sua aparncia, ele teve um bom incio.
-- Foi s uma... -- Acovardada, Pilar pegou o avental, mas no conseguiu
lembrar como vesti-lo. -- Tivemos um desentendimento, e ele ficou
aborrecido. No vale mesmo a pena falar disso.
-- Mama. -- Com delicadeza, Sophia pegou as luvas, o avental e largou-os.
Voc sente alguma coisa por David?
-- Realmente, Sophia, que pergunta.
Pergunta que voc no responde, ela pensou.
-- Tentemos o seguinte. Voc se sente atrada por ele?
--  um homem atraente.
-- Concordo.
-- Ns no... quer dizer, eu no... -- Sem saber mais o que fazer, Pilar apoiou
as mos na bancada. -- Sou muito velha pra isso.
-- No seja ridcula. Voc  uma mulher linda, em pleno vigor da vida. Por que
no poderia ter um romance?
-- No estou atrs de romance.
-- Sexo, ento.
-- Sophie!
-- Mama! -- Sophia falou no mesmo tom horrorizado e abraou a me. --
Corri a toda pra c temendo que a tivesse magoado e que voc estivesse
transtornada. Em vez disso, encontro voc corada, amarfanhada, depois do
que imagino ter sido um delicioso bocado de apalpao masculina pelo nosso
novo e muito sexy executivo-chefe de operaes. Que maravilha!
-- No  maravilha nenhuma e no vai acontecer de novo. Sophia, eu fui
casada por quase trs dcadas. Dificilmente posso me recuperar e saltar
nos braos de qualquer outro homem nesta altura da vida.
-- Papai se foi, Mama. -- Sophia manteve os braos apertados em volta da
me, mas suavizou a voz: -- Para mim  difcil aceitar conviver com a forma
como aconteceu e aceitar que me negassem at mesmo a chance de me
despedir.  duro, mesmo sabendo que ele no me amava de verdade.
-- Oh, Sophie, amava sim.
-- No. -- Ela se desprendeu ento. -- No como eu queria, precisava ou
buscava. Voc, sim, sempre. Ele nunca estava l quando eu precisava. Nem
quando voc precisava. No era do feitio dele dar. Agora voc tem uma
chance de curtir algum que vai lhe dar ateno.
-- Oh, filhinha.
Pilar estendeu a mo e afagou a face da filha.
-- Eu quero que tenha isso -- disse Sophia. -- E ficaria muito triste, muito
zangada, se voc jogar fora esta chance por causa de uma coisa que nunca
existiu. Eu amo voc. Quero que seja feliz.
-- Eu sei. -- Pilar beijou-lhe as duas faces. -- Eu sei. Leva tempo pra se
ajustar. E, oh, cara, o problema no  apenas seu pai e o que aconteceu
conosco, o que aconteceu com ele. O problema  comigo. No sei como
conviver com outro homem ou se quero ficar com algum.
-- Como vai saber se no experimentar? -- Sophia pensou em sentar-se na
bancada, depois refletiu melhor. Sobre as circunstncias. -- Voc gosta
dele, no gosta?
-- Bem, claro que sim. -- Gostar?, pensou. Uma mulher no precisava quase
rolar nua em terra de cultivo com um homem de quem gostava. --  um
homem muito agradvel -- conseguiu dizer. -- Um bom pai.
-- E voc se sente atrada por ele. Ele tem um magnfico traseiro.
-- Sophia.
-- Se voc me disser que no notou, vou ter de violar um mandamento e
chamar minha me de mentirosa. Depois tem aquele sorriso. Aquele sorriso
rpido.
-- Ele tem olhos bondosos -- murmurou Pilar, esquecendo-se de si mesma e
fazendo a filha suspirar.
-- , tem, sim. Voc vai sair com ele? Pilar ocupou-se em arrumar os vasos.
-- No sei.
-- Saia. Explore um pouco. Veja como . E leve uma das camisinhas que esto
na minha mesinha-de-cabeceira.
-- Oh, pelo amor de Deus.
-- Pensando melhor, no leve uma. -- Sophia passou o brao pela cintura de
Pilar e deu umas risadinhas contidas. -- Leve duas.

Captulo Doze
Maddy observava atentamente o pai dar o n na gravata. Era a do Primeiro
Encontro, cinza com listras azul-marinho. Ele dissera aos filhos que s iria
sair com a Sra. Giambelli para jantar fora, e por isso ela e Theo achariam
que se tratava de alguma coisa comercial. Mas a gravata era uma revelao
mortal
Tinha de pensar como se sentia a respeito. No momento, porm, entretinha-
se pressionando-o a deix-la pr um piercing no nariz.
--  um smbolo de auto-expresso.
--  anti-higinico.
--  uma antiga tradio.
-- No da famlia Cutter. Voc no vai mandar furar o nariz, Madeline. E
pronto.
Ela suspirou e fez uma cara feia. Na verdade, no tinha o menor desejo de
mandar furar o nariz, mas queria um terceiro piercing, no lbulo da orelha
esquerda. Comear pelo nariz para chegar aonde queria era uma boa
estratgia. Do tipo, pensou, que o pai apreciaria se soubesse.
-- O corpo  meu.
-- No at voc fazer dezoito anos, no. At esse dia feliz,  meu. V
aporrinhar seu irmo.
-- No posso. No estou falando com ele. -- Ela rolou de costas na cama do
pai e ergueu as pernas para o alto. Embora metida no habitual preto, Maddy
comeava a ficar meio cansada disso. -- Posso fazer uma tatuagem ento?
-- Oh, claro. Vamos todos fazer uma esta semana. -- Ele se voltou. -- Que
tal estou?
Maddy inclinou a cabea e examinou.
-- Melhor que a mdia.
-- Voc  um conforto to grande pra mim, Maddy.
-- Se eu tirar dez em meu trabalho de cincia, posso mandar furar o nariz?
-- Se Theo tirar um dez em qualquer coisa, talvez eu pense em deixar que
ele fure o nariz.
Como as duas pontas da afirmao eram igualmente exageradas, ela riu.
-- Puxa, papai.
-- Tenho de ir. -- Ele ergueu-a da cama e carregou-a do quarto
com o brao em volta da cintura e os ps dela balanando acima do cho.
O hbito mais antigo que ela conseguia lembrar nunca deixava de provocar-
lhe um borbulho de felicidade no peito.
-- Se no posso fazer no nariz, poderia s fazer outro na orelha esquerda?
Para uma argolinha?
-- Se est to segura e decidida a abrir mais buracos no corpo, vou pensar
no assunto.
Ele parou na porta de Theo e bateu com a mo livre.
-- Suma, verme.
David baixou os olhos para a filha.
-- Imagino que se refira a voc.
Empurrou a porta e viu o filho deitado na cama, o telefone na orelha, em vez
de sentado  escrivaninha com o dever de casa. Teve sensaes
ambivalentes. Aborrecimento, porque os deveres com certeza no haviam
sido feitos, e prazeroso alvio, pelo fato de o filho j ter conquistado novos
amigos na escola para interferir com os estudos.
-- Te ligo depois -- resmungou Theo. -- Eu s estava descansando um pouco.
-- , o ms inteiro -- comentou Maddy.
-- Tem muita comida que vocs podem preparar no forno de microondas.
Deixei o nmero do restaurante no bloco junto ao telefone e vocs tm o do
meu celular. S liguem se for necessrio. Nada de brigas, estranhos nus na
casa e no toquem em bebidas alcolicas. Faa seu dever da escola, nada de
telefone nem TV antes de terminar, e no ponha fogo na casa. Esqueci
alguma coisa?
-- Nada de sangue no tapete -- contribuiu Maddy.
-- Certo. Se tiverem de sangrar, sangrem nos azulejos. -- Ele deu um beijo
no cocuruto da filha e largou-a no cho. -- Devo estar de volta l pela meia-
noite.
-- Pai, eu preciso de um carro.
-- h. E eu de uma manso no Sul da Frana. Imagine s. As luzes apagadas
s onze -- acrescentou ao afastar-se.
-- Eu preciso ter rodas -- gritou Theo atrs e xingou baixinho quando ouviu
o pai descer as escadas. --  o mesmo que estar morto aqui, sem rodas.
Tornou a deitar-se na cama para remoer com o teto. Maddy apenas balanou
a cabea.
-- Voc  to idiota, Theo.
-- Voc  to medonha, Maddy.
-- Jamais vai conseguir um carro aporrinhando papai. Se eu ajudar voc a
ganhar um carro, vai ter de me levar ao shopping doze vezes, sem me
sacanear.
-- Como vai conseguir me ajudar a ganhar um carro, sua panaquinha?
Mas ele j pensava na possibilidade. Ela quase sempre conseguia o que
queria.
Maddy entrou saracoteando no quarto, ficou  vontade.
-- Primeiro o trato. Depois a gente conversa.

TEREZA NO ERA DE OPINIO QUE UM PAI DEVESSE AFROUXAR
os cuidados a certa altura da vida de um filho e acompanhasse os
acontecimentos em silncio. Afinal, ficaria uma me na praia e veria o filho,
fosse qual fosse a idade, debatendo-se sem mergulhar?
A maternidade no terminava quando o filho atingia a maturidade. Na
opinio de Tereza, jamais terminava. Quer o filho gostasse ou no.
O fato de Pilar ser adulta, com uma filha tambm adulta, no a impediu de ir
ao quarto dela. Nem a impediu de dizer umas verdades ao ver a filha vestir-
se para a sada noturna.
Sada noturna com David Cutter.
-- As pessoas vo falar.
Pilar atrapalhava-se com os brincos. Cada estgio do ato bsico de vestir-se
tomava enormes propores.
--  s um jantar.
Com um homem. Um homem atraente que deixara perfeitamente claro o
desejo de dormir com ela. Dio.
-- As pessoas encontram combustvel pra fofoca num pensamento. Vo ligar
os motores por algum tempo sobre voc e David confraternizando.
Pilar pegou as suas prolas. Eram prolas formais demais? Antiquadas
demais?
-- Isso aborrece voc, Mama?
-- Aborrece voc?
-- Por que aborreceria? Eu no fiz nada que interesse a algum. Com dedos
que pareciam ter ficado enormes e desajeitados, ela lutava com o fecho.
-- Voc  uma Giambelli. -- Tereza atravessou o quarto, tomou o colar das
mos de Pilar e enganchou o fecho. -- S este basta. Acha que, s porque
optou por formar um lar e criar uma filha, no fez nada de interessante?
-- Voc formou um lar, criou uma filha e dirigiu um imprio. Em termos
comparativos, estou bem aqum das expectativas. Isso ficou muito claro
hoje.
-- Est agindo como uma tola.
-- Estou, Mama? -- Ela virou-se. -- H apenas dois meses voc me lanou na
empresa e no me foi necessrio sequer algum tempo pra provar que no
tenho talento nenhum para a coisa.
-- Eu no devia ter esperado tanto tempo pra fazer isso. Se no a tivesse
lanado, voc no teria provado nada. Anos atrs, cheguei aqui com metas
especficas em mente. Ia dirigir a Giambelli e fazer com que fosse a melhor
do mundo. Ia me casar, criar os filhos e v-los crescer felizes e saudveis.
-- Automaticamente, ela se ps a rearrumar os frascos e potes na
penteadeira de Pilar. -- Um dia passaria para as mos deles o que eu tinha
ajudado a construir. O sonho de ter vrios filhos no se realizou. Lamento
por isso, mas no por voc ser minha filha. Talvez voc lamente que suas
metas de casamento e filhos no se realizaram. Mas lamenta, Pilar, por
Sophia ser sua?
-- Claro que no.
-- Acha que me decepcionei com voc. -- Os olhos dela se encontraram com
os de Pilar no espelho, nivelados e claros. -- E me decepcionei, sim, por voc
ter deixado um homem governar sua vida, fazer com que se sentisse menos
do que era. E por no ter feito nada para mudar isso.
-- Eu o amei por um longo tempo. Foi o meu erro, mas a gente no manda no
prprio corao.
-- Acha que no? -- perguntou Tereza. De qualquer modo, nada que eu dizia
a voc conseguia influenci-la. E, revendo o passado, meu erro foi ter
tornado tudo fcil demais para voc ficar  deriva como ficou. Isso agora
acabou e voc ainda  muito jovem para no estabelecer novas metas. Quero
que participe de sua herana, seja parte do que me foi legado. Eu insisto.
-- Mesmo que no possa me tornar uma empresria.
-- Ento se torne outra coisa -- rebateu Tereza, impaciente e virando-se
para encarar diretamente a filha. -- Deixe de pensar em si mesma como o
reflexo do que um homem via em voc e exista. Perguntei se o que as
pessoas vo falar a incomodaria. Quem dera que tivesse mandado todo
mundo ao diabo. Que falem!  hora de dar a elas alguma coisa sobre o que
falar.
Surpresa, Pilar balanou a cabea.
-- Voc fala como Sophia.
-- Ento escute. Se voc quer David Cutter, mesmo por enquanto, pegue.
Uma mulher que se senta e espera que lhe dem alguma coisa, em geral,
acaba com as mos vazias.
--  s um jantar -- comeou Pilar, e interrompeu-se quando Maria chegou 
porta.
-- O Sr. Cutter est l embaixo.
-- Obrigada, Maria. Diga a ele que a Srta. Pilar j vai descer. -- Tereza
virou-se de novo para a filha, reconheceu e at aprovou o leve pnico que viu
em seus olhos. -- Voc est com a mesma expresso no rosto de quando
tinha dezesseis anos e um rapaz a esperava no salo. E bom ver mais uma
vez isso. -- Curvou-se e roou os lbios na face de Pilar. -- Aproveite a
noite.
Sozinha, Pilar levou um instante para acalmar-se. J no tinha dezesseis
anos e era apenas um jantar, lembrou a si mesma quando saiu. Seria simples,
civilizado e com toda a probabilidade muito agradvel. S isso.
Ainda nervosa, abriu a bolsa no topo das escadas, para conferir se no
esquecera nada. Piscou, de choque, e pousou-os sobre duas embalagens de
camisinha.
Sophia, pensou, apressando-se a fechar de novo a bolsa. Pelo amor de Deus!
A risada que lhe fez coar a garganta era jovem e tola. Quando a deixou
sair, sentiu se ridiculamente aliviada.
Desceu para ver o que ia acontecer em seguida
                                    + + +

ERA UM ENCONTRO, NO HAVIA OUTRA PALAVRA PARA ISSO,
admitiu Pilar. Nada mais trazia aquele brilho rseo a uma noite, nem punha
aquela vertigem na barriga. Talvez dcadas haviam-se passado desde que ela
tivera um encontro, mas tudo lhe voltava agora, sonoro e claro.
Talvez tivesse esquecido o que era sentar-se a uma mesa iluminada  luz de
velas diante de um homem e conversar. Apenas conversar. E mais, ser ouvida
por ele, ter toda a sua ateno. Ver os lbios dele se curvarem para alguma
coisa que ela dissesse. Lembrar, porm, passar mais uma vez por isso, era
como receber um gole d'gua fresco antes de perceber com que desespero
se tornara sedenta.
No que pretendesse deixar qualquer coisa resultar do encontro, alm de,
bem, amizade. Toda vez que se permitia lembrar o que a prpria filha pusera
escondido em sua bolsa, Pilar ficava com as mos midas.
Mas a amizade com um homem atraente e interessante seria deliciosa.
-- Pilar! Que maravilha ver voc!
Ela reconheceu a nuvem de perfume e a animada ferroada na voz, antes de
erguer os olhos.
-- Susan. -- J ajeitava o sorriso social. -- Mas voc no est mesmo
esplndida! Susan Manley, David Cutter.
-- No, no se levante, no se levante. -- Susan, uma loura cintilante e
recm-sada da recuperao da ltima cirurgia plstica facial, adejou a mo
para David. -- Eu ia voltando para a minha mesa, depois de empoar o nariz, e
vi voc. Charlie e eu viemos aqui com uns clientes dele, de fora da cidade.
Uns chatos mortais, ainda por cima -- disse, com uma piscadela. -- Eu dizia
ainda outro dia a Laura que a gente devia se encontrar. Faz tanto tempo.
Que bom ver voc saindo, e com uma aparncia to boa, querida. Sei que
fase horrvel tem sido essa pra voc. Um grande choque para todo mundo.
-- . -- Pilar sentiu a rpida fisgada de remorso e o lento esvaziamento do
prazer da noite. -- Fiquei grata por sua nota.
-- Eu s gostaria de ter podido fazer mais. Bem, no queremos falar de
coisas tristes, no ? -- Deu um apertozinho no brao de Pilar, fazendo ao
mesmo tempo uma avaliao do companheiro de jantar. -- Espero que sua
me esteja bem.
-- Muito bem, obrigada.
-- Tenho de ir. No posso deixar o coitado do Charlie em apuros com aqueles
dois. Foi um grande prazer conhec-lo, Sr. Cutter. Pilar, eu ligo pra voc
semana que vem e a gente sai pra almoar.
-- Conto com isso -- respondeu Pilar, e pegou o vinho quando Susan se
afastou deslizando. -- Desculpe. O Valley no  muito mais que uma
cidadezinha em alguns aspectos.  difcil ir a algum lugar sem topar com
pessoas que a gente conhece.
-- Ento por que se desculpar?
--  embaraoso. -- Ela tornou a largar o vinho, deixou os dedos no p da
taa e correu-os acima e abaixo. -- E, como previu minha me, as pessoas
vo falar.
--  mesmo? -- Ele retirou a mo dela da taa. -- Ento vamos dar a elas
alguma coisa do que falar. -- Levou a mo aos lbios, mordiscou de leve as
juntas. -- Eu gosto de Susan -- disse, ao ver os olhos de Pilar arregalados. --
Ela me deu a abertura pra isso. Que  -- ele perguntou em voz alta -- que
voc acha que ela vai dizer a Laura amanh, quando ligar?
-- Eu s posso imaginar. David. -- Vibraes dispararam por todo o seu
brao. Mesmo depois de retirar a mo da dele, palpitavam na pele. -- No
estou  procura... de alguma coisa.
-- Que engraado, nem eu estava. At ver voc. -- Ele curvou-se com um ar
ntimo. -- Vamos fazer alguma coisa pecaminosa.
O sangue precipitou-se para a cabea dela.
-- Como?
-- Vamos... -- ele baixou a voz para um sussurro sedutor -- pedir sobremesa.
A respirao que se obstrura nos pulmes dela saiu numa ruidosa exploso
de gargalhada.
-- Perfeito.
E foi. A ida de carro  noite, sob as geladas estrelas e uma fria lua branca.
A msica a tocar suave no rdio enquanto eles debatiam, com alguma
veemncia, sobre um livro que os dois haviam lido recentemente. Mais tarde
ela pensaria em como era estranho sentir-se to relaxada e to estimulada,
tudo ao mesmo tempo.
Quase suspirou ao ver as luzes da villa. Praticamente em casa, constatou.
Comeara a noite quase engolida pelos prprios nervos e terminava-a com
pena de que no durasse mais tempo.
-- Os meninos ainda esto acordados -- comentou David, notando a casa de
hspedes iluminada como um cassino de Las Vegas. -- Vou ter de matar os
dois.
-- , eu j percebi o pai assustador e brutal que voc . E como seus filhos
tm medo de voc.
Ele lanou-lhe um olhar de esguelha.
-- Eu no me incomodaria de ver um ou outro tremor neles.
-- Acho que  meio tarde pra isso. Voc criou dois filhos felizes e bem
ajustados.
-- Continuo trabalhando nisso. -- Ele tamborilou com os dedos no volante. --
Theo se envolveu numa encrenca em Nova York. Furto de loja, saindo
escondido do apartamento. As notas dele, nunca astronmicas, despencaram.
-- Sinto muito, David. Os anos da adolescncia s vezes so difceis pra
todo mundo. Ainda mais difceis quando se  pai sozinho. Eu poderia contar
algumas histrias sobre Sophia de arrepiar os cabelos nessa idade. Seu filho
 um rapaz bom. Imagino que esse tipo de comportamento tenha sido apenas
uma expresso normal de conflitos emocionais.
-- Acho que me deu a sacudida que eu talvez precisasse. Vinha
deixando Theo viver um pouco livre apenas porque era mais fcil. Sem horas
suficientes de dia, sem energia suficiente no fim do dia. Foi mais difcil pra
Maddy do que pra Theo quando a me partiu, e por isso compensei mais com
ela que com ele.
-- Reconsideraes -- ela disse. -- Eu conheo tudo sobre elas.
-- Com Theo e Maddy foram reconsideraes de reconsideraes. De
qualquer modo, esse  um dos motivos de eu ter preferido comprar o furgo
e dirigir de uma ponta a outra do pas, em vez de nos jogar aos trs num
avio. Isso nos deu algum tempo. Nada como uma viagem de quase cinco mil
quilmetros num veculo fechado pra cimentar uma unidade familiar, se a
gente sobreviver a isso.
-- Foi muita coragem sua.
-- Quer falar de coragem? -- Ele subiu descontrado a trilha para a villa. --
Tenho sido o principal provador nessa experincia de vinho que Maddy est
fazendo.  brutal.
Pilar riu baixinho.
-- No deixe de nos informar se arranjarmos um concorrente na fabricao.
Fez meno de pegar a maaneta da porta, mas ele ps-lhe a mo no ombro,
detendo-a.
-- Eu vou at a. Vamos terminar a noite direito.
Os nervos dela afloraram de volta. O que ele queria dizer com isso,
exatamente?, ela perguntou-se, quando ele contornou o furgo. Devia
convid-lo a entrar, para ficarem de agarramento no salo? Com certeza que
no. Fora de questo.
Ele ia apenas acompanh-la at a porta. Os dois iam desejar-se boa-noite,
talvez trocar um beijo casual -- muito casual. Entre amigos, lembrou a si
mesma, e recuou quando ele abriu a porta.
-- Obrigada. Foi tudo delicioso, o jantar e a noite.
-- Pra mim tambm.
David tomou-lhe a mo e no se surpreendeu por encontr-la gelada. Vira a
cautela retornar aos olhos dela quando ele abrira a porta. E isso no o
incomodara nem um pouco. No estava acima de ter um estmulo do ego por
saber que intimidava uma mulher.
-- Quero ver voc de novo, Pilar.
-- Oh. Bem, claro. Vamos...
-- No em grupo -- ele rebateu e virou-a para junto de si quando chegaram 
varanda. -- No a trabalho. A ss. -- Puxou-a mais para perto. -- E por
motivos muito pessoais.
-- David...
Mais uma vez, porm, ele cobriu-lhe a boca com a sua. Delicado, desta vez.
Persuasivo. No com aquela brusca e chocante onda de calor que despertara
com rudeza todos os seus desejos adormecidos, mas com uma tepidez lenta
e tranqila, que desfazia pacientemente todos os ns impeditivos da tenso
no ntimo dela. Ele a amolecia at os ossos parecerem cera, derretendo-se.
Quando ele recuou, roou com as mos o rosto dela, deslizando os dedos
pelas faces at a garganta.
-- Ligo pra voc.
Ela fez que sim com a cabea e estendeu cegamente a mo para a porta,
atrs.
-- Boa-noite, David.
Entrou e fechou a porta. Por mais tola que se sentisse, disse a si mesma,
sabia que ia subir flutuando at o alto da escadaria.

AS ADEGAS SEMPRE LEMBRAVAM A SOPHIA O PARASO DE UM
contrabandista. Todos aqueles espaos grandes e ecoantes, cheios de barris
de vinho envelhecendo. Sempre gostara de passar o tempo ali, e mesmo
quando era criana um dos vinicultores a deixava sentar-se a uma mesinha e
provar uma tacinha de um dos barris.
Ainda bem menina, aprendera a distinguir a diferena, pela viso, o aroma, o
paladar, entre o vinho premiado de excepcional safra e o comum. Entender
as sutilezas que tornavam um vinho superior ao outro.
Embora isso lhe houvesse destrudo o gosto pelo comum, que mal havia
nisso? Ela buscava, reconhecia e exigia qualidade, porque fora ensinada a
no tolerar nada menos.
Mas no era no vinho que pensava agora, embora j tivessem retirado os
vinhos de toneis envelhecidos e arrumado as taas para amostragem.
Pensava nos homens.
Tambm fizera um estudo, gostava de pensar. Conhecia uma mistura
inferior, reconhecia o que tinha chance de deixar um gosto residual amargo
e o que se revelaria com o tempo.
Por isso, acreditava, nunca tivera qualquer relacionamento srio, duradouro,
com um homem. Nenhum dos que provara tinha o sabor certo, o buqu
correto, por assim dizer, para convenc-la de que se satisfaria apenas com
uma variedade.
Embora tivesse plena confiana em sua capacidade de fazer as escolhas
certas para si, e conseguir aproveitar sem conseqncias os vos de
degustao, no tinha tanta confiana quanto  da me na mesma rea.
--  o terceiro encontro deles em duas semanas -- comentou.
-- Humm.
Ty segurou uma taa de vinho palhete junto a uma lareira para conferir a
cor. Como o av, como La Signora, mantinha-se fiel aos mtodos antigos e
tradicionais. Classificou-o com um dois pela cor e a claridade, e anotou as
marcas superiores no grfico.
-- Minha me e David.
Para obter a ateno dele, Sophia deu-lhe um soco de leve no brao.
-- Que  que h com eles?
-- Vo sair de novo hoje  noite. A terceira vez em duas semanas.
-- E que  que eu tenho a ver com isso?
Ela soprou forte.
-- Minha me  vulnervel. No vou dizer que no gosto dele, porque gosto.
At a incentivei no incio, quando ele mostrou algum interesse por ela, mas
achei que era apenas uma aventurazinha sem importncia.
-- Sophia, talvez voc se surpreenda, mas eu estou trabalhando. Realmente
no quero falar sobre os assuntos pessoais de sua me.
Ele girou delicadamente o vinho, enfiou o nariz na taa e inalou. Tinha toda a
concentrao dirigida.
-- Eles no fizeram sexo.
Tyler estremeceu visivelmente e perdeu o buqu do vinho.
-- Droga, Sophie.
-- Se j tivessem feito sexo a esta altura, eu no precisaria me preocupar.
Significaria que foi apenas uma atraozinha fsica, e no um acontecimento.
Acho que est se tornando um acontecimento. E at onde a gente sabe
sobre David mesmo? Alm do ponto de vista profissional.  divorciado e no
sabemos por qu. Talvez seja mulherengo ou oportunista. Pensando bem, ele
foi atrs de minha me logo depois de meu pai...
Tyler cheirou mais uma vez o vinho e anotou os nmeros.
-- Voc parece estar dizendo que sua me no conseguiria atra-lo pelos
prprios mritos.
-- No estou mesmo. -- Insultada, Sophia pegou uma taa de Merlot e, com
uma expresso de raiva, olhou a luz atravs dele. -- Ela  linda, inteligente,
charmosa e tudo que um homem quer numa mulher. -- Mas no o que o pai
queria, lembrou. Repugnada consigo mesma, marcou a amostra inferior pela
turvao. -- Eu no me preocuparia com a coisa se ela conversasse comigo.
Mas s me disse que ela e David curtem a companhia um do outro.
-- Nossa, voc acha?
-- Ora, feche a matraca! -- Ela cheirou o vinho, anotou sua opinio, provou-
o, deixando-o descansar atrs da gengiva inferior, e tocou-o com a ponta da
lngua para julgar a acidez e o contedo tnico. Girou-o e, em seguida,
deixou que os vrios elementos de sabor se misturassem e cuspiu. -- Ainda
est imaturo.
Tyler provou-o e viu que concordava com ela.
-- Vamos deixar envelhecer um pouco. Muitas coisas se tornam o que tm de
ser se a gente as deixa em paz durante algum tempo.
--  filosofia o que acabo de ouvir?
-- Quer uma opinio ou s algum para concordar com voc?
-- Acho que querer as duas coisas  esperar demais.
-- Isso mesmo.
Ele ergueu a taa de vinho seguinte e segurou-a junto  luz. Mas olhava
Sophia. Era difcil no olhar, admitiu. No olhar, no se maravilhar. Ali
estavam os dois numa adega fria, mida, cercados por um fogo crepitando,
os cheiros de fumaa, madeira e terra, sombras mergulhando e danando.
Algumas pessoas diriam que era romntico. Ele se esforava ao mximo para
no ser uma delas. Como vinha fazendo para no pensar em Sophia como
pessoa, muito menos como mulher. Era, na melhor das hipteses, uma
parceira, sem a qual ele podia se arranjar.
E no momento a parceira estava preocupada. Talvez ele achasse que ela
andava se preocupando por antecipao, ou metendo o bedelho onde no era
chamada, mas, se tinha uma certeza absoluta sobre Sophia, era que ela
amava a me sem reservas.
-- A ex-mulher dele o descartou, a ele e aos filhos -- ele acabou dizendo.
Sophia ergueu o olhar do vinho que segurava.
-- Descartou?
-- E, decidiu que havia um mundo grande e antigo a, e que tinha direito a
isso. No podia explor-lo, nem a si mesma, com dois filhos e o marido a
tiracolo. Ento se mandou.
-- Como  que sabe disso?
-- Maddy conversa comigo. -- E ele se sentiu culpado por repetir coisas que
lhe haviam dito. O rapazinho no contou muita coisa sobre a vida familiar,
mas o suficiente para lhe dar uma imagem clara. -- Ela no fica revelando
segredos, nem nada disso, s deixa as coisas escaparem de vez em quando.
Pelo que entendi, a me no entra em contato com eles com muita
freqncia, e Cutter est no comando desde que ela partiu. Theo se meteu
numa pequena encrenca, e Cutter aceitou o cargo aqui pra tirar o filho da
cidade.
-- Ento ele  um bom pai. -- Ela sabia bem demais o que era ser descartada
pelo pai. -- Isso no quer dizer que seja bom para minha me.
No acha que cabe a ela decidir isso? Se voc procura defeitos em todo
homem que v, vai encontrar.
-- Eu no fao isso.
--  exatamente isso o que voc faz.
-- No preciso procurar muito fundo em voc -- disse Sophia com a voz
melosa. -- So todos muito bvios. -- Sorte pra ns dois!
-- O que j  um nvel acima do seu padro. Voc dificilmente procura. 
mais fcil se manter envolvido at a tampa com as vinhas do que se envolver
com um ser humano.
-- Estamos falando da minha vida sexual? Devo ter perdido alguma coisa.
-- Voc no tem vida sexual.
-- No em comparao com a sua. -- Ele largou a taa para fazer as
anotaes. -- Mas, tambm, quem tem? Voc corta os homens como uma
faca no queijo. Uma fatia longa, lentamente, uma mordiscada, e descarta.
Est cometendo um erro ao achar que pode estabelecer esses padres para
Pilar.
-- Entendo. -- A mgoa dominou-a. Ele a fizera parecer mais uma vez vulgar.
Como seu pai. Precisando puni-lo por isso, aproximou-se mais. -- Ainda no
cortei voc, cortei, Ty? Nem consegui dar o primeiro corte.  por isso que
tem medo de fazer uma experincia com uma mulher capaz de pensar em
sexo como um homem?
-- Eu no quero fazer uma experincia com uma mulher que pensa em tudo
como um homem. Sou meio tacanho nesse sentido.
-- Por que no expande seus horizontes? -- Ela inclinou a cabea para trs,
convidativa. -- Ouse -- provocou.
-- No estou interessado.
Ainda o testando, ela enrascou os braos no pescoo dele, estreitando-os
quando ele ergueu os dele para afast-los.
-- Qual de ns est blefando? -- provocou, os olhos escuros, ardentes,
envolvendo-o e penetrando-o com seu perfume. Roou os lbios nos dele,
uma carcia sedutora. -- Porque no me prova? -- perguntou, baixinho.
Era um erro, mas no seria o primeiro. Ty agarrou-a e deslizou as mos pelos
seus quadris acima.
O perfume era ao mesmo tempo maduro e evasivo. Tormento deliberado e
eficaz para um homem.
-- Olhe pra mim -- ele ordenou e tomou a boca que ela lhe oferecia.
Tornou o que e como queria. Longo, devagar e profundo. Deixou o gosto dela
deslizar pela lngua, como faria com um excelente vinho, e depois o absorveu
quase indolente, com certeza prazerosamente, no organismo.
Roou os lbios nos dela, virando-a pelo avesso. De algum modo, tocou-os de
leve em toda ela, e o tentado tornou-se o tentador. Sabendo disso, Sophia
no poderia resistir.
Sentia ali muito mais do que j imaginara. Muito mais do que j lhe haviam
oferecido ou aceitado.
Ele a olhava, intensamente. Enquanto brincava com a sua boca, fazendo-lhe a
cabea rodopiar e o corpo sacudir-se, olhava-a com toda a pacincia de um
gato. S isso j era uma emoo nova e chocante.
Correu mais uma vez os dedos pelos lados dela, aquelas mos largas apenas
roando-ihe os seios. E afastou-a.
-- Voc no me  indiferente, Sophia. Eu no gosto disso.
Ele virou-se para tomar um gole na garrafa de gua usada para limpar o
palato.
-- O vinicultor tambm  um cientista. -- O ar parecia espesso quando ela o
sorveu um pouco. -- J ouviu falar em reaes qumicas?
Ele virou-se e entregou a garrafa a ela.
-- J. E um bom vinicultor no se apressa, porque algumas reaes qumicas
s deixam confuso.
A pequena punhalada decepcionou mais que feriu.
-- Voc no pode apenas dizer que me quer?
-- Posso, posso dizer. Eu quero voc, tanto que s vezes di respirar quando
voc no est perto o bastante.
Como agora, ele pensou, quando o gosto dela continuava vivo dentro de si.
-- Mas, quando eu levar voc pra cama, vai me olhar do jeito como acabou de
olhar. No vai ser s outra vez, s outro homem. Vai ser apenas eu, e voc
vai saber.
Uma vibrao percorreu a pele dela. Teve de forar-se a no esfregar as
mos nos braos para recha-la.
-- Por que voc faz isso parecer uma ameaa?
-- Porque . -- Afastando-se dela, ele pegou a taa seguinte de vinho e
retornou ao trabalho.

Captulo Treze
Claremont estudou o arquivo Avano. Passou grande parte do tempo que podia
definir com dificuldade como livre examinando os dados, as provas, o local
do crime e os relatrios do mdico-legista. Quase podia recitar
mecanicamente as declaraes e os depoimentos.
Aps quase dois meses, o caso era considerado pela maioria como um beco
sem sada. Sem suspeitos viveis, sem pistas tangveis, sem respostas
fceis. Isso o obcecava,
No acreditava em crimes perfeitos, mas em oportunidades perdidas.
Que estava perdendo?
-- Alex. -- Maureen parou junto  mesa dele e sentou-se na quina.
J usava o casaco contra o tormento que era So Francisco em fevereiro.
Seu caula tinha um trabalho de histria a ser entregue no dia seguinte, o
marido se restabelecia de uma gripe e eles teriam o que sobrara de um bolo
de carne para o jantar.
Ningum ia alegrar-se em sua casa, mas ela precisava ficar ali.
-- V pra casa -- ela disse ao parceiro.
-- Sempre h uma ponta solta -- ele se queixou.
-- , mas nem sempre a gente consegue amarr-la. Avano continua em
aberto, e parece que vai continuar assim, a no ser que a gente tenha sorte
e alguma coisa caia em nosso colo.
-- Eu no acredito em sorte.
-- , bem, pra mim  o aspecto mais importante da vida.
-- Ele usa o apartamento da filha pra um encontro -- ele comeou, e ignorou
o longo suspiro de resignao da sua parceira. -- Ningum v o cara entrar,
ningum ouve os tiros, ningum v ningum mais entrar ou sair.
-- Porque foi naquele bairro s trs da manh. Os vizinhos dormiam e,
habituados aos barulhos do centro, no ouviram o estalo de um calibre vinte
e cinco.
-- Arma sacal. Arma de mulher.
-- Como?
Ela bateu na sua prpria de nove milmetros.
-- Arma de mulher civil -- corrigiu Claremont com o que era quase um
sorriso. -- Vinho e queijo, encontro tarde da noite num apartamento vazio.
Passando a mulher pra trs, parece. E talvez este seja o ngulo. Talvez
tenha sido armado pra cheirar a coisa de mulher.
-- A gente tambm examinou homens.
-- Talvez precise examinar mais uma vez. A ex-Sra. Avano, ao contrrio da
viva, tem confraternizado com um certo David Cutter.
-- Isso me diz que o gosto dela por homens melhorou.
-- Ela fica legalmente casada com um mulherengo filho-da-me durante
quase trinta anos. Por qu?
-- Escute, meu marido no anda namorando por a e eu sou doida por ele.
Mas as vezes me pergunto por que continuo legalmente casada. Ela 
catlica -- concluiu Maureen com outro suspiro, sabendo que no ia chegar
em casa to cedo. -- Catlica italiana e praticante. O divrcio no sairia
fcil.
-- Ela deu quando ele pediu.
-- No quis atrapalhar o cara.  outra coisa.
-- , e como catlica divorciada no poderia se casar de novo, no ? Nem
se juntar a outro homem com a aprovao da Igreja.
-- Ento ela mata pra desobstruir o caminho? Extrapolando, Alex. Na
medio do pecado catlico, o assassinato ultrapassa em muito o divrcio.
-- Ou algum faz por ela. Cutter  trazido para a empresa, acima de Avano.
Tem de causar algum atrito. Cutter gosta da aparncia da abandonada e
futura esposa divorciada de Avano.
-- Investigamos Cutter de cima a baixo e de lado. Ele est limpo.
-- Talvez, ou talvez no tenha tido um bom motivo pra sujar as mos antes.
Veja, descobrimos que Avano passava por dificuldades financeiras. A no
ser que a viva seja uma atriz digna de Oscar, eu diria que isso lhe veio
como uma grande e desagradvel surpresa. Assim, seguindo a teoria de que
Avano guardava seus problemas financeiros pra si mesmo, e no era o tipo
de passar sem seu caviar de esturjo por muito tempo, aonde ele iria em
busca de um paliativo? No a uma de suas amigas socialites -- continuou
Claremont.
-- No teria condies de mostrar a cara no baile beneficente seguinte. Vai
 Giambelli, onde foi salvo de perigos financeiros peridicamente durante
anos. A ex-mulher, talvez.
-- E seguindo sua linha de raciocnio, se ela concordou, Cutter perdeu as
estribeiras. Caso contrrio, Avano tornou-se abominvel, e foi Cutter quem
perdeu. H uma grande distncia entre perder as estribeiras e meter trs
balas num homem. -- Mesmo assim, pensou. H uma coisa a ser considerada,
e eles tinham pouqussimas coisas at agora. -- Imagino que vamos conversar
com David Cutter amanh.
                                    + + +

DAVID FAZIA MALABARISMOS COM AS HORAS DO DIA TIL ENTRE
os escritrios de So Francisco, o de casa, os vinhedos e o lagar. Com dois
adolescentes para criar e um emprego exigente, muitas vezes investia
catorze horas.
Mas nunca fora to feliz na vida.
Na empresa La Coeur, passara quase o tempo todo atrs de uma mesa de
escritrio. Viajara uma ou outra vez para sentar-se no outro lado da mesa
de algum. Trabalhara num setor que lhe interessava e rendera-lhe
respeito, alm de um bom salrio.
E quase vivia desmaiando de tanta chateao.
O mtodo prtico de trabalho com participao ativa, que no apenas lhe
haviam concedido, mas esperavam que ele empregasse na Giambelli-
MacMillan, transformava cada dia numa pequena aventura. Vinha
mergulhando os dedos em reas do negcio de vinho que haviam sido apenas
teoria ou papelada.
Distribuio, engarrafamento, remessa de cargas por navio, marketing. E,
acima de tudo, a prpria uva. Das vinhas para a mesa.
E que vinhas. Poder v-las expandir-se, envoltas nos nevoeiros do vale. O
linear e etreo que misturava luz e sombra. E, quando a geada tremeluzia
sobre elas ao amanhecer, ou o frio luar as salpicava  meia-noite, era pura
magia.
Quando atravessava as fileiras, absorvendo o mistrio daquele ar mido, e
os delgados braos das vinhas o cercavam, era como viver numa pintura onde
podia, e queria, deixar as prprias pinceladas.
Havia um caso de amor ali que ele esquecera, trancado atrs do ao e vidro
de Nova York.
A vida familiar ainda continha conflitos. Theo combatia e se debatia contra
as regras quase todo dia. Parecia a David que elas trituravam o garoto a
maioria das vezes.
Tal pai, tal filho, pensava freqentemente. Mas no era um grande conforto
quando se via no meio da zona de combate. Passou a perguntar-se por que
seu prprio pai, diante de um rebento to mal-humorado, cabea-dura e
brigo, apenas no o trancara no sto at ele fazer vinte e um anos.
Maddy no era nada mais fcil. Parecia ter desistido do piercing no nariz.
Agora vinha fazendo campanha para pintar mechas coloridas nos cabelos.
Aturda-o constantemente como uma menina sensata podia viver ansiando
por fazer coisas esquisitas no corpo.
Ele no tinha a menor idia de como entrar na mente de uma menina de
catorze anos. Nem certeza absoluta se queria faz-lo.
Mas os dois estavam se estabelecendo. Fazendo amigos. Encontrando um
ritmo.
Achou estranho que nenhum dos filhos houvesse comentado o seu
relacionamento com Pilar. Em geral, provocavam-no sem piedade sobre os
encontros. Achou, talvez, que agora julgassem tratar-se de trabalho.
Melhor assim.
Viu-se sonhando acordado, como muitas vezes fazia, quando a mente vagava
para Pilar. Balanou a cabea e mudou de posio na cadeira. No era hora
de devaneios. Tinha um encontro com os gerentes de departamento dentro
de vinte minutos e precisava rever suas anotaes.
Como o tempo era curto, no gostou de ser interrompido pela polcia.
-- Detetives. Que posso fazer por vocs?
-- Gostaria de alguns minutos de seu tempo -- respondeu Claremont,
enquanto Maureen varria o escritrio com os olhos.
-- Alguns minutos  exatamente o que posso ceder. Sentem-se. Grandes
poltronas confortveis de couro, notou Maureen. Num grande e confortvel
escritrio de esquina, com uma vista estupenda de So Francisco das largas
janelas. Um escritrio puro-sangue para um jquei de mesa, e totalmente
masculino com o esquema de cores marrom-claro e vinho, e uma brilhante
escrivaninha de mogno.
Ela se perguntou se o escritrio fora feito sob medida para combinar com o
homem, ou vice-versa.
-- Suponho que isto tenha a ver com Anthony Avano -- comeou David. --
Algum progresso na investigao?
-- O caso continua em aberto, Sr. Cutter. Como descreveria seu
relacionamento com o Sr. Avano?
-- No tnhamos nenhum, detetive Claremont -- respondeu David, sem
rodeios.
-- Vocs dois eram executivos da mesma empresa, trabalhavam basicamente
a partir deste prdio.
-- Por muito pouco tempo. Eu trabalhava na Giambelli menos de duas
semanas quando Avano foi assassinado.
-- Em duas semanas, formou alguma impresso -- interferiu Maureen. --
Teve reunies, conversaram sobre negcios.
-- Seria de imaginar, no? Mas eu ainda precisaria marcar uma reunio com
ele, e s tivemos uma nica conversa, que ocorreu na festa, na vspera do
assassinato. Foi a nica vez que o vi cara a cara, e na verdade no era hora
de conversar sobre negcios.
No falou de sua impresso, notou Claremont. Mas teriam de chegar l.
-- Por que no se encontrou com ele?
-- Conflitos de horrios -- respondeu David, num tom imperturbvel.
-- Seus ou dele?
David recostou-se. No gostava da direo do interrogatrio, nem da
insinuao.
-- Dele, parece. Vrias tentativas para alcan-lo revelaram-se
malsucedidas. No perodo entre minha chegada e a morte dele, Avano no
veio ao meu escritrio, pelo menos quando eu estava aqui, nem retornou
meus telefonemas.
-- Isso deve ter aborrecido voc.
-- Aborreceu, sim. -- David assentiu com a cabea para Maureen. -- Foi
disso que tratei durante nossa breve conversa no lagar. Deixei claro que
esperava que ele arranjasse tempo pra se encontrar comigo no horrio
comercial e  bvio que isso nunca ocorreu.
-- Encontrou-se com ele fora do horrio comercial?
-- No. Detetives, eu no conhecia o homem. No tinha qualquer motivo
verdadeiro para gostar ou no dele, nem pensar nele em particular. -- David
mantinha a voz nivelada, beirando a indiferena, como fazia quando
terminava um encontro comercial tedioso. -- Embora entenda que tenham de
explorar todas as possibilidades na investigao, acharia que esto na raspa
de tacho se me vem como suspeito de assassinato.
-- Voc est saindo com a ex-mulher dele.
David sentiu-se abalado com a declarao incisiva, mas manteve a expresso
passiva quando tornou a curvar-se para a frente. Devagar.
-- Correto. A ex-mulher, que j era ex-mulher quando ele foi assassinado e
quando comeamos a nos ver socialmente. No creio que isso transponha
alguma linha legal.
-- Soubemos que a ex-Sra. Avano no tinha o hbito de ver homens
socialmente, at pouqussimo tempo atrs.
-- Talvez -- disse David a Maureen -- porque no tenha conhecido um
homem que gostasse de ver socialmente, at pouqussimo tempo atrs. Acho
isso lisonjeiro, mas no um motivo para assassinato.
-- Ser abandonada por uma mulher mais jovem muitas vezes  -- disse
Maureen, descontrada, e viu olhos frios rebentarem em chamas.
No apenas a vendo socialmente, ela concluiu. Seriamente comprometido.
-- Mas que  isto? -- exigiu saber David. -- Pilar o matou porque ele quis
outra mulher, ou  insensvel porque est interessada em outro homem to
em cima do assassinato do marido? Como vocs entortam essa hiptese nos
dois lados?
Furioso, pensou Maureen, mas controlado. Bem o tipo de composio que
poderia calmamente tomar vinho e dar um tiro num homem.
-- No estamos acusando ningum -- ela continuou. -- Apenas tentando ter
uma imagem clara.
-- Permitam-me ajudar vocs. Avano viveu sua prpria vida  maneira dele
por vinte anos. Pilar Giambelli, a dela, e de forma muito mais admirvel.
Qualquer negcio que Avano pudesse ter tido naquela noite era s dele, e
nada tinha a ver com ela. Minha convivncia com a Sra. Giambelli, a essa
altura, est completamente fora de questo.
-- Voc supe que Avano tivesse negcios naquela noite. Por qu?
-- No suponho nada. -- David inclinou a cabea para Claremont ao levantar-
se. -- Eu tenho uma reunio.
Claremont continuou onde estava.
-- Sabia que o Sr. Avano passava por dificuldades financeiras?
-- As finanas de Avano no eram problema meu, nem minha preocupao.
-- Teriam sido, se estivessem relacionadas  Giambelli. No ficou curioso ao
saber por que ele o evitava?
-- Fui trazido pra c de fora. Era de esperar algum ressentimento.
-- Ele se ressentia do senhor?
-- Talvez. Nunca chegamos a nos encontrar pra conversar sobre isso.
-- Agora quem est evitando? -- Claremont levantou-se. -- Tem uma pistola,
Sr. Cutter?
-- No, no tenho. Tenho dois filhos adolescentes. No h armas de nenhum
tipo em minha casa, e nunca houve. Na noite em que Avano foi assassinado, eu
estava em casa com meus filhos.
-- Eles podem confirmar isso? David cerrou as mos em punhos.
-- Eles saberiam se eu tivesse sado. -- No iria deixar os filhos serem
interrogados pela polcia. Pelo menos sobre um ser humano desprezvel como
Avano. -- Isso  tudo que vamos conversar at eu consultar um advogado.
--  um direito seu. -- Maureen levantou-se e jogou o que apostava ser seu
trunfo. -- Obrigada pelo seu tempo, Sr. Cutter. Vamos interrogar a Sra.
Giambelli sobre as finanas do ex-marido dela.
--Eu diria que a viva dele sabe mais.
Maureen continuou:
-- Pilar Giambelli foi casada com ele por muito mais tempo, e fazia parte da
empresa para a qual ele trabalhava. David enfiou as mos nos bolsos.
-- Ela sabe menos sobre a empresa que qualquer um de vocs. -- E, pensando
nela, tomou uma deciso: -- Nos ltimos trs anos Avano vinha desviando,
sistematicamente, dinheiro da Giambelli. Fraude pelo acrscimo de artigos
falsos s contas de despesas, aumento do nmero de vendas e recibos de
viagens ou feitas apenas por motivos pessoais. No em grande quantidade de
uma s vez, e ele roubava de vrios bolsos, para que isso passasse
despercebido. Na posio dele, profissional e pessoal, ningum questionaria,
e ningum nunca fez isso, os nmeros que apresentava.
Claremont assentiu com a cabea.
-- Mas voc, sim.
-- . Descobri parte disso no dia da festa e, numa dupla conferncia,
comecei a ver o esquema. Pra mim, ficou claro que ele vinha espoliando
durante algum tempo sob seu nome, o de Pilar e o da filha. No se dava ao
trabalho de falsificar a assinatura delas nos comprovantes de despesas,
apenas assinava. Num total simplesmente de mais de seiscentos mil nos
ltimos trs anos.
-- E voc o confrontou... -- sugeriu Maureen.
-- Jamais. Eu pretendia faz-lo, e creio que deixei essa inteno clara
durante nossa conversa na festa. Tive a impresso de que ele entendeu que
eu sabia de alguma coisa. Era a empresa, detetive, e seria resolvido pela
empresa. Comuniquei o problema a Tereza Giambelli e Eli MacMillan no dia
seguinte  festa. A concluso foi que eu ia cuidar disso, fazer o que tinha de
ser feito num acordo em que Avano devolvesse o dinheiro. Ele se demitiria
da empresa. Se recusasse qualquer das estipulaes esboadas, os Giambelli
tomariam medidas legais.
-- Por que ocultaram essa informao?
-- Era o desejo da velha Sra. Giambelli que a neta no fosse humilhada pelo
fato de o comportamento do pai tornar-se pblico. E me pediram que nada
dissesse, a no ser que fosse diretamente interrogado pela polcia. A essa
altura, La Signora, Eli MacMillan e eu somos as nicas pessoas que sabem.
Avano est morto, e parecia desnecessrio agravar o escndalo pintando-o
como ladro, alm de namorador.
-- Sr. Cutter -- disse Claremont. -- Quando se trata de assassinato, nada 
desnecessrio.

DAVID MAL FECHARA A PORTA NAS COSTAS DOS POLICIAIS E
inspirara fundo para estabilizar-se, quando ela tornou a abrir-se. Sophia no
batera, entrara sem pensar.
-- Que  que eles queriam?
Ele teve de ajustar-se rpido, afastar logo a preocupao e a raiva e deix-
las para depois.
-- Estamos os dois nos atrasando para a reunio.
Ele recolheu as anotaes e deslizou-as com os relatrios, os grficos e os
memorandos para dentro da pasta.
-- David. -- Sophia simplesmente ficou com as costas para a porta. -- Eu
podia ter ido atrs dos policiais e tentado obter as respostas que no
consegui tirar deles. Esperava que voc fosse mais compreensivo.
-- Eles tinham perguntas, Sophia. Acompanhamentos, eu acho que  assim
que chamam.
-- Por que voc, e no eu ou vrias outras pessoas no prdio? Voc mal
conhecia meu pai, nunca trabalhou com ele, nem, at onde sei, passou algum
tempo com ele. Que poderia dizer  polcia sobre ele, ou o assassinato, que
j no tenha sido dito?
-- Pouco ou nada. Sinto muito, Sophia, mas precisamos adiar esta conversa,
pelo menos por enquanto. As pessoas esto esperando.
-- David, me d algum crdito. Eles vieram direto ao seu escritrio, e
ficaram aqui tempo suficiente para ter havido alguma coisa. A notcia corre
-- ela concluiu. -- Eu tenho o direito de saber.
Ele nada disse por um instante, mas examinou o rosto dela. Sim, tinha o
direito de saber, decidiu. E ele, nenhum direito de tir-lo dela.
Pegou o telefone.
-- A Srta. Giambelli e eu vamos chegar alguns minutos atrasados para a
reunio -- disse  secretria. Indicou uma poltrona, acenando com a cabea.
-- Sente-se.
-- Vou ficar em p. Voc talvez tenha notado, eu no sou frgil.
-- Notei que sabe cuidar de si mesma. A polcia fez algumas perguntas que
resultaram, pelo menos em parte, do fato de eu ter sado com sua me.
-- Entendo. Tm alguma teoria de que voc e a Mama andaram envolvidos
num longo e secreto caso amoroso? Esta poderia ser facilmente descartada
pelo fato de at uns dois meses atrs vocs morarem a quase um pas de
distncia um do outro. Alm de que meu pai j vivia abertamente com outra
mulher durante vrios anos, alguns encontros pra jantar so insignificantes.
-- Sei que eles esto cobrindo todos os ngulos.
-- Suspeitam de voc ou da Mama?
-- Eu diria que suspeitam de todos. Isso  parte da descrio das
atribuies do trabalho deles. Voc tem sido cuidadosa em no comentar
comigo, em todo caso, sobre como se sente sobre meu relacionamento com a
sua me.
-- Ainda no decidi como me sinto, em termos precisos. Quando decidir, digo
a voc.
-- Muito justo -- ele disse, sem se alterar. -- Eu sei como me sinto, portanto
vou dizer a voc. Gosto muito de Pilar. No pretendo causar nenhum
problema nem aborrecer sua me. Lamentaria tambm lhe causar algum,
primeiro porque ela a ama, e segundo porque gosto de voc. Mas acabei de
me ver na posio de optar entre causar algum aborrecimento a vocs duas
ou deixar meus filhos serem interrogados e nada fazer para impedir a
investigao de chegar a um beco sem sada.
Ela ento sentiu vontade de sentar-se. Alguma coisa lhe dizia que ia
precisar. Por causa disso, o orgulho a manteve de p.
-- Que disse voc  polcia que vai me aborrecer?
A verdade, ele pensou, como um remdio, era mais bem dada numa nica
dose rpida.
-- Seu pai andou desfalcando a empresa durante vrios anos. As somas eram
dispersas e relativamente moderadas, motivo pelo qual continuaram no
detectadas por tanto tempo.
Embora a cor se esvasse do rosto de Sophia, ela no se encolheu. No se
encolheu nem quando o golpe da traio a atingiu com fora no corao.
-- No h algum engano? -- ela comeou e descartou-o antes que ele
pudesse responder. -- No, claro que no h. Voc no cometeria um engano.
-- Havia um leve toque de ressentimento naquela afirmao. Ela no pde
evitar. -- H quanto tempo voc soube?
-- Confirmei no dia da festa. Pretendia me encontrar com seu pai dois dias
depois para conversar com...
-- Para despedi-lo -- ela corrigiu.
-- Para pedir que se demitisse. Conforme as instrues de seus avs.
Comuniquei o desvio de fundos a eles no dia seguinte  festa. Ele teria a
oportunidade de pagar os fundos e se demitir. Fizeram isso por voc... por
sua me tambm, pela empresa, mas sobretudo por voc. Sinto muito.
Ela assentiu com a cabea e virou-se de costas, esfregando as mos nos
braos.
-- Sim, claro. Agradeo voc estar sendo honesto comigo agora.
-- Sophia...
-- Por favor, no. -- Ela se aproximou quando ele avanou. -- No me pea
desculpas de novo. No vou desmoronar. Eu j sabia que ele era um ladro.
Vi um dos broches de minha me, uma relquia de famlia, na lapela de Rene.
Era para ser deixado para mim, por isso sei que minha me no deu a ele.
Soube quando a vi usando, no luto de viva, que ele tinha roubado. No que
tivese pensado nisso assim. Tanto quanto no teria pensado no dinheiro que
drenava da empresa como roubo. Pilar, ele achava, tinha tantos badulaques
que no iria se importar. A empresa, dizia a si mesmo, pode se dar ao luxo
de me emprestar um pouco mais de capital. , ele era um campeo em
racionalizar seu comportamento pattico.
-- Se voc preferir ir para casa a participar da reunio, posso transmitir
suas desculpas.
-- No tenho a menor inteno de perder a reunio. -- Ela virou-se de
costas. -- No  estranho? Eu sabia o que meu pai fazia com a Mama todos
esses anos, ningum me contou. Conseguia perdo-lo, ou dizia a mim mesma
que ele era simplesmente o que era, e tornava isso, embora no muito bem,
de algum modo marginalmente aceitvel. Ora, roubar dinheiro e jias era
muito menos importante que roubar a dignidade e o respeito prprio de uma
pessoa, como fez com minha me. Mas pra mim foi preciso isto agora pra
enfrentar em cheio que ele no valia nada como ser humano. Foi preciso isto
pra eu parar de sangrar por ele. Eu me pergunto: por qu? Bem, eu me
encontro com voc na reunio.
-- Espere alguns minutos.
-- No. Ele j teve mais do meu tempo a que tinha direito.
Sim, ele pensou ao sair do escritrio. Muitssimo parecida com a av.

COMO ERA A VEZ DE SOPHIA DIRIGIR, TYLER VEIO DE CARRO DA
cidade em silncio. A no ser, pensou, que se inclusse o volume do rdio.
Diminura-o duas vezes, s para v-la aumentar de novo. Os encontros
departamentais j lhe davam dor de cabea, como a pera que agora saa aos
berros dos alto-falantes, mas ele decidiu deixar para l. Com certeza,
impedia qualquer pretexto para conversas.
Ela no parecia no clima para conversa. Ele no sabia ao certo para que clima
ela estava, mas tinha absoluta certeza de que no era para conversa.
Dirigia rpido demais, mas ele j se habituara a isso. Mesmo com qualquer
tempestade cozinhando em fogo brando dentro de si, ela no era descuidada
quando guinava o carro nas curvas e encostas da estrada.
Ainda assim, ele quase suspirou quando viu os telhados de sua casa. J ia
chegar l, ileso, e poderia livrar-se das roupas de cidade e cair em
abenoado silncio e solido.
Mesmo de boca fechada com tanta firmeza, pensou, Sophia simplesmente o
exauria.
Mas quando ela parou o carro no fim da entrada de veculos, desligou o
motor e saltou antes dele, ele perguntou:
-- Que est fazendo?
-- Entrando -- ela gritou, virando a cabea para trs e acrescentando um
breve e cintilante olhar s palavras.
-- Por qu?
-- Porque no estou a fim de ir pra casa. Ele fez tinir as chaves no bolso.
-- Foi um longo dia.
-- No foi mesmo?
-- Tenho coisas a fazer.
-- Que conveniente! Estou atrs de coisas a fazer. Seja amigo, MacMillan.
Oferea um drinque pra mim.
Resignado, ele enfiou a chave na fechadura.
-- Pegue seu prprio drinque. Voc sabe onde fica tudo.
-- Gentil at o fim.  disso que eu gosto em voc. -- Ela entrou e se
encaminhou direto para o grande salo e a estante-bar. -- Com voc, Ty, no
h fingimentos, jogos. Voc  o que . Mal-humorado, grosseiro e previsvel.
Ela escolheu uma garrafa ao acaso. Variedade e safra especial no
importavam naquele momento. Enquanto a desarrolhava, olhava o salo em
volta. Pedra e madeira -- materiais duros, hbil e proporcionadamente bem
trabalhados num ambiente para mveis grandes, simples e monocrmicos.
Sem flores, pensou, sem arestas suaves, sem brilho.
-- Veja esta casa, por exemplo. Sem acessrios suprfluos nem
espalhafatosos. Ela diz que mora aqui um homem viril, sem tempo pra
aparncias. Voc est cagando para aparncias, no , Ty?
-- No especificamente.
--  muita coragem sua. Voc  um indivduo corajoso. -- Ela serviu duas
taas. -- Algumas pessoas vivem e morrem pelas aparncias, voc sabe.  o
que mais importa. Eu, eu sou mais um tipo mdio feliz. No se pode confiar
em algum que faz das aparncias uma religio, e nos que cagam para as
aparncias a gente acaba confiando demais.
-- Se vai tomar meu vinho e ocupar meu espao,  melhor me dizer o que ps
voc nesse estado de esprito e acabar logo com isso.
-- Oh, eu tenho muitos estados de esprito. -- Ela tomou o vinho, rpido
demais, pelo prazer, e serviu-se uma segunda taa. -- Sou uma mulher de
muitas faces, Tyler. Voc ainda no viu nem metade. -- Atravessou a sala
at ele. -- Uma espcie de pistoleira sexual fanfarrona. Gostaria de ver
mais?
-- No.
-- Oh, sem essa, no me decepcione mentindo. Nada de jogos nem
fingimentos, lembre-se. -- Ela correu a ponta de um dedo pela camisa dele
acima. -- Voc quer mesmo pr as mos em mim, e o que  muito
conveniente, eu quero mesmo ser bolinada.
-- Quer se embriagar e transar? Lamento, mas isso no se encaixa nos meus
planos para esta noite.
Ele tirou a taa da mo dela.
-- Que foi que houve? Quer que eu pague um jantar pra voc primeiro? --
ela provocou.
Ele largou a taa.
-- Tenho melhor opinio de mim. E, surpresa, de voc tambm.
-- timo. Vou simplesmente procurar algum que no seja to exigente. --
Ela deu trs passos largos em direo  porta e ele agarrou-lhe o brao. --
Largue. J teve sua chance.
-- Vou levar voc para casa.
-- Eu no vou para casa.
-- Vai pra onde eu levar.
-- Eu mandei voc me largar! -- Ela rodopiou.
Estava disposta a arranhar, enfiar as unhas e estapear, j sentia a liberao
jorrar de cima a baixo. E ficou mais que surpresa do que ele quando o
agarrou com fora e desabou em prantos.
-- Merda. Tudo bem. -- Ele fez a nica coisa que lhe ocorreu. Ergueu-a nos
braos, levou-a at uma poltrona e sentou-se com ela no colo. -- Ponha tudo
pra fora e ns dois vamos nos sentir melhor.
Enquanto ela chorava, o telefone tocou em algum lugar embaixo da almofada
do sof onde ele o perdera na ltima vez. E o antigo relgio de parede acima
da lareira comeou a martelar a hora.

ELA NO SE ENVERGONHAVA DAS LGRIMAS, AFINAL ERAM APENAS
outra forma de paixo. Mas preferia outros mtodos de liberao. Quando
secara de tanto chorar, ficou onde estava, enroscada e aquecida nele, e
mais reconfortada do que imaginara.
Ele no a afagou nem acariciou, no balanou nem murmurou aquelas palavras
tolas e tranqilizantes que as pessoas tendiam a usar para estancar as
lgrimas. Simplesmente a deixou continuar e purgar-se.
Em conseqncia, ela tambm se sentiu mais grata do que imaginara.
-- Desculpe.
-- , somos dois.
A resposta a fez relaxar. Inspirou fundo e longamente, aspirando o perfume
dele, que a prendia, enquanto ela se prendia a ele. E depois exalando.
-- Se tivesse me tomado num sexo selvagem, eu no me teria debulhado em
lgrimas sobre voc todo
-- Bem, se eu tivesse sabido as minhas opes na hora...
Ela riu e apoiou a cabea no ombro dele apenas um instante., antes de
desprender-se de seu colo.
-- Na certa estamos em melhor situao assim. Meu pai roubava da empresa.
Antes que ele pudesse decidir como responder, ela avanou um passo em sua
direo.
-- Voc sabia.
-- No.
-- Mas no est surpreso.
Ele levantou-se, desejando sinceramente que no fosse o incio de outra
batalha.
-- No, no estou surpreso.
-- Entendo. -- Ela desviou o olhar dele e fixou-o na lareira, onde o ltimo
fogo da noite se reduzira a cinzas. Adequado, pensou. Sentia-se exatamente
assim... fria e vazia. -- Certo. Bem. -- Enrijeceu a espinha e enxugou os
ltimos vestgios de lgrimas. -- Eu pago minhas dvidas. Vou preparar um
jantar para voc.
Ele comeou a protestar. Ento pesou as opes de solido contra uma
refeio quente. Ela sabia cozinhar, lembrou.
-- Voc sabe onde fica a cozinha.
-- Sim, eu sei. -- Ela chegou mais perto, ergueu-se nas pontas dos ps e
beijou-lhe a face. -- Pagamento inicial -- disse e livrou-se do casaco ao sair
da sala.

Captulo Catorze
Voc no me ligou de volta.
Margaret foi atrs de Tyler na vincola MacMillan.
Tivera vrias satisfatrias e bem-sucedidas reunies desde seu retorno de
Veneza. A carreira avanava a passos largos, ela sabia que estava bem aps
esquematizar duas cuidadosas investidas de compras antes de voltar 
Califrnia. Vinha criando o refinamento que, sempre acreditara, uma viagem
internacional refletia numa mulher.
Restava apenas uma meta, que pretendia alcanar enquanto estava nos
Estados Unidos. Conquistar Tyler MacMillan.
-- Desculpe. Tenho andado atolado.
Fevereiro era um ms fraco na fabricao de vinho, mas isso no significava
que no se trabalhasse. Sophia programara uma festa de degustao de
vinhos nessa noite no territrio dele, embora no se sentisse muito
satisfeito com o evento, entendia o valor. E sabia da importncia de fazer
tudo nos conformes.
-- Eu imagino. Passei os olhos pelos planos para a campanha do centenrio.
Voc fez um trabalho maravilhoso.
-- Foi Sophia quem fez.
Margaret acompanhou-o quando ele se dirigiu  sala de degustao.
-- Voc no se d crdito suficiente, Ty. Quando vai aparecer para dar uma
olhada na operao na Itlia? Acho que ficaria impressionado e satisfeito.
-- Ouvi boatos sobre isso. No tenho tempo no momento.
-- Quando tiver, vou mostrar a rea. Comprar pra voc uma massa no
fantstico e pequeno restaurante italiano que descobri. Servem nosso vinho
l agora e estou negociando com uns dos hotis de primeira pra destacar
nosso rtulo neste vero.
-- Parece que voc tambm tem andado ocupada.
-- Adoro. Ainda existe uma pequena resistncia de algumas das contas
ligadas a Tony Avano e seu estilo de negcios. Mas eu os estou convencendo.
A polcia tem mais alguma novidade sobre o que aconteceu com ele?
-- No que eu saiba.
Com que rapidez, perguntou-se Ty, vazaria a informao sobre o desfalque?
-- E terrvel. Ele era um cara muito popular com as contas. E o pessoal na
Itlia adorava Avano. Mas no so abertos a ponto de se reunir pra tomar
grappa e fumar charutos comigo.
Ele parou e sorriu-lhe.
-- Mas que situao!
-- Eu sei jogar com os rapazes. Preciso rumar de volta no fim de semana,
fazer vrias paradas no caminho aqui nos Estados Unidos. Tinha esperana
de que a gente pudesse se encontrar. Preparo um jantar pra voc.
Que negcio era esse de mulheres se oferecendo para cozinhar para ele?
Parecia faminto?
--  que... -- ele se interrompeu ao ver Maddy chegar. A garota sempre lhe
levantava o nimo. -- Ei. Mas  a cientista louca.
Embora secretamente satisfeita, Maddy olhou-o com desdm.
Consegui minha frmula secreta.
Segurava dois potes de manteiga de amendoim cheios de lquido escuro.
-- Parece muito assustadora.
Ty pegou uma das amostras, inclinou a que lhe estendia Maddy de um lado
para outro e viu-o sibilar.
-- Talvez voc possa provar na degustao hoje  noite. Ver o que as
pessoas dizem.
-- Humm. -- Podia apenas imaginar os comentrios dos esnobes enlogos
aps um gole do vinho de cozinha de Maddy. E por causa disso comeou a rir.
--  uma idia.
-- No vai me apresentar  sua amiga?
No que Margaret no gostasse de crianas, sobretudo a uma distncia
segura. Mas tentava ganhar algum tempo.
-- Oh, desculpe. Margaret Bowers, Maddy Cutter.
-- Oh, voc deve ser a menina de David. Seu pai e eu nos encontramos
algumas vezes hoje.
-- No brinca. -- O ressentimento por ser chamada de menina cozinhava em
fogo brando. Ela virou-se para Ty, ignorando o comentrio de Margaret. --
Eu vou fazer todo esse relatrio sobre o vinho, e por isso quero, assim,
observar e entender do assunto.
-- Claro. -- Ele abriu o frasco e cheirou-o. A diverso brilhou em seus olhos.
-- Eu mesmo gostaria de observar este.
-- Ty? Que tal amanh  noite?
-- Amanh?
-- O jantar. -- Margaret manteve a voz descontrada. -- Tem muita coisa
relacionada  operao italiana que eu gostaria de conversar com voc.
Espero que possa me orientar um pouco, bombear minhas reas fracas,
Tenho algumas noes meio vagas sobre alguns aspectos e acho que
conversar com um vinicultor expert que tem ingls como a lngua materna
ajudaria mesmo.
-- Claro.
Ele estava muito mais interessado no vinho de Maddy no momento e foi
atrs do bar pegar uma taa.
-- s sete? Tenho um delicioso Merlot que trouxe comigo.
-- Que timo!
O lquido que Tyler despejou na taa jamais seria delicioso, de qualquer
modo.
-- At amanh, ento. Prazer em conhecer voc, Maddy.
-- Falou. -- Ela bufou de leve quando Margaret saiu. -- Voc  um grande
panaca.
-- Como?
-- Ela no parou de paquerar voc e o panaca a, assim, distrado.
-- Ela no estava me paquerando e voc no deve falar assim.
-- Estava, sim. -- Maddy sentou-se num banco junto ao bar. -- As mulheres
sacam essas coisas.
-- Talvez, mas voc no se qualifica como mulher.
-- Eu j menstruei.
Ele ia comear a beber, mas teve de largar a taa porque estremeceu.
-- Por favor.
-- E uma funo biolgica. E, quando uma fmea tem condies fsicas de
conceber, ela , fisicamente, mulher.
-- timo. Maravilha. -- No era um debate no qual quisesse entrar. -- Cale a
boca.
Deixou o vinho, tal como era, pousar na lngua. Nada sofisticado, para dizer
o mnimo, muitssimo cido e excessivamente doce, graas ao acar que ela
deve ter acrescentado.
Mesmo assim, Maddy conseguira fazer vinho numa vasilha de cozinha. Vinho
ruim, mas no era isso o que importava.
-- Voc tomou? -- ele perguntou.
Talvez. -- Ela largou o segundo pote no balco. -- Eis o vinho do milagre. Sem
aditivos. Eu li que s vezes se acrescenta sangue de boi pra encorpar e dar
cor. No sabia onde encontrar. Alm disso, parece nojento.
-- No aprovamos esse tipo de prtica. Um pouco de carbonato de clcio
retiraria uma pequena parte da acidez, mas vamos deixar como est. No
todo, no  um fracasso completo como vinho de garrafo. Voc conseguiu
menina. Muito bem! -- Corajoso, serviu-se um gole do vinho do milagre,
examinou, cheirou e tomou. -- Interessante. Turvo, imaturo e rascante, mas
 vinho.
-- Vai ler meu relatrio e verificar meus grficos quando eu terminar?
-- Claro.
-- Beleza. -- Ela fez as pestanas adejarem. -- Vou preparar um jantar pra
voc.
Deus do cu, ela o divertia.
-- Sabichona.
-- Afinal -- disse David ao entrar --, algum que concorda comigo. --
Aproximou-se e enganchou o brao no pescoo da filha.
-- Cinco minutos, lembra?
-- A gente se distraiu. Ty disse que eu podia vir  degustao.
-- Maddy...
-- Por favor. Ele vai incluir meu vinho. David olhou por cima dela.
--  um homem corajoso, MacMillan.
-- Voc nunca passou uma noite enchendo a cara e tentando fazer um quatro
com as pernas?
Com um sorriso, David cobriu as orelhas de Maddy.
-- Uma ou duas vezes, e felizmente sobrevivi pra me arrepender. Seu clube
de vinho pode se opor  incluso.
-- . -- A idia tambm divertiu Ty. -- Vai ampliar a perspectiva deles.
-- Ou envenen-los.
-- Por favor, pai.  pela cincia.
-- Foi o que voc disse dos ovos podres que guardava no quarto. No samos
realmente de Nova York por motivos profissionais -- ele se dirigiu a Ty. --
Os novos inquilinos na certa continuam esterilizando o quarto com vapores.
Tudo bem, mas se transforme numa abbora s dez. Vamos. Theo est no
carro. Vai nos levar pra casa dirigindo.
-- Vamos todos morrer -- disse Maddy, com ar solene.
-- Fora. Eu j vou logo. -- Ele retirou-a do banco e deu-lhe uma palmada de
leve no traseiro para apress-la. -- Tyler, eu s queria dizer que sou grato
por voc deix-la passar o tempo aqui.
-- Ela no me atrapalha.
-- Claro que sim.
Tyler largou as taas na pia embaixo do balco do bar.
-- Certo, atrapalha. Mas no me incomodo.
-- Se achasse que incomodava, eu a levaria daqui. Tambm percebo que se
sente mais  vontade com ela do que comigo. Eu atrapalho voc, e voc se
incomoda.
-- No preciso de supervisor.
-- , no, no precisa. Mas a empresa precisava, e precisa, de sangue novo.
Um forasteiro. Algum que saiba olhar o grande quadro de todos os ngulos
e sugerir um caminho diferente quando  vivel.
-- Tem sugestes pra mim, Cutter?
-- Uma delas poderia ser acabar com a timidez, e a podemos armar uma
fogueira de acampamento com ela e tomar umas cervejas.
Tyler nada disse por um momento, pois tentava julgar se se sentia divertido
ou chateado.
-- Acrescente os seus e a gente poderia ter uma exploso dos diabos.
--  uma idia. Trago Maddy de volta mais tarde. E retorno pra buscar s
dez.
-- Eu posso lev-la pra casa, poupe a viagem.
-- Agradeo. -- David dirigiu-se para a porta e parou. -- Escute, faria o
favor de me dizer se ela tiver... se comear a ter uma paixonite por voc?
Provavelmente  normal, mas eu gostaria de deter a coisa se guinar pra esse
lado.
-- No  assim. Acho que estou mais perto de grande irmo, talvez de tio.
Mas seu menino tem uma paixo campe por Sophie.
David arregalou os olhos, piscou-os e esfregou o rosto com as mos.
-- Essa me escapou. Achei que veio e se foi na primeira semana. Danao.
-- Ela sabe lidar com isso. No faz nada melhor que lidar com o macho da
espcie. No vai machucar o rapaz.
-- Ele vai dar um jeito de machucar a si mesmo. Pensou em Pilar e
estremeceu.
-- Difcil critic-lo pelo gosto, hem? Nessas circunstncias? David devolveu-
lhe um olhar afvel.
-- Outro sabicho -- murmurou e saiu.

PILAR ESCOLHEU UM DUAS-PEAS SIMPLES DE COQUETEL,
achando que o verde-fosco, com as lapelas de cetim, ficava a meio caminho
entre o profissional e o festivo. Perfeito, esperava, para usar como anfitri
da degustao de vinho.
Aceitara a funo para provar --  famlia, a David e at a si mesma -- que
era competente. Passara uma semana ajudando com as visitas, sendo
treinada -- delicadamente, pensava agora. Os membros da equipe tratavam
os da famlia com luvas de pelica.
Abalara-lhe os nervos simplesmente perceber o pouco que sabia sobre o
lagar, os vinhedos, o processo, as reas pblicas e a atividade da venda no
varejo. Precisaria de mais que uma semana e uma sutil educao para
aprender a lidar sozinha com qualquer uma dessas reas. Mas, por Deus,
sabia cuidar de um grupo numa degustao de vinho.
E decidira prov-lo.
Iria aprender agora como lidar com muitas coisas, sua prpria vida inclusive.
Parte dessa vida inclua sexo. Assim, bom para ela.
Com esse pensamento, sentou-se na beira da cama. A idia de avanar para
um relacionamento ntimo com David a apavorava. O fato de faz-lo a
irritava. E apavorada e irritada, fizera de si mesma, admitia, uma pilha de
nervos.
A batida  porta levou-a mais uma vez a levantar-se de um salto, pegar a
escova e fixar o que esperava fosse uma confiante e descontrada
expresso no rosto.
-- Sim? Entre.
Ela exalou um enorme suspiro e desistiu do fingimento quando viu Helen.
-- E graas a Deus que  voc. Estou farta de fingir que sou uma mulher do
sculo vinte e um.
-- Parece. Roupa fabulosa.
-- Por baixo estou tremendo. Que bom que voc e James vieram para a
degustao!
-- Arrastamos Linc junto. A namorada atual dele vai trabalhar hoje  noite.
-- Ainda a residente de hospital?
-- . -- Helen sentou-se na poltrona curva de veludo, sentindo-se em casa. --
Comeo a achar que ele est ficando srio em relao a ela.
-- E?
-- Eu no sei. E uma boa menina, bem-educada. Concentrada, o que ele
precisava, e independente, o que eu aprecio.
-- Mas  seu filhinho.
-- Mas  meu filhinho -- concordou Helen. -- Sinto saudade s vezes do
menino de joelhos ralados e cadaros desamarrados. Ainda o vejo naquele
alto e bonito advogado metido no terno de trs peas que entra e sai da
minha vida agora. E, nossa -- disse com um suspiro. -- Estou velha. Como sua
filhinha est segurando a barra?
Pilar largou a escova.
-- Voc j soube o que Tony fez.
-- Sua me achou melhor que eu soubesse, pra poder cobrir quaisquer
medidas legais que possam surgir. Sinto muito, Pilar.
-- Eu tambm. Era to desnecessrio. -- Ela voltou-se. -- E to do feitio
dele.  nisso que est pensando.
-- No importa o que eu penso. A no ser que voc comece a culpar a si
mesma.
-- No, desta vez no. Eu espero que nunca mais. Mas  duro, muito duro pra
Sophia.
-- Ela vai superar. Nossos filhinhos se tornaram adultos fortes e capazes,
sem que a gente visse, Pilar.
-- Eu sei. Quando foi que fizemos vista grossa? E, apesar disso, no
podemos deixar de nos preocupar com eles, podemos?
-- A tarefa nunca termina. Sophia ia saindo para a MacMillan quando
chegamos. Recrutou Linc pra ir com ela, na hiptese de ter algum
levantamento pesado na montagem. Ele vai manter a mente dela ocupada.
--  sempre bom ver os dois juntos, quase como irmo e irm.
-- Humm. Agora se sente. -- Helen deu um tapinha na poltrona. -- Prenda a
respirao e me fale do seu romance com David Cutter. Com quase trinta
anos de casamento como experincia, preciso viver de segunda-mo.
-- No  na verdade... gostamos da companhia um do outro.
-- Nada de sexo ainda, hem?
-- Helen. -- Dando-se por vencida, Pilar sentou-se na poltrona. -- Como
posso fazer sexo com ele?
-- Se esqueceu como funciona, h muitos bons livros sobre o assunto.
Vdeos. Sites da Internet. -- Atrs das lentes os olhos dela danavam. --
Vou lhe dar uma lista.
-- Falo srio.
-- Eu tambm. Alguns tm material quente.
-- Pare com isso. -- Mas ela riu. -- David tem sido muito paciente, mas no
sou idiota. Ele quer sexo e no vai continuar se conformando com os amassos
na varanda, nem...
-- Amassos? Vamos l, Pilar. Detalhes, quero todos os detalhes.
-- Digamos que ele tem uma boca muito criativa e, quando a usa, eu lembro o
que  ter vinte anos.
-- Oh. -- Helen abanou a mo diante do rosto. -- Sim.
-- Mas eu no tenho vinte anos. E meu corpo com certeza no tem. Como
posso deixar que ele me veja nua? Meus peitos esto indo pro Mxico.
-- Querida, os meus pousaram na Argentina fazem trs anos. James no
parece se incomodar.
-- Mas  a que est a questo. Vocs dois vivem juntos h quase trinta anos.
Passaram pelas mudanas juntos. Pior ainda, David  mais moo que eu.
-- Pior? Ocorrem-me coisas muito piores que isso.
-- Tente se pr no meu lugar. Ele  um homem de quarenta e trs anos. Eu,
uma mulher de quarenta e oito.  uma enorme diferena. Um homem da
idade dele em geral sai com mulheres mais jovens. Muitas vezes mulheres
bem mais jovens, com corpos enxutos, que no afrouxam.
-- Muitas vezes iguais a cabeas vazias que no pensam -- concluiu Helen. --
Pilar, a verdade  que ele est namorando voc. E se voc se sente to pouco
 vontade com seu corpo, o que me irrita quando penso no que se tornou o
meu em comparao, cuide pra que esteja escuro na primeira vez que saltar
sobre ele.
-- Voc  uma grande ajuda.
-- , sou, porque se ele for dissuadido por seios que no tm vinte anos nem
so empinados, ento no vale seu tempo.  melhor descobrir do que
especular e projetar. Voc quer dormir com ele? Basta dizer sim ou no. --
Ela acrescentou, antes que a amiga pudesse responder. -- Instinto visceral,
desejo primal. Sem restries.
-- .
-- Ento compra uma incrvel roupa de baixo pra voc e manda brasa.
Pilar mordeu o lbio.
-- J comprei a roupa de baixo,
-- Quente como o diabo. Vamos ver.

QUASE VINTE E QUATRO HORAS APS A DEGUSTAO E TYLER
ainda formava uma imagem na mente que o fazia rir. Duas dzias de
membros enlogos arrogantes e caras limpas do clube haviam recebido o
choque de suas vidas tacanhas com uma amostra do que ele chamava de Vn
de Madeline.
-- "Sem sofisticao alguma" -- repetiu, rindo mais uma vez --, "mas nbil".
Minha nossa, de onde tiraram essa coisa? Nbil.
-- Tente conter a alegria. -- Sentada atrs da escrivaninha no escritrio da
villa, Sophia continuava examinando os modelos que Kris escolhera para os
anncios. -- E eu ficaria grata se me avisasse da prxima vez que voc
decidir acrescentar uma misteriosa safra de vinho  seleo.
-- Candidata de ltima hora. E em nome da cincia.
-- As provas so em nome da tradio, reputao e promoo. -- Ela ergueu
brevemente os olhos e cedeu quando ele apenas lhe sorriu. -- Tudo bem, foi
divertido e vamos poder transformar a coisa num interessante e jovial
artigo para o boletim informativo. Talvez at passe a ter algum interesse
humano despertado pelas anedotas.
-- Seu sangue corre em publicidade.
-- Com certeza. O que  uma sorte para todos os envolvidos, pois alguns
membros teriam ficado muito ofendidos se eu no estivesse l para
contornar a situao.
-- Alguns membros so muito pomposos, idiotas, todos cheios de nove-horas.
-- , e esses idiotas pomposos cheios de nove-horas compram muitos vinhos
nossos e falam deles em eventos sociais. Como a fabricante do vinho  to
pouco sofisticada e nbil quanto o vinho dela, a gente pode jogar com isso
em vantagem prpria. -- Ela fez outra anotao e ps em cima o peso do tolo
sapo verde de vidro que ele lhe dera no Natal. -- Na prxima vez que quiser
fazer alguma experincia, me avise.
Ty esticou as pernas.
-- Relaxe, Sophia Giambelli.
-- Esta, segundo o rei dos animais da festa. -- Ela pegou uma fotografia
colorida e entregou-lhe. -- Que acha dela?
Ele recebeu a foto e examinou a loura de olhos pretos como carvo.
-- Vem com o nmero do telefone?
-- Foi o que achei.  sexy demais. Eu disse a Kris que desejava uma modelo
saudvel. -- Sophia olhou com expresso de raiva espao adiante. -- Tenho
de despedir essa moa. No est nem tentando se ajustar s mudanas. Pior
ainda, ignora ordens diretas, deixando o resto do pessoal em desgraa. --
Suspirou. -- Meus espies me disseram que ela teve um encontro com Jerry
DeMorney, da La Coeur, ainda outro dia.
-- Se est causando problema, por que se preocupa em cort-la? No me
venha com a desculpa esfarrapada de que no consegue substituir a infeliz
durante a campanha ou a reorganizao.
-- Tudo bem. Eu hesito porque Kris  boa e detesto ter que perd-la. E tem
ntimo conhecimento da campanha, dos meus planos de longo alcance, e
poderia muito bem aliciar alguns outros membros da equipe a sair com ela.
Hesito, em nvel pessoal, porque acho que estava envolvida com meu pai, e a
demisso talvez a incite a tornar a coisa pblica. Qualquer atitude que eu
tome vai causar problema. Mas no se pode adiar por mais tempo. Cuidarei
disso amanh.
-- Eu poderia cuidar.
Sophia fechou a capa do arquivo.
--  na verdade muito gentil de sua parte. Mas deve partir de mim. E
convm avisar que, se voc cort-la, vai significar muito mais trabalho para
o resto de ns. Sobretudo porque minha me no vai fazer, nem tentar,
qualquer trabalho chato e repetitivo.
-- Isso sem dvida me anima.
-- Estava pensando em perguntar a Theo se ele gostaria de um trabalho de
meio perodo. A gente precisa de um funcionrio para pequenas tarefas duas
tardes por semana.
-- timo. A ele pode ficar aqui sonhando acordado com voc.
-- Quanto mais ficar perto de mim, mais rpido vai superar. O contato dirio
diminui a intensidade dos hormnios dele.
-- Voc acha? -- murmurou Ty.
-- Ora, Tyler, isso foi um tipo distorcido de elogio, ou apenas sua maneira
mal-humorada de dizer que eu o deixo nervoso?
-- Nenhuma das duas coisas. -- Ele examinou mais uma vez a vistosa foto. --
Eu prefiro a loura de olhos sonolentos e lbios cheios e fazendo biquinho.
-- gua oxigenada e colgeno.
-- E da?
-- Meu Deus, eu adoro os homens. -- Ela levantou-se, foi at ele, envolveu
com as mos seu rosto e deu-lhe um beijo estalado na boca. -- Voc 
simplesmente muito gostoso.
Um forte puxo na mo fez com que ela desabasse no colo dele. Um instante
depois, sua risada rpida foi interrompida e o corao martelava.
Ele no a beijara assim antes, com impacincia, calor e fome, tudo
misturado, num ataque quase brutal. No a beijara como se no tivesse o
suficiente. Jamais se saciaria. O corpo dela tremeu uma vez -- de surpresa,
em defesa, em resposta. Ento correu a mo pelos cabelos dele e fechou os
punhos neles.
Mais, pensou. Queria mais dessa agitao, dessa precipitao, at a
relutante necessidade.
Quando ele ia afast-la, ela o acompanhou, deslizando sobre as duras linhas
de seu corpo, mesmo quando ele interrompeu o beijo. Arranhou com os
dentes, devagar, o lbio inferior dele. Deliberadamente. E viu-o baixar o
olhar para acompanhar o movimento.
-- A que se deve isso? -- perguntou.
-- Me deu vontade.
-- Muito bom. Faa de novo.
Ele no pretendera faz-lo na primeira vez. Mas agora o apetite por ela se
aguara, sem ser saciado.
-- Por que no, diabos?
Ela curvou os lbios quando ele os tomou. No to desesperado desta vez,
nem to violento. Imaginava muito bem o que seria deslizar para dentro
dela. Em todo aquele calor suave. Mas no sabia se conseguiria libertar-se
de novo, nem se afastar totalmente.
Ainda pensando nisso, ele j abria os botes da blusa dela. Ainda pensando
nisso, sentiu-se puxado para o cho.
-- Se apresse.
J ofegante, Sophia arqueou o corpo quando ele fechou as mos  sua volta.
Rpido. Ele imaginava rpido, violento e furioso. Uma transa descuidada, s
calor, sem luz. Era o que ela queria. O que os dois queriam. Arrastou-a para
cima, colou mais uma vez a boca na dela. Quando ela puxou o cinto dele, Ty
contraiu a barriga de desejo e ansiedade.
A porta do escritrio se abriu.
-- Ty, eu preciso... -- Eli parou no meio da frase e arregalou os olhos para o
neto, para a moa na qual pensava como neta, embolados no cho. A cor se
esvaiu das faces dele quando recuou, trpego. -- Me desculpem.
Depois que a porta bateu, Ty j se levantara e girava nos calcanhares. Com a
mente zonza, o corpo agitando-se com fora, esfregou as mos no rosto.
-- Oh, perfeito. Simplesmente perfeito.
 --Opa.
Com a resposta de Sophia, ele abriu os dedos e olhou-a por eles.
-- Opa?
-- Meu crebro est meio danificado.  o melhor que posso fazer. Oh, meu
Deus. -- Ela sentou-se e fechou a blusa. -- No  um momento tpico da
famlia da gente. -- Desesperou-se e apoiou a cabea nos joelhos. -- Minha
nossa. Como  que vamos resolver isso?
-- Eu no sei. Acho que tenho de falar com ele. Ela ergueu um pouco a
cabea.
-- Eu posso fazer isso.
-- Voc despede os membros insatisfatrios da equipe; eu falo com os avs
chocados.
-- Muito justo.
Ela ajoelhou-se e baixou os olhos, abotoando por fim a blusa.
-- Ty, sinto muito mesmo. Eu nunca faria qualquer coisa pra afligir Eli, nem
pra causar um problema entre vocs dois.
-- Eu sei.
Ele levantou-se e, aps uma breve hesitao, estendeu a mo para ajud-la a
levantar-se.
-- Eu quero fazer amor com voc. O organismo j avariado dele sofreu.
-- Acho que ns dois queremos, o que est muito claro. S no sei o que
vamos fazer em relao a isso. Preciso ir atrs dele.
-- .
Depois que ele saiu apressado, ela foi at a janela e cruzou os braos. E
sentiu um enorme desejo de tambm ter uma coisa igualmente vital e
especfica a fazer. Tudo que lhe restara era pensar.

TYLER ENCONTROU O AV ENCAMINHANDO-SE PARA OS VINHEDOS,
com Sally fielmente na sua cola. No disse nada, no tinha elaborado o que
diria assim que o fizesse. Apenas emparelhou o passo ao lado de Eli e ps-se
a andar entre as fileiras.
-- Vamos ter de manter uma viglia de geada -- comentou o av. -- A
temporada de calor irritou as vinhas.
-- , j estou cuidando disso. Ah... est quase na poca de gradar a terra
lavrada com rastelo.
-- Espero que a chuva no atrase a gradagem. -- Como o neto, Eli examinava
as videiras e quebrava a cabea para encontrar as palavras certas. -- Eu...
devia ter batido.
-- No, no devia... -- Esquivando-se, Ty agachou-se e esfregou o plo de
Sally. -- Simplesmente aconteceu.
-- Bem. -- Eli pigarreou. No tinha de falar com ele sobre as formas e os
significados do sexo. Graas a Deus. Fizera a faanha anos atrs. O neto era
um adulto que conhecia tudo sobre pssaros e abelhas, e responsabilidade.
Mas... -- Puxa vida, Ty. Voc e Sophie.
-- Simplesmente aconteceu -- ele repetiu. -- Acho que no devia ter
acontecido, e acho que no devo dizer a voc que no vai acontecer de novo.
-- No  da minha conta.  s que vocs dois... Diacho, Ty, vocs foram
quase criados juntos. Sei que no tm laos sanguneos e que nada vai
impedir nenhum dos dois de fazer isso. Foi apenas um choque, s isso.
-- Pra todos ns -- concordou Tyler. Eli avanou um pouco.
-- Voc ama Sophie?
No ntimo de si, Tyler sentiu apertarem-se os ns escorregadios da culpa.
-- Vov, nem sempre isso tem a ver com amor. Eli parou ento, virou-se e
encarou-o.
-- Meu equipamento pode ser mais velho que o seu, menino, mas funciona do
mesmo jeito. Sei que no tem a ver sempre com amor. S estava
perguntando.
-- Temos um calor que continua, s isso. Se tanto faz pra voc, eu preferiria
no me aprofundar nesses pontos ainda no-resolvidos.
-- Oh, pra mim tanto faz. Os dois so adultos e tm o crebro funcionando.
Os dois foram criados direito, portanto, o que fizerem s diz respeito a
vocs. Mas na prxima vez tranque primeiro a maldita porta.

ERAM QUASE SEIS HORAS QUANDO TYLER CHEGOU EM CASA,
exaurido, tenso e irritado consigo mesmo. Achou que uma cerveja gelada e
um chuveiro quente talvez o pusessem mais uma vez em forma. Ao segurar o
puxador da geladeira, viu o bilhete que grudara ali na noite anterior como
um lembrete:
Jantar, casa de M -- 7.
-- Merda. -- Apoiou a cabea na porta, ia conseguir chegar na hora,
imaginou, se se apressasse. Mas simplesmente no tinha o menor nimo. Nem
estava em clima algum para conversar sobre negcios, ainda que inclusse
uma refeio decente e boa companhia.
Ele jamais seria uma boa companhia nessa noite. Estendeu a mo para pegar
o telefone e descobriu que o pusera de novo no lugar errado. Praguejando,
abriu a geladeira, pretendendo abrir a garrafa antes de comear a procur-
lo. E l estava o telefone, enfiado entre uma garrafa de vinho e uma caixa
de leite.
Compensaria a falta com Margaret, pensou, lendo o nmero do telefone dela.
Levando-a para jantar ou almoar fora. Seja o que for, antes que ela
deixasse a cidade.

ELA NO OUVIU O TELEFONE TOCAR. TINHA O CORPO TODO
debaixo do chuveiro e cantava. Aguardara ansiosamente pela noite o dia
todo, remarcando reunies, escrevendo relatrios e fazendo ligaes. E
parando afinal, a caminho de casa, para comprar uma fatia de carne do
tamanho de um homem, e duas enormes batatas de Idaho. Comprara tambm
uma torta de ma e pretendia faz-la passar como obra sua.
O homem no precisava saber tudo.
Era, ela sabia, o tipo de refeio que ele apreciava.
J pusera a mesa, arrumara as velas, escolhera a msica, estendera na cama
o vestido que ia usar. E na cama foram dispostos travesseiros sobre lenis
novos.
J haviam tido dois ou trs encontros antes. No que tivesse se enganado,
acreditando que Ty os considerava como tais. Mas esperava mudar isso aps
essa noite.
Saiu do chuveiro e comeou a preparar-se.
Era sempre excitante arrumar-se para um homem. Parte da antecipao. As
crenas feministas de Margaret no lhe negavam o prazer desse tipo de
ritual, mas a ajudavam a comemorar o rito feminino.
Passou creme, perfume, enfiou-se no vestido de seda e se imaginou
seduzindo MacMillan enquanto comiam a torta de ma.
Sempre sentira um grande desejo por ele, pensou ao inspecionar o
apartamento para saber se estava tudo em ordem. Concluiu que a promoo,
a viagem e a excitao de suas novas responsabilidades lhe tinham dado a
confiana para torn-lo bem consciente desse desejo.
Retirou o vinho que planejara para a noite. E percebeu a luz da secretria
eletrnica piscando no telefone da cozinha.
-- Margaret.  Ty. Escute, vou ter de transferir o jantar pra outra data.
Devia ter ligado mais cedo, mas... surgiu uma coisa no escritrio. Sinto
muito. Ligo de novo amanh. Se voc no tiver planos,  minha convidada
para sairmos e repassarmos os negcios. Sinto muito mesmo no ter ligado
mais cedo.
Ela fitou a secretria eletrnica, imaginou-se arrancando-a da parede e
atirando-a longe. Claro que isso no mudaria nada. Era uma mulher muito
prtica para entregar-se a um intil ataque de raiva.
Prtica demais, pensou, lutando contra as lgrimas de decepo, para deixar
comida e vinho irem para o lixo porque um homem idiota, desatencioso,
faltara a um encontro.
Que v pro inferno. Havia muitos outros de onde ele vinha. Muitos, lembrou,
ao abrir o forno e preparar-se para grelhar a carne. Tivera vrias ofertas
interessantes na Itlia. Quando voltasse, talvez simplesmente aceitasse
uma delas e visse aonde levava.
Mas por enquanto iria abrir o maldito vinho, pr-se  vontade e beber.

Captulo Quinze
Pilar aproximou-se da casa de hspedes pela porta dos fundos. Era um
hbito amistoso. Julgava ter se tornado amiga de Theo. Ele era um
rapazinho interessante e interessado, assim que se raspasse a superfcie.
Um menino, pensou, que precisava da influncia suavizante de uma me.
Comovia-a o fato de que parecia gostar, em vez de ressentir-se, da
companhia dela quando aparecia na villa para usar a piscina. Conseguira
atra-lo para a sala de msica e faz-lo tocar -- ou pelo menos brincar com
-- o piano. Fora um passo fcil dali para abrir um dilogo, e um debate, sobre
msica.
Esperava que ele se entretivesse tanto com eles quanto ela.
Maddy era outra histria. Educada, mas sistematicamente fria. E observava,
pensou Pilar, tudo e todos. No era tanto ressentimento quanto avaliao.
Uma avaliao, sabia Pilar, diretamente ligada ao seu relacionamento com o
pai dela.
Esse aspecto parecia ter passado direto pela cabea de Theo. Mas
Pilar reconhecia o julgamento de mulher para mulher nos olhos de Maddy.
At ento, ela no chegara ao ponto de criticar.
Perguntava-se se David era to alheio quanto o filho ao fato de a filha estar
guardando seu territrio.
Encaixou a bolsa a tiracolo no ombro ao comear a subir a calada dos
fundos. O contedo no era de subornos, assegurou-se. Apenas lembranas.
E ela no ficaria mais do que fosse agradvel para todos eles. Embora em
parte desejasse que quisessem sua companhia por algum tempo, que
preparasse o almoo para eles, que ouvisse a conversa deles.
Tambm sentia falta de algum com quem fazer o papel de me.
Se o destino lhe houvesse dado outra ajuda, teria tido uma casa cheia de
filhos, um grande cachorro bagunceiro, costuras rasgadas para coser,
briguinhas nas quais pudesse agir como rbitro.
Em vez disso, gerou uma filha inteligente e linda que precisara de bem
poucos cuidados. E aos quarenta e oito anos, reduzira-se a cuidar das flores
no lugar dos filhos pelos quais ansiara.
E sentir pena de si mesma, lembrou, no era nada atraente. Deu uma gil
batida  porta e aprontou o sorriso.
O sorriso oscilou um pouco quando David veio abri-la. De camisa de trabalho
e cala jeans, tinha uma xcara de caf na mo.
-- Mas que coisa mais conveniente. -- Ele tomou-lhe a mo e puxou-a para
dentro. -- Estava pensando em voc neste momento.
-- Eu no esperava encontrar voc em casa.
-- Estou trabalhando aqui hoje.
Porque quis, e porque sabia que ia encabul-la, manteve a mo dela firme na
sua e curvou-se para beij-la.
-- Oh, bem. Como no vi o furgo...
-- Theo e Maddy uniram foras contra mim. Feriado, sem escola. O pesadelo
de todo pai. Resolvemos a coisa deixando-os me aporrinharem at eu dar as
chaves a Theo e os dois irem para o shopping e ao cinema at o fim do dia.
Por isso sua visita  perfeita.
-- Srio? -- Ela soltou a mo e ajeitou vrias vezes, com pequenos
movimentos nervosos, a ala da bolsa. --  mesmo?
-- Me impede de ficar sentado aqui imaginando as encrencas em que eles
podem se meter. Quer caf?
-- No, eu tenho mesmo... S parei para deixar duas coisas para os meninos.
-- Perturbava-a ficar na casa a ss com ele. Durante todo o tempo, desde
que ele se mudara para ali, ela conseguira evitar esse acontecimento. --
Maddy est to interessada em todo o processo de fabricao de vinho,
achei que gostaria de ler sobre a histria da Giambelli da Califrnia.
Ela tirou o livro que comprara na loja de presentes do lagar.
-- Acertou em cheio com o gosto dela. Vai adorar e martelar Ty e a mim com
perguntas novas em folha.
-- Ela tem uma mente ativa.
-- E eu no sei?
-- Trouxe esta partitura para Theo. Ele est to envolvido nessa coisa de
rock-techno, mas achei que talvez se divertisse tentando alguma das
clssicas.
-- Sergeant Pepper. -- David examinou a partitura. -- Onde encontrou isto?
-- Eu tocava e levava minha me  loucura. Era meu trabalho.
-- Voc usava contas como smbolo de paz e amor? -- ele provocou.
-- Claro. Fiz um par delas com tecido estampado em cores vivas quando
tinha a idade de Maddy.
-- Fez? Tantos talentos escondidos. -- Ele manobrou-a, simplesmente
chegando mais perto, at as costas dela se encostarem na bancada da
cozinha. -- No trouxe um presente para mim.
-- No sabia que estaria aqui.
-- E agora que estou? -- Ele se aproximou mais e apoiou as palmas na
bancada, em cada lado dela. -- Tem alguma coisa na bolsa para mim?
-- Lamento. -- Ela tentou rir, manter a situao leve, mas era difcil quando
estava sufocando. -- Da prxima vez. Eu preciso mesmo voltar ao lagar.
Tenho de ajudar numa visita esta tarde.
-- A que horas?
-- Quatro e meia.
-- Humm. -- Ele deu uma olhada no relgio da cozinha. -- Uma hora e meia.
Eu me pergunto, o que a gente podia fazer em noventa minutos?
-- Eu podia preparar seu almoo.
-- Tenho uma idia melhor.
E com as mos na cintura dela, girou-a devagar em direo  porta interna.
-- David.
-- No h ningum em casa, alm de mim e de voc -- ele disse,
mordiscando-lhe o queixo, a garganta e a boca, enquanto a conduzia para
fora da cozinha. -- Sabe o que andei pensando outro dia?
-- No.
Como poderia? No sabia o que ela mesma pensava naquele momento.
--  um negcio complicado. Minha namorada mora com a me.
Ela riu, ento, da idia de ser chamada de namorada.
-- E eu moro com meus filhos. No tenho lugar nenhum pra ir e fazer tudo
que imagino fazer com voc. Sabe que coisas imaginei fazer com voc?
-- J estou sacando a imagem. David, estamos no meio do dia.
-- O meio do dia. -- Ele parou na base da escada. --  uma oportunidade.
Detesto oportunidades perdidas, voc no?
Ela subia as escadas com ele, o que lhe parecia um feito milagroso, pois
tinha os joelhos nocauteados e o corao mourejando como se ela estivesse
escalando uma montanha.
-- Eu no esperava... --As palavras continuavam abafadas contra a boca dele.
-- No estou preparada.
-- Querida, eu cuido disso.
Cuida disso? Como poderia ele faz-la usar roupa de baixo sexy, ou
transformar a impiedosa luz do dia nas suaves e lisonjeiras sombras da
noite? Como poderia...
Ento lhe ocorreu que ele quisera dizer proteo, e isso a fez sentir-se
eufrica e tola.
-- No, eu no quis dizer... David, eu no sou jovem.
-- Nem eu. -- Ele recuou ligeiramente na porta do quarto. Arrast-la para
dentro no era a maneira certa. Ela precisava de palavras, e talvez,
percebeu, ele tambm. -- Pilar, eu tenho um monte de sentimentos
complicados por voc. Um que no  complicado, pra mim,  que  voc que
eu quero. Voc toda.
Os nervos dela nadavam, ento, numa torrente de calor.
-- David, voc precisa saber. Tony foi meu primeiro. E meu ltimo. Faz
muito tempo. E eu... ai, meu Deus. Estou to fora de forma.
-- Saber que no teve ningum mais me lisonjeia, Pilar. -- Ele roou os lbios
nos dela. -- Isso me mortifica. -- E mais uma vez:
-- E me excita.
Tornou a pr a boca na dela pela terceira vez, num beijo que oscilava no
limite entre seduo e exigncia.
-- Venha pra minha cama. -- Ele guiou-a para l, fascinado com a forma como
o corao deles martelava junto. -- Me deixe tocar voc, me toque.
-- No consigo respirar. -- Ela se esforou para aspirar o ar quando ele lhe
tirou o casaco. -- Sei que estou tensa, sinto muito. Parece que no consigo
relaxar.
-- Eu no quero voc relaxada. -- Ele mantinha os olhos nos dela ao
desabotoar-lhe a blusa, roando os dedos na carne exposta.
-- Desta vez, no. Ponha as mos nos meus ombros, Pilar. Tire os sapatos.
Ela tremia, e ele tambm. Como a primeira vez, ele pensou. Para ela. Para
mim. E to assustador e intenso como se de fato fosse.
O sol de fim de inverno entrava pelas janelas do quarto, banhando-o de luz.
No silncio da casa ele ouvia cada falha na respirao dela. Quando deslizou
os dedos de leve por ela, sentiu-a trmula, mas suave.
-- Macia. Quente. Linda.
Ele fazia a acreditar em suas palavras. E se os dedos dela tremeram quando
lhe desabotoaram a camisa, ele no pareceu incomodar-se. Se ela saltou
como uma idiota quando ele correu as juntas dos dedos pela sua barriga,
quando abriu o fecho de sua cala, ele no escarneceu de impacincia.
E, o melhor de tudo, ele no parou.
Acariciava-a com as mos, devagar e firme, fazendo-a sentir vontade de
chorar para ser mais uma vez tocada. Sentir mais uma vez aquele acmulo
de calor na barriga, os longos e lquidos puxes que o acompanhavam. Parecia
natural deitar-se de costas na cama, ter o corpo dele, o peso dele, apertado
no dela.
Parecia natural e glorioso finalmente entregar-se de novo. Ela esqueceu a
luz do sol e todas as falhas que revelava. E regozijou-se na sensao de
receber um homem.
Ele no queria apressar-se. Mas a hesitao dela tornara-se avidez. Movia-
se embaixo dele, arqueando os quadris, tocando as mos com rpidos
belisces e arranhes das unhas que o excitaram de forma inacreditvel.
Ele esqueceu a pacincia, e todas as dvidas que desejava aliviar.
E banqueteou-se.
Entrelaaram os dedos quando rolaram pela cama e separaram-se para
descobrir novos segredos a explorar. Uma onda de prazer inundou-a, ela
chamou o nome dele e depois gemeu quando ele a cobriu de mordidinhas.
Uma onda de energia arrebatou-a, trancou-a naquela gloriosa fronteira
entre excitao e liberao, quando o sangue se enfurece e o corpo deseja
com avidez. Ela tremia ali, impotente, e deixava a glria de cada dor, cada
ardor, espanc-la.
Quando ele baixou a mo para buscar a sua, ela j estava quente e mida.
Explodiu sob ele, atordoada demais para sentir-se constrangida pela reao
pronta, e chocada demais para resistir ao violento mergulho de seu prprio
corpo. O mundo ficou brilhante, ofuscante e ela entregou-se  repentina
urgncia da boca e das mos dele.
Toda minha. A macia e mida pele que cheirava a primavera, as curvas sutis,
a vida e franca reao. Ele queria tomar tudo que era seu agora. Dar tudo
que tinha. Ela movia-se junto dele, como se os dois houvessem gozado
juntos, assim mesmo, milhares de vezes. Estendia-lhe os braos como se o
houvessem sempre segurado quente e perto.
E ele tinha mais, tanto que desejava mostrar-lhe e tirar-lhe nessa primeira
explorao. Mas a necessidade impelia loucamente os dois e amortecia o
controle.
Ela olhou-o quando ele mais uma vez se estendeu sobre o seu corpo.
Mais uma vez ergueu os braos e abriu-os. E, abraando-o,
recebeu-o dentro de si.
Arqueou o corpo para ele, acolheu-o com prazer, e fechou-se  sua volta em
aceitao.
Os dois moveram-se juntos  luz do sol, num ritmo que se acelerava, uma
necessidade que pulsava, e ento mergulharam.
Ela gritou, abafando o som ao lado da garganta dele. Provou-o ali quando seu
corao deu o salto final.

O SOL BRILHAVA TAMBM EM SO FRANCISCO, MAS ISSO S
acrescentava dimenso  dor de cabea de Sophia. Enfrentava Kris do outro
lado da mesa. O pior de tudo, em sua opinio, era que a mulher no vira a
merecida demisso aproximar-se. Como isso poderia ter lhe escapado; com
todas as advertncias e diretrizes, s adicionava combustvel ao fogo que as
levara a esse ponto.
-- Voc no quer ficar aqui, Kris. Deixou isso claro.
-- Fiz um trabalho melhor neste escritrio do que qualquer outra pessoa na
empresa. Voc e eu sabemos. E voc no gosta disso.
-- Ao contrrio. Sempre respeitei seu trabalho.
-- Sem esse papo furado.
Sophia inspirou fundo para estabilizar se, forou se a continuar calma,
permanecer profissional.
-- Voc tem muito talento, o que eu admiro. O que no admiro e que no
pode ser mais tolerado nem ignorado,  a sua deliberada rejeio da poltica
da empresa e sua atitude para com a autoridade.
-- Quer dizer minha atitude para com voc.
-- Um comunicado para voc: eu sou a autoridade.
-- Porque seu nome  Giambelli.
-- Se se trata ou no disso, no  o problema, nem  da sua conta.
-- Se Tony ainda estivesse vivo, voc no estaria sentada atrs desta mesa.
Eu  que estaria.
Sophia engoliu o ressentimento que se avolumou em sua garganta.
-- Foi assim que ele se meteu na sua cama? -- perguntou, com uma pitada de
diverso no tom. -- Prometendo meu emprego a voc? Muito esperto da
parte dele, tolice sua. Meu pai no dirigia esta empresa e no tinha nenhum
peso aqui.
-- Vocs cuidaram disso. Todas as trs Giambelli.
-- No, foi ele quem cuidou. Mas isso no vem ao caso. O fato  que sou a
gerente deste departamento e voc no trabalha mais para mim. Vai
receber sua resciso de contrato, incluindo o salrio integral de duas
semanas. Quero o escritrio livre de suas coisas pessoais at o fim do
expediente.
As duas se levantaram. Sophia teve a impresso de que, sem a mesa entre
elas, Kris teria recebido mais que um disparo verbal. Isso apenas mostrava a
que ponto seu relacionamento se deteriorara, e ela lamentou que no
pudessem engalfinhar-se de fato.
-- Muito bem. Tenho outras ofertas. Todo mundo na empresa sabe quem  o
verdadeiro poder aqui, o poder criativo.
-- Espero que consiga o que merece na La Coeur -- respondeu Sophia, e viu o
queixo de Kris cair de surpresa. -- No h segredos. Mas vou avis-la de que
se lembre da clusula de confidencia no contrato que assinou quando entrou
nesta empresa. Se passar adiante informaes sobre a Giambelli a algum
concorrente, ser processada.
Eu no preciso passar nada adiante. Sua iminente campanha  mal concebida
e banal. Uma vergonha.
-- No  uma sorte, ento, que voc no tenha mais de ser associada a ela?
-- Sophia ento contornou a mesa, passando perto de Kris, quase desejando
que ela a agredisse. Quando chegou  porta, abriu-a. -- Acho que j
dissemos tudo que tnhamos de dizer uma  outra.
-- Este departamento vai afundar, porque, quando eu for embora, outros
iro comigo. Vamos ver at onde voc e o fazendeiro avanam sozinhos. --
Kris saracoteou em direo  porta e parou para um sorriso malicioso. --
Tony e eu dvamos boas risadas sobre vocs dois.
-- Estou chocada por saber que vocs arranjavam tempo pra brincar ou
conversar.
-- Ele me respeitava -- disparou de volta Kris. -- Ele sabia quem realmente
dirigia este departamento. Tivemos algumas conversas interessantes sobre
voc. Piranha nmero trs.
Sophia baixou a mo e apertou com fora o brao de Kris.
-- Ento foi voc. Vandalismo mesquinho, cartas annimas. Tem sorte de eu
no ter mandado prender voc, alm de despedir.
-- Chame a polcia... depois tente provar. Isso vai me proporcionar uma
ltima gargalhada.
Soltou o brao, bruscamente, e saiu.
Deixando a porta aberta, Sophia voltou direto  sua mesa e chamou a
segurana. Queria que Kris sasse escoltada do prdio. Agora que o primeiro
rompante de raiva passara, no se surpreendia que houvesse sido Kris quem
desfigurara as relquias de famlia e enviara a fotografia.
Mas isso a repugnava.
Nada podia fazer a respeito. Como nada podia fazer a respeito dos arquivos
que Kris talvez j houvesse copiado e levado, mas podia ter certeza de que
no haveria uma pilhagem de ltima hora.
Longe de sentir-se satisfeita, mandou chamar P.J. e Trace.
Enquanto esperava, andava de um lado para outro. Nesse estado, Tyler
entrou.
-- Vi Kris atravessar o corredor soltando fumaa -- ele comentou e sentou-
se confortavelmente numa poltrona. -- Ela me xingou de caipira idiota,
dominado a chicote pelas mulheres. Imagino que voc seja a mulher com o
chicote.
-- Mostra o que ela sabe. Voc no tem nada de idiota, e at agora
ofereceu uma resistncia dos diabos ao chicote. Meu Deus! Estou irada.
-- Deduzi que as coisas no tinham corrido muito bem quando vi as lnguas
de fogo disparando das orelhas dela.
-- Eu no parei de desejar que ela me desse um soco, pra eu poder esmag-
la. Estaria me sentindo muito melhor agora se ela tivesse dado. A
desgraada me xingou de piranha nmero trs. Eu gostaria de mostrar a ela
o que uma verdadeira piranha italiana sabe fazer quando instigada. Manchar
com esmalte de unha nossos anjos, me enviar uma carta annima.
-- Pare, volte. Que carta?
-- Nada.
Ela acenou com a mo no ar e manteve o ritmo.
Ele puxou a mo dela e baixou-a.
-- Que carta?
-- S uma foto de alguns meses atrs, de mim, minha me e minha av. Usou
caneta vermelha desta vez, mas o sentimento era o mesmo que ps nos anjos
Giambelli.
-- Por que voc no me contou?
-- Porque o envelope estava endereado a mims porque me deixou fula da
vida e porque eu no ia dar  pessoa que me enviou essa foto a satisfao de
falar nisso.
-- Se receber outra, eu quero saber. Est claro?
-- timo, maravilha, voc  o primeiro da fila. -- Furiosa demais para ficar
parada, Sophia se soltou: -- Ela disse que meu pai ia ajud-la a ocupar meu
lugar. Imagino que ele tenha prometido isso a ela, no teve mais escrpulos
em oferecer a ela o que era meu do que em tirar a jia de minha me para
dar a Rene.
E isso doa, ele pensou, examinando o rosto dela. Mesmo agora, Avano
conseguia varar aquela concha de defesa e cortar-lhe o corao.
-- Sinto muito.
-- Voc acha que eles mereciam um ao outro. Eu tambm acho. Agora se
acalme, agora se acalme -- ela repetia como um mantra. -- J passou,
acabou, e se mortificar por isso no vai ajudar. Temos de seguir em frente.
Preciso conversar com P. J. e Trace, pra comear, e ficar calma. Tenho de
estar controlada.
-- Quer que eu saia?
-- No. Isso seria melhor como uma equipe. -- Ela abriu a primeira gaveta e
retirou um frasco de aspirinas. -- Devia t-la despedido semanas atrs.
Voc tinha razo neste ponto. Eu estava errada.
-- Preciso anotar o que voc disse. Pode me emprestar um lpis?
-- Cale a boca. -- Grata porque a descontrao de Ty a acalmara, ela
inspirou fundo e abriu uma garrafa d'gua. -- Me diga com toda franqueza,
Ty: o que  que voc acha da campanha do centenrio?
-- Quantas vezes eu vou ter de repetir que essa no  a minha rea?
-- Como consumidor, droga. -- Ela engoliu de uma s vez trs comprimidos
de Tylenol e bebeu um longo gole da garrafa d'gua. -- Voc tem uma
maldita opinio sobre tudo o mais no mundo, no tem?
-- Isso  que  ser calma e controlada -- ele comentou. -- Acho que 
esperta. Que mais voc quer?
-- Isso basta. -- Esgotada, ela sentou-se na quina da mesa. -- Ela conseguiu
mexer comigo, eu detesto reconhecer isso. -- Conferiu as horas no relgio.
-- Preciso resolver logo isso, e depois ns temos uma reunio com Margaret.
A pontadinha de culpa fez com que ele mudasse de posio na poltrona.
-- Eu devia ter me encontrado com ela ontem  noite; tive de adiar. No
consegui me comumicar com ela hoje.
-- Ela deve aparecer s seis.
-- Oh, bem. -- Droga. -- Se incomoda de eu usar seu telefone? Sophia fez
um gesto e saiu para pedir  secretria que trouxesse caf.
-- No est l -- disse Tyler, quando ela voltou. -- Faltou a duas reunies de
manh.
-- No faz o estilo de Margaret. Vamos tentar mais uma vez a casa dela --
ela comeou, e depois mudou de assunto quando P. J. e Trace chegaram 
porta. -- Entrem e se sentem. -- Fez um gesto e depois fechou
tranqilamente a porta. -- Preciso que saibam -- disse, atravessou a sala de
volta  sua mesa -- que tive de demitir Kris.
P. J. e Trace trocaram rpidos olhares de esguelha.
-- O que vejo que no chega a ser surpresa alguma pra vocs. -- Como no
obteve resposta, decidiu pr as cartas na mesa: -- dizer que espero que os
dois saibam o quanto valorizo vocs e que espero que saibam como so
importantes para este departamento, para a empresa e pessoalmente pra
mim seria chover no molhado. Entendo que talvez continue a insatisfao
com as mudanas feitas no fim do ano passado, e se algum de vocs tiver
problemas a expor ou comentrios especficos estou aberta  discusso.
-- Que tal uma pergunta? -- sugeriu Trace.
-- Perguntas, ento.
-- Quem vai ficar no lugar da Kris?
-- Ningum.
-- Voc no pretende contratar algum pra ocupar o cargo dela?
-- Eu preferiria que vocs dois dividissem o trabalho, o cargo e as
responsabilidades dela.
-- Prioridade no escritrio dela -- anunciou P. J., levantando a mo.
-- Saco sibilou Trace, bufando.
-- Tudo bem, vamos recapitular. -- Sophia dirigiu-se at a porta e abriu-a ao
ouvir a batida da secretria, para que servisse o caf para todos. -- No
apenas no esto surpresos com a recente virada dos acontecimentos, mas,
a no ser que eu tenha errado o alvo, no esto muito chateados nem
decepcionados.
--  grosseiro falar da recm-demitida. -- P. J. examinou o caf e olhou
para Sophia. -- Mas... voc no est no escritrio todo dia. Nunca esteve,
porque no  assim que trabalha. Faz muitas viagens, comparece a reunies
externas. E desde dezembro trabalha em casa pelo menos trs vezes por
semana. Mas ns estamos aqui.
-- E?
-- O que P. J. est tentando dizer, sem o risco de uma viagem ao inferno
pela sacanagem,  que  difcil trabalhar com Kris. Mais difcil ainda
trabalhar para ela -- acrescentou Trace. -- Ou seja, como ela cuidava de
tudo quando no tinha voc por perto. Decidiu que era a responsvel, e ns,
junto com todos os demais no departamento, apenas subalternos. Eu j
andava muito de saco cheio e por ser subordinado. Vinha at pensando em
procurar outro emprego.
-- Voc podia ter falado comigo. Puxa, Trace.
-- Eu ia. Antes de tomar qualquer deciso. Agora, bem, est resolvido o
problema. S que acho que P. J. e eu devamos mudar para o escritrio de
Kris.
-- Eu falei primeiro. Vacilou, danou. Sophia, ela vem tentando fazer a
cabea das pessoas aqui. Tipo motim empresarial ou coisa assim. Talvez
tenha arranjado alguns seguidores. Voc pode perder algumas pessoas boas
junto com ela.
-- Tudo bem. Vou marcar uma reunio com todo o pessoal ainda pra esta
tarde. Controle de danos. Lamento no ter estado no controle neste caso.
Quando tudo se acalmar, eu gostaria de recomendaes. Pessoas que vocs
acham que devam ser analisadas pra promoo ou aproveitamento.
-- Beleza. -- P. J. levantou-se de um salto. -- Vou fazer um esboo de como
reorganizarei meu novo escritrio. Virou se para Ty. -- Gostaria apenas de
dizer que ser o tipo calado, forte, no torna voc um cara dominado por
mulheres. Mas interessante. Kris ficou realmente danada da vida porque
voc no tentou forar a barra e acabar de traseiro no cho. Em vez disso,
no diz nada, a no ser que tenha alguma coisa a dizer. E, quando diz, faz
sentido.
-- Puxa-saco -- disse Trace, baixinho.
-- No preciso ser puxa-saco, j fiquei com o maior escritrio. Com um
adejo das pestanas, ela saiu.
-- Eu gosto de trabalhar aqui. Gosto de trabalhar com voc. Eu teria me
decepcionado se tudo tivesse sido resolvido de outro jeito.
Com isso, saiu assobiando.
-- Sente-se melhor?
-- Muito. Um pouco com raiva de mim mesma por deixar tudo chegar a esse
ponto e por tanto tempo, mas, fora isso, muito melhor.
-- timo. Que tal marcar essa reunio de pessoal, e eu tento encontrar
Margaret. Est a fim de um encontro pra jantar, se ela quiser?
-- Claro, mas isso no vai deix-la feliz. Tem teso por voc.
-- Corta essa.
-- Quem avisa amigo  -- rebateu Sophia, inconseqente, e tornou a sair
para organizar a reunio com a secretria.
Mulheres, pensou Tyler, procurando o nmero da casa de Margaret no
fichrio de telefones de Sophia. E elas diziam que os homens s pensavam
em sexo. S porque ele e Margaret se davam bem, haviam sado uma ou duas
vezes, no significava...
Desviou os pensamentos quando um homem atendeu ao telefone na terceira
chamada.
-- Estou tentando entrar em contato com Margaret Bowers.
-- Quem fala?
--   Tyler MacMillan.
--   Sr. MacMillan. -- Uma brevssima pausa. -- Aqui  o detetive Claremont.
--   Claremont? Desculpe, devo ter ligado para o nmero errado.
--   No, no ligou. Estou no apartamento da Sra. Bowers. Ela est morta.

PARTE TRS
A florescncia
As flores so lindas; o amor  como a flor, e a amizade, uma rvore
protetora.
SAMUEL TAYLOR           COLERIDGE

Captulo Desesseis
Maro rugia pelo vale num vento implacvel e galopante. Endurecia o terreno
e fazia matraquearem os dedos nus das vinhas. O frio intenso das nvoas do
amanhecer penetrava o corpo das pessoas e triturava seus ossos. Haveria
receio de danos e perdas at a chegada do verdadeiro calor da primavera.
Haveria receio de muitas coisas.
Sophia parou primeiro nos vinhedos e decepcionou-se por no ver Tyler
percorrendo com gravidade e altivez as fileiras, examinando os galhos em
busca de novos brotos. Sabia que a fase de destorroamento da terra
lavrada estava prestes a comear, se o tempo permitisse. Homens munidos
de instrumentos constitudos por uma grade com dentes de pau
pulverizariam e arejariam o solo, revolvendo a terra ressequida e as plantas
marrom-amareladas, e devolvendo o nitrognio ao terreno.
Para o vinicultor, a quietude de fevereiro desfazia-se no movimentado e
crtico ms de maro.
O inverno, branca e caprichosa feiticeira, dominava o vale. E dava aos que ali
viviam muito tempo para pensar.
Ele devia estar dando tratos  bola, claro. Sentado no escritrio, ela
imaginou, mudando de direo, rumo  casa. Reexaminando os grficos, os
registros e os arquivos. Fazendo algumas anotaes em seu dirio de
vinicultor. Mas ainda assim ruminando.
Hora de pr um ponto final nisso.
Ia bater  porta. No, decidiu, quando a gente batia, era fcil demais ser
mandada embora. Em vez disso, abriu-a, tirando a jaqueta ao entrar.
-- Ty?
Jogou a jaqueta no pilar do corrimo e, seguindo o instinto, dirigiu-se ao
escritrio.
-- Tenho trabalho a fazer -- ele respondeu, sem dignar-se a erguer os olhos.
At aquele momento ele estivera na janela. Vira-a caminhando entre as
fileiras e mudando de rumo em direo  casa. Chegara a pensar em descer
e trancar a porta. Mas isso lhe parecera ao mesmo tempo mesquinho e intil.
Ele a conhecia havia muito tempo para acreditar que uma fechadura a
manteria longe.
-- Que foi?
-- Voc est um bagao.
-- Obrigado.
-- Nenhuma palavra da polcia ainda?
-- Voc tem a mesma chance de saber que eu.
 a pura verdade, ela pensou. E a espera vinha deixando-a nervosa. Fazia
quase uma semana que o corpo de Margaret fora encontrado. No cho, perto
de uma mesa, arrumada para dois, com um fil intocado no prato, restos de
velas e uma garrafa vazia de Merlot.
Era isso, ela sabia, que continuava a atormentar a mente de Tyler. O outro
lugar fora posto para ele.
-- Eu falei com os pais dela hoje. Vo levar o corpo de volta a Columbus para
o enterro.  duro para eles. E para voc.
-- Se eu no tivesse cancelado ...
-- No sabe se teria feito alguma diferena. -- Ela levantou-se e aproximou-
se dele. Parada atrs, comeou a massagear-lhe os ombros. -- Se ela tinha
uma doena cardaca que ningum sabia, poderia ter tido uma crise a
qualquer momento.
-- Se eu estivesse l...
-- Se. Talvez. -- Sentindo por ele, ela deu-lhe um beijo de leve no alto da
cabea. -- Escute o que digo, essas duas palavras vo deixar voc louco.
-- Ela era jovem demais pra ter um maldito ataque cardaco. E no me venha
com o argumento das estatsticas. Os tiras esto investigando e no passam
informao. Isso quer dizer alguma coisa.
-- Isso s quer dizer no momento que foi uma morte sem testemunhas, e
que ela era ligada, pela Giambelli, ao meu pai. Pura rotina, Ty. At que nos
digam outra coisa,  pura rotina.
-- Voc disse que ela sentia alguma coisa por mim.
Se pudesse voltar atrs, decidiu Sophia, cortaria a lngua antes de proferir
essa nica e descuidada observao.
-- Eu s estava gozando voc.
-- No, no estava. -- Entregando os pontos, ele fechou o dirio de
vinicultor. -- Sabe o que dizem da viso em retrospecto. Eu no vi. Ela no
me interessava nesse sentido, logo eu no quis ver.
-- No  culpa sua, e ficar remoendo isso no vai ajudar em nada. Lamento
que tenha acontecido. Eu gostava dela.
Sem pensar, ela passou os braos em volta dos ombros dele.
-- Eu tambm.
-- Vamos descer. Vou preparar uma sopa.
-- Por qu?
-- Porque vai nos dar o que fazer alm de pensar. E esperar. -- Ela girou a
cadeira dele at coloc-lo de frente. --Alm disso, tenho fofocas e ningum
pra contar.
-- Eu no gosto de fofoca.
-- Que pena! -- Ela puxou-o pela mo, satisfeita por ele t-la deixado
levant-lo. -- Minha me dormiu com David.
-- Ah, que saco, Sophe. Por que me conta esse tipo de coisa?
Ela deu um breve sorriso, enlaando o brao no dele.
-- Porque voc no vai espalhar esse tipo de fofoca fora da famlia, e no
acho que seja um assunto apropriado para Nonna e eu conversarmos no
caf-da-manh.
-- Mas  apropriado pra conversar comigo enquanto preparamos a sopa. --
Ele simplesmente no entendia a mente feminina.
-- Como  que voc sabe, alis?
-- Realmente, Ty -- ela exclamou, enquanto desciam as escadas.
-- Em primeiro lugar, conheo a Mama, e bastou dar uma olhada nela. Em
segundo lugar, vi os dois juntos ontem, e transparecia.
Tyler no perguntou como transparecia. Era bem provvel que ela o
dissesse, e ele no ia entender, de qualquer modo.
-- Como se sente em relao a isso?
-- No sei. Em parte gostei muito. Que bom pra voc, Mama ! Por outro
lado, fiquei de queixo cado, achando que a minha me no devia fazer sexo.
 o meu lado imaturo. Estou trabalhando nele.
Ele parou na base da escada e virou-a.
-- Voc  uma boa filha. -- Com uma pancadinha do dedo, ergueu o queixo
dela. -- E no  nem metade to m quanto dizem.
-- Oh, eu sei ser m. Se David mago-la, vai simplesmente descobrir at que
ponto eu sei ser m.
-- Eu imobilizo o cara e voc esfola ele.
-- Combinado. -- Ela desviou os olhos quando ele continuou a olh-los fundo.
E o sangue comeou a agitar-se. -- Ty. -- Levou a mo ao rosto dele, quando
ele se curvou para ela. E uma batida  porta levou-a a praguejar: -- Diabos!
Que h de errado com o nosso timing? Quero que se lembre onde paramos. 
pra lembrar mesmo!
-- Acho que eu j tinha isso programado, claro.
No menos irritado com a interrupo, ele dirigiu-se a passos largos at a
porta e escancarou-a. E sentiu uma intensa aflio.
-- Sr. MacMillan. -- Era Claremont parado ao lado de Maureen Maguite, no
ar frio. -- Podemos entrar?
Entraram na sala de estar, de atmosfera masculina e bagunada. Tyler no
pensara em acender a lareira nessa manh, e por isso fazia frio. Um jornal,
de vrios dias atrs, continuava empilhado na mesa de centro. Uma brochura
despontava embaixo. Maureen no conseguiu decifrar bem o ttulo.
Notou que Tyler no se dera ao trabalho de peg-lo, como faziam muitas
pessoas. E no parecia muito a fim de sentar-se. Mas, quando desabou numa
poltrona, Sophia introduziu-se no brao da poltrona ao seu lado. E isso fez
dos dois uma unidade.
Claremont pegou o bloco de notas e estabeleceu o ritmo.
-- Voc disse que namorava Margaret Bowers.
-- No, no disse. Disse que samos duas vezes.
-- Isso em geral  interpretado como namoro.
-- Eu no interpretei assim. Interpretei que samos duas vezes.
-- Voc era esperado para jantar com ela na noite em que morreu.
-- . -- Embora no transparecesse qualquer expresso condenatria na voz
de Claremont, ainda assim ferroava. -- Como eu j disse antes, fiquei retido
aqui, liguei pra ela em algum momento, por volta das seis. A secretria
eletrnica atendeu e deixei uma mensagem dizendo que no ia conseguir
chegar a tempo.
-- No deu muita importncia a ela -- interveio Maureen.
-- No, no dei.
-- Exatamente o que reteve voc?
-- Trabalho.
-- Na villa?
-- Foi o que disse na ltima vez que perguntou. Continua valendo. Em
essncia, perdi a noo do tempo e esqueci o jantar at chegar em casa,
-- Voc ligou s seis pra ela e ainda tinha uma hora. Podia chegar a tempo. --
Maureen inclinou a cabea. -- Ou ligar e dizer que ia chegar um pouco
atrasado.
-- Podia. Mas no fiz. No estava a fim de dirigir at a cidade. Tem algum
problema?
-- A Srta. Bowers morreu com a mesa ainda posta pra dois. Isso  um
problema.
-- Detetive Claremont? -- interrompeu Sophia, num tom agradvel. -- Ty no
est sendo mais especfico porque, imagino, acha que vai me constranger.
Tivemos um encontro no escritrio da villa no incio daquela tarde.
-- Sophia.
-- Ty. -- Ela continuou no mesmo tom. -- Acho que os detetives vo entender
que voc talvez no estivesse no clima de dirigir at So Francisco e jantar
com uma mulher, quando muito pouco antes tinha se embolado com outra no
cho do escritrio. Tivemos um encontro -- ela continuou. -- No planejado,
imprevisto e muito provavelmente inadequado, mas o av de Tyler entrou na
sala. -- Para enfatizar o que desejava dizer, correu os dedos pelos cabelos
de Ty. -- O velho Sr. MacMillan pode confirmar isso, caso achem necessrio
perguntar a ele se estvamos mesmo nos agarrando durante o expediente de
trabalho. Nessas circunstncias, acho compreensvel que Ty talvez estivesse
meio exausto e no no clima de dirigir at a cidade pra um jantar de
negcios com Margaret. Mas o importante, a no ser que eu seja idiota, 
que ele, pra comear, no foi, e por isso no tem nada a ver com o que
aconteceu a ela.
Claremont ouviu com pacincia, assentiu com a cabea e desviou o olhar de
volta a Tyler. J era um passo, supunha, para avaliar a impresso que tinha
dos dois. E outro para notar que MacMillan parecia sem graa e a mulher
Giambelli, divertida.
-- J jantou antes com a Srta. Bowers no apartamento dela?
-- No. S estive l. Peguei-a uma vez para uma reunio de negcios no Four
Seasons. Samos juntos. Faz mais ou menos um ano.
-- Por que simplesmente no pergunta se ele j dormiu com ela? -- sugeriu
Sophia. -- Ty, voc e Margaret j...
-- No. -- Dilacerado entre a irritao e o mal estar, ele lhe disparou um
olhar fulminante. -- Deus do cu, Sophia.
Antes que pudesse recuperar a compostura, ela bateu-lhe de leve no ombro
e tomou a dianteira:
-- Ela se sentia atrada por ele, e ele no percebia. Os homens muitas vezes
no percebem, e Ty  um pouco mais denso com esse tipo de coisa que a
maioria. Eu tenho tentado lev-lo pra cama h...
-- Quer parar com isso? -- Ele teve de esforar-se para no afundar a
cabea nas mos. -- Escute, lamento o que aconteceu com Margaret. Era
uma boa mulher. Eu gostava dela. E talvez, se no tivesse cancelado, poderia
ter ligado para acionar o servio de emergncia quando ela teve o ataque
cardaco. Mas no vejo o que essas perguntas tm a ver com alguma coisa.
-- J deu alguma vez uma garrafa de vinho  Srta. Bowers? Tyler passou a
mo pelos cabelos.
-- No sei. Provavelmente. Dou garrafas de vinho a muitas pessoas, e a
parceiros comerciais. Meio que faz parte do negcio.
-- Vinho com o rtulo Giambelli, o rtulo italiano?
-- No. Uso o meu prprio. Por qu?
-- A Srta. Bowers consumiu quase uma garrafa inteira de Merlot Castello di
Giambelli na noite em que voc ia jantar com ela, A garrafa continha
digitalina,
-- No entendi.
Quando ele recuou na poltrona, Sophia apertou a mo em seu ombro.
-- Ela foi assassinada? -- perguntou Sophia. -- Envenenada? Margaret foi...
Se voc estivesse l. Se tivesse tomado o vinho...
--  possvel que, se mais de uma pessoa partilhasse a garrafa, a dosagem
no fosse letal -- declarou Claremont. -- Mas a Srta. Bowers consumiu quase
a garrafa inteira, e certamente de uma vez s. Tem alguma idia de como a
digitalina entrou numa garrafa de Merlot italiano e no apartamento da Srta.
Bowers?
-- Tenho de ligar pra minha av. -- Sophia levantou-se de um salto. -- Se
houve adulterao de produto, precisamos cuidar logo disso. Preciso de toda
a informao contida naquela garrafa. O ano da safra. Preciso ter uma cpia
do rtulo pra analisar.
Sua av j foi informada -- disse Maureen. -- Como tambm as autoridades
italianas competentes. Adulterao de produto  uma possibilidade, mas
nesse momento no temos a menor idia de quando a Srta. Bowers obteve a
garrafa ou se foi dada a ela. No podemos confirmar se no foi ela prpria
quem adicionou a dose.
-- Se matar? Isso  ridculo. -- Ty levantou-se. -- Ela no era suicida.
Estava indo s mil maravilhas quando falei com ela, feliz com o trabalho,
excitada com as novas responsabilidades, a viagem.
-- Tem algum inimigo, Sr. MacMillan? Algum que poderia ter sabido de seus
planos com a Srta. Bowers naquela noite?
-- No. E no sou um alvo. Em primeiro lugar, se o vinho foi adulterado com...
eu teria sabido. Teria cheirado ou provado.  o que fao.
-- Exatamente -- concordou Maureen. Sophia sentiu os plos da nuca se
eriarem.
-- Tyler, voc j respondeu a perguntas demais. Vamos chamar um advogado.
-- No preciso de um maldito advogado.
-- Vamos ligar pro tio James. J.
--  seu direito. -- Claremont levantou-se. -- Uma pergunta a voc, Srta.
Giambelli. Sabia de alguma coisa sobre o relacionamento entre a Srta.
Bowers e seu pai?
O sangue dela congelou-se.
-- Pelo que sei, eles no tinham nenhum, alm do profissional.
-- Entendo. Bem, obrigado pelo tempo de vocs.

-- MEU PAI E MARGARET.
--  bem provvel que ele estivesse jogando uma isca para voc. Mas Sophia
receava a isca, digerindo, avaliando a textura.
-- Se havia alguma coisa entre eles, e a morte dos dois estiver relacionada...
-- No se precipite, Sophie.
Ele ps a mo na dela brevemente e levou-a  alavanca de marcha para
entrar na villa. Sabia como ela estava abalada. No manifestara objeo
alguma quando ele se enfiara atrs do volante do carro dela para lev-los.
-- Se houve adulterao. Se houver uma chance, a mnima chance, de outras
garrafas...
-- No se precipite -- ele repetiu. Parou o carro e contornou-o at ela.
Tomou-lhe ento a mo e segurou-a. -- Temos de tirar isso a limpo. Cada
passo, cada detalhe. No podemos entrar em pnico. Porque, se houve
adulterao, Sophie, era simplesmente o que a pessoa que fez isso queria:
pnico, caos, escndalo.
-- Eu sei. Escndalo  minha ocupao. Sei lidar com isso. Vou pensar em
alguma coisa para virar a publicidade. Mas... meu pai e Margaret, Ty. Se
havia alguma coisa a... -- Ela apertou mais a mo dele, quando ele comeou a
balanar a cabea. -- Tenho de pensar. Se havia, ele sabia da adulterao?
Quantas vezes por ano ele viajava  Itlia? Oito, dez, doze?
-- No entre nessa, Sophia.
-- Por qu? Voc entrou. Acha que no vejo? Voc entrou, outros vo
entrar. No quero acreditar nisso da parte dele. Tenho de aceitar todo o
resto, mas no quero acreditar nisso.
-- Voc est dando um salto grande demais, rpido demais. Diminua a
marcha. Fatos, Soph. Vamos comear pelos fatos.
-- O fato  que duas pessoas esto mortas. -- Como viu que a sua mo
comeava a tremer, puxou-a da dele e saiu do carro. -- Margaret assumiu a
maioria das contas e responsabilidades de meu pai. Se havia ou no um
relacionamento pessoal entre eles, isso  uma ligao.
-- Tudo bem. -- Ele queria oferecer-lhe alguma coisa, mas parecia que ela s
queria lgica fria. -- Primeiro a gente cuida do vinho -- disse, quando
subiram os degraus. -- Depois dos efeitos residuais,
A famlia encontrava-se no salo da frente, David em p junto  janela,
falando ao telefone. Sentada, reta como um soldado, Tereza tomava caf.
Acenou com a cabea quando Ty e Sophia entraram, e apenas indicou as
cadeiras.
-- James est a caminho. -- Eli andava de um lado para outro defronte 
lareira. A tenso parecia pesar-lhe e fazer seu rosto perder a firmeza, --
David est falando com a Itlia agora, dando incio ao
controle de danos.
-- Me deixe pegar caf pra vocs -- ofereceu-se Pilar.
-- Mama. Sentada.
-- Eu preciso fazer alguma coisa.
-- Mama. -- Sophia levantou-se e foi at o carrinho de caf, para ficar ao
lado da me. -- Papai e Margaret?
-- Eu no sei. -- Pilar segurava firmemente o bule, embora por dentro
tremesse. -- Simplesmente no sei. Achava... Eu tinha a impresso de que
Rene trazia Tony com rdea curta.
-- No o bastante. -- Sophia manteve a voz calma. -- Ele estava envolvido
com uma mulher no meu escritrio.
-- Oh. -- Pilar deixou escapar, em forma de suspiro, -- Quem dera que eu
pudesse dizer a voc, Sophie. Mas simplesmente no sei.
Sinto muito.
-- Entenda o seguinte. -- Sophia virou-se para a av. Esperou.
-- Se havia alguma coisa entre Tony Avano e Margaret Bowers, a polcia vai
especular que qualquer um de ns, qualquer de ns ligado aos dois, poderia
ter participado da morte deles. Somos uma famlia. Vamos apoiar uns aos
outros e nos defender at isso acabar. -- Olhou para David quando ele
baixou o telefone. -- Ento?
-- Estamos rastreando -- ele comeou. -- Vamos recolher todas as garrafas
de Merlot dessa safra. Muito em breve poderemos determinar de que barril
foi retirada a garrafa. Partirei pela manh.
-- No. Eli e eu partiremos pela manh. -- Tereza ergueu a mo e fechou os
dedos em volta da mo de Eli quando ele a segurou.
-- Isso cabe a mim. Deixo que vocs cuidem para que a operao da
Califrnia esteja segura. Que no haja brecha alguma. Voc e Tyler
precisam assegurar isso.
Paulie e eu podemos comeai tom os lagares -- sugeriu Tyler. -- David pode
examinar o engarrafamento.
David assentiu com a cabea.
-- Vamos examinar os arquivos pessoais, um por um. Voc conhece as equipes
melhor que eu.  mais provvel que o problema esteja na Itlia, mas nos
certificaremos que a Califrnia  segura.
Sophia j pusera o bloco de memorando no colo.
-- Vou ter comunicados  imprensa, em ingls e italiano, prontos em uma
hora. Vou precisar de todos os detalhes do recolhimento da safra.
Queremos uma matria sobre como  exigente o processo de fabricao de
vinho da Giambelli-MacMillan. Como  cuidadoso, como  seguro. Certamente
vamos levar alguns golpes na Itlia, mas talvez consigamos manter isso
abaixo do ponto de crise aqui. Vamos ter de permitir o acesso de equipes de
televiso aos vinhedos e lagares tanto aqui como no exterior. Nonna, com
voc e Eli indo para l, teremos condies de mostrar que a Giambelli 
dirigida pela famlia, e que La Signora continua a se interessar em pessoa.
--  dirigida pela famlia -- afirmou Tereza, categrica. -- E eu assumo um
interesse muito pessoal.
-- Eu sei. -- Sophia baixou o bloco. --  importante assegurar que a imprensa
e o consumidor saibam. Acreditem. Fiquem impressionados. Vamos precisar
da Mama nisso... Mama, Ty e eu. Mostraremos as razes, o envolvimento e a
preocupao da famlia. Cem anos de tradio, excelncia e
responsabilidade. Sei como fazer isso.
-- Ela tem razo. -- Ningum se surpreendeu mais que Sophia quando Tyler
tomou a palavra. -- Na maioria das vezes, no dou a mnima para publicidade
nem percepo, e por esse motivo -- acrescentou -- vocs dois me
empurraram nisso. Eu preferia, antes, uma praga de gafanhotos em meu
vinhedo a reprteres. Continuo no dando a mnima, mas sei um pouco mais a
respeito. O suficiente para saber que Sophia encontrar um meio de
reverter a situao para amortecer o pior dos estragos, e na certa
encontrar um meio de virar tudo pelo avesso para o bem da empresa. Vai
encontrar o caminho, porque se importa mais que qualquer um.
-- Concordo. Ento, que cada um de ns d o melhor de si. -- Tereza olhou
paia Eli e alguma coisa passou entre os dois nessa frao de segundo em
silncio. -- Mas no fazemos nada mais at nos reunirmos com James Moore.
No  apenas a reputao da empresa que precisa ser protegida, mas a
prpria empresa. Sophia, redija seu comunicado. David vai ajudar com os
detalhes. Depois deixaremos os advogados darem uma olhada. E em tudo o
mais.

FOI UM GOLPE NO ORGULHO. ISSO, PENSAVA TEREZA, PARADA
diante da janela de seu escritrio, era o mais difcil de aceitar. O que era
seu fora violado, ameaado. O trabalho de toda a vida denegrido por uma
garrafa de vinho adulterada.
Agora, em tantos aspectos, ela tinha de confiar em outros para salvar seu
legado.
-- Vamos cuidar disso, Tereza.
-- Sim. -- Ela ergueu a mo para cobrir a que Eli lhe pusera no ombro. -- Eu
me lembro de quando era menina e meu pai caminhava comigo entre as
fileiras de vinhas na volta pra casa. Ele me dizia que no bastava plantar. O
que era plantado precisava ser zelado, protegido, amado e disciplinado. As
vinhas eram os filhos dele. Tornaram-se os meus.
-- Voc os criou bem.
-- E paguei o preo. Fui menos mulher do homem com quem casei h tanto
tempo do que poderia ter sido, menos me para a filha que dei  luz. No s
a responsabilidade me foi legada, mas tambm a ambio, Eli. Tanta
ambio. -- Ainda vivia nela, e ela no a lamentava, -- Teria havido mais
filhos se eu no desejasse com tanto desespero que minhas vinhas fossem
frteis? Teria feito minha filha as escolhas que fez, se eu tivesse sido mais
me dela?
-- Tudo acontece como tem de acontecer.
-- Fala o escocs prtico. Ns, italianos, tendemos a acreditar mais no
acaso. E na vingana.
-- O que aconteceu no  vingana, Tereza. Foi um terrvel acidente ou um
ato criminoso. Voc no  responsvel por nenhum dos dois.
--Assumi a responsabilidade no dia em que recebi a Giambelli. -- Ela correu
os olhos pelas vinhas, a adormecida promessa. -- No sou responsvel por
ter forado a unio de Sophia e Tyler? Pensando na empresa, jamais
imaginei o que poderia acontecer entre eles em outro nvel.
-- Tereza. -- Ele virou-a para olh-lo. -- Uma nova ordem para que
trabalhassem juntos no os influenciou nem faz de voc o gatilho que
derrubou essas duas pessoas jovens e saudveis no cho do escritrio.
Ela suspirou.
-- No, mas prova que no levei em conta a sade deles. Estamos passando
nossa herana para as mos deles. Eu esperava que brigassem. Ns dois
espervamos. Mas o sexo pode tornar as pessoas inimigas. E isso eu no
previ. Deus do cu, isso me faz sentir velha.
-- Tereza. -- Ele colou os lbios na testa dela. -- Ns somos velhos.
Disse isso para faz-la rir, e ela o satisfez.
-- Ora, no nos tornamos inimigos. Podemos esperar que os dois tenham
puxado alguma coisa de ns.
-- Eu amo voc, Tereza.
-- Eu sei. Mas no me casei com voc por amor, Eli.
-- Eu sei, minha querida.
-- Pelos negcios -- ela disse, recuando. -- Uma fuso. Uma sbia jogada
empresarial. Eu respeitava, gostava muito de voc e apreciava a sua
companhia. Em vez de ser punida por essa maquinao, fui recompensada. Eu
amo muito voc. Espero que saiba disso, tambm.
-- Eu sei. Vamos superar essa adversidade, Tereza.
-- Eu no preciso de voc ao meu lado. Mas quero voc aqui. Quero muito.
Acho que isso fala mais alto. Significa mais. Ele tomou a mo que ela lhe
estendeu.
-- Vamos descer. James deve chegar logo.
                                     + + +

JAMES EXAMINOU POR ALTO O COMUNICADO  IMPRENSA DE
Sophia e assentiu com a cabea.
-- Bom. -- Retirou os culos de leitura. -- Claro, calmo, com um toque
pessoal. Eu no mudaria nada, do ponto de vista legal.
-- Ento eu vou subir, finalizar o texto, alertar as tropas e mandar publicar.
-- Leve Linc com voc. Ele  um bom servial em geral. Ele esperou os dois
sarem da sala.
-- Tereza, Eli, vou trocar idias com seus advogados na Itlia. A essa altura,
vocs esto lidando com o problema rpida e decisivamente. Isso deve
reduzir quaisquer aes legais em potencial contra a empresa.  possvel que
surjam processos judiciais aqui. Vocs precisam estar preparados. Vou
arrancar o que puder da polcia. A no ser que se comprove que a substncia
qumica estava no vinho antes de ser aberto, vocs no tm nada com que se
preocupar alm da publicidade prejudicial. Se a Giambelli for considerada
responsvel por negligncia, vamos cuidar disso.
-- Negligncia no  minha preocupao, James. Se o vinho foi adulterado
antes de ser aberto, no foi negligncia, mas assassinato.
-- No momento, isso  especulao. Pelas perguntas que a polcia fez a
vocs, e a voc, Tyler, tambm est especulando. No sabem quando
acrescentaram a digitalina. Do ponto de vista legal, isso deixa a Giambelli um
passo muito vital atrs do problema.
-- O problema -- disse Tyler --  a morte de uma mulher.
-- Esse  um problema pra polcia. E, embora voc talvez no goste, meu
conselho  que no responda a mais perguntas deles sem a presena de um
advogado. Estabelecer uma acusao  trabalho deles. Ajud-los no  o seu.
-- Eu a conhecia.
-- , certo. E ela tinha preparado um jantar aconchegante e romntico para
dois na noite em que morreu. Um jantar ao qual voc no compareceu. Neste
momento, a polcia se pergunta simplesmente at onde voc a conhecia bem.
Deixe que se perguntem. E enquanto se perguntam, vamos investigar
Margaret Bowers. Quem era ela, a quem conhecia e o que queria.

-- UMA BAGUNA DOS DIABOS, HEM ?
Sophia ergueu os olhos para Linc.
-- Tenho a sensao de que vamos ficar varrendo-a por um longo tempo.
-- Haja vassoura. Vocs tm papai, logo tm o melhor. E de jeito nenhum
mame vai ficar de fora. E ainda tm a mim.
Conseguiu dar um sorriso.
-- Uma tripla ameaa.
-- Certssimo. Moore, Moore e Moore. Quem poderia querer alguma coisa...
-- Pare. Vou ter de bater em voc. -- Ela terminou corrigindo os erros de
digitao do comunicado no monitor e enviou-o por fax a P. J. --  melhor
que saia do escritrio de So Francisco do que daqui. Quero que seja
pessoal, mas no que parea uma ocultao familiar da verdade.
-- Eu comecei a fazer estes artigos com informaes extras e ganchos
jornalsticos. Por que no d uma olhada, examina o raciocnio legal e v se
cobri minha retaguarda?
-- Claro. Eu sempre gostei do seu traseiro.
-- Ah ! -- Ela levantou-se para deix-lo ocupar seu lugar  mesa. -- Como vai
a mdica?
-- Viajando, no momento. Voc precisa arranjar um namorado e se encontrar
com a gente uma noite dessas. Podamos ir a alguns lugares quentes, dar
umas risadas. Parece que est precisando dar algumas boas risadas.
-- Mais que algumas. Minha vida social no existe hoje em dia, e esse parece
ser o padro no futuro prximo.
-- Isso vindo da rainha da festa?
-- A rainha da festa perdeu a coroa.
Como ele usava o computador, ela pegou o telefone para checar as coisas
com P. J.
-- Se quer minha opinio, voc precisa de uma pequena folga, Sophie. Est
tensa. J estava -- ele acrescentou quando ela lhe lanou um olhar -- antes
desse ltimo tumulto de merda.
-- Eu no tenho tempo para brincar -- ela rebateu. -- No tenho tempo nem
para pensar na prxima ao, nem de respirar, sem temer o que vai saltar na
minha cara em seguida. Tenho trabalhado doze horas por dia, no mnimo, h
quase trs meses. Estou cheia de calos nas mos, maldio, tive de despedir
um dos principais membros da equipe, e no fao sexo h seis malditos
meses.
-- Pare. Ai. E eu no me refiro aos calos. Eu me ofereceria pra ajudar no
ltimo problema, mas  provvel que a mdica se oponha.
Ela bufou.
--Acho que vou fazer ioga. -- Abriu uma gaveta da mesa e retirou um frasco
de aspirinas quando P. J. atendeu. -- O fax chegou? -- Ouviu-o, assentiu com
a cabea e lutou para abrir a tampa do frasco. -- Envie ento por telegrama
o mais rpido possvel... Como? Minha nossa, quando? Est bem, est bem.
Divulgue logo o comunicado. Faa com que todos os chefes de departamento,
todo o pessoal-chave tenha uma cpia. Trata-se da linha da empresa at
nova notcia. E me mantenha atualizada. -- Desligou e olhou para Linc. --
Est na rua. J vazou.

Captulo Dezessete
GIAMBELLI-MACMILLAN, O GIGANTE DA INDSTRIA VINICULTORA,
SOFREU OUTRA CRISE. CONFIRMOU-SE QUE UMA GARRAFA DE
VINHO ENVENENADA FOI RESPONSVEL PELA MORTE DE MARGARET
BOWERS, EXECUTIVA DA EMPRESA. A POLCIA INVESTIGA.
EXAMINA-SE A POSSIBILIDADE DE ADULTERAO DO PRODUTO E A
GIAMBELLI-MACMILLAN EST RECOLHENDO GARRAFAS DE
CASTELLO Dl GIAMBELLI MERLOT, 1992. DESDE A FUSO DAS
VINCOLAS GIAMBELLI-MACMILLAN EM DEZEMBRO LTIMO...
Perfeito, pensou Jerry ao ver o noticirio da noite. Absolutamente perfeito.
Iam sair correndo, claro. J tinham sado. Mas o que ouviria o pblico?
Giambelli. Morte. Vinho.
Garrafas seriam despejadas na pia. Outras ficariam encalhadas nas
prateleiras. A notcia iria atormentar bastante e por muito tempo. Reduziria
os lucros a curto e longo prazo. Lucros que La Coeur colheria.
S isso j era uma grande satisfao. Em termos profissionais e pessoais.
Ele nada tinha a ver com o caso -- de forma direta. E, quando a polcia
capturasse o responsvel, o dano  Giambelli simplesmente aumentaria.
Esperaria um pouco. Aguardaria o momento propcio. Assistiria ao show.
Ento, se parecesse vantajoso, poderia haver outro telefonema annimo.

-- A DIGITALINA VEM DA DEDALEIRA.
Maddy sabia. Pesquisara.
-- Como?
Distrado, David olhou-a de relance. Tinha uma montanha de trabalho
administrativo na sua mesa. Em italiano. Era muito melhor falando a lngua
que lendo.
-- Ser que l eles cultivariam dedaleira perto das vinhas? -- perguntou
Maddy. -- Como cultivam mostarda entre as fileiras aqui? Pelo nitrognio?
Acho que no fariam isso, porque saberiam que a dedaleira contm
digitalina. Mas talvez tenham cometido um erro. Poderia infectar as uvas se
as plantas fossem cultivadas l, e se transformaram no solo?
-- Eu no sei. Maddy, no  pra voc se preocupar.
-- Por qu? Voc est preocupado.
--  meu trabalho me preocupar.
-- Eu podia ajudar.
-- Querida, se quer ajudar, poderia me dar um pouco de espao aqui. Fazer
seu dever de casa.
Os lbios dela comearam a despontar em biquinhos. Claro sinal de insulto
pessoal, mas David estava distrado demais para notar.
-- Eu j fiz.
-- Bem, ajude Theo com o dele. Ou qualquer coisa assim.
-- Mas se a digitalina...
-- Maddy. -- Sem saber mais o que fazer, ele falou-lhe de maneira brusca:
-- No se trata de uma matria, nem de um projeto. Mas de um problema
real, e tenho de cuidar disso. V procurar alguma coisa pra fazer.
-- Falou.
Maddy fechou a porta do escritrio e deixou o ressentimento arder ao
afastar-se pisando forte. Ele nunca queria que ela ajudasse quando era
alguma coisa importante.
Faa o dever de casa, converse com Theo, arrume o quarto. Ele sempre
recorria a essas atividades nojentas quando ela queria fazer alguma coisa
importante.
Apostava que o pai no teria mandado Pilar Giambelli procurar alguma coisa
para fazer. E ela no sabia nada de cincia. Msica, arte e ser bonita eram
s o que ela sabia. Coisas de meninas. Coisas sem importncia.
Entrou com arrogncia no quarto de Theo. Ele estava refestela-do na cama,
a msica estrondeava, com a guitarra apoiada na barriga e o telefone na
orelha. Pelo olhar imbecilizado no rosto do irmo, era uma menina na outra
ponta.
Os homens eram to fracos.
-- Papai quer que voc faa o dever de casa.
-- Fora daqui. -- Ele cruzou os tornozelos. -- No. No  nada. S minha irm
idiota.
O telefone bateu com fora em sua mandbula quando Maddy se lanou para
cima dele. Em segundos, Theo enfrentava o choque da dor, os gritos
estridentes no ouvido, e os socos e pontaps da irm furiosa.
-- Ai! Espere! Porra, Maddy. Eu ligo de volta. -- Ele conseguiu desligar o
telefone e, na hora H, proteger a genitlia de uma joelhada. Que diabo deu
em voc? -- Aps um longo e suado minuto, conseguiu vir-la, ela no lutava
como menina, mas mesmo assim ele a superava em peso e imobilizou-a. --
Corta essa, cadelinha. Qual  o seu problema?
-- Eu no sou nada!
Ela cuspiu-lhe e fez uma corajosa tentativa com o joelho de novo.
-- No,  apenas uma pirada esquizide. -- Ele lambeu o canto da boca,
xingou, ao sentir o gosto inconfundvel. -- Estou sangrando. Quando contar
ao papai...
-- No pode contar nada. Ele no escuta ningum alm dela.
-- Ela quem?
-- Voc sabe quem. Saia de cima de mim, seu babaca grande e balofo. Voc 
to ruim quanto ele, fazendo rudos pegajosos para alguma garota e no
escutando ningum.
-- Eu s estava conversando -- ele retrucou com grande dignidade, para
rebater a crtica de pegajoso. -- E se voc me atingir de novo, eu vou
revidar. Mesmo que papai me arrase. Agora, qual o seu problema?
-- Eu no tenho problema. O problema so os homens desta casa se fazendo
de bundes por causa das mulheres da villa.  nojento. Constrangedor.
Vendo-a, Theo limpou o sangue da boca. Tinha uma vida de fantasia muito
criativa no que se referia a Sophia. E a irmzinha no ia estrag-la. Sacudiu
a juba de cabelos encaracolados.
-- Voc s est com cimes.
-- No estou.
-- Claro que est. Porque  magricela e tem o peito chato.
-- Prefiro ter crebro a seios.
-- Que bom! No sei se o motivo desse ataque de raiva  o fato de papai
estar se relacionando com Pilar. Ele j se relacionou com outras mulheres
antes.
-- Voc  to imbecil! -- Todo resduo de averso acumulou-se na voz dela. --
Ele no est se relacionando com ela, cara de pinto. Est apaixonado por ela.
-- Sem essa. Que  que voc sabe? -- Mas Theo sentiu um estranho pulinho
no estmago ao pegar um saco de batata frita na cmoda. --Cara.
-- Vai mudar tudo.  assim que funciona. -- Embora sentisse uma terrvel
presso no peito, ela levantou-se. -- Nada nunca mais vai ser o mesmo, e isso
vai ser uma droga.
-- Nada era o mesmo. Pelo menos desde que mame se mandou.
-- Ficou melhor.
As lgrimas queriam escapar, mas, em vez de deix-las cair na frente dele,
ela precipitou-se quarto afora.
--  -- resmungou Theo. -- Mas no ficou a mesma coisa.

SOPHIA ESPERAVA QUE O VENTO FRIO E LMPIDO SOPRASSE
algumas das nuvens de sua mente. Tinha de pensar, e pensar com clareza.
Vinha-se virando o mais rpido possvel, mas o noticirio causara algum
estrago. Com demasiada freqncia, a primeira impresso era tudo que as
pessoas lembravam.
Agora sua tarefa era mudar essa impresso. Mostrar ao pblico que, embora
a Giambelli houvesse sido sabotada, a empresa nada fizera para prejudicar
os consumidores. Isso exigia mais que palavras, sabia, mais at que
merchandising e expedio. Exigia ao tangvel.
Se os avs j no tivessem arrumado as malas para ir  Itlia, ela os teria
exortado a faz-lo. Ficar visveis na origem do problema. No recair na
segurana do "sem comentrios", mas comentar muitas vezes e em termos
especficos. Usar repetidas vezes o nome da empresa, pensou, fazendo
anotaes mentais. Torn-la pessoal, fazer a empresa respirar.
Mas... tinham de contornar cuidadosamente Margaret Bowers. Simpatia,
claro, mas no tanta que sugerisse responsabilidade.
Para fazer isso, para ajud-los a faz-lo, Sophia tinha de parar de pensar
em Margaret como pessoa.
Se era frieza, ela seria fria. E cuidar da conscincia depois.
Parou na borda do vinhedo. Era protegido, pensou, contra pragas, doena,
caprichos do tempo. Lutava-se contra qualquer ameaa de invaso e dano.
Essa no era diferente. Ela travaria a guerra e em seus prprios termos.
No se arrependeria de ato algum que a vencesse. Captou um movimento nas
sombras.
-- Quem est a?
Pensou logo em um invasor, sabotador. Assassino. Atacou sem hesitao e
viu os braos cheios de uma menina a debater-se.
-- Larga ! Eu posso vir aqui. Tenho permisso.
-- Desculpe, me desculpe. -- Sophia recuou. -- Voc me assustou.
No parecera assustada, pensou Maddy. Mas assustadora.
-- No estou fazendo nada de errado.
-- Eu no disse que estava. Disse que me assustou. Acho que estamos todos
um pouco nervosos no momento. Escute... -- Ela captou o brilho das lgrimas
nas faces da menina. Como no gostava de ter seus prprios ataques de
choro em evidncia, deu a Maddy a mesma considerao. -- Eu s sa pra
clarear a mente. Coisas demais agora.
Deu uma olhada na casa atrs.
-- Meu pai est trabalhando.
Na declarao desprendeu suficiente defesa para fazer Sophia especular:
-- H muita presso sobre ele no momento. Sobre todo mundo. Meus avs
partem para a Itlia bem cedo de manh. Eu me preocupo com eles. No so
mais jovens.
Aps a rejeio do pai, a tranqila confiana de Sophia acalmava. Ainda
cautelosa, Maddy emparelhou o passo com o dela.
-- Eles no agem como velhos. No do tipo decrpito ou coisa assim.
-- , no agem, no ? Apesar disso, eu gostaria de ir no lugar deles, mas
precisam de mim aqui no momento.
Os lbios de Maddy tremeram quando ela olhou para a casa de hspedes.
Ningum, parecia, precisava dela. Em lugar nenhum.
-- Pelo menos voc tem alguma coisa para fazer.
-- . Se eu pudesse simplesmente entender o que fazer em seguida. Tanta
coisa acontecendo.
Lanou um olhar de esguelha a Maddy. A menina estava magoada e
emburrada com alguma coisa. Sophia lembrava muito bem o que era ter
catorze anos, ficar magoada e emburrada.
A vida nessa idade era cheia de urgncia e momentos intensos, pensou, que
faziam as crises profissionais parecerem recortes de jornal.
-- Acho que, em algum nvel, estamos no mesmo barco. Minha me -- disse,
quando Maddy continuou calada. -- Seu pai.  meio esquisito.
Maddy deu de ombros e curvou-os,
-- Eu preciso ir.
-- Tudo bem, mas eu gostaria de dizer uma coisa a voc. De mulher pra
mulher, de filha pra filha, como quiser. Minha me passou muito tempo sem
ningum, sem um homem bom, que gostasse dela. No sei o que isso tem sido
pra voc, nem pra seu irmo ou seu pai. Mas pra mim, depois da estranheza,
 legal ver que minha me tem um bom homem que a faz feliz. Espero que
voc d uma chance a ela.
-- No importa o que fao. Ou penso. Ou digo. Infelicidade rebelde, pensou
Sophia. Sim, tambm se lembrava disso,
-- Importa sim. Quando algum nos ama, o que pensamos e fazemos importa.
-- Ouviu adiante o barulho de passos apressados. -- Ao que parece, algum
ama voc,
-- Maddy! -- Ofegante, David levantou a filha do cho. Conseguiu abra-la
e sacudi-la ao mesmo tempo. -- Que est fazendo? No pode sair vagando
por a assim depois que escurece.
-- S dei uma caminhada.
-- E me custou um ano de vida. Quer brigar com seu irmo, fique a vontade,
mas no pode sair novamente de casa sem permisso. Est claro?
-- Sim, senhor. -- Embora satisfeita em segredo, ela fez uma careta. --
Pensei que voc nem ia notar.
-- Pense melhor.
Ele enganchou o brao no pescoo da filha, um hbito descontrado de
afeio que Sophia j notara. E invejava. Seu pai nunca a tocara assim.
-- Em parte  minha culpa -- disse Sophia. -- Eu mantive Maddy aqui por
mais tempo do que devia. Ela  uma ouvinte fantstica. Minha mente
divagava pra todos os lados.
-- Devia dar um descanso a ela. Vai precisar de todos os circuitos ligados e
funcionando amanh. Sua me est livre?
Ele no notou como Maddy se enrijeceu, mas Sophia, sim.
-- Imagino que sim. Por qu?
-- Estou tateando em relatrios e memorandos, em italiano. A coisa iria mais
rpida com algum que lesse melhor que eu.
-- Eu digo a ela. -- Sophia olhava ento para Maddy. -- Ela vai querer ajudar.
-- Agradeo. Agora vou arrastar pra casa e espancar esta mala durante
algum tempo. At a reunio. Oito horas.
-- Estarei pronta. Boa-noite, Maddy.
Viu-os atravessar os campos em direo  casa de hspedes, as sombras dos
dois prximas o bastante para se fundirem numa nica ao luar.
Difcil culpar a menina por querer manter isso assim. Difcil abrir espao
para mudanas. Para pessoas, quando sua vida parecia simplesmente tima
como era.
Mas as mudanas aconteciam. Era mais inteligente fazer parte delas.
Melhor ainda, decidiu, inici-las.

TYLER DEIXOU O RDIO E A TV DESLIGADOS, IGNOROU O
telefone. A nica coisa que podia controlar era a prpria reao  imprensa,
e a melhor maneira de control-la era ignor-la totalmente. Pelo menos por
algumas horas.
Avanava mergulhado em seus arquivos, nos dirios das atividades
ocorridas, cada registro que tinha disponvel. Podia e iria garantir que a rea
MacMillan da empresa se mantivesse segura.
O que no parecia controlar eram suas prprias perguntas sobre Margaret.
Acidente, suicdio ou assassinato? Nenhuma das opes o atraa. Ela no
fazia o tipo, e com uma certeza infernal Tyler no tinha o ego grandioso o
suficiente para sugerir que ela se matara porque ele faltara a um encontro
para jantar.
Talvez estivesse interessada nele, e talvez ele tivesse ignorado os sinais
porque no se sentia da mesma forma. E no quisera as complicaes. A vida
j era muito complicada sem o enredamento de negcios com
relacionamentos pessoais.
Alm disso, ela simplesmente no era seu tipo. Ele no buscava a profissional
em rpida ascenso, com atitude e objetivos a atingir. Esse tipo de mulher
simplesmente consumia energia demais. Veja Sophia.
Nossa, comeava a achar que iria explodir se no visse Sophia. E no era
essa a questo?, lembrou a si mesmo ao lanar-se mais uma vez, agitado,
escada abaixo para o trreo. Pensar nela assim confundia a mente, retesava
o corpo e complicava uma j complexa associao comercial.
Agora mais do que nunca era essencial manter a mente no trabalho. A crise
atual ia esgotar o seu tempo e a energia dos vinhedos onde ele menos podia
permitir-se. Vrios barris de vinho estavam no ponto de ficar prontos para o
engarrafamento. A gradagem da terra j comeara.
No tinha tempo para preocupar-se com investigaes policiais nem
processos judiciais em potencial. Nem com mulher. E de todos eles, vinha
achando a mulher o mais difcil de afastar da mente.
Porque ela invadira seu organismo, pensou. E fincara-se ali, irritando-o, at
ele tir-la mais uma vez de l. Ento por que simplesmente no marchava at
a villa, irrompia nos degraus do terrao dela acima e resolvia o problema? E
terminava com isso.
Sabia exatamente at onde isso era pattico e egosta como racionalizao.
E decidiu que no dava a mnima.
Pegou um palet, dirigiu-se  porta da frente e abriu-a.
E l estava ela, subindo os degraus da casa dele.
-- Eu no gosto de maches irritveis -- disse ao bater a porta atrs de si.
-- Eu no gosto de mulheres mandonas agressivas.
Os dois mergulharam um no outro. Quando comearam o ataque mtuo com a
boca, ela se ergueu e enroscou as pernas em volta dos quadris dele.
-- Eu quero uma cama desta vez. -- Com a respirao j despedaada, ela
arrancou a camisa dele. -- Tentaremos o cho depois.
-- Eu quero voc nua. -- Ele mordiscou a garganta dela e comeou a subir
cambaleando as escadas. -- No me importa onde.
-- Nossa, que gosto incrvel voc tem! -- Ela percorria o rosto e o pescoo
dele com os lbios. --  to bsico. -- Parou com um arquejo quando sentiu
as costas baterem na parede, no topo da escada, e fechou os dedos nos
cabelos dele. --  s sexo, certo?
-- , certo, seja o que for. -- Ele esmagou a boca na dela. Usando a parede
para apoi-la, comeou a puxar seu suter pela cabea. -- Deus do cu! Voc
 to bem-feita. -- Jogou o suter para o lado e levou a boca  macia
protuberncia do seio que despontava acima do suti. -- No vamos
conseguir chegar  cama.
O corao dela martelava quando ele usou os dentes.
-- Tudo bem. Na prxima vez.
Ela tocou os ps no cho. Pelo menos achou que sim. Era difcil saber onde e
com quem estava, quando a fonte quente de avidez irrompeu por dentro.
Mos puxavam roupas; alguma coisa se rasgou. Bocas corriam quentes pela
carne. Tudo se turvava. Acima da furiosa batida do sangue, ela ouvia os
prprios gemidos, splicas, exigncias, uma espcie de cntico louco que se
fundia com o dele.
J estava molhada e dolorida quando ele a encontrou com os dedos. A
violenta glria do orgasmo ia de cima a baixo, dourada libertao fundida,
to forte, to bem-vinda, que ela poderia ter se derretido desconjuntada
at o cho.
-- Ah. No, no escorregue. -- Ele apertou-lhe as costas mais uma vez na
parede e, cavalgando a emoo, continuou a penetr-la. -- Quero voc
gritando. Se levante de novo.
Ela no pde deter-se. Acolhendo o ardor, desejando-o, deixou-o possu-la,
esvazi-la, at deix-la com a mente inundada de escurido e animalidade.
E, inundada, ela rasgou-o, aoitou-o alm da razo. Viu os olhos dele ficarem
opacos e soube que o cegava. Ouviu sua respirao suspender-se e rasgar-se
e emocionou-a poder enfraquec-lo.
-- Agora. -- Mais uma vez, apoiou as mos nos cabelos dele e estremeceu ao
pousar no tnue limite seguinte. -- Agora, agora, agora.
Quando ele mergulhou nela, ela gozou de novo. Brutalmente. Enterrou as
unhas na descida suada de seus ombros e golpeou os quadris. Rpidos como
raios. Com a boca fundida na dela, ele engoliu os pequenos e cobiosos rudos
que ela emitia. Alimentou-se deles ao ergu-la para dar mais. Tomar mais.
O prazer o fez adernar de cima a baixo, deixando-o exausto, estupefato.
Conseguiu apoiar-se nela quando os dois deslizaram para o cho.
Esparramada em cima dele, o corao ainda disparado, Sophia desatou a rir.
-- Dio. Grazie a Dio. Decantada, afinal. Nenhum refinamento de fato, mas
um excelente corpo e um surpreendente poder de permanncia.
-- Vamos trabalhar no refinamento quando eu no estiver pronto para uivar
para a lua.
-- No estava me queixando. -- Para provar-lhe isso, ela roou os lbios de
leve pelo seu trax. -- Eu me sinto fabulosa. Pelo menos acho que sim.
-- Eu posso confirmar. Voc  incrvel. -- Ele soprou com fora. -- Estou
exaurido.
-- Ento somos dois. -- Ela ergueu a cabea e examinou o rosto dele. --
Liquidado?
-- Dificilmente.
-- Oh, que bom, porque eu tambm no. -- Ela deslocou-se e montou nele. --
Ty?
-- Humm.
Ele j lhe acariciava o torso com as mos. Era to macia, pensou. Macia,
sombria e extica.
-- A gente na certa precisa estabelecer diretrizes.
-- .
Ela tinha uma bela pintinha na curva do lbio esquerdo. Um tipo de
pontuao sexual.
-- Quer entrar nisso agora?
-- No.
-- Que bom! Eu tambm no. -- Ela apoiou as mos em cada lado da cabea
dele e curvou-se. Correu os lbios pelos cantos de sua boca, fingindo
pequenos goles. -- Cama? -- sussurrou.
Ele virou-se e abraou-a.
-- Na prxima vez.

EM ALGUM MOMENTO POR VOLTA DA MEIA-NOITE, ELA SE VIU
deitada de bruos na cama dele. Os lenis estavam amarfanhados, quentes,
e seu corpo, prostrado.
Mesmo aps uma secura sexual to longa, achava difcil acreditar que o
corpo humano pudesse recarregar-se tantas vezes e com to intensa fora.
-- gua -- disse com a voz rouca, agora temendo que, se no satisfizesse um
desejo, a sede a mataria. -- Preciso de gua. Darei qualquer coisa a voc,
favores sexuais enlouquecidos, se me der apenas uma garrafa d'gua.
--Voc j pagou os favores sexuais enlouquecidos.
-- Ah, certo. -- Ela tateou e bateu s cegas no ombro dele. -- Seja amigo,
MacMillan.
-- Tudo bem, mas onde estamos?
-- Na cama. -- Ela suspirou em arquejos. --Acabamos conseguindo.
-- Certo. Volto j.
Ele levantou-se cambaleando e, como estava deitado atravessado na cama,
calculou mal a direo e bateu em cheio numa cadeira.
Ouvindo os xingamentos resmungados, Sophia riu sob o lenol. Nossa, ele
era muito fofo. Divertido. Mais esperto do que lhe dera crdito. E incrvel
na cama. No cho. Encostado na parede. No se lembrava de homem algum
que a atrasse em tantos nveis. Sobretudo quando se levava em
considerao que era um tipo que tinha de ser mantido sob a mira de uma
arma, se a gente quisesse que usasse terno e gravata.
Era por isso, imaginou, que ele sempre ficava to sexy neles. O homem das
cavernas temporariamente civilizado.
Perdida no momento nesse pensamento, ela ganiu quando ele encostou a gua
gelada em seu ombro nu.
-- R, r! -- resmungou, mas se sentiu grata o bastante para rolar de costas,
sentar-se e emborcar metade do copo.
-- Ei. Achei que ia dividir.
-- Eu no falei nada sobre dividir.
-- Ento eu quero mais favores sexuais.
-- Voc no poderia. -- Ela riu.
-- Sabe como eu gosto de provar que est errada. Ela suspirou quando ele
subiu a mo pela sua coxa.
--  verdade. -- Mesmo assim, entregou-lhe o resto da gua. -- Talvez ainda
me restem alguns favores sexuais. Mas tambm preciso ir pra casa. Tenho
uma reunio cedo amanh.
Ele esvaziou o copo e largou-o de lado.
-- No vamos pensar nisso agora. -- Passou o brao em volta da cintura dela
e rolou-a na cama at coloc-la por baixo. -- Me deixe dizer exatamente o
que tenho em mente.

FAZIA UM LONGUSSIMO TEMPO, PENSOU SOPHIA, DESDE QUE ELA
entrara de mansinho em casa s duas da manh. Mas era uma daquelas
habilidades, como andar de bicicleta ou, bem, sexo, que retornava sempre 
pessoa. Diminuiu os faris altos antes de baterem nas janelas da villa e
reduziu a marcha devagar e delicadamente ao contornar a curva e entrar na
garagem.
Esgueirou-se para a fria noite e ficou ali apenas um momento sob o
brilhante crculo de estrelas. Sentia-se tremendamente cansada,
deliciosamente usada, e viva.
Tyler MacMillan, decidiu, era um homem cheio de surpresas, de
compartimentos secretos e energia maravilhosa, maravilhosa. Aprendera
muito sobre ele nos ltimos meses. Aspectos e ngulos que no se dera ao
trabalho de explorar. E aguardava, ansiosa, continuar essa explorao.
Mas por enquanto era melhor entrar e dormir um pouco, ou estaria intil no
dia seguinte.
Estranho, pensou, contornando em silncio os fundos, ela quisera ficar com
ele. Dormir com ele. Toda enroscada junto quele corpo comprido e quente.
Protegida, aconchegada e segura.
Treinara-se ao longo dos anos para desligar-se emocionalmente aps o sexo.
 maneira masculina, gostava de pensar. Dormir e acordar na mesma cama
depois de finda a diverso e os jogos poderia ser complicado. ntimo. Evit-
lo, certificar-se de que ela no precisava disso e no deixar que as coisas
ficassem enroladas.
Mas tivera de ordenar-se para sair da cama de Ty. Como estava cansada,
tranqilizou-se. Porque fora um dia difcil. Ele na verdade no era nada
diferente de qualquer outro com quem ela j estivera.
Talvez gostasse mais dele, pensou manobrando-se entre os arbustos. E
sentia-se mais atrada por ele do que esperara. Isso no o tornava
diferente. Apenas... novo. Aps algum tempo, o verniz embaciaria a brilhante
excitao, e assim seria.
Assim, ela pensou, sempre assim.
Se a gente procurasse o amor de toda a vida estava fadada a decepcionar o
outro, ou a si mesma. Era melhor, muito melhor, aproveitar o momento,
esprem-lo at secar de depois seguir em frente.
Como pensar arrefecia-lhe o estado de esprito, ela bloqueou as perguntas.
E ao contornar a ltima curva nos jardins deu de cara com a me.
As duas se encararam, a respirao de surpresa soprada por cada uma
congelando-se em nuvenzinhas.
-- Humm. Bela noite -- comentou Sophia.
-- . Muito. Eu acabei de, ah... David... -- Sem graa, Pilar fez um vago gesto
em direo  casa de hspede. -- Ele precisou de ajuda com umas tradues.
-- Eu entendo. -- Uma risadinha louca tentava escapulir da garganta de
Sophia. --  assim que a sua gerao chama? -- Escapou um engasgozinho. --
Se vamos continuar seguindo s escondidas pelo resto do caminho, sejamos
rpidas. Poderamos nos congelar aqui tentando inventar desculpas
razoveis.
-- Eu estava traduzindo. -- Pilar apressou-se rumo  porta e atrapalhou-se
com a maaneta. -- Tinha um monte de...
-- Oh, Mama. -- A risada venceu. Sophia colocou a mo na barriga e
tropeou ao entrar. -- Pare de se explicar.
-- Eu s estava... --Atrapalhada, Pilar ajeitou os cabelos. Tinha uma tima
idia de sua aparncia... desordenada e acalorada. Como uma mulher que
acabara de deslizar para fora da cama. Ou, neste caso, do sof da sala de
estar. Tomar a ofensiva parecia o curso mais seguro. -- Voc ficou fora at
tarde.
-- E. Eu estava traduzindo. Com Ty.
-- Com... Oh. Oh.
-- Estou morrendo de fome, e voc? -- Divertindo-se, Sophia abriu a
geladeira. -- No cheguei a jantar. -- Falou descontrada, com a cabea
enfiada na geladeira. -- Voc tem algum problema comigo e Ty?
-- No... sim. No. -- Pilar gaguejava. -- Eu no sei. Decididamente no sei
como devo lidar com isso.
-- Vamos comer uma torta.
-- Torta.
Sophia retirou o que sobrara de uma torta de ma numa forma funda.
-- Voc est maravilhosa, Mama. Pilar ajeitou de novo os cabelos.
-- Eu no poderia.
-- Maravilhosa. -- Sophia largou a forma na bancada e pegou pratos. -- Eu
tive alguns impactos emocionais sobre voc e David. No estava habituada a
ver voc como... a ver voc, imagino. Mas quando topei com voc entrando
escondida em casa no meio da noite, com uma aparncia maravilhosa, s
posso ver voc.
-- Eu no tenho de entrar escondida em minha prpria casa.
-- Oh. -- Brandindo uma esptula, Sophia perguntou: -- Ento por que
entrou?
-- Eu s... Vamos comer a torta.
-- Boa pedida. -- Sophia cortou duas fatias grandes e sorriu quando a me
lhe afagou os cabelos. Curvou-se e, por um momento, as duas ficaram em
silncio na luz clara da cozinha. -- Foi um dia longo e abominvel.  bom que
termine bem.
-- . Embora voc tenha me dado um susto dos diabos l fora.
-- Eu? Imagine minha surpresa, revivendo meus anos de adolescente, e
depois topando com minha me.
-- Revivendo? Verdade?
Sophia levou os pratos para a mesa da cozinha, enquanto Pilar pegava os
garfos.
-- Oh, bem, por que dar importncia ao passado? -- Com um sorriso
malicioso, Sophia lambeu o polegar sujo de torta. -- David  muito atraente.
-- Sophie.
-- Muito atraente. Ombros magnficos, aquele rosto com encanto de
menino, inteligente. Um senhor pacote que voc embolsou Mama.
-- Ele no  um trofu. E com certeza espero que voc no pense em Ty
como um
-- Ele tem um traseiro fantstico.
-- Eu sei.
-- Quis dizer Ty.
-- Eu sei -- repetiu Pilar. -- Que  que h? Sou cega? -- Bufando de modo
nada feminino, ela se sentou numa cadeira. -- isso  ridculo, grosseiro e...
-- Divertido -- concluiu Sophia, e sentou-se para pegar um pedao de torta.
--A gente partilha um interesse por moda, e mais recentemente pela
empresa. Por que no poderamos partilhar um interesse por... Nonna.
-- Bem, claro que partilhamos um interesse por... -- Pilar largou o garfo com
um estrondo quando seguiu a direo do olhar pasmo de Sophia. -- Mama.
Que faz acordada?
-- Acha que no sei quando pessoas entram e saem da minha casa? -- De
algum modo elegante num roupo de algodo felpudo, grosso, e chinelos,
Tereza entrou na cozinha. -- Como, sem vinho?
-- A gente s estava... com fome -- conseguiu dizer Sophia.
-- Ah! No surpreende. Sexo  uma atividade laboriosa quando feito direito.
Tambm estou faminta.
Sophia levou a mo  boca, mas era tarde demais. A gargalhada irrompeu.
-- V, Eli.
Tereza apenas pegou o ltimo pedao de torta enquanto a filha fitava o
prato, os ombros tremendo.
-- Vamos tomar vinho. Creio que a ocasio pede. Acho que esta  com
certeza a primeira vez em que todas as trs geraes de mulheres Giambelli
se sentaram juntas na cozinha aps fazer amor. Voc no precisa ficar to
aturdida, Pilar. Sexo  uma funo natural, afinal. E, como voc escolheu um
parceiro digno desta vez, vamos tomar vinho. -- Ela escolheu uma garrafa de
Sauvignon Blanc da adega da cozinha e desarrolhou-a. -- So tempos
difceis. Houve outros, e outros haver. -- Serviu trs taas. --  essencial
que vivamos enquanto os atravessamos. Eu aprovo David Cutter, se minha
aprovao conta.
-- Obrigada. Claro que conta.
Sophia mordia o lbio para ocultar um sorriso quando Tereza se virou para
ela.
-- Se magoar Tyler, vou ficar zangada e decepcionada com voc. Eu o amo
muito.
-- Ora, gosto disso. -- Satisfeita, Sophia largou o garfo. -- Por que eu faria?
-- Lembre-se do que eu disse. Amanh, vamos lutar pelo que somos, pelo que
temos. -- Ela ergueu a taa. -- Esta noite comemoraremos isso. Salute.

Captulo Dezoito
Era uma guerra, feita em vrias frentes. Sophia travava as batalhas nas
ondas areas, na imprensa e no telefone. Passava horas atualizando
comunicados  imprensa, dando entrevistas e tranqilizando contas.
E todo dia recomeava tudo de novo, repelindo rumores, insinuaes e
especulaes. At a crise passar, seu tempo nos vinhedos terminara. Esse
era o campo de batalha de Tyler.
Preocupava-se com os avs, que tomavam a dianteira na linha italiana. Todo
dia, chegavam relatrios. O recolhimento vinha sendo implementado. E logo,
garrafa por garrafa, o vinho seria analisado.
Ela no podia pensar no custo, a curto ou longo prazo. Deixou isso nas mos
de David.
Quando precisava recuar do alarde exagerado e da deturpao dos fatos,
ficava na janela do escritrio e via os homens com rastelos aplainando a
terra. Seria um ano de safra excepcional, prometeu a si mesma.
Saltou  campainha seguinte do telefone e enterrou a necessidade muito
real de ignor-la.
-- Sophia Giambelli.
Dez minutos depois, desligou e liberou a raiva reprimida com uma odiosa
torrente de palavres em italiano.
-- Isso ajuda? -- perguntou Pilar, parada junto  entrada.
-- No muito. -- Sophia apertou os dedos nas tmporas e perguntou-se que
maneira era melhor para lidar com esse novo estgio de combate. -- Que
bom que est aqui! Pode entrar e sentar por um minuto?
-- Quinze, na verdade. Acabei de terminar outra visita guiada. -- Pilar
instalou-se numa poltrona. -- Eles tm vindo em bandos. A maioria agora
motivada pela curiosidade. Alguns reprteres, embora se reduzam a um
filete desde sua coletiva de imprensa.
--  provvel que mais uma vez aumentem. Acabei de falar ao telefone com
um produtor do Larry Mann Show.
-- Larry Mann. -- Pilar enrugou o nariz. -- Lixo televisivo, na pior das
hipteses. Voc no vai dar nada a eles.
-- Eles j conseguiram alguma coisa. Rene. -- Sem condies de sentar-se
imvel, Sophia afastou-se da mesa. -- Ela vai gravar um programa amanh
revelando segredos de famlia, supostamente contando a verdadeira histria
da morte de papai. Fomos convidadas a participar. Querem voc ou a mim, ou
as duas, no programa, para darmos a nossa verso.
-- No vai funcionar, Sophie. Por mais satisfatrio que poderia ser
desmascar-la em pblico, esse no  o caminho. Nem o frum.
-- Por que acha que eu estava xingando? -- Ela pegou o peso de papel em
forma de sapo e passou-o nervosamente de uma mo para a outra. -- Vamos
nos concentrar no principal e ignor-la. Mas, Deus, como eu gostaria de me
engalfinhar na lama com aquela cadela. Ela tem dado entrevistas a torto e a
direito, e  muito boa nelas pra causar considervel estrago. J falei com
tia Helen e tio James para process-la.
-- No faa isso.
-- No se pode deixar que ela use a familia para difamar. -- Sophia olhou
com expresso de raiva para o sapo. A cara tolamente alegre do animal em
geral animava seu humor. -- No posso me rebaixar e me sujar com ela, o
que  uma lamentvel pena. Mas posso bater nela legalmente.
-- Me escute primeiro -- disse Pilar, curvando-se. -- No estou sendo mole.
Nem manipulada. Tomar uma medida legal, pelo menos agora, quando temos
tantas outras batalhas para travar, apenas d alguma credibilidade a ela e
ao que anda dizendo. Sei que seus instintos so de briga, e os meus, em
geral, de recuo, mas talvez agora no faamos nenhuma das duas coisas.
Ficaremos simplesmente no lugar que nos compete.
-- Pensei nisso. Pensei nisso dos dois ngulos. Mas, quando se chega a isso, a
gente combate fogo com fogo.
-- Nem sempre, querida. s vezes a gente s abafa. Vamos simplesmente
abafar com bom vinho Giambelli.
Sophia inalava e exalava devagar quando tornou a sentar-se. Largou mais
uma vez o peso de papel e girou-o de um lado para o outro enquanto pensava.
Atrs, o fax emitia sinais e gemia, mas ela o ignorou, analisando os ngulos.
--  uma boa. -- Assentindo com a cabea, tornou a olhar para a me. --
Muito boa. Extinguir as chamas com uma boa inundao. Vamos dar uma
festa. Baile de primavera, black-tie. Quanto tempo voc precisa pra
organizar tudo?
Para seu crdito, Pilar apenas piscou os olhos.
-- Trs semanas.
-- timo. Elabore a lista de convidados. Assim que enviarmos os convites,
vou plantar algumas notas com reprteres. Rene opta por lixo, ns
optaremos pela elegncia.

-- UMA FESTA? -- TYLER ELEVOU A VOZ ACIMA DO RUDO DO
rastelo -- J ouviu filiar de Nero e sua rabeca?
-- Roma no est em chamas.  o que quero dizer. -- Impaciente, Sophia
arrastou-o para mais longe do trabalho. -- A Giambelli leva as
responsabilidades a srio e tem cooperado com as autoridades aqui e na
Itlia. Merda ! -- xingou quando o celular tocou. -- Espere. -- Puxou-o do
bolso. -- Sophia Giambelli. Si. Va bene.
Com um sinal meio ausente a Ty, ela se afastou alguns passos.
Ele ficou ali, viu o movimento e a transmisso do que eram, sem a menor
dvida, ordens em italiano.
Em volta, avanava a gradao da terra lavrada com os rastelos de madeira
dentados. O ruidoso e sistemtico revolvimento da terra e a colheita
superficial. O calor levava as vinhas a germinarem, embora a brisa que
descia das montanhas, causando arrepios, prometesse uma noite de
calafrios.
No meio de tudo, no centro do ciclo eterno, estava Sophia. O dnamo com o
futuro nas pontas dos dedos.
O centro, ele tornou a pensar. Talvez sempre fosse estar ali.
Ela percorreu mais uma vez a fileira de um lado ao outro, elevando a voz,
uma espcie de fascinante msica estrangeira.
Ele no se deu ao trabalho de amaldioar, nem sequer de perguntar o quanto
sentira aquela ltima pinicada aberta dentro de si.
J esperava por isso.
Era louco por ela, admitiu. Perdido de amor. Cruzara a linha. E mais cedo ou
mais tarde teria de decidir o que fazer a respeito.
Ela tornou a enfiar o telefone no bolso e soprou as franjas.
-- A sucursal de publicidade italiana -- disse. -- Alguns empecilhos que
precisavam ser liberados. Desculpe pela interrupo. Agora, onde... -- Ela
deixou a voz morrer ao encar-lo. -- Do que voc est rindo? -- quis saber.
-- Estou? Talvez porque no seja to difcil olhar pra voc, mesmo em
velocidade acelerada.
-- Acelerada  a nica velocidade que funciona nesse momento. De qualquer
modo, a festa. Precisamos fazer uma declarao e continuar com os planos
para o centenrio. O primeiro baile de gala em pleno vero. Vamos tornar
esta congregao mais ntima, a fim de mostrar unidade, responsabilidade e
confiana.
Ela comeou a eliminar pontos com os dedos.
-- O recolhimento foi iniciado voluntariamente, e com um gasto
considervel, antes de tornar-se um problema legal. La Signora e MacMillan
viajaram em pessoa  Itlia pra oferecer qualquer assistncia 
investigao. Porm -- continuou --, e precisamos chegar logo ao porm, a
Giambelli est confiante em que o problema se acha sob controle. A famlia,
e  isto que temos de enfatizar, permanece generosa, hospitaleira e
envolvida com a comunidade. Mostramos nosso refinamento, enquanto Rene
se espoja na lama.
-- Refinamento. -- Ele examinou as vinhas. Lembrou a si mesmo de
inspecionar, mais uma vez, os irrigadores de asperso acima, caso fossem
necessrios para proteo contra a geada durante a noite. -- Se  pra
sermos refinados, por que tenho de dar uma de idiota com uma equipe de TV
e caminhar na lama por a?
-- Para ilustrar a dedicao e o trabalho duro que entram em cada garrafa
de vinho produzida. No fique mal-humorado, MacMillan. Os ltimos dias
tm sido terrveis.
-- Eu ficaria menos mal-humorado se os forasteiros no atrapalhassem.
-- Isso me inclui?
Ele desviou a ateno das vinhas e olhou o belo rosto dela.
-- No parece.
-- Ento por que no entrou de mansinho pelas portas do meu terrao 
noite?
Ele torceu os lbios.
-- Pensei nisso.
-- Pense mais. -- Quando se curvou, e ele recuou, ela perguntou: -- Que foi?
Arranjou uma dor de cabea?
-- No, uma platia. E logo anunciariam que durmo com minha cooperadora.
-- Dormir comigo nada tem a ver com os negcios. -- A voz dela congelou-se
vrios graus, simplesmente o tipo de golpe que acarretava danos. -- Mas se
voc se envergonha disso...
Ela deu de ombros, voltou-se e se afastou,
Ele teve de cuidar primeiro da ferroada, e depois da inata relutncia a
cenas em pblico. Emparelhou-se com ela em cinco passadas largas e
agarrou-lhe o brao.
-- Eu no me envergonho de nada. S porque gosto de manter minha vida
pessoal... -- O amuado safano que ela deu para trs o irritou o suficiente
para cerrar o aperto e enroscar os dedos no outro brao. -- J tem muito
mexerico aqui em volta, sem a gente dar motivo. Se eu no me concentrar no
trabalho, no posso esperar que meus homens se concentrem. Ah, que v
tudo pro inferno!
Ele ergueu-a nas pontas dos ps e colou a boca com fora na dela.
Desprendeu-se uma emoo, ela pensou, daquele rpido aoite de fora e
irritao.
-- Foi bom? -- ele perguntou e colocou-a de chofre mais uma vez no cho.
-- Quase. -- Ela correu as mos pelo peito dele acima e sentiu-o tremer.
Uma emoo, pensou, saber que, embora superada fisicamente, ainda tinha
fora. Levou os lbios aos dele, provocando-o at ele agarrar pelas costas
um punhado de seu suter, at, com os prprios msculos frouxos,
entrelaar possessivamente as mos no pescoo dele,
-- Isto -- murmurou Sophia -- foi simplesmente timo.
-- Deixe as portas do seu terrao abertas.
-- Tm ficado sempre,
-- Preciso voltar ao trabalho,
-- Eu tambm, -- Mas ficaram onde estavam, as bocas separadas por um
hlito. Alguma coisa acontecia no ntimo dela. Um estremecimento, mas no
aquele lascivo tremor na barriga. Esse era em volta do corao, e mais dor
que prazer. Fascinada, ela comeou a render-se. E o telefone no bolso mais
uma vez se ps a tocar. -- Bem -- ela disse, um pouco instvel quando se
soltou. Segundo round. At mais tarde.
Ela pegou o telefone ao se afastar apressada. Pensaria nele depois. Alis,
pensaria em muitas coisas depois.
-- Sophia Giambelli. Nonna, que bom que me ligou! Tentei encontrar voc
antes, mas...
Interrompeu-se, alertada pelo tom da av. Parou de andar e ficou na borda
do vinhedo. Apesar do banho de luz solar, sentiu um calafrio percorrer sua
pele.
J voltava correndo quando desligou.
--Ty !
Alarmado, ele girou para trs e pegou-a na corrida.
-- Que foi? Que aconteceu?
-- Eles encontraram mais. Mais duas garrafas adulteradas.
-- Maldio. Bem, a gente esperava. Sabia que tinha de ser adulterao,
-- E tem mais. Podia ser pior. Nonna... ela e Eli... -- Precisou parar e
organizar as idias. -- Existia um velho que trabalhava para o av da Nonna,
Comeou no vinhedo quando era apenas um menino. E se aposentou,
oficialmente, h pouco mais de um ano. Morreu no fim deste ano. Tinha o
corao ruim.
Ele j a acompanhava, j sentia a apreenso.
-- Continue.
-- A neta dele, a que o encontrou, disse que ele estava bebendo o nosso
Merlot. Ela foi procurar minha av depois que divulgaram a notcia do
recolhimento. Mandaram exumar o corpo.

-- O NOME DELE ERA BERNARDO BAPTISTA. SOPHIA TINHA TODOS
os detalhes em notas digitadas com esmero, mas no precisava. Gravara na
cabea cada palavra. -- Ele tinha setenta e trs anos. Morreu em dezembro,
aparentemente de um ataque cardaco e vrias taas de Castello di Giambelli
Merlot 1992.
Como Margaret Bowers, pensou David, fechando a carranca.
-- Voc disse que Baptista teve um ataque cardaco.
-- Ele tinha tido alguns problemas cardacos menores e sofria de uma
prolongada congesto nasal na poca da morte. O frio acrescenta outra
camada. Baptista era famoso pelo nariz. Trabalhara com vinho durante mais
de sessenta anos. Mas, como estava doente, era improvvel que houvesse
detectado algum problema. A neta jura que ele no tinha aberto a garrafa
antes daquela noite. Viu a garrafa naquela tarde, quando foi visitar o av.
Ele a guardava, e alguns outros presentes da empresa, em exibio. Tinha
muito orgulho de sua ligao com a Giambelli.
-- O vinho foi um presente.
-- Segundo a neta, sim.
-- De quem?
-- Ela no sabe. Deram uma festa pra ele, pela aposentadoria, e isso 
costumeiro, a Giambelli presenteia um empregado com festas de despedida.
J conferi, e essa garrafa especfica no constava da lista de presentes. Ele
foi presenteado com um Cabernet, um branco e um champanhe. Rtulo de
primeira. Mas no  incomum permitir que um empregado escolha outra
seleo ou receba vinho de outros membros da empresa.
-- Em quanto tempo sabero se o vinho causou a morte dele? -- perguntou
Pilar, que se transferiu para a mesa onde se sentava Sophia e acariciou o
ombro da filha.
--  uma questo de dias.
-- Fazemos o que podemos pra rastrear a origem do vinho. Vou sugerir a La
Signora e a Eli que contratemos um detetive particular.
-- Vou trabalhar numa declarao.  melhor que anunciemos as novas
descobertas e a participao da Giambelli no recolhimento e na anlise. No
quero ter de correr mais uma vez atrs do comunicado  imprensa.
-- Me diga o que posso fazer pra ajudar -- pediu-lhe Pilar.
-- Terminar aquela lista de convidados.
-- Querida, no  possvel que voc queira dar uma festa agora.
-- Ao contrrio. --A preocupao, a tristeza por um velho que ela lembrava
com afeto endureceu-se em determinao. -- Vamos simplesmente torcer a
histria. J realizamos um baile de gala aqui para uma instituio
beneficente. Fizemos antes muito mais por boas causas. Quero que todos
se lembrem disso. Mil dlares por pessoa. Toda a comida, o vinho e o
entretenimento doados pela Giambelli-MacMillan, com os lucros indo para os
desabrigados.
Ela fazia anotaes ao falar, j rascunhando convites, comunicados 
imprensa e respostas na cabea.
-- Nossa famlia quer ajudar a sua para que fique protegida e segura. Um
monte de pessoas deve a La Signora mais que mil dlares por uma refeio
sofisticada. Se precisarem que as lembremos disso, eu cuidarei para que se
lembrem.
Ela inclinou a cabea,  espera da reao de David.
-- Voc  a especialista aqui -- ele disse, aps um momento. --  uma corda
bamba a percorrer, mas, em minha opinio, tem um equilbrio superior.
-- Obrigada. Enquanto isso, temos de fingir um frio desinteresse pela mdia
que Rene vem gerando. Vai ter efeito colateral adverso disso, e ser
pessoal. O que  pessoal para a Giambelli ir, claro, repercutir nos negcios.
PILAR DESLIZOU PARA UMA DISCRETA CADEIRA A UMA MESA
tranqila no bar do restaurante Four Seasons. Tinha certeza de que, se
houvesse mencionado suas intenes a algum, teriam lhe dito que cometia
um erro.
Na certa cometia.
Mas se tratava de uma coisa que precisava fazer, e devia ter feito muito
tempo atrs. Pediu uma gua mineral e preparou-se para esperar. No tinha
a menor dvida de que Rene se atrasaria. Como no tinha a menor dvida de
que ela compareceria ao encontro. No conseguiria resistir a fazer uma
abertura nem a ter um confronto com uma inimiga que encarava como mais
fraca.
Pilar tomava sua gua e permanecia sentada, paciente. Tinha muita
experincia em esperas.
Rene no a decepcionou. Entrou com toda pose. Era, imaginou Pilar, dessas
mulheres que gostavam de entrar desfilando num ambiente e arrastando
peles, embora o tempo estivesse quente demais para isso.
Tinha uma tima aparncia -- em boa forma, descansada, luminosa. Com
demasiada freqncia no passado, admitiu Pilar, examinara essa mulher
estonteante e mais jovem, e sentira-se inadequada em comparao.
Uma reao natural, imaginou. Mas no deixava de ser tola e intil.
Era fcil ver por que Tony se sentira atrado. Mais fcil ainda entender por
que fora fisgado. Rene no era nenhuma Barbie desmiolada, mas uma mulher
fria e calculista, que teria sabido exatamente como obter o que queria e
conserv-lo.
-- Pilar.
-- Rene. Obrigada por se encontrar comigo.
-- Oh, como poderia resistir? -- Ela largou a pele e sentou-se na cadeira. --
Voc parece um pouco tensa. Coquetel de champanhe -- disse  garonete,
sem erguer os olhos.
O estmago de Pilar no se apertou como teria antes.
-- Voc, no. Passou algumas semanas na Europa no incio do ano. Deve ter
feito muito bem a voc.
-- Tony e eu tnhamos planejado uma viagem demorada. Ele no ia me querer
sentada em casa, remoendo. -- Sentou-se enviesada e cruzou as longas e
sedosas pernas. -- Essa sempre foi sua funo.
-- Rene, eu nunca fui a outra, nem voc. Eu j estava fora do quadro muito
antes de voc e Tony se conhecerem.
-- Voc nunca esteve fora do quadro. Voc e sua famlia aleijaram Tony, e
voc cuidou para que ele jamais tivesse o que merecia na Giambelli. Agora
que morreu, voc vai me pagar o que devia ter pago a ele. -- Ela pegou o
drinque assim que foi servido. -- Achou que eu ia deixar voc arrastar o
nome dele, e o meu por associao, na lama?
-- Estranho, eu ia lhe perguntar a mesma coisa. -- Pilar cruzou as mos na
mesa. Um pequeno e elegante gesto que lhe deu um momento para
recompor-se. -- Fosse o que ele fosse, Rene, ele era pai da minha filha.
Jamais quis ver seu nome manchado. Quero, mais do que posso dizer, saber
quem o matou e por qu.
-- Foi voc, de um ou outro modo. Desligando-o da empresa. Tony no ia se
encontrar com outra mulher naquela noite. No teria ousado. E eu bastava
para ele, como voc nunca bastou.
Pilar pensou em falar de Kris, mas sabia que no valia o esforo.
-- No, eu nunca bastei para ele. No sei com quem ia se encontrar naquela
noite, nem por qu, mas...
-- Eu lhe digo o que acho -- interrompeu Rene. -- Ele tinha alguma coisa
contra vocs, voc, sua famlia. E vocs mandaram matar meu marido. Talvez
at tenham usado aquela tolinha da Margaret para fazer isso, e  por isso
que ela agora est morta.
O desgaste substituiu a pena.
-- Que ridculo, mesmo para voc. Se for esse o tipo de coisa que anda
dizendo aos reprteres, que pretende dizer na televiso, voc est se
expondo a uma sria ao legal.
-- Por favor. -- Rene tomou mais um gole. -- Acha que no consultei um
advogado para saber o que posso dizer ou no? Vocs cuidaram para que
Tony fosse demitido, e que eu sasse com quase nada. Pretendo pegar o que
eu mereo.
--  mesmo? E, j que somos to insensveis e cruis, no tem medo de
retaliao?
Rene olhou em direo a uma mesa prxima, onde se sentavam dois homens
bebendo gua.
-- Guarda-costas. Vinte e quatro horas por dia. Nem se d ao trabalho de
me ameaar.
-- Voc criou um verdadeiro mundo de fantasia, e parece estar gostando.
Sinto muito por voc e Tony, sinceramente, pois eram perfeitos um para o
outro. Vim aqui para lhe pedir que fosse razovel, mostrasse alguma
decncia  minha famlia e pensasse na filha de Tony antes de falar com a
imprensa. Mas  uma perda de tempo para ns duas. Achei que talvez voc
amasse Tony, mas foi tolice de minha parte. Ento, tentemos o seguinte: --
Ela curvou-se, surpreendendo Rene com um repentino e glido brilho nos
olhos. -- Faa o que quiser, diga o que quiser. No fim, s vai parecer
ridcula. E, embora seja mesquinho de minha parte, eu vou adorar. Mais,
acho, do que voc quando disser ou fizer. Continuar sendo a estridente
esposa-trofu, Rene, combina com voc -- acrescentou Pilar, enfiando a mo
na bolsa para pegar dinheiro. -- Assim como esses brincos espalhafatosos
combinam com voc, muito mais que comigo, quando Tony me deu em nosso
quinto aniversrio de casamento. Ela jogou uma nota de vinte dlares na
mesa na frente dela.
-- Eu consideraria isto um pagamento completo, e qualquer outra coisa
minha que ele pegou sem permisso ao longo dos anos. Voc nunca mais vai
ter nada de mim, nem da Giambelli.
Ela no se levantou com arrogncia. Deixaria o drama para Rene. Em vez
disso, caminhou sem pressa e sentiu-se bem. Assim como se sentiu bem
largando outra nota na mesa onde montavam viglia os guarda-costas de
Rene.
-- Esta rodada  por minha conta -- disse a eles e saiu rindo.

-- ENCENEI UM SHOW MUITO BOM. -- FUMEGANDO ENTO, PILAR
andava de um lado para outro no tapete Aubusson da sala de estar de Helen
Moore. -- E, por Deus, acho que sa por cima. Mas fiquei to furiosa. Essa
mulher est atirando agressivamente contra minha famlia e usando meus
malditos brincos enquanto aponta a arma.
-- Voc tem a documentao da jia, a aplice do seguro e tudo o mais.
Podamos abrir um processo.
-- Eu odiava aqueles brincos patticos. -- Pilar deu de ombros, mal-
humorada. -- Tony me deu como uma oferta de paz aps uma de suas
aventuras. Tambm tenho a nota, claro. Dane-se,  difcil engolir o nmero
de vezes que banquei a idiota.
-- Ento cuspa tudo. Tem certeza de que no quer uma bebida?
-- No, vou dirigir, e j devia ter voltado. Pilar expeliu uma rajada de ar com
fora e aspirou outra. -- Preciso desabafar primeiro, seno talvez d vazo
 raiva na estrada acabe na cadeia.
-- Que bom que voc tem uma amiga na magistratura! Escute. Acho que fez
exatamente o certo ao enfrentar e repreender aquela mulher. Muitas
pessoas discordariam, mas no conhecem voc como eu. -- Helen serviu-se
de dois dedos de vodea com gelo. -- Voc tinha coisas a dizer, e esperou
tempo demais.
-- Isso no vai mudar nada.
-- Com ela? Talvez, talvez no. -- Helen se sentou e se espreguiou. -- Mas
a questo  que mudou alguma coisa para voc. Voc assumiu o comando.
Pessoalmente, eu pagaria um bom dinheiro para ver minha amiga passar um
sermo nela. Ela vai continuar a usar aquela linguagem bombstica no
desprezvel programa de entrevistas, e  muito provvel que acabe
espancada por vrios membros da platia, que vo se sentir injuriados com
aquele duas-peas de grife e dez quilos de jias. Esposas -- continuou -- que
tm sido enganadas e deixaram a bolsa para mulheres como ela. Nossa, Pilar,
vo rasgar a mulher em trapos antes de terminarem, e pode apostar que
Larry Mann e seus produtores contam exatamente com isso.
Pilar parou de andar de um lado para outro.
-- Isso nunca me passou pela cabea.
-- Querida, Rene Foxx  apenas uma das vrias comdias-pastelo de Deus.
Ela lhe deu na cara, mas e da?  hora de acabar com ela.
-- Tem razo. Eu me preocupo com a famlia, com Sophie. Embora se trate
de imprensa sensacionalista,  a imprensa, e vai mortificar minha filha.
Quisera eu saber como fechar a matraca dessa mulher.
-- Voc pode conseguir um mandado de interdio temporria. Sou juza,
conheo essas coisas -- disse Helen, secamente. -- Mover um processo
judicial... calnia, difamao. E poderia ganhar. Na Certa ganharia. Mas,
como sua advogada e amiga, meu conselho  que a deixe cavar a prpria
sepultura. Vai cavar, mais cedo ou mais tarde.
-- Quanto mais cedo, melhor. Estamos numa terrvel encrenca, Helen.
-- Eu sei. Sinto muito.
-- Se ela fizer insinuaes de que podemos ter providenciado a morte de
Tony, que Margaret estava envolvida... A polcia j nos interrogou sobre um
relacionamento entre Margaret e Tony. Isso me preocupa.
-- Margaret foi uma vtima malfadada da loucura de algum manaco.
Adulterao de produto no tem sequer um alvo, por isso  loucura. O caso
de Tony foi deliberado. Um nada tem a ver com o outro, e voc no devia
comear a ligar os dois na sua cabea.
-- A imprensa est ligando os dois.
-- A imprensa ligaria um macaco a um elefante se isso aumentasse os ndices
de audincia e vendesse jornais.
-- Tem razo nisso tambm. Sabe, Helen, acima da raiva e abaixo do receio
que senti quando falei com Rene, tive uma clara compreenso da situao. Eu
a enfrentei naquele momento porque era necessrio, porque era importante,
porque eu precisava tomar uma posio.
Tomando o drinque, Helen assentiu com a cabea.
-- E?
-- E isso me fez compreender que eu nunca, nem sequer uma vez, a
enfrentei, nem a nenhuma das outras, as incontveis outras mulheres que
entravam e saam da vida de Tony. Porque ele deixou de ser importante. Eu
no tinha posio nenhuma a tomar.  uma constatao muito triste -- disse,
em voz baixa. -- E nem tudo foi culpa dele. No, no foi -- continuou, antes
que Helen pudesse ir alm de rogar uma praga. -- So necessrias duas
pessoas para formar um casamento, e eu nunca o estimulei a ser uma das
duas no nosso.
-- Ele comeou a lascar a sua auto-estima desde o incio.
--  verdade. -- Pilar estendeu mo e pegou o copo de Helen para tomar um
pequeno e ausente gole. -- Mas muito do que aconteceu, e no aconteceu
entre ns, se deve tanto a mim quanto a ele. No estou revendo o passado
com arrependimento, mas revendo, Helen, porque nunca, nunca mais vou
cometer esses erros de novo.
-- Muito bem, timo. -- Helen pegou de volta a vodca e brindou. -- nova
Pilar Giambelli. Como voc est trilhando um novo caminho, sente-se aqui e
me conte tudo sobre sua nova vida sexual, agora que tem uma.
Com um gemido baixo de prazer, Pilar estendeu os braos para o teto.
-- J que pergunta... Estou tendo um incrvel, excitante e ilcito caso com um
homem mais jovem.
-- Eu detesto voc.
-- Vai me abominar quando eu disser que ele tem um corpo maravilhoso, rijo
e incansvel.
-- Cadela.
Rindo, ela desabou no brao do sof.
-- Eu no tinha a menor idia, verdade, de como uma mulher pode passar
toda a vida sem saber como  ser amassada sob um corpo assim. Tony era
magro e meio delicado.
-- No  l uma boa medida de comparao.
-- E eu no sei? -- Ela se retraiu. -- Oh, isso  terrvel. Doentio.
-- No,  maravilhoso. James tem... um corpo confortvel. Gostoso urso
velho -- disse Helen, com afeto. -- Mas voc no se incomoda se eu curtir
algumas emoes atravs de sua aventura sexual?
-- Claro que no. Pra que servem as amigas?

SOPHIA ESTAVA PRONTA PARA UMA PEQUENA AVENTURA SEXUAL
prpria. Sabia Deus como precisava. Matara-se de trabalho, quase at a
exausto, e depois se preocupara alm do limite.
Uma nadada aps encerrar o expediente do dia ajudara, e depois uma volta
no redemoinho d'gua para relaxar os msculos desse trabalho e
preocupao. Acrescentara mais uma fase  terapia aqutica com um longo e
suntuoso banho cheio de leo e sais perfumados.
Acendera velas em todo o aposento, perfumadas, de capim-limo, baunilha e
jasmim.  mutvel luz delas, optou por uma camisola de seda preta com
corpete rendado e alas finas. Para que ser sutil?
Escolhera o vinho da adega particular. Um Chardonnay jovem e espumante.
Ps num balde de gelo para mant-lo frio, enroscou-se numa poltrona para
esperar Ty. E apagou num sono profundo.
TY SENTIU-SE ESTRANHO ENTRANDO S ESCONDIDAS NUMA CASA
onde sempre fora bem-vindo. Estranho e excitante.
Durante sua vida tivera momentos intermitentes, em que se imaginara
esgueirando-se pelo quarto de Sophia no escuro. Diabo, que homem no
teria?
Mas faz-lo de fato, saber que ela o estaria esperando, era muito melhor
que qualquer fantasia  meia-noite.
Sabia que, quando abrisse aquelas portas, cairiam um nos braos do outro
como animais.
J sentia o gosto dela.
Via a luz da vela refletida no vidro. Extica, sensual. Embora a volta na
maaneta com a mo mal desse um estalo, soou-lhe na cabea como uma
trombeta.
Preparou-se para ela, fechando a porta atrs. Ento a viu, enroscada numa
bola de fadiga na poltrona.
-- Ah, que chato, Sophie! Veja s voc.
Ele atravessou o quarto em silncio, agachou-se e fez o que raras vezes
tinha oportunidade de fazer. Examinou-a sem ela o saber.
Pele suave com toques de rosa e dourado. Pestanas espessas, pretas, e os
lbios cheios, sensuais, moldados  perfeio para receber a boca de um
homem.
-- Voc  uma obra de arte. E est exausta, no ?
Ele olhou o quarto em volta, notando o vinho, as velas, a cama j desfeita e
cheia de travesseiros.
-- A idia simplesmente vai ter de valer esta noite. Vamos, meu bem --
sussurrou, deslizando os braos por baixo dela. -- Vou pr voc na cama.
Ela se mexeu, mudou de posio e aconchegou-se. Ele decidiu que devia
haver uma medalha para o homem que deitasse uma mulher bonita, cheirosa
e gostosa como aquela e no se enfiasse na cama ardendo de desejos em
seguida.
-- Humm. Ty.
-- Boa idia. Pronto -- ele disse, deitando-a. -- Volte a dormir. Ela piscou e
abriu os olhos quando ele puxou o edredom,
-- Que foi? Aonde voc vai?
-- A uma longa e solitria caminhada na noite fria e escura. -- Rindo agora
da situao dos dois, ele curvou-se e roou um casto beijo na testa dela. --
Seguida por um banho de chuveiro frio porm indispensvel.
-- Por qu? -- Ela tomou-lhe a mo e encostou-a na face. -- Est gostoso e
quente aqui.
-- Querida, voc est derrotada. Aceito o convite pra outro dia.
-- No v. Por favor, no quero que voc v.
-- Eu voltarei. -- Ele curvou-se mais uma vez, com a inteno de dar-lhe um
beijo de boa-noite. Mas sentiu os lbios dela macios e com gosto de
indolente convite. Afundou neles e nela quando ela lhe estendeu os braos,
-- No v -- ela repetiu. -- Faa amor comigo. Ser como um sonho.
Foi como um sonho. Perfumes, sombras e suspiros. Lento e suave do jeito
que nenhum dos dois esperara, que nenhum dos dois teria pedido. Ele
deslizou na cama com ela, flutuou com ela na leve carcia de suas mos, na
delicada elevao de seu corpo.
E a doura desse amor ondulou por ele como luz de estrelas.
Ao tornar a encontrar a boca macia, ele encontrou tudo que sempre quisera.
A respirao dela se intensificou quando as sensaes comearam a
sobrepor-se. As mos dele, grossas do trabalho, amaciavam-se como veludo
sobre a pele dela. O corpo rijo cobriu como seda o dela. E com a boca firme
ele a sorvia com infindvel e devastadora pacincia.
Sem selvageria nem cobia ento. Sem lampejos de urgncia. Esta noite era
para saborear e acalmar. Oferecer e acolher.
A primeira onda foi como se ver suspensa nas nuvens.
Ela gemeu embaixo dele, um longo e baixo gemido ao curvar o corpo
fluidamente para o dele. Satisfao e rendio. Deslizou os dedos pelos seus
cabelos, viu os matizes variarem na luz e na sombra. Ele fazia isso, ela
pensou, perdendo-se nele. Virava-se e revirava-se. Tinha tantas facetas.
E ali, delicadamente, mostrava-lhe ainda outra. Ela curvou os dedos,
puxando-o para baixo at suas bocas se encontrarem e ela poder responder.
No escuro, ele via o brilho da luz das velas nos olhos dela, poeira dourada
respingada em lagos profundos. O ar emanava um doce perfume. Ela o
olhava, e ele a ela, quando a penetrou.
-- Isto  diferente -- ele disse, tocando a boca na dela ao v-la balanar a
cabea. -- Ontem eu queria voc. Esta noite eu preciso de voc.
A viso dela turvou-se com lgrimas. Os lbios tremeram com palavras que
no sabia dizer. E ento ela ficou to plena dele que conseguiu apenas
soluar seu nome e entregar-se.

Captulo Dezenove
Que tinha em comum um vinicultor de setenta e trs anos da Itlia com uma
executiva de vendas de trinta e seis anos da Califrnia? A Giambelli, pensou
David. Era o nico elo que encontrava entre os dois.
A no ser pela maneira como haviam morrido. Os exames no corpo exumado
de Bernardo Baptista confirmaram que ele ingerira uma perigosa dose de
digitalina, junto com o vinho Merlot. No se podia interpretar isso como uma
coincidncia. A polcia nos dois lados do Atlntico chamava-o de homicdio e
o vinho Giambelli, de arma assassina.
Mas por qu? Que motivo ligava Margaret Bowers a Baptista? Deixou os
filhos enfiados nas camas e, aps inspecionar os vinhedos da Giambelli,
dirigiu o carro para os da MacMillan. Como a temperatura cara, ele e Paulie
haviam ligado os irrigadores de asperso, haviam percorrido as fileiras,
enquanto a gua cobria as vinhas e a fina pelcula de gelo formava um escudo
protetor contra a ameaadora e imensa geada. Sabia que Paulie manteria
viglia durante a noite toda, certificando-se de que houvesse um constante e
firme fluxo d'gua. As previses das temperaturas de antes do amanhecer
eram de que iriam pairar prximas  crtica marca de quase menos dois
graus centgrados.
Num instante, as vinhas poderiam ser destrudas com tanta eficincia e
brutalidade quanto as pessoas.
Isso, pelo menos, ele sabia controlar. Entendia a brutalidade da natureza e
a combatia. Como podia uma pessoa racional entender um assassinato a
sangue-frio e aparentemente aleatrio?
Via a fina e suave nvoa de gua rodopiando sobre as vinhas MacMillan, as
gotculas brilhando ao carem  fria luz do luar. Enfiou as luvas, pegou a
garrafa trmica com caf e saiu do carro para andar na glacial umidade.
Encontrou Tyler sentado num engradado emborcado, tomando goles de sua
prpria garrafa trmica.
-- Achei que talvez voc estivesse perto. -- Num convite, Ty bateu o bico da
bota em outro engradado. -- Puxe uma cadeira.
-- Cad seu capataz?
-- Eu mandei Paulie pra casa h pouco. No faz sentido ns dois perdermos
uma noite de sono.
A verdade era que Ty gostava de sentar-se sozinho no vinhedo, pensando,
enquanto os pulverizadores de gua sibilavam.
-- Estamos fazendo tudo que  possvel. -- Ty deu de ombros, correndo os
olhos pelas fileiras que se transformavam num mundo ferico de cintilao
sob as luzes. -- O sistema est funcionando suavemente.
David instalou-se e tirou a tampa da garrafa trmica. Como Ty, usava um
gorro de esqui bem enterrado na cabea e um casaco grosso, que repelia o
frio e a umidade. Comentou.
-- Paulie assumiu a vigilncia na Giambelli. Os alarmes de geada dispararam
pouco depois da meia-noite. J estvamos preparados para isso.
-- Essa  rara para fins de maro.  uma das que chegam sorrateiras em
em fins de abril, maio adentro. Tenho tudo sob controle aqui, se quiser
dormir um pouco...
-- Ningum consegue dormir muito ultimamente. Voc conheceu Baptista?
-- Na verdade, no. Meu av, sim.  muito duro pra La Signora. No que ela
deixe transparecer -- disse. -- Pelo menos fora da famlia, e no muito
dentro, alis. Mas foi um grande choque pra ela. Para todas... as Giambelli.
-- Adulterao de produto...
-- No  s isso.  o fim da empresa.  pessoal. Elas foram ao enterro dele.
Acho que Sophia o considerava uma espcie de mascote. Disse que ele
roubava as balas dela. Coitado do velho.
David curvou-se para a frente, segurando a tampa da garrafa trmica com
caf entre os joelhos.
-- Tenho pensado nisso, tentando encontrar a verdadeira ligao. Na certa 
perda de tempo, pois sou um executivo empresarial, no um detetive.
Tyler examinou-o por cima do caf.
-- Pelo que vi at agora, voc no perde muito tempo. E no  to ruim, para
um executivo.
Com uma semi-risada, David ergueu o prprio caf. O vapor elevou-se e
fundiu-se com a nvoa.
-- Vindo de voc,  uma porra de um elogio.
-- Certssimo.
-- Bem. Pelo que sei, Margaret nem conheceu Baptista. Ele j tinha morrido
antes de ela assumir as contas de Avano e comear a viajar para Itlia.
-- No importa se eram vtimas aleatrias.
-- Importa se no so.
-- , tambm tenho pensado nisso.
Tyler levantou-se para esticar as pernas e os dois comearam a percorrer
as fileiras juntos.
Em algum lugar ao longo do caminho, percebeu, perdera o ressentimento por
David. Melhor assim, pensou. Consumia muita energia guardar rancor. E era
um desperdcio de energia e tempo valioso, quando os dois estavam no
mesmo barco, de qualquer modo.
-- Os dois trabalhavam para a Giambelli, os dois conheciam a famlia. --
Tyler fez uma pausa. -- Os dois conheciam Avano.
-- Ele morreu antes de Margaret abrir a garrafa. Apesar disso, no sabemos
h quanto tempo ela a guardava. Avano tinha muitos motivos para quer-la
fora do caminho.
-- Era um idiota -- disse Tyler, categrico. -- E um canalha ainda por cima.
Mas no consigo ver o cara como assassino. Idias demais, esforos demais,
sem coragem suficiente.
-- Algum gostava dele?
-- Sophie. -- Tyler deu de ombros e desejou poder mant-la fora da mente
mais de dez minutos seguidos. -- Pelo menos, tentava. E, sim, na verdade
muitos gostavam, e no apenas mulheres.
Era a primeira vez que ofereciam a David uma imagem franca e sem censura
de Anthony Avano.
-- Por qu?
-- Ele tinha uma boa conversa, dava um bom espetculo. Eficiente. Eu diria
que era escorregadio, simulava eficincia, mas se safava. -- Como fazia o
prprio pai, Ty conjeturou. -- Algumas pessoas simplesmente resvalam pela
vida, derrubando consigo os espectadores, voc sabe, impunidade. Ele era
uma delas.
-- La Signora manteve Avano na empresa.
-- Por Pilar, por Sophia. Para isso  que serve a famlia. Na frente
profissional, bem, ele sabia como manter as contas satisfeitas.
-- , a conta de despesas dele mostra o quanto investia nesse esforo.
Ento, com Margaret avanando acima dele, vinha perdendo as
oportunidades de beber e comer por conta da Giambelli. Tinha de deixar o
cara puto. Com a empresa, a famlia e ela.
-- O estilo dele seria tentar foder e no matar Margaret. Tyler parou, a
respirao fluindo no ar enquanto ele examinava as fileiras, uma aps a
outra. Esfriara mais agora. Sua medio interna de fazendeiro lhe disse que
beirava quase menos dois graus centgrados.
-- Eu no sou executivo empresarial, mas imagino que toda essa confuso
esteja custando muito  empresa, em lucro e imagem, o que se pode traduzir
na mesma coisa. Se algum queria pr a famlia em apuros, encontrou um
meio criativo e srdido de fazer isso.
-- Entre o recolhimento, o pnico pblico imediato e a desconfiana a longo
prazo quanto ao rtulo, vo custar milhes. Vai atingir o lucro de cabo a
rabo, e isso inclui o que  seu.
-- . -- Ele j enfrentara a dura realidade da situao. -- Imagino que
Sophia  esperta demais e vai abrandar essa desconfiana a longo prazo.
-- Ela vai ter de ser mais que esperta. Ter de ser brilhante.
-- E . O que a torna um p no saco.
-- Apaixonado por ela, no est? -- David descartou o comentrio com a
mo. -- Desculpe.  pessoal demais.
-- Eu gostaria de saber se voc perguntou isso como executivo empresarial,
associado ou o cara que namora a me dela.
-- Mais prximo do amigo.
Tyler pensou por um instante e assentiu com a cabea.
-- Tudo bem, funciona para mim. Acho que se poderia dizer que estou
apaixonado por ela a intervalos desde que eu tinha vinte anos. E Sophie,
dezesseis -- ele lembrou. -- Nossa. Ela parecia um raio. E sabia disso, o que
me irritava para burro.
Por um momento, enquanto a gua enevoada chiava e se congelava, David
ficou calado.
-- Tinha uma menina quando eu estava na faculdade. -- Sentiu uma
agradvel surpresa quando Tyler tirou um cantil do bolso e o ofereceu. --
Marcella Roux. Francesa. Pernas at as orelhas, e um bocado sensual.
-- Um bocado. -- Tyler fixou-se na imagem. -- Essa  boa.
-- Ah, . -- David bebeu e deixou o conhaque golpear-lhe o organismo. --
Deus do cu, Marcella Roux. Ela me dava um medo terrvel.
-- Uma mulher com essa aparncia, que  assim, s desgasta a gente. --
Tyler pegou o cantil e bebeu. -- Eu imaginava que, se tivesse de me
apaixonar, o que j  uma amolao em si, era melhor me apaixonar por uma
mulher perto de quem eu me sentisse  vontade e que no me deixasse
nervoso metade do tempo. Trabalhei muito nessa teoria nos ltimos dez
anos. No me fez nada bem.
-- Eu entendo disso -- disse David aps um momento. -- , entendo sim. Tive
uma mulher e ns tivemos dois filhos, bons meninos, e imaginei que a gente
buscava o sonho americano. Bem, isso foi pela descarga abaixo. Mas tive os
meninos. Talvez eu tenha cometido alguns erros, mas  parte da tarefa. Meu
foco era na meta. Dar a eles uma vida decente, ser um bom pai. As
mulheres, bem, ser um bom pai no significa ser um monge. Mas a gente
mantm essa rea bem embaixo na lista de prioridades. Nada de
relacionamentos srios, nunca mais. No, senhor, quem  que precisa? Ento
Pilar abre a porta, e com flores no brao. H todo tipo de raios.
-- Talvez. E fritam o nosso crebro.
Os dois continuaram percorrendo as fileiras na hora mais fria antes do
amanhecer, enquanto os irrigadores de asperso sibilavam e as vinhas
brilhavam prateadas e protegidas.

DUZENTOS E CINQUENTA CONVIDADOS, UM JANTAR DE SETE
pratos, cada um com vinhos apropriados, seguido por um concerto no salo
de baile e terminando com dana.
Fora uma proeza a realizao bem-sucedida e Sophia deu nota mxima  me
pela ajuda no aperfeioamento de cada detalhe. E uma palavra de louvor a si
mesma por cuidadosamente apimentar os convidados com nomes e rostos
reconhecveis de todo o globo.
A ONU, pensou, sentada com toda a aparncia de serenidade durante a ria
interpretada pela soprano italiana, nada tinha contra as Giambelli.
O quarto de milho levantado para instituies beneficentes faria no
apenas um bom trabalho, era uma excelente relaes-pblicas.
Especificamente boa, pois todos os membros da famlia haviam comparecido,
incluindo seu tio-av padre que aceitara fazer a viagem aps um telefonema
pessoal e insistente da irm.
Unidade, solidariedade, responsabilidade e tradio. As palavras-chave que
ela vinha martelando na mdia. E com as palavras iam as imagens. A graciosa
villa abrindo as portas em nome da caridade. A famlia, quatro geraes,
unidas por sangue e vinho, e a viso de um nico homem.
Oh, sim, ela tambm vinha usando Cezare Giambelli, o simples campons que
construra um imprio sobre suor e sonhos. Era irresistvel. E embora ela
no esperasse que isso virasse a mar de adversidade, estancara-a.
A nica irritao da noite era Kris Drake.
Dera um cochilo a, decidiu Sophia. Enviara muito intencionalmente um
convite a Jeremy DeMorney. O convite a um punhado de importantes
concorrentes ilustrava a abertura da Giambelli, e mais uma vez um senso de
comunidade. No lhe ocorrera que Jerry ia trazer uma ex-funcionria da
Giambelli como namorada.
Devia ter ocorrido, lembrou a si mesma. Foi astuto, sorrateiro e
maliciosamente divertido da parte dele. E bem dele. Alm disso, tinha de
dar crdito a Kris pela total cara-de-pau. De metal.
Admitiu que fora vencida nesse round. Mas sentiu que empatara sendo
impecavelmente delicada com os dois.
-- Voc no est prestando ateno. -- Tyler deu-lhe uma rpida cotovelada.
-- Se eu tenho de prestar, voc tambm tem.
Ela inclinou-se um pouco para ele.
-- Escuto cada nota. E posso fazer uma anotao mental ao mesmo tempo.
Duas partes diferentes do crebro.
-- Seu crebro tem partes demais. Quanto tempo dura isso? As puras e
sonoras notas palpitavam no ar.
-- Ela  magnfica. E quase terminou. Est cantando sobre tragdia,
desiluso amorosa.
-- Achei que devia ser sobre amor. A mesma coisa.
Ele olhou para a soprano, viu o brilho da lgrima, da nica gota que se
derramou daqueles olhos escuros, profundos, e grudou-se nos clios.
-- So sinceras ou para a platia?
-- Voc  to campnio. Calado.
Ela entrelaou os dedos nos dele, impediu-se de pensar em qualquer coisa
para sentir apenas a msica nos momentos finais.
Quando a ltima nota tremulou no silncio, ela levantou-se, junto com os
demais, para os estrondosos aplausos.
-- Podemos sair daqui por uns cinco minutos? -- sussurrou-lhe Ty no ouvido.
-- Pior que campons, um brbaro. Brava ! -- ela gritou. -- V na frente --
acrescentou, baixinho. -- Preciso fazer o papel de anfitri. Devia agarrar tio
James, que parece to infeliz quanto voc. Vo l para fora, tomem uma
bebida, acendam um charuto e sejam homens.
-- Se voc acha que no  preciso ser homem para ficar sentado aqui,
acordado, durante quase uma hora de pera, meu bem,  melhor pensar duas
vezes.
Ela viu-o escapar e avanou, as mos estendidas para a diva.
-- Signora, bellissima !

PILAR TAMBM CUMPRIU SEU DEVER, EMBORA NO TIVESSE A
mente cheia de msica, matrias e publicidade. Mas atordoada com detalhes
e tempo. As cadeiras tinham de ser retiradas, rpida e discretamente, a fim
de esvaziar o salo de baile para a dana. As portas do terrao seriam
escancaradas no minuto exato e a orquestra ali instalada comearia a tocar.
Mas no antes de conceder-se  diva seu momento de adulao. Ela esperou
Tereza e Eli presentearem rosas  cantora, e fez sinal a David, Helen e
alguns amigos escolhidos a dedo para acrescentarem suas congratulaes e
louvores.
Quando outros fizeram o mesmo, ela assentiu com a cabea para os
empregados  espera. Depois franziu a testa ao ver a tia Francesca ainda
sentada e, obviamente, em sono profundo. Sedada mais uma vez, pensou
Pilar, serpeando o caminho por entre os convidados.
-- Don. -- Ela apertou o brao do primo, com um sorriso de desculpa para o
casal com quem ele conversava. -- Sua me no est bem -- disse, em voz
baixa. -- Poderia me ajudar a lev-la para o quarto?
-- Claro. Sinto muito, Pilar -- ele continuou, quando os dois se afastaram. --
Devia ter ficado mais atento a ela. -- Passou os olhos pela multido, 
procura da mulher. -- Achei que Gina estivesse com ela.
-- Est tudo bem. Zia Francesca?
Pilar curvou-se, falou em voz baixa e calma, em italiano, ajudando com Don a
tia levantar-se.
-- Ma che vuoi ? -- Francesca parecia embriagada ao dar um tapa na mo de
Pilar. -- Lasciame in pace.
-- Vamos s levar voc para cama, Mama. -- Don deu um aperto mais firme.
-- Voc est cansada.
-- Si, si. -- Ela parou de lutar. -- Vorrei dei vino.
-- J tomou muito vinho -- disse-lhe Don, mas Pilar abanou a cabea para
ele.
-- Eu levo um pouco para voc, assim que estiver no quarto.
-- Voc  uma boa menina, Pilar. -- Dcil como um cordeiro, Francesca saiu
arrastando os ps do salo de baile. -- De natureza muito mais meiga que
Gina. Don devia ter se casado com voc.
-- Somos primos, Zia Francesca -- lembrou-lhe Pilar.
-- So? Oh, claro. Minha mente est confusa. Viajar  muito estressante.
-- Eu sei. Vai se sentir melhor quando puser a camisola e deitar. Atenta ao
tempo, Pilar tocou a campainha e chamou uma empregada to logo rebocaram
Francesca at o quarto. Embora lamentasse, largou o abacaxi com Don e
correu de volta para assumir seu lugar no salo de baile.
-- Problema? -- perguntou Sophia.
-- Tia Francesca.
-- Ah, isso  sempre divertido. Bem, ter um padre na famlia deve ajudar a
compensar a ocasional embriagada. Estamos prontas?
-- Estamos.
Pilar diminuiu as luzes. Ao sinal, abriram-se as portas do terrao e a msica
entrou ondulando. Quando Tereza e Eli deram incio  primeira dana,
Sophia passou o brao pela cintura da me.
-- Perfeito. Trabalho maravilhoso.
-- Deus nos abenoe, a cada uma. -- Pilar bufou. --Acho que eu preciso de
uma bebida.
-- Quando acabar, matamos uma garrafa de champanhe por cabea. No
momento -- Sophia deu uma cutucada na me --, dance.
Parecia confraternizao, mas era trabalho. Simular a fachada confiante,
responder a perguntas, algumas sutis, outras no, sobre a situao de
convidados interessados, inclusive da imprensa. Expressar pesar e
indignao, sinceros, transmitindo ao mesmo tempo a mensagem pretendida.
A Giambelli-MacMillan estava viva, bem e fabricando vinho.
-- Sophia! Adorvel, adorvel evento.
-- Obrigada, Sra. Elliot. Fiquei muito feliz por vocs terem conseguido vir.
-- No perderamos. Voc sabe que Blake e eu somos muito ativos em favor
dos desabrigados. Nosso restaurante contribui generosamente para os
abrigos.
E seu restaurante, pensou Sophia, emitindo os rudos adequados, cancelou o
pedido permanente de todos os rtulos Giambelli e MacMillan ao primeiro
sinal de problema.
-- Talvez em algum momento nossas empresas possam trabalhar juntas num
levantamento de fundos. Comida e vinho, afinal, o casamento perfeito.
-- Humm. Bem.
-- Vocs conhecem minha famlia desde que eu nasci.
Para criar intimidade, Sophia tomou o brao da mulher e conduziu-a para
longe da msica.
-- Blake e eu temos simplesmente o maior respeito por sua av. No
poderamos lamentar mais seus recentes transtornos.
-- Quando pessoas tm problemas, buscam apoio nos amigos.
-- No nvel pessoal, vocs tm. Mas negcios so negcios, Sophia. Temos de
proteger nossa clientela.
-- Como ns. A Giambelli defende o seu produto. Qualquer um de ns, a
qualquer momento, pode ser vtima de adulterao e sabotagem. Se ns, e
aqueles com quem fazemos negcios, permitirmos que os criminosos venam,
isso s tornar os outros acessveis ao mesmo risco.
-- Seja como for, Sophia, at nos certificarmos de que o rtulo Giambelli
est limpo, no podemos e no vamos servir. Lamento por isso, e me
impressiona a maneira como vocs esto lidando com as suas dificuldades.
Blake e eu no estaramos aqui esta noite se no apoissemos voc e a sua
famlia num nvel pessoal. Nossos clientes esperam excelente comida, e bem
servida, quando vm a ns, no arriscar-se numa taa de vinho que pode
estar envenenada.
-- Quatro garrafas em quantos milhares? -- perguntou Sophia.
-- Uma j  demais. Sinto muito, querida, mas esta  a realidade. Com
licena.
Sophia marchou direto para um garom, pegou uma taa de tinto e, aps
gir-la rapidamente para o caso de algum estar olhando, bebeu-o  vontade.
-- Voc parece meio estressada. -- Kris aproximou-se em silncio e escolheu
uma taa de champanhe. -- Deve ser porque tem de trabalhar de verdade
para ganhar a vida.
-- Est enganada. -- A voz poderia ter congelado o ar entre as duas. -- Eu
no trabalho para ganhar a vida, mas por amor.
-- Falou como uma princesa. -- Satisfeita consigo mesma, Kris tomou o vinho.
No que lhe dizia respeito, tinha apenas uma funo a cumprir naquela noite:
irritar Sophia. -- No  assim que Tony chamava voc? A princesa dele.
-- . -- Sophia preparou-se para a onda de tristeza, que no veio. Isso, em
si, j era um sofrimento. -- Ele nunca me entendeu. Parece que nem voc.
-- Oh, eu entendo voc. E sua famlia. Voc est em apuros. Com Tony
morto, e voc e seu jovem campons no comando, a empresa perdeu a fora.
Agora voc fica se pavoneando nesses vestidos de baile e prolas das
relquias de famlia para tentar angariar negcios e encobrir os erros. Na
verdade, voc no  nada diferente do cara da esquina que pede esmola. Pelo
menos ele  honesto no que faz.
Com cuidado e deliberao, Sophia largou o vinho e avanou aos poucos.
Antes que pudesse falar, Jerry aproximou-se e ps a mo no brao de Kris.
-- Kris. -- Desprendia-se advertncia do seu tom. -- Isso  incorreto.
Sophia, eu sinto muito.
-- No preciso que ningum pea desculpas por mim. -- Kris jogou os cabelos
para trs. -- No estou no horrio da empresa, mas no meu.
-- No me interessam desculpas. De nenhum dos dois. Voc  convidada em
minha casa e, desde que se comporte como tal, ser tratada como convidada.
Se me insultar aqui, ou a qualquer um da minha famlia, mandarei que seja
retirada. Assim como retirei voc dos meus escritrios. No se iluda
achando que hesitarei em causar uma cena.
Kris franziu os lbios numa espcie de beijo.
-- Isso no sairia belamente na imprensa?
-- Me desafie -- cuspiu de volta Sophia. -- Ento veremos qual de ns estar
melhor amanh. De qualquer modo, Kris, voc j foi demitida da Giambelli, e
seu novo patro talvez no goste, certo, Jerry?
-- Sophia! Como voc est linda! -- Helen passou o brao pelos ombros dela e
apertou-os com fora. -- Vo nos dar licena, no? -- Disse isso num tom
animado, afastando Sophia. -- D para apagar o brilho assassino nos olhos,
querida? Voc est assustando os convidados.
-- Eu gostaria de fritar Kris com eles, e Jerry junto.
-- No valem isso, doura.
-- Eu sei, eu sei. Ela no teria me irritado se eu j no estivesse fumegando
por causa de Anne Elliot.
-- Vamos s dar um passeiozinho at o banheiro enquanto voc se acalma.
Lembre-se de que apresentou um espetculo deslumbrante. Causou uma
grande impresso.
-- Pequena demais, para coisas demais.
-- Sophie, voc est tremendo.
-- Estou apenas furiosa. S furiosa. -- Ela se conteve enquanto desciam para
o andar da famlia. -- E assustada -- admitiu, ao entrar num banheiro com
Helen. -- Tia Helen, eu despejei dinheiro neste evento. Dinheiro, em vista da
situao, com o qual devia ter sido mais cuidadosa. Os Elliot no cederam.
Depois Kris mergulha como um corvo sentindo carne fresca.
-- Ela  apenas mais um dos refugos de Tony, e indigna de sua energia ou
tempo.
-- Ela sabe meu jeito de pensar. -- Como no havia espao para gastar a
fria andando de um lado para outro, Sophia apenas parou e ferveu em fogo
brando. -- De trabalhar. Eu devia ter encontrado uma forma de manter essa
mulher na empresa, uma forma de control-la.
-- Pare com isso. Voc no pode assumir a culpa por ela. Qualquer um v que
ela tem um cime cruel de voc. Sei como tudo est abalado agora, mas esta
noite conversei com muitas pessoas que esto firmes do lado de vocs e
horrorizadas com o que aconteceu.
-- , e algumas delas talvez at sejam convencidas a investir dinheiro em
seus sentimentos. Mas h mais, muito mais, que no. Os garons me
contaram que muitos dos convidados esto evitando o vinho ou vendo outros
beberem, e viverem, primeiro.  horrvel. E tanta tenso na Nonna. Comeo a
notar isso e me preocupo.
-- Sophie, quando uma empresa est no mercado h cem anos, tem crises.
Esta  apenas uma delas.
-- Nunca tivemos nada igual a esta. Estamos perdendo contas, tia Helen.
Voc sabe. Contam piadas, voc ouviu. Problemas com a mulher? No procure
um advogado, d a ela uma garrafa de Giambelli.
-- Querida, sou advogada, somos piadas h sculos. -- Mas ela afagou os
cabelos de Sophia. No percebera o quanto a menina se preocupava, no
percebera que se aprofundara tanto. -- Voc est assumindo uma parte
demasiada disso nos ombros.
--  minha funo manter a imagem, no apenas como a prxima gerao,
mas como executiva. Se no conseguir virar a situao... Sei que investi
muito na festa desta noite, e detesto a idia de perder os clientes.
-- Alguns -- lembrou-lhe Helen. -- No todos.
-- Mas no estou conseguindo transmitir a mensagem. Somos as vtimas, por
que as pessoas no vem isso? Fomos atacados. Continuamos sendo
atacados, financeira, emocional e legalmente. A polcia... Em nome de Deus,
circulam rumores de que Margaret e meu pai se juntaram em algum tipo de
conspirao, e Mama sabia.
-- Isso no passa das besteiras ditas por Rene.
-- , mas se a polcia comear a levar a srio, comear a interrogar Mama
como suspeita, no sei o que vamos fazer.
-- No vai acontecer isso.
-- Oh, tia Helen, poderia. Com Rene andando sem parar em programas de
entrevistas, os jornais sensacionalistas atiando as chamas, e sem nenhum
sinal de priso dos responsveis, Mama  a primeira da lista. Bem junto de
mim.
Pensara nisso, no pudera evitar. Mas ouvir em voz alta to sem rodeios
provocou um arrepio em Helen.
-- Agora, preste ateno. Ningum vai acusar voc nem sua me de nada. A
polcia talvez investigue, mas s para eliminar as hipteses. Se chegar mais
perto, vai ter de ser por meio de James, de mim, at de Linc. -- Ela deu um
abrao em Sophia. -- No se preocupe com isso.
Deu um tapinha nas costas da menina e fitou o prprio rosto no espelho. O
sorriso encorajador se desfizera, e a preocupao o substitura. Sentiu-se
grata pelo fato de o privilgio de advogada-cliente com Tereza impedi-la de
contribuir para os medos de Sophia.
Apenas naquela manh, a empresa fora intimada a apresentar todos os
registros ao tribunal.

SOPHIA RENOVOU O BATOM, EMPOOU O NARIZ E ENFRENTOU DE
ombros retos o destino. Ningum veria medo ou desespero agora. Ela
cintilou e brilhou com sua risada calorosa e despreocupada, quando se juntou
aos convidados.
Flertou, danou e continuou a fazer campanha. Ficou de nimo
consideravelmente elevado por encantar e induzir uma importante conta a
cancelar a proibio do rtulo Giambelli.
Satisfeita consigo mesma, deu-se uma breve folga para atormentar Linc.
-- Voc continua saindo com esse perdedor? -- perguntou a Andra.
-- Ora, Linc chora toda vez que eu tento dar o fora nele.
-- No choro, no. S me sinto realmente abandonado. Eu ia procurar voc,
Sophia. A gente j vai se mandar.
-- To cedo?
-- Quarteto de cordas no  minha praia mesmo. S estou aqui porque
mame me subornou com bolo ingls. Mas eu queria ver voc antes da gente
ir embora, para perguntar como est segurando a barra.
-- Oh, muito bem.
Ele bateu de leve no nariz dela.
-- Relaxe. Andra est por dentro.
--  duro -- ela admitiu. -- Nonna est passando maus bocados para aceitar
o que aconteceu ao Signore Baptista. Ele significava muito para ela. Acho
que estamos todos nos sentindo espremidos entre as vrias investigaes.
De fato, eu despejei os meus lamentos em sua me agora h pouco.
-- Ela est habituada. Voc sabe que pode me ligar e lamentar a qualquer
hora.
-- Eu sei. -- Ela deu um beijo na face dele. -- Voc no  to mau assim. E
tem bom gosto para mdicas. V. Fuja. -- Saiu da frente. -- Volte sempre --
acrescentou a Andra, e comeou outro circuito no salo.
-- A est voc. -- Tyler alcanou-a, puxando-a para um canto. -- No
agento mais isso. Estou desertando.
-- Ora, coragem. -- Ela calculou os convidados. Comeando a diminuir, julgou,
mas no muito. Era um bom sinal. -- Agente mais uma hora que eu fao
valer o esforo.
-- Meu esforo vale uma fortuna.
-- No esquecerei. V jogar charme em cima de Betina Renaldi.  velha,
influente e muito suscetvel a rapazes vigorosos de traseiro sarado.
-- Cara, vai ficar me devendo essa.
-- Apenas tire ela para danar e diga o quanto valorizamos o seu patrocnio.
-- Se ela beliscar meu traseiro sarado, eu vou descontar em voc.
-- Humm. Vou esperar ansiosa.
Ela circulou a tempo de localizar uma briga fermentando entre Don e Gina.
Rpido, atravessou o salo de baile.
-- No vamos fazer isso aqui. -- No que se poderia interpretar como um
gesto afetuoso, ela interps-se entre os dois e cruzou os braos. -- No
precisamos aumentar a fbrica de fofocas.
-- Acha que pode me dizer como me comportar? -- Gina teria puxado o
brao com violncia, se Sophia no o tivesse apertado. -- Voc, cujo pai era
um gigol, cuja famlia no tem honra alguma.
-- Cuidado, Gina, cuidado. A famlia sustenta seus filhos. Vamos l para fora.
-- V pro inferno. -- Ela empurrou Sophia contra Don. -- Voc e todos vocs.
Alteou a voz, fazendo vrias cabeas se virarem.
Sophia conseguiu arrast-la para a entrada do salo antes de ela se libertar.
-- Se vocs causarem uma cena aqui, vai lhes custar tanto quanto ao resto
de ns. Seus filhos so Giambelli Lembrem-se disso.
Os lbios de Gina tremiam, mas ela baixou a voz:
-- Voc lembra. Os dois lembram, e o que eu fao  por eles.
-- Don. Dane-se. V atrs dela e a acalme.
-- No posso. Ela no vai me ouvir. -- Ele passou para trs das portas e
retirou um leno para enxugar a testa suada. -- Est grvida de novo.
-- Oh. -- Dividida entre alvio e chateao, Sophia deu um lapinha no brao
dele. -- Parabns.
-- Eu no queria outro filho. Ela sabia. Brigamos por causa disso. Ento ela
me conta esta noite, quando no vestamos, as crianas berrando e minha
cabea explodindo, Espera que eu fique emocionado, e quando no fico, me
trucida.
Ele enfiou o leno de volta no bolso.
-- Sinto muito -- disse Sophia. -- Mesmo. Sinto muito, mas as impresses
esta noite so vitais. Se voc est ou no feliz com isso, vai ter de
consertar. Ela est grvida, vulnervel e com os hormnios em fria. Alm
disso, no entrou sozinha nesse estado. Voc precisa ir procurar Gina.
-- No posso -- ele repetiu. -- Ela no vai falar comigo agora. Eu estava
transtornado. Durante a noite toda ela ficou amuada ou me lembrando que
era a vontade de Deus, uma bno. Eu precisava me livrar dela. Cinco
preciosos minutos longe daquela tortura. Ento sa para dar um telefonema.
Liguei... Existe outra mulher.
-- Ah, perfeito. -- Ela no se deu ao trabalho de praguejar. -- Mas no 
simplesmente perfeito?
-- Eu no sabia que Gina tinha me seguido. Nem que ouviu em segredo.
Esperou at eu voltar para me enfrentar, acusar e arranhar. No, ela no vai
falar comigo agora.
-- Bem, vocs dois escolheram seu momento.
-- Por favor, eu sei o que tenho de fazer, e farei. Prometa que no vai falar
a Zia Tereza sobre isso.
-- Voc acha que eu iria correndo para Nonna como uma fofoqueira?
-- Sophia. Eu no quis dizer desse jeito. -- Aliviado com a afirmao irada
de no ser fofoqueira, ele tomou-lhe as mos. -- Vou consertar tudo. Vou
mesmo. Se voc ao menos fosse atrs de Gina agora, e a convencesse a se
comportar, a ser paciente. No fazer nada precipitado. J com a
investigao estou sob tanta presso.
-- No se trata de voc, Donato. -- Ela puxou as mos dele. -- Voc  apenas
mais um homem que no conseguiu manter a pica dentro da cala. Mas se
trata de uma Giambelli. Por isso eu vou fazer o que puder com Gina. Para
variar, ela na verdade tem minha solidariedade. E voc vai consertar essa
confuso. Vai romper com a outra mulher e cuidar do casamento e dos
filhos.
-- Eu amo a outra. Sophie, voc entende o que  estar apaixonado.
-- Eu entendo que voc tem trs filhos e mais um a caminho. Ser
responsvel por sua famlia, Donato. Ser um homem, ou eu mesma vou
providenciar para que pague por isso. Capisce?
-- Voc disse que no ia procurar La Signora. Eu confiei em voc.
-- La Signora no  a nica Giambelli que sabe lidar com traidores sexuais e
mentirosos. Ou covardes. Cacasotto.
Ele ficou branco.
-- Voc  dura demais.
-- Atreva-se, e ver at que ponto eu sou dura. Agora seja esperto. Volte e
sorria. Anuncie  sua tia que esto prestes a trazer outro Giambelli ao
mundo. E fique longe de mim at eu poder suportar ver voc de novo.
Deixou-o ali, tremendo de raiva. Dura, pensou. Talvez. E talvez parte da
raiva fosse dirigida ao pai, outro trapaceiro, outro mentiroso, outro pai que
ignorou suas responsabilidades.
O casamento, pensou, no significava nada para alguns. Nada mais que um
jogo, cujas regras eram violadas pela simoles emoo. Atravessou correndo
a ala da famlia, mas no encontrou sinal algum de Gina.
Idiota, decidiu, e no soube de quem desgostava mais no momento, de Gina
ou Donato.
Chamou-a em voz baixa e espiou no quarto de brinquedos, onde dormiam as
crianas e a moa contratada para cuidar delas  noite.
Achando que Gina talvez tivesse posto a raiva para fora, saiu para o terrao.
A msica do quarteto ondulava  deriva pelo ar da noite.
Sentiu vontade de ela prpria vagar  deriva, simplesmente deixar tudo se
resolver por si. Esposas enfurecidas, maridos desgarrados. Policiais,
advogados e inimigos annimos. Estava farta de tudo, de tudo isso.
Queria Ty. Queria danar com ele, apoiar a cabea em seu ombro e deixar
que outra pessoa se preocupasse por algumas horas.
Em vez disso, ordenou-se a voltar e fazer o que precisava ser feito.
Ouviu um rudo baixo na sala atrs e comeou a voltar-se.
-- Gina?
Um cruel empurro mandou-a voando de costas. Os saltos escorregaram e
perderam o ponto de apoio no piso do terrao. Ela captou um movimento
borrado ao cair. E, quando sua cabea bateu contra o parapeito de pedra, viu
apenas uma exploso de luz.

Captulo Vinte
Tyler decidiu rematar a noite danando com Tereza. Ela parecia pequena,
mas tambm transmitia uma reconfortante resistncia no vestido longo
bordado de contas. A mo seca e fria na dele.
-- No est exausta? -- ele perguntou.
-- Estarei, quando os ltimos convidados sarem.
Por cima da cabea de Tereza, ele varreu o salo com os olhos. Ainda
restavam pessoas demais, pensou, e j passava da meia-noite.
-- A gente podia comear a chut-los para fora.
-- Impecavelmente gracioso. Gosto disso em voc. -- Quando ele baixou o
rosto e riu, ela examinou-o com ateno. -- Nada disso tem importncia para
voc.
-- Claro que tem. Os vinhedos...
-- Os vinhedos no, Tyler. -- Ela indicou com um gesto as portas do terrao,
as luzes e a msica. -- As roupas elegantes, a conversa frvola, o banho de
brilho superficial.
-- Nenhuma importncia mesmo.
 -- Mas voc veio, pelo seu av.
-- Pelo meu av e por voc, La Signora. Pela... famlia. Se no importasse, eu
teria ido embora no ano passado, quando voc reorganizou minha vida.
-- Ainda no me perdoou mesmo por isso. -- Ela riu.
-- No muito.
Mas levantou a mo dela e, num gesto galante, raro, beijou-as.
-- Se tivesse ido embora, eu encontraria um jeito de trazer voc de volta. 
necessrio aqui. Vou lhe contar uma coisa, porque seu av no vai.
-- Ele est doente?
Tyler errou um passo ao virar a cabea para procurar Eli na multido.
-- Olhe para mim. Para mim -- ela repetiu com tranqila intensidade. -- Eu
preferia que ele no soubesse do que estamos falando.
-- Ele foi ver um mdico? Que  que h com ele?
-- Est doente... mas no corao. Seu pai ligou para ele.
-- Que  que ele quer? Dinheiro?
-- No, sabe que no vai conseguir mais dinheiro. -- Ela teria guardado para
si mesma. Detestava transferir responsabilidades aos outros. Mas o menino,
decidiu aps pensar muito, tinha o direito de saber. O direito de defender
os seus, mesmo contra os seus. -- Ele est indignado. Os problemas
recentes, os escndalos, esto interferindo com seu calendrio social e
causando, segundo ele, considervel constrangimento. Parece que a polcia
fez perguntas a ele no curso da investigao. Ele culpa Eli.
-- No vai ligar de novo. Vou resolver isso.
-- Sei que vai. Voc  um bom menino, Tyler.
Ele tornou a baixar os olhos para ela e forou um sorriso.
-- Sou?
--  sim, muito bom. Eli no ia transferir esse fardo para voc, mas Eli tem
o corao frgil, isso magoou seu av.
-- Eu no tenho o corao frgil.
-- Muito frgil. -- Ela passou a mo do ombro para a face dele. -- Eu
dependo de voc. -- Quando viu a surpresa registrada em seu rosto,
perguntou: -- Ouvir isso surpreende ou assusta voc?
-- Talvez as duas coisas.
-- Acostume-se. -- Era uma ordem, dada com sutileza, quando ela se afastou
dele. -- Agora, est dispensado. V procurar Sophia e a seduza a ir embora.
-- Ela no se deixa seduzir facilmente.
-- Imagino que voc saiba lidar com ela. No so muitos os que sabem. J
no a vejo faz algum tempo. V procurar Sophia, desligue a mente dela do
trabalho por algumas horas.
Isso, pensou Tyler, parecia uma bno. No sabia se a queria. No sabia o
que planejava fazer com ela. Por enquanto, ia guard-la e seguir o esprito
da ordem de Tereza. Encontrar Sophia e irem embora.
Ela no estava no salo de baile nem no terrao. Ele evitou perguntar s
pessoas se a tinham visto, pois isso daria a clara impresso de um idiota
ansioso tentando encontrar a namorada. O que imaginava ser exatamente o
caso.
De qualquer modo, rondou a ala e entrou numa sala de recepo onde alguns
convidados se haviam reunido para sentar-se e conversar. Encontrou os
Moore, com James soltando baforadas num charuto e Helen tomando ch,
enquanto ele discursava sobre algum processo judicial antigo e memorvel.
Linc e a namorada, que Tyler achou que haviam partido uma hora antes,
foram mantidos como refns ou subjugados no sof.
-- Ty, venha para c. Tome um charuto.
-- No, obrigado. S estou... La Signora me pediu que procurasse Sophia.
-- No a vejo h algum tempo. Uau, olha a hora. -- Linc levantou-se e
arrastou Andra para fazer o mesmo. -- A gente tem de ir mesmo.
-- Talvez ela tenha ido l para baixo, Ty -- sugeriu Helen. -- Para se
refrescar or recuperar o flego.
-- , certo. Vou conferir. -- Ele desceu e topou com Pilar na escada. -- Sua
me quer saber onde est Sophia.
-- No est l em cima? -- Aflita, Pilar sacudiu os cabelos para trs. Queria
mais que tudo dez minutos de ar fresco e um grande copo d'gua. -- No a
vejo h, oh, no mnimo, meia hora. Desci para tentar falar com Gina pela
porta do quarto. Ela se trancou. Brigando com Don, parece. Est jogando
coisas para todos os lados, chorando histericamente, e  claro que acordou
as crianas. Esto aos berros.
-- Obrigado pela dica. No vou me esquecer de evitar essa parte da casa.
-- Por que no procura no quarto dela? Soube por Gina que Sophia tentou
mediar. Talvez esteja esfriando a cabea. David est no salo?
-- Eu no vi -- disse Ty, ao passar. -- Na certa est em algum lugar.
Dirigiu-se ao quarto de Sophia. Se a encontrasse, achava que talvez fosse
uma boa idia trancar as portas e afastar a mente dela do trabalho, como
lhe haviam ordenado. Vinha se perguntando a noite toda o que ela tinha sob
aquele vestido vermelho.
Bateu de leve e abriu a porta. Escuro e frio. Com um abano da cabea,
atravessou at o outro lado para fechar as portas do terrao.
-- Vai congelar seu lindo traseiro aqui, Sophie -- murmurou e ouviu um
gemido baixo.
Estarrecido, ele avanou no terrao e viu-a no borrifo de luz que respingava
do salo de baile. Estatelada no cho, apoiava-se num dos cotovelos,
tentando deslocar-se. Ele correu e caiu de joelhos a seu lado.
-- Calma, querida. Que foi que houve? Levou um tombo?
-- Eu no sei.... Eu... Ty?
-- Sou eu. Meu Deus, voc est congelada. Venha, vou levar voc para
dentro.
-- Estou bem. S um pouco atordoada; me deixe clarear a mente.
-- L dentro. Voc levou um tombo, Soph. Est sangrando.
-- Eu... -- Ela tocou com o dedo um latejar de dor na testa, e ento fitou
vagamente a mancha vermelha que retirou. -- Sangrando -- conseguiu dizer,
j fechando as plpebras mais uma vez.
-- Oh, no, no, no vai. -- Ele transferiu o apoio dela. -- No vai apagar. --
Com o corao aos trancos no peito, ergueu-a. Viu que tinha o rosto branco,
os olhos vidrados e o sangue gotejava do arranho na testa. --  isso que d
usar esses saltos to finos. No sei como as mulheres andam neles sem
quebrar o tornozelo.
E continuou falando para acalmar os dois, deitou-a na cama e voltou para
fechar as portas do terrao.
-- Vamos aquecer voc um pouco e dar uma olhada no estrago.
-- Ty. -- Ela agarrou-lhe a mo quando ele a cobriu com uma manta. Apesar
da dor, a mente clareava agora. -- Eu no ca. Algum me empurrou.
-- Empurrou? Vou acender essa luz para ver onde voc est machucada.
Ela virou a cabea para evitar a claridade.
-- Acho que estou com o corpo todo machucado.
-- Calada agora. Apenas fique deitada sem se mexer. -- Ele a tocava com
mos gentis, embora a raiva se avolumasse no ntimo. O ferimento na
cabea era horrvel, um feio arranho j inchando e cheio de areia. Ela
tambm tinha o brao esfolado logo abaixo do ombro. -- Vou ter de tirar
voc desse vestido.
-- Lamento, bonito. Estou com dor de cabea. Apreciando a tentativa de
humor, ele puxou-a devagar para a frente,  procura de um zper, botes,
ganchos. Alguma coisa.
-- Querida, como diabos funciona isto?
-- Embaixo do brao esquerdo. -- Cada centmetro dela comeava a doer. --
Um pequeno zper e voc meio que descola o vestido at embaixo.
-- Andei imaginando o que voc tinha a por baixo -- ele balbuciou ao despi-
la.
Imaginava que houvesse um nome para a coisa sem alas que lhe cingia a
cintura e curvava-se na altura dos quadris. Ele chamaria apenas de
estupenda. Meias de seda subiam pelas coxas e eram presas por pequenas
ligas em forma de rosas. Apreciando o modelo da roupa de baixo, ele ficou
mais aliviado por no ver danos extensos.
O joelho direito exibia alguns arranhes e as meias de seda transparente
estavam arruinadas.
Algum, prometeu a si mesmo, iria pagar, e pagar caro por deixar marcas
nela.
-- No parece to ruim, sabe? -- Falou com a voz tranqila, ajudando-a a
sentar-se para ver. -- Parece que voc caiu do lado direito, um pequeno
hematoma surgindo na coxa aqui, um joelho e o ombro arranhados. A cabea
sofreu o pior, logo isso foi uma sorte, pensando bem.
--  uma forma realmente divertida de me dizer que tenho a cabea dura.
Ty, eu no ca. Fui empurrada.
-- Eu sei. Vamos passar para isso, assim que eu limpar esses ferimentos.
Quando ele se levantou, ela tornou a deitar-se.
-- Me arranje um frasco de aspirina enquanto est a em p.
-- Acho que voc no devia tomar nada antes de ir ao hospital.
-- Eu no vou pro hospital por causa de arranhes e pancadas. -- Ela ouviu a
gua escorrendo na pia do banheiro anexo. -- Se tentar me levar, vou
chorar, ficar bem mulherzinha e fazer voc se sentir pssimo. Acredite,
estou disposta a fazer algum se sentir pssimo, e voc est na linha de
fogo. No use minhas toalhas boas. Tem algumas do dia-a-dia no armrio de
roupa de cama e banho, alm de anti-sptico e aspirina.
-- Silncio, Sophie.
Ela puxou a manta mais para cima.
-- Est frio aqui.
Ele voltou com uma bacia de Murano, uma das melhores toalhas de visita, j
encharcada, e um copo d'gua.
-- Que  que voc fez com o pot-pourri de ptalas perfumadas que estava
neste prato?
-- No se preocupe com isso. Venha, vamos brincar de mdico.
-- Uma aspirina. Eu imploro.
Ele retirou um frasco do bolso, abriu e despejou duas.
-- Por favor, no seja sovina. Eu quero quatro.
Ele deixou-a pegar e comeou a limpar o ferimento da cabea. Foi-lhe
necessrio esforo para manter as mos firmes e respirar sem ofegar.
-- Quem empurrou voc?
-- No sei. Desci  procura de Gina. Ela e Don tiveram uma briga.
-- , eu j soube.
-- No a encontrei e vim para c. Queria um minuto a ss, e um pouco de ar,
ento sa para o terrao. Ouvi alguma coisa atrs e comecei a me virar.
Quando menos esperava, estava escorregando... No consegui recuperar o
equilbrio. A as luzes se apagaram. Meu rosto est muito ruim?
-- Nada ruim no seu rosto.  parte do problema. Vai ficar com um galo aqui,
bem ao longo da linha do cabelo. O corte no  profundo, apenas um
arranho superficial de bom tamanho. Tem alguma idia de quem empurrou
voc? Homem? Mulher?
-- No. Foi rpido e estava escuro. Imagino que talvez tenha sido Gina, ou
Don, alis. Os dois estavam furiosos comigo. Isso  o que acontece quando a
gente se mete no meio.
-- Se foi um deles, vai ficar bem pior do que voc quando eu terminar.
O rpido salto do corao a fez sentir-se tola. E contribuiu muito para
esfriar seu prprio mau gnio efervescente.
-- Meu heri. Mas no sei se foi um dos dois. Poderia com a mesma
facilidade ter sido algum que tenha vindo bisbilhotar meu quarto, e a me
deu um empurro para eu no o pegar em flagrante..
-- Vamos dar uma olhada em volta, ver se falta alguma coisa ou se mexeram
em algo. Prenda a respirao.
-- Como?
-- Prenda a respirao -- ele repetiu e viu-a contorcer o rosto de dor
quando usou no ferimento a gua oxigenada que tinha no outro bolso.
-- Festa di cazzo ! Coglioni ! Mostro !
-- Um minuto atrs eu era heri. -- Solidrio, ele soprou o local. -- Melhora
num instante. Vamos tratar do resto.
-- Va via.
-- Voc se importa de me xingar em ingls?
-- Eu mandei voc ir embora. No me toque.
-- Vamos l, seja uma menina crescida e corajosa. Eu lhe dou um pirulito
depois. -- Ele afastou a manta para o lado, tratou rpido e sem muita
delicadeza os outros arranhes. -- Vou pr essa substncia viscosa nos
machucados. -- Pegou um tubo de pomada anti-sptica. -- E cobrir com
atadura. Como est sua viso?
Ela respirava em baforadas do esforo de tentar repeli-lo, e ele nem se
mexeu. Isso a matava.
-- Vejo muito bem voc, seu sdico. Est adorando.
-- De fato tem certas vantagens colaterais. D o nome dos primeiros cinco
presidentes dos Estados Unidos.
-- Atchim, Soneca, Dunga, Dengoso e Zangado. Nossa, surpreendia o fato de
ele ter se apaixonado por ela?
-- Errou por pouco. Na certa no sofreu nenhuma concusso. Pronto,
querida. -- Ele beijou-lhe de leve os lbios emburrados. -- Acabou.
-- Eu quero meu pirulito.
-- Com certeza. -- Mas ele apenas se inclinou e deitou-se. -- Voc me
assustou -- murmurou junto  face dela. -- Quase me matou de susto,
Sophie.
Ouvir e saber disso fez o corao dela dar o mesmo salto.
-- Est tudo bem agora. Voc no  um canalha de verdade.
-- Ainda doendo?
-- No.
-- Como se diz "mentirosa" em italiano?
-- Deixe para l. Melhora quando voc me abraa. Obrigada.
-- De nada. Onde guarda suas preciosidades?
-- Jias? As de fantasia no armrio de bijuterias, as verdadeiras no meu
cofre. Voc acha que surpreendi um ladro?
--  muito fcil descobrir.
Ele sentou-se e depois se levantou para acender o resto das luzes.
Os dois viram ao mesmo tempo. Apesar da dor persistente, Sophia
precipitou-se como um raio da cama. Sentiu tanta raiva quanto terror
instalar-se na barriga ao ler a mensagem, rabiscada em vermelho, no
espelho:
PIRANHA N 3
-- Kris. Maldita, esse  o estilo dela. Se ela acha que vou deixar
passar impune... -- Interrompeu-se quando o terror dominou todas as outras
sensaes. -- Nmero trs. Mama. Nonna.
-- Ponha uma roupa -- ordenou Tyler. -- E tranque as portas. Vou inspecionar
l fora.
-- No, no vai. -- Ela j pulara, dirigindo-se ao armrio. -- Vamos
inspecionar l fora. Ningum me pressiona -- declarou, vestindo um suter e
cala. -- Ningum.
ENCONTRARAM MENSAGENS IGUAIS NOS ESPELHOS DAS CMODAS
nos quartos de Pilar e Tereza. Mas no encontraram Kris Drake.

-- DEVE TER MAIS ALGUMA COISA QUE A GENTE POSSA FAZER.
Sophia limpava furiosamente as letras manchadas no seu espelho. A polcia
local respondera, colhera depoimentos e examinara o vandalismo. E dissera-
lhe o que ela j conclura sozinha. Algum entrara em cada quarto e deixara
uma pequena e medonha mensagem escrita com batom vermelho no espelho.
E a empurrara, derrubando-a.
-- Nada mais resta a fazer esta noite. -- Tyler tomou-lhe o pulso e puxou-
lhe a mo do espelho. -- Eu vou resolver isso.
-- Foi endereada a mim.
Mas ela jogou o trapo no cho, enojada.
-- Os policiais vo interrog-la, Sophie.
-- E tenho certeza de que ela vai dizer a eles que entrou aqui valsando,
rabiscou este bilhete de amor e me bateu. -- Ela bufou de frustrao e
cerrou os dentes. -- No faz mal. A polcia talvez no consiga provar que foi
ela, mas eu sei que foi. E mais cedo ou mais tarde vou fazer aquela
desgraada pagar por isso.
-- E eu segurarei seu casaco. Enquanto isso, v para cama.
-- No consigo dormir agora.
Ele tomou-lhe a mo e levou-a para a cama. Ela continuava vestida e ele com
a camisa e a cala do smoking. Acomodou-se no seu lado da cama e puxou a
manta.
-- Tente.
Ela ficou imvel por um momento, pasma quando ele no fez nenhum
movimento para toc-la, seduzi-la ou tom-la. Ty estendeu a mo e apagou a
luz.
-- Ty?
-- Humm.
-- No di tanto quando voc me abraa.
-- Que bom. Durma.
Apoiando a cabea no ombro dele, ela conseguiu fazer o que pediu.

CLAREMONT ALONGOU AS COSTAS NA CADEIRA, ENQUANTO
Maureen Maguire lia o relatrio do incidente.
-- Ento, que acha?
-- A jovem Giambelli  derrubada e leva um golpe leve. Todas as trs
recebem uma mensagem desagradvel que mancha seus espelhos. Na
superfcie? -- ela questiona, lanando a papelada de volta na mesa dele. --
Parece uma brincadeira de mau gosto. Feminina.
-- E sob a superfcie?
-- Sophia G. no foi gravemente ferida, mas, se a av entrasse na hora
errada, poderia ter sido muito mais srio. Ossos velhos quebram com mais
facilidade. E, segundo a cronologia que os presentes conseguiram reunir, ela
ficou cada l fora, no frio da noite, por pelo menos quinze, vinte minutos.
Muito desagradvel. Poderia ter sido mais tempo se nosso jovem bonito no
tivesse ido atrs dela. Ento temos uma brincadeira vil, e algum est
fazendo o necessrio para alfinetar as trs.
-- E pela declarao da jovem Giambelli, Kristin Drake se encaixa no papel.
-- Ela negou isso com veemncia -- contestou Maureen, mas os dois sabiam
que representava o advogado do diabo. -- Ningum a v naquela parte da
casa durante a noite. No h impresses digitais convenientes para
compromet-la.
-- Sophia G. est mentindo? Enganada?
-- Acho que no. -- Maureen franziu os lbios. -- No faz sentido mentir
sobre isso e ela no me parece uma mulher que faa alguma coisa sem um
objetivo. E  cuidadosa tambm. No acusaria, a no ser que tivesse
certeza. A tal da Kristin foi demitida e deu um tapa nela. Talvez seja muito
simples. Ou muito mais.
-- Isso me chateia. Se a gente tem algum que perdeu tempo, se deu ao
trabalho, correu o risco de adulterar o vinho, algum que se dispunha a
matar, por que essa pessoa se preocuparia com uma coisa to mesquinha
quanto uma mensagem no espelho?
-- No sabemos se  a mesma pessoa.
Elos fechando-se em elos. Assim  que ele via a coisa. -- Hipoteticamente,
usando uma vingana contra as Giambelli para estabelecer uma ligao.
-- Chute nelas, ento. Vo dar uma grande festa, no vo? Querem fazer de
conta que tudo est voltando ao normal? Engulam isso.
-- Talvez. Kristin  uma ligao. Trabalhou para a empresa, teve um caso
com Avano. Se est puta o bastante para ter causado o transtorno na festa,
talvez tenha ficado puta o bastante para meter duas balas num amante,
-- Ex-amante, segundo o depoimento dela. -- Maureen fechou a cara, -- Com
toda franqueza, parceiro, ela era um beco sem sada antes, e eu no vejo
esse ataque desprezvel ligando a mulher ao homicdio de Avano. Estilos
diferentes,
-- Mas  interessante, no ? As Giambelli passam anos, dcadas, sem
qualquer problema concreto. E nos ltimos meses  s o que tm.
Interessante.

TYLER SAIU PARA O PTIO, TELEFONE NA MO, E PS-SE A ANDAR
de um lado para o outro. A casa parecia pequena demais quando falava com o
pai. E a Califrnia tambm.
No que falasse alguma coisa no momento, apenas ouvia as queixas e
reclamaes habituais.
Deixava-as passar rpido pela cabea, O clube campestre transbordava de
fofoca e humor negro envolvendo o pai. A mulher atual
Ty na verdade perdera a conta de quantas sras, MacMillan houvera a essa
altura -- fora humilhada no spa. Convites esperados para vrias funes
sociais no mais se apresentavam.
Era preciso fazer alguma coisa, e j. Era responsabilidade de Eli manter o
nome da famlia acima de qualquer repreenso, o que ele obviamente
ignorara casando-se com a italiana, para comear. Mas, seja como for, era
essencial, imperativo, que se desligassem o nome, o rtulo e a empresa
MacMillan da Giambelli. Ele esperava que Tyler usasse toda a sua influncia
antes que fosse tarde demais. Eli estava velho e era bvio que j
ultrapassara em muito o tempo de aposentar-se.
-- Terminou? -- Tyler no quis esperar o assentimento nem a nmegativa
do pai. -- Porque  assim que vai ser. Se tiver queixas ou comentrios,
dirija-se a mim. Se tornar a ligar e importunar vov mais uma vez, farei tudo
o que estiver ao meu alcance, legalmente, para revogar esse fundo fiducirio
do qual voc tem vivido nos ltimos trinta anos.
-- Voc no tem o direito de...
-- No,  voc quem no tem o direito. Nunca trabalhou um dia para esta
empresa, no mais do que um dia trabalhou com minha me para serem pais.
At se julgar preparado para se afastar, Eli MacMillan comanda este
espetculo. E, quando ele se julgar preparado, eu comandarei. Acredite em
mim, no serei to paciente quanto ele tem sido. Cause a ele mais um
sofrimento momentneo e ns dois teremos mais que uma simples conversa
telefnica.
-- Est me ameaando? Pensa mandar algum atrs de mim, como Tony
Avano?
-- No, eu sei atingir voc onde realmente di. Providenciarei para que todos
seus cartes de crdito sejam cancelados. Lembre-se, voc no est lidando
com um velho agora. No venha me foder a pacincia.
Socou o boto de desligar, pensou em arremessar o telefone e ento viu
Sophia parada na borda do ptio.
-- Desculpe. Eu no pretendia ouvir escondida. -- Se Ty estivesse furioso,
ela poderia ter descartado a coisa, mas ele parecia muito infeliz. Ela sabia, e
como sabia, o que era isso. Ento se aproximou dele e envolveu seu rosto nas
mos. -- Desculpe -- repetiu.
-- Nada de muito importante. Apenas uma conversa com meu querido e velho
pai. -- Puto da vida, ele jogou o telefone na mesa do ptio. -- Que  que voc
precisa?
-- Ouvi a previso do tempo e, por isso, sei que tem um alerta de geada esta
noite. Gostaria de saber se queria companhia l fora.
-- No, obrigado. Eu cuido disso. -- Ele ergueu a atadura dela e examinou o
machucado sarando. -- Muito atraente.
-- Essas coisas sempre parecem piores alguns dias depois. Mas no me sinto
mais rija quando acordo de manh. Ty... me diga qual foi o problema.
-- Nada. J resolvi.
-- , , voc pode resolver tudo. Eu tambm. Ns somos, to chatos. -- Ela
apertou os ombros dele. -- Eu contei a voc onde doa. Agora voc me conta.
Ele ia afast-la, mas percebeu que no queria.
-- Meu pai. Est criticando e atacando meu av por toda a imprensa ruim,
todo esse negcio policial. Interferindo em suas aulas de tnis ou coisa que
o valha. Mandei que ele deixasse meu av em paz.
-- E ele vai?
-- Se no for, vou falar com Helen sobre uns vazamentos no seu fundo
fiducirio. Isso vai calar logo o velho. O filho-da-puta. O filho-da-puta nunca
teve um dia de trabalho na vida, pior, nunca se mexeu para mostrar um
grama de gratido pelo que recebeu. S toma e toma, depois choraminga
quando encontra um obstculo. No admira que seu pai e ele se dessem l
muito bem. -- Ele percebeu e xingou. -- Porra, sinto muito, Sophie.
-- No, no sinta. Tem razo.
Havia um elo, ela pensou, que nenhum dos dois reconhecera antes. Talvez
houvesse chegado a hora.
-- Ty, j pensou como somos felizardos, voc e eu, porque alguns genes
pularam uma gerao? No se feche -- ela pediu, antes que ele se afastasse.
-- Voc  to parecido com Eli. -- Ela penteou com os dedos os cabelos dele.
Passara a amar o jeito como o fazia corar. -- Poderoso -- disse e tocou os
lbios na face dele. -- Slido como uma rocha. No deixe que o vazio entre
voc e Eli te magoe.
Como a raiva abrandara, ele encostou a testa de leve na dela.
-- Eu nunca precisei dele... do meu pai. -- No, pensou, do jeito como voc
precisava do seu. -- Nunca o quis.
-- E eu precisei, quis demais do meu por muito tempo.  parte do que nos
fez ser como somos. E gosto de quem somos.
-- Acho que voc no  nem metade to m, pensando melhor. Ele fez um
afago ligeiro nos braos dela. -- Obrigado. -- Curvou-se e beijou-lhe o
cocuruto da cabea. -- Eu bem que gostaria de um pouco de companhia na
viglia da geada esta noite.
-- Eu levo o caf.
Captulo Vinte e Um
Pequenos botes floridos, abrindo-se enquanto os prolongados dias os
banhavam na luz do sol, cobriam as vinhas. A terra fora revolvida e aberta
para abrigar a promessa das novas plantas. As rvores sustentavam as
folhas primaveris em punhos cerrados de verde parcimonioso, mas aqui e ali
rebentos, bravos e jovens, brotavam e espalhavam-se pelo terreno. Nos
bosques, os ninhos cediam sob o peso dos ovos, e as patas guardavam os
filhotes recm-chocados, enquanto nadavam no crrego.
Abril, pensou Tereza, significava renascimento. E trabalho. E a esperana
de que o inverno chegaria, afinal, ao fim.
-- Os gansos do Canad esto prestes a chocar -- disse-lhe Eli, ao fazerem
sua caminhada matinal na fria e tranqila nvoa.
Ela fez que sim com a cabea. Seu pai usara esse mesmo barmetro natural
para julgar o momento certo da colheita anual. Tereza aprendera tanto a
observar o cu, os pssaros, o terreno quanto a vigiar as vinhas.
-- Vai ser um bom ano. Tivemos chuva copiosa de inverno.
-- Restam ainda duas semanas para se preocupar com geadas. Mas acho que
calculamos o tempo certo dos novos plantios.
Ela olhou acima da elevao de terra onde o terreno fora bem arado.
Recebera mais de vinte hectares para os novos plantios, vinhas de origem
europia enxertadas com rizoma nativo dos Estados Unidos. Haviam
escolhido a nata das variedades -- Cabernet Sauvignon, Merlot, Chenin
Blanc. E, aps trocar idias com Tyler, fizeram quase o mesmo no solo
MacMillan.
-- Daqui a cinco, talvez quatro anos, veremos as vinhas darem frutos.
Ela tambm aprendera a ver do momento ao futuro num nico e abrangente
olhar. O ciclo sempre geraria ciclos.
-- Estaremos juntos h um quarto do sculo, Eli, quando o que plantamos
agora for para casa conosco.
-- Tereza. -- Eli tomou-a pelos ombros, virou-a de frente e ela sentiu um
calafrio de alarme. -- Esta  minha ltima colheita.
-- Eli...
-- No vou morrer. -- Para tranqiliz-la, ele deslizou as mos pelos braos
dela. -- Eu quero me aposentar. Venho pensando nisso, pensando seriamente
nisso desde que fomos  Itlia. Deixamos nos enraizar demais aqui e l --
disse, gesticulando em direo  terra MacMillan --, e no castello. Vamos
fazer desse o ltimo plantio, voc e eu, e deixar nossos filhos colherem. J
 hora.
-- J falamos disso. Mais uns cinco anos, combinamos, antes de nos afastar.
Um processo gradual.
-- Eu sei. Mas estes ltimos meses tm me lembrado a rapidez com que uma
vida, mesmo um estilo de vida, pode terminar. Quero ver outros lugares
antes de acabar meu tempo. Quero ver com voc. Estou cansado, Tereza, de
viver minha vida em funo das exigncias de cada estao.
-- Minha vida, toda ela, foi a Giambelli. -- Tereza afastou-se dele e tocou
uma delicada flor branca. -- Como posso me separar dela agora, quando est
ferida? Eli, como podemos passar uma coisa devastada aos nossos filhos?
-- Porque confiamos neles. Porque acreditamos neles. Porque, Tereza, eles
mereceram a oportunidade.
-- Eu no sei o que dizer.
-- Pense. H muito tempo antes da colheita. Eu j pensei. No quero dar a
Ty o que ele mereceu, alis, merece, no meu testamento. Quero dar em vida.
J houve muita morte este ano. -- Ele olhou acima dos brotos os novos
plantios alm. --  hora de deixar tudo crescer.
Assim, ela se virou das vinhas para o marido. Um homem alto, curtido pelo
tempo, pelo sol, pelo vento, com um velho e fiel cachorro ao lado.
-- No sei se posso lhe dar o que est me pedindo. Mas prometo pensar.

-- A EFERVESCNCIA  O INGREDIENTE ESSENCIAL NUM VINHO
espumante. -- Pilar acompanhava uma visita ao lagar em sua fase preferida.
A criao do champanhe. -- Mas o primeiro estgio  fazer o vinho no-
efervescente. Estes -- ela apontou as garrafas encaixadas nas prateleiras
especiais -- so envelhecidos na superfcie por vrios meses, depois
misturados. Chamamos essa mistura de cuve, fermentao, na Frana, onde
se acredita que o processo teve origem. Somos gratos ao muito afortunado
monge Dom Prignon por fazer a descoberta e ser o primeiro, como
descreveu, a beber estrelas.
-- Se  s vinho, que  que faz o lquido borbulhar?
-- A segunda fermentao, que Dom Prignon descobriu no sculo XVII.
A resposta saiu fluida e treinada. As perguntas lanadas por grupos no
mais a assustavam nem a faziam lutar para encontrar respostas.
Vestindo um terninho primoroso e com saltos baixos, ela saiu da frente ao
falar para que o grupo desse uma olhada mais de perto no vinho das
prateleiras.
--A princpio, considerava-se isso um problema -- continuou. -- Vinho
engarrafado no outono, pipocando as rolhas, ou o que era naqueles dias
buchas de algodo, na primavera. Muito problemtico, sobretudo no distrito
de Champagne, na Frana. O monge beneditino, mestre de adega na Abadia
de Hautvillers, dedicou-se ao problema. Encomendou rolhas mais grossas,
mas isso fez com que as prprias garrafas se quebrassem. Determinado,
encomendou ento garrafas mais fortes. As rolhas e as garrafas resistiram
e o monge conseguiu provar o vinho refermentado. Foi o primeiro brinde com
champanhe.
Ela parou para dar ao grupo a oportunidade de circular pelas prateleiras.
Vozes ecoavam das adegas, e por isso ela esperou at se calarem.
-- Hoje... -- Ela sentiu uma pequena palpitao de ansiedade quando David se
juntou ao grupo. -- Hoje criamos champanhe com muita objetividade,
embora pelo melhor sigamos os mtodos tradicionais criados sculos atrs
naquela abadia francesa. Usando o mthode champenoise, o vinicultor
engarrafa os vinhos novos e os fermentados. Acrescenta-se uma pequena
quantidade de fermento e acar a cada garrafa, depois ela  tampada como
vocs vem aqui.
Ela pegou a garrafa de amostra para passar entre o grupo. O aditivo
desencadeia a segunda fermentao, que chamamos, mais uma vez em
francs, prise de mousse. As bolhas resultam da transformao do acar
em lcool. Tampadas, as bolhas no podem escapar no ar. Essas garrafas so
ento envelhecidas de dois a quatro anos.
-- Tem uma substncia viscosa aqui -- comentou algum.
-- A garrafa de amostra demonstra a sedimentao e a separao das
partculas. Trata-se de um processo natural durante esse segundo
envelhecimento e fermentao. As garrafas so armazenadas de gargalo
para baixo nestas prateleiras inclinadas, e retiradas e revolvidas todo dia,
durante meses.
-- Manualmente?
Pilar sorriu para a mulher e franziu as sobrancelhas em direo  parede de
garrafas.
-- . Como viram ao longo da visita, a Giambelli-MacMillan acredita que cada
garrafa de vinho oferecida ao consumidor exige a arte, a cincia e o
trabalho necessrios para merecer o rtulo. Esse processo giratrio 
chamado de revolvimento, ou em francs, remuage, e acelera a separao de
partculas para que em meses o vinho fique limpo. Quando fica, as garrafas
so colocadas de cabea para baixo, para manterem as partculas no gargalo.
-- Se bebem esse troo, no admira que morram.
Isso foi dito num sussurro, mas chegou a ela. Pilar retesou-se, sentiu o
ritmo quebrar-se, mas continuou em frente:
-- A tarefa do vinicultor  determinar quando o vinho alcanou o pico. Nesse
ponto, o gargalo da garrafa  congelado, numa soluo de salmoura. Assim, a
tampa pode ser retirada, no se perde vinho e o sedimento congelado 
expelido. Dgorgement, expulso, ou limpeza do vinho. A garrafa 
reenchida at a borda com mais vinho ou um pouco de la dosage, conhaque ou
acar para adocicar...
-- Ou um pouco de digitalina.
O ritmo dela falhou mais uma vez e vrias pessoas mudaram de posio, sem
graa. Apesar disso, ela fez que no com a cabea quando David avanou um
passo.
-- Durante todo o processo, como com qualquer vinho que exibe o nosso
rtulo, h inspees seguras e medidas de segurana. Quando se julga o
vinho espumante pronto, ele  arrolhado e embarcado para o mercado, para
que vocs o levem  mesa e comemorem.
"H maneiras mais baratas e menos trabalhosas de fazer champanhe, mas a
Giambelli-MacMillan acredita que tradio, qualidade e ateno ao detalhe
so essenciais para nossos vinhos."
Ela sorriu ao pegar de volta a garrafa de amostra.
-- No final da visita, vocs podero julgar por si mesmos, em nossa sala de
degustao.
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PILAR DEIXOU OS CONVIDADOS SE MISTURAREM NA SALA DE
degustao, desfrutarem as amostras de cortesia e respondeu a perguntas
individuais. Era, descobrira, muito parecido com um entretenimento. Para
isso, tinha jeito. Melhor ainda, fazia-a sentir-se no apenas parte da famlia,
mas parte da equipe.
-- Belo trabalho. David parou a seu lado.
-- Obrigada.
-- Apesar do amigo-urso,
-- No  o primeiro. Acho que compreendi o qu da coisa. Pelo menos minhas
palmas no suam mais. Eu continuo estudando. Algumas vezes, me sinto como
de volta  escola, me preparando paras provas, mas  agradvel. Ainda
preciso...
Interrompeu-se quando um homem na ponta do bar comeou a sufocar. Ele
agarrou a garganta e cambaleou para trs. Assim que Pilar se precipitou 
frente, ele desatou a rir alto.
O mesmo palhao, percebeu David, que fizera os comentrios maldosos na
adega. Antes que pudesse lidar com a situao, Pilar assumiu.
-- Com licena. --A voz dela foi um arrulho de polida preocupao. -- O vinho
no  do seu agrado?
Ele deu outra gargalhada, embora a mulher lhe apunhalasse o cotovelo,
furiosa, ao lado.
-- Pare com isso, Barry.
-- Ai, sem essa.  divertido.
-- O humor muitas vezes  subjetivo, no ? -- disse Pilar, agradvel. --
Claro que ns da Giambelli-MacMillan temos dificuldade em achar graa da
morte trgica de dois dos nossos, mas lhe agradeo por tentar animar o
clima. Talvez devesse tentar de novo, com nosso Merlot. -- Fez um sinal
para o barman. --  mais apropriado.
-- No, obrigado. -- Ele afagou a barriga. -- Sou mais de cerveja.
--  mesmo? Eu jamais teria adivinhado.
-- Voc  to grosso, Barry.
A mulher pegou a bolsa no bar e saiu fumegando pela porta.
-- Foi uma brincadeira ! Nossa. -- Suspendendo o cinto, ele saiu correndo
atrs dela. -- Ningum aceita uma brincadeira?
-- Bem, agora. -- Pilar voltou-se para o grupo. As pessoas arregalavam os
olhos ou fingiam olhar para outro lugar. -- Agora que j tivemos nosso
momento cmico, espero que tenham gostado do passeio. Estou aqui para
responder a quaisquer perguntas. Por favor, sintam-se livres para visitar
nossa loja de varejo, onde nossos vinhos, incluindo os que vocs provaram,
esto  venda. Ns, da Villa Giambelli, esperamos que tornem a nos visitar e
dem uma parada no lagar MacMillan, a apenas alguns minutos daqui, em
Napa Valley. Desejamos a todos buon viaggio, aonde os levarem suas viagens.
David esperou as pessoas comearem a se dispersar, tomou o brao de Pilar
e levou-a para fora.
-- Fui prematuro sobre o belo trabalho. Devia ter dito fabuloso. Trabalho
fabuloso. Embora me sentisse mais inclinado a dar uma garrafada com o
Merlot na cabea daquele idiota do que oferecer uma a ele.
-- Ah, eu dei. Mentalmente. -- Ela inspirou fundo e afastou-se da pedra
coberta de vinha do velho lagar. -- Recebemos algum como Barry uma ou
duas vezes por semana. Responder de maneira ofensivamente agradvel
parece funcionar melhor. Ajuda o fato de eu ser da famlia.
-- No apareci antes durante seus passeios. No queria que me julgasse
controlando voc. -- Ele ergueu as prolas dela e correu-as pelos dedos. -- A
senhora, Sra. Giambelli, tem um talento natural.
-- Sabe de uma coisa? Voc tem razo. -- Ela concordou, maravilhada
consigo mesma. -- Assim como tinha razo ao me empurrar para isso, pois
me d uma coisa tangvel para fazer.
-- Eu no a empurrei. O fato de ningum fazer isso  um dos seus segredos.
Voc decidiu h muito tempo viver sua vida de uma forma que fazia sentido
na poca. Os tempos mudaram. Eu abri uma porta, mas foi voc quem
entrou.
-- Muito interessante. -- Divertida com os dois, ela inclinou a cabea. -- No
sei se minha famlia concordaria com voc. Nem sei se eu concordo.
--  preciso ser resistente para se manter num casamento que no 
casamento, porque voc levou seus votos a srio. Teria sido mais fcil se
separar. Sei tudo sobre isso.
-- Est me dando crdito demais.
-- Acho que no, mas, se quer ser grata por eu ter lhe dado uma cutucada
nesse trabalho, eu aceito. Sobretudo -- ele acrescentou, subindo as mos
pelos braos dela -- se voc pensar numa forma de me pagar.
-- Posso pensar em alguma coisa. -- Ela entrelaou os dedos nos dele.
Flertar, pensou, ficava mais fcil com a prtica. Sem dvida, vinha gostando
das aulas. -- Que tal comear com um jantar?
-- Eu pensei numa pequena pousada.
-- Muito simptico.
Mas jantar numa pousada era namoro, e formal, por mais que gostassem da
companhia um do outro. Pilar procurava, compreendeu, uma coisa menor. E
uma coisa maior.
-- Mas eu pretendia preparar um jantar. Para voc e seus filhos.
-- Cozinhar? Para todos ns?
-- Sou uma cozinheira muito boa -- ela informou. -- E  raro ter uma cozinha
s para mim. Vocs tm uma tima. Mas se acha que seria inoportuno, ou se
seus filhos vo se sentir constrangidos com a idia, a pousada seria tima.
-- Cozinhar -- ele repetiu. -- Como no fogo. Com panelas. Ergueu-a do cho
para um beijo. -- Quando comemos?
Vamos ter uma refeio feita em casa esta noite. Pilar vai cozinhar.
No sei o que tem no menu, mas vocs vo gostar. Estejam em casa s seis.
At l, tentem fingir que so seres humanos e no os mutantes de quem eu
ganhei no jogo de pquer.
Amor, papai.
Maddy leu o bilhete preso na geladeira e fez uma careta. Por que
precisavam de companhia? Por que ela no tinha o direito de opinar sobre
quem vinha? Ser que ele achava mesmo que ela e Theo eram to dbeis
mentais que iam acreditar que uma mulher aparecia e remexia na cozinha de
um cara s para cozinhar?
Por favor.
Tudo bem, corrigiu-se. Talvez Theo fosse muito dbil mental, mas ela ia
consertar isso.
Pegando o bilhete, subiu correndo. Theo j estava no quarto, j no telefone,
j arruinando os tmpanos com a msica aos gritos. Ele no precisava ir 
cozinha abastecer-se depois da escola, ela pensou com uma fungada. Em
direta violao das regras da casa, mantinha comida ruim suficiente
estocada no quarto para alimentar um pas pequeno.
Enfiou essa informao no seu arquivo mental: vingar-se de Theo.
-- A Sra. Giambelli vai preparar o jantar.
-- Como? V embora. Estou no telefone.
-- No devia estar antes de fazer o dever de casa. A Sra. Giambelli vem
nos visitar; logo,  melhor voc descer. Ela pode contar ao papai que voc t
fodendo tudo de novo.
-- Sophia?
-- No, palerma.
-- Escute, ligo depois para voc. Minha irm est sendo uma peste, por isso
preciso mat-la. . Depois. -- Ele desligou e enfiou lascas de taco na boca.
-- Quem vem nos visitar, e para qu?
-- A mulher com quem papai est dormindo vai aparecer para preparar o
jantar.
-- Beleza, -- A voz de Theo se animou. -- Tipo no fogo?
-- No t sacando? -- Repugnada, ela brandiu o bilhete. --  uma ttica. Ela
est tentando forar a entrada.
-- Escute, qualquer uma que queira forar a entrada na cozinha, e que saiba
cozinhar de verdade,  legal para mim. Que  que ela vai fazer?
-- No importa o que ela vai fazer. Como voc pode ser to lento? Ela est
forando a situao pro prximo nvel. Cozinhar para ele, para ns. Mostrar
ao papai que grande e feliz famlia a gente pode ser.
-- Para mim tanto faz o que ela est fazendo. Corta essa, Maddy. Falo srio,
corta... essa. Papai tem direito a uma namorada.
-- Imbecil. No me importa que ele tenha dez namoradas. Que vamos fazer
se ele decidir que quer uma esposa?
Theo pensou e mastigou mais batatas.
-- No sei.
-- "No sei" -- ela o imitou com escrnio. -- Ela vai comear a mudar as
regras, a assumir o controle.  o que acontece. No vai dar a mnima para
gente. Somos apenas acessrios.
-- A Sra. Giambelli  legal.
-- Claro, agora.  carinhosa e boazinha. Mas, quando conseguir o que quer,
no vai ter de ser carinhosa, boazinha nem legal. Pode comear a dizer a
ns todos o que fazer e o que no fazer. Tudo vai ter de ser do jeito dela. --
Ela virou a cabea quando ouviu a porta da cozinha abrir-se. -- T vendo? Ela
simplesmente entrou direto. Esta  a nossa casa.
Maddy saiu pisando forte para o seu quarto e bateu a porta. Pretendia ficar
ali at o pai chegar.

DECIDIU DEIXAR A M-CRIAO POR UMA HORA. OUVIA A MSICA
l embaixo, os risos. Enfurecia-se com a risada exagerada do irmo. Traidor.
E a enfurecia ainda mais o fato de ningum ter subido para cham-la, nem
tentado conversar com ela para tir-la de seu mal humor.
Assim, mostraria a eles que no dava a mnima, de qualquer jeito.
Desceu de nariz empinado. Alguma coisa exalava um cheiro muito gostoso, e
isso era apenas mais um golpe contra Pilar na mente de Maddy. Ela estava
apenas se exibindo, s isso. Fazendo um jantar grandioso e especial.
Quando entrou na cozinha, teve de cerrar os dentes.  mesa, Theo socava o
teclado eltrico, enquanto Pilar mexia uma coisa no fogo.
-- Precisa acrescentar a letra -- disse Pilar.
Ele gostava de tocar sua msica para ela, que ouvia. Quando tocava alguma
coisa que a desagradava, ela dizia. Bem, de uma maneira legal, pensou Theo.
Esse tipo de coisa lhe dizia que prestava ateno, prestava ateno mesmo.
A me deles nunca prestara ateno. Alis, a quase nada que faziam.
-- No sou muito bom na parte da letra. S gosto de compor a melodia.
-- Ento precisa de um parceiro. -- Ela virou-se e largou a colher. -- Oi,
Maddy? Como est indo o ensaio?
-- Que ensaio? -- Maddy captou o assobio de advertncia de Theo, sem
saber se ficava furiosa ou agradecida com a desculpa que dera por ela. --
Oh, bem. -- Abriu a geladeira e demorou-se a escolher um refrigerante. --
Que  esta substncia viscosa e repelente aqui?
-- Depende. Tem substncia viscosa de queijo pro manicotti, igual ao
canelone, s que enrolado diagonalmente. A outra  uma marinada pro
antipasto. Seu pai me disse que vocs gostam de comida italiana, assim
imaginei que eu estava segura.
-- Eu no vou comer comida com altos nveis de carboidratos hoje.
Ela sabia que era maldade, e no precisava do olhar furioso de Theo para
dizer-lhe isso. Mas quando fez uma careta para ele pelas costas de Pilar, ele
no reagiu na mesma moeda como em geral fazia. Em vez disso, apenas olhou
para o outro lado, como se estivesse sem graa ou coisa parecida.
E doeu.
-- De qualquer modo, fiz planos para jantar na casa de uma amiga.
-- Oh, mas  uma grande pena! -- Descontrada, Pilar pegou uma tigela e
misturou o recheio do tiramisu, sobremesa tpica italiana que consiste em
camadas de po-de-l embebidas em caf e vinho Marsala. -- Seu pai no me
falou nada.
-- Ele no tem de falar tudo a voc.
Era o primeiro comentrio diretamente rude que a menina lhe fazia. Pilar
calculou que se haviam baixado as barreiras.
-- Com certeza no, e como voc tem quase quinze anos e idade suficiente
para saber o que gosta de comer, e onde... Theo, poderia dar um minuto de
licena a mim e a Maddy?
-- Claro. -- Ele pegou o teclado e disparou um olhar enojado  irm. -- Quem
 imbecil? -- resmungou em voz baixa ao passar por ela.
-- Que tal a gente se sentar?
Maddy sentiu o estmago embrulhado e a garganta quente.
-- Eu no desci para me sentar e conversar. S vim pegar uma bebida. Tenho
de terminar meu ensaio.
-- No tem ensaio nenhum, Maddy.
Ela sentou-se, esparramada, com uma expresso de desinteresse e
chateao no rosto. Pilar no tinha direito de passar-lhe sermo, e ela
pretendia deixar isso bem claro depois que a mulher tivesse desabafado.
Pilar serviu-se de uma meia xcara do caf expresso que fizera para o
tiramisu. Sentou-se  mesa defronte a Maddy e tomou um gole.
-- Preciso avisar que tenho uma vantagem, pois no s j fui uma menina de
catorze anos, mas tambm fui me de uma.
-- Voc no  minha me.
-- No, no sou. E  duro, no , uma mulher entrar na sua casa assim? Estou
tentando pensar em como me sentiria em relao a isso. Na certa, quase da
mesma maneira que voc. Aborrecida, nervosa, ressentida.  mais fcil para
Theo. Ele  menino e no sabe as coisas que ns sabemos.
Maddy abriu a boca e tornou a fech-la, quando percebeu que no sabia o
que responder.
-- Voc tem tomado conta desta casa. Seus homens no iam concordar e na
certa se sentiriam insultados por esta declarao -- acrescentou Pilar, e
gostou de ver a leve curva de sorriso forado nos lbios de Maddy. -- Mas a
fora feminina, uma fora feminina inteligente, em geral controla tudo. Voc
tem feito um bom trabalho mantendo esses caras na linha, e no estou aqui
para tirar seu controle.
-- Voc j est mudando tudo. As aes tm reaes.  cientfico. No sou
idiota.
-- No,  inteligente. -- Que menininha assustada, pensou Pilar, com a mente
de adulta. -- Eu sempre quis ser inteligente e nunca me senti o bastante.
Compensei isso, acho, sendo boa, ficando calada e mantendo a paz. Essas
aes tambm tiveram reaes.
-- Se a gente fica calada, ningum ouve.
-- Tem absoluta razo. Seu pai... ele me faz sentir inteligente e forte o
bastante para dizer o que penso, o que sinto.  uma coisa poderosa. Voc j
sabe disso.
Maddy olhou de cara feia para a mesa embaixo.
-- Acho que sim.
-- Eu admiro David, Maddy... o homem que ele , o pai que ele . Isso
tambm  poderoso. No espero que voc me estenda o tapete de boas-
vindas, mas tenho a esperana de que no tranque a porta na minha cara.
-- Por que se importa com o que eu fao?
-- Dois motivos. Primeiro, eu gosto de voc. Lamento, mas  verdade. Gosto
de sua independncia, sua mente e seu senso de lealdade familiar. Imagino
que, se eu no estivesse envolvida com seu pai, a gente se daria muito bem.
Mas estou envolvida com ele e tenho tirado de voc parte do tempo e da
ateno dele. Eu diria que lamento isso, mas ns duas saberamos que no
era verdade. Tambm quero parte do tempo e da ateno dele. Porque,
Maddy outro motivo de eu me importar com o que voc faz  que estou
apaixonada pelo seu pai. -- Pilar afastou a xcara e, apertando o estmago
com a mo, levantou-se. -- Eu no disse isso em voz alta antes. O hbito de
ficar calada, imagino. Cara.  estranho.
Maddy deslocou-se na cadeira. Sentava-se empertigada agora, reta como
uma vara. E seu prprio estmago embrulhava-se.
-- Minha me tambm amava meu pai. O bastante para se casar com ele.
-- Tenho certeza de que sim. Ela...
-- No! Voc vai dar todas as desculpas, todos os motivos. E  tudo papo
furado. Tudo. Quando deixou de ser exatamente como ela queria, ela nos
abandonou. Esta  a verdade. Ns no fomos importantes.
Seu primeiro instinto, sempre, era de confortar. Consolar. Poderia dizer
dezenas de coisas para alivi-la, mas essa menina de olhos midos e
desafiantes no as ouviria.
Por que deveria ?, decidiu Pilar.
-- No, voc tem razo. Vocs no foram importantes o bastante. -- Pilar
sentou-se de novo. Queria estender a mo, puxar a mocinha mais para perto.
Mas no era o caminho nem a hora. -- Sei o que  no ser importante o
bastante. Eu sei sim, Maddy -- enfatizou firmemente, pondo a mo na da
menina antes que ela pudesse afastar-se com um safano. -- Como isso nos
faz sentirmos tristes e furiosas, como as perguntas, as dvidas e os desejos
nos passam pela cabea no meio da noite.
-- Os adultos podem ir embora sempre que querem. As crianas, no.
--  verdade. Seu pai no foi embora. Voc era importante para ele. Voc e
Theo so o que h de mais importante para ele. Voc sabe que nada que eu
dissesse ou fizesse mudaria isso.
-- Outras coisas poderiam mudar. E quando uma coisa muda, outras tambm
mudam.  causa e efeito.
-- Bem, no posso prometer a voc que as coisas no vo mudar. Porque
mudam. Mas no momento seu pai me faz feliz. E eu o fao feliz. No quero
magoar voc por causa disso, Maddy. Posso prometer tentar com muito
afinco no magoar voc nem Theo. Respeitar o que vocs pensam e o que
sentem. Isso eu posso prometer.
-- Ele era meu pai primeiro -- disse Maddy, num furioso sussurro.
-- E vai ser seu pai no final. Sempre. Mesmo que eu quisesse mudar isso,
mesmo que por algum motivo eu quisesse arruinar isso, no poderia. No
sabe o quanto ele ama voc? Olhe para mim, Maddy. Olhe para mim -- ela
disse, tranqilamente, e esperou a menina erguer o olhar. -- Se  o que voc
quer tanto, poderia fazer seu pai escolher entre mim e voc. Eu no teria a
menor chance. Estou pedindo que me d uma. Se no puder, ento no pode,
eu invento uma desculpa, limpo todas essas coisas e saio daqui antes dele
chegar.
Maddy enxugou uma lgrima da face ao olhar para o outro lado da mesa.
-- Por qu?
-- Porque eu tambm no quero magoar ningum.
Maddy fungou e baixou os olhos com a testa franzida para a mesa.
-- Posso provar isso?
Pilar ergueu a sobrancelha para a xcara de caf expresso e deslizou-a em
silncio para Maddy. A menina cheirou-o primeiro e franziu o nariz, mas
ergueu a xcara e provou.
--  horrvel. Como algum pode tomar isto?
-- Um gosto adquirido, eu acho. Voc ia gostar mais no tiramisu.
-- Talvez. -- Maddy empurrou a xcara de volta pela mesa. -- Acho que vou
dar uma chance a isso.

S DE UMA COISA PILAR TINHA CERTEZA: NINGUM NUNCA
 tivera problema com sua culinria. Fazia muito tempo desde que ela mesma
preparara um jantar de famlia. Tempo suficiente para deix-la
escandalosamente feliz com os pedidos de segundas pores e os alegres
elogios entre as garfadas.
Usara a sala de jantar para a refeio, esperando que essa fina camada de
formalidade fosse menos ameaadora para Maddy. Mas a formalidade se
quebrara assim que Theo dera a primeira mordida no manicotti e anunciara-
o como "gororoba excelente".
Theo fora quem mais falara, com a irm olhando, digerindo e de vez em
quando alfinetando com uma pergunta aguada. Levara-a a rir e depois a
enternecera quando David usara uma metfora engraada para ilustrar uma
opinio, e ela e Maddy trocaram uma brincadeira sobre a mente masculina.
-- Papai jogava beisebol na faculdade -- disse Maddy.
--  mesmo? Outro talento escondido. Voc era bom?
-- Fantstico. Primeira base.
-- E, e se preocupava tanto com a mdia de rebate que nunca passou da
primeira base com as meninas -- gozou Theo e se desviou facilmente do tapa
de David.
-- Vocs no sabem de nada. Eu era um sucesso... -- David interrompeu. --
Seja como for meu jogo, estou na berlinda. Por isso, vou apenas dizer que
foi uma refeio impressionante. Em meu nome e dos meus dois glutes,
agradeo a voc.
-- Disponha sempre, mas, em nome dos seus dois glutes, eu gostaria de
salientar que foi voc quem mais comeu.
-- Eu tenho um metabolismo rpido -- ele afirmou, quando Pilar se levantou.
--  o que todos dizem.
-- Ah, no. -- Ele ps a mo na dela antes que ela pudesse retirar os pratos.
-- Regra da casa. Quem cozinha no tira a mesa.
-- Entendo. Bem,  uma regra que eu apoio. -- Ela ergueu o prato e entregou-
lhe. -- Divirta-se.
-- Outra regra da casa -- ele disse, acima da gritaria da risada de Theo. --
O pai tem de delegar. Theo e Maddy tero o maior prazer de lavar os
pratos.
-- At parece. -- Maddy exalou um suspiro alto. -- Que  que voc tem de
fazer?
-- Tenho de queimar parte dessa excelente refeio levando a cozinheira-
chefe para uma caminhada. -- Tentando testar os filhos, ele curvou-se e
beijou Pilar apaixonadamente. -- Isto serve para voc?
-- E difcil me queixar. -- Ela o acompanhou, satisfeita por sair na noite
primaveril. --  muita baguna para deixar dois adolescentes limparem.
-- Forma o carter. Alm disso, dar tempo a eles para conversarem sobre
como eu seduzi voc para uma sesso de namoro.
-- Oh. Eu fui seduzida?
-- Claro, espero que sim. -- Ele virou-a em seus braos, puxando-a mais para
junto de si, quando ela ergueu a boca para a dele. Uma longa e vagarosa
emoo o percorreu pelo jeito como ela suspirou encostada nele. O jeito
como se encaixava. -- No tivemos muito tempo para ficar juntos nos
ltimos dias.
-- Est difcil. Tanta coisa acontecendo. -- Contente por enquanto, ela
apoiou a cabea no ombro dele. -- Sei que tenho pairado em volta de Sophie.
No posso evitar. Pensar nela sendo atacada, em nossa prpria casa. Saber
que algum entrou e saiu do quarto dela, do meu e da minha me... Eu me
peguei na cama  noite ouvindo barulhos como nunca me ocorreu antes.
-- Eu olho pela janela algumas noites, do outro lado dos campos, e vejo sua
luz. Quero lhe dizer que no se preocupe, mas at se resolver isso, voc vai
continuar preocupada. Todos ns.
-- Se serve de ajuda, eu me sinto melhor quando olho pela minha janela e
vejo luz na sua.  um alvio saber que est to perto.
-- Pilar.
Ele afastou-a e baixou a testa at a dela.
-- Que foi?
-- H alguns problemas nos escritrios italianos. Algumas discrepncias nos
nmeros vieram  tona durante a auditoria. Talvez eu tenha de ir para l por
alguns dias. No me agrada partir agora.
Ele desviou o olhar por cima dela a casa com as luzes brilhantes na janela da
cozinha.
-- As crianas podem ficar na villa enquanto estiver fora. Cuidaremos delas,
David. No precisa se preocupar.
-- No. -- Tereza j tinha decretado que meus filhos seriam hspedes da
villa durante a viagem. Mas, mesmo assim, me preocuparia com eles. Com
todos. -- Tambm no me agrada deixar voc. Venha comigo.
-- Oh, David. -- Ela sentiu uma onda de excitao com a idia. A primavera
italiana, as noites aprazveis, um amante. Que maravilha sua vida tomar esse
rumo, saber que tais coisas fossem possveis! -- Eu adoraria, mas no vai
dar. No me sentiria bem deixando minha me logo nesse momento. E voc ia
fazer o que tem de fazer mais rpido e mais fcil se soubesse que eu estava
aqui com seus filhos,
-- Voc tem de ser prtica?
-- No quero ser -- ela disse, em voz baixa. -- Adoraria dizer sim,
simplesmente fugir. -- Sentindo-se jovem, tola e intensamente feliz,
rodopiou num crculo. -- Fazer amor com voc numa daquelas imensas camas
do castello, escapulir por uma noite para Veneza e danar na piazza, roubar
beijos nas sombras das pontes. Quero que me convide de novo. -- Ela girou
de volta para ele. -- Quando tudo isso acabar, me convide de novo. Eu irei.
Alguma coisa estava diferente. Alguma coisa... mais livre nela, ele percebeu.
Isso s a tornava mais atraente.
-- Que tal convidar agora? Venha comigo a Veneza quando isso acabar.
-- Vou. -- Ela estendeu as mos e agarrou as dele. -- Eu amo voc, David.
Ele ficou completamente imvel.
-- Que foi que voc disse?
-- Estou apaixonada por voc. Lamento,  grande demais, rpido demais, mas
no posso impedir. No quero impedir.
-- No pedi explicaes, apenas que voc repetisse o que disse. Isso vem
bem a calhar.  muito conveniente. -- Ele puxou-a para a frente e, quando
ela comeou a derramar-se em seus braos, ergueu-a e girou-a num crculo.
-- Calculei mal. Pelos meus clculos astutos, iam passar, no mnimo, mais dois
meses at eu conseguir fazer voc se apaixonar por mim -- Ele correu os
lbios pela face dela. -- Foi duro para mim, porque eu j estava apaixonado
por voc. Devia ter sabido que voc no ia me deixar sofrendo por tanto
tempo.
Ela colou a face na dele. Podia amar. O corao animava-se com a alegria
disso. E ser amada.
-- Que foi que disse?
-- Vou parafrasear. -- Afastou-a mais uma vez. -- Eu amo voc, Pilar. Uma
olhada em voc. Uma nica olhada e comecei a acreditar em uma segunda
chance. -- Tornou a pux-la para junto de si e, dessa vez, tinha os lbios
suaves. -- Voc  minha.

Captulo Vinte e Dois
Veneza era como uma mulher, la bella donna, elegante na idade, sensual nas
curvas aquticas e misteriosa nas sombras. A primeira viso da cidade,
erguendo-se acima do Grande Canal com as cores esmaecidas e desbotadas
dos velhos vestidos de baile, falava ao sangue. A luz, um sol branco e
transbordante, estendia-se sobre ela e perdia-se como um errante em suas
veias e voltas secretas.
Ali estava uma cidade de corao feminino, cujo pulso batia nos rios
profundos, escuros.
Veneza no era uma cidade para se desperdiar em reunies com advogados
e contadores. No era uma cidade onde o homem se satisfazia fechado num
escritrio, hora aps hora, enquanto a doce seduo da primavera cantava
do lado de fora de sua priso de pedra e vidro.
A lembrana de que Veneza fora construda em torno do comrcio no
animava o estado de esprito de David. Saber que as ruas e pontes curvas
se abarrotavam agora de turistas que torravam os cartes Visa nas
infindveis lojas, onde o cafona era muitas vezes confundido com arte, no o
impedia de querer estar entre eles.
No o impedia de desejar passear por aquelas antigas ruas com Pilar e
comprar para ela alguma bugiganga ridcula da qual ririam durante anos.
Teria adorado isso. Adorado ver Theo sorver um gelato como gua, ouvir
Maddy interrogar um infeliz gondoleiro sobre a histria e arquitetura dos
canais.
Sentia falta da famlia. Sentia falta da amante. E ainda no se haviam
passado nem sessenta e oito horas.
O contador arengava num italiano e numa voz sussurrada muito difcil de
entender mesmo quando se prestava toda a ateno. David lembrou que no
o haviam mandado a Veneza para sonhar acordado, mas para fazer um
trabalho.
-- Scusi. -- Ele ergueu a mo e passou outra pgina de um relatrio com mais
de dois centmetros de grossura. -- Gostaria de repassar mais uma vez esta
rea. -- Falou devagar, deliberadamente, tropeando um pouco no italiano. --
Quero ter certeza de que entendi claramente.
Como esperava, a ttica acertou em cheio as maneiras italianas. A nova
seo de nmeros foi explicada com pacincia.
-- Os nmeros -- disse o italiano, mudando para o ingls, por compaixo --
no batem.
-- , eu entendo. No batem em muitas despesas de departamento. De ponta
a ponta. O que me estarrece, signore, mas o que mais me estarrece so as
atividades atribudas  conta Cardianili. Pedidos, carregamentos, quebras,
salrios, despesas. Tudo registrado com muita clareza.
-- Si. Nessa rea no h... como se diz? Discrepncia. Os nmeros esto
corretos.
-- Parece que sim. Mas no h nenhuma conta Cardianili. Nenhum cliente ou
consumidor com este nome. Nem depsito Cardianili em Roma, no endereo
registrado nos arquivos. Se no h consumidor, cliente, depsito, para onde
o senhjor imagina que se enviaram, nos ltimos trs anos, esses pedidos?
O contador piscou os olhos por trs das lentes dos culos com aros de
metal.
-- Eu no saberia dizer. H um erro.
-- Claro. H um erro. -- E David acreditava saber quem o cometera. Girou
na cadeira e dirigiu-se ao advogado. -- Signore, teve a oportunidade de
examinar os documentos que entreguei ontem?
-- Tive.
-- E o nome do executivo responsvel por essa conta?
-- Est relacionado como Anthony Avano.
-- E as faturas, os vales de despesas e a correspondncia referentes 
conta eram assinados por Anthony Avano?
-- Eram. At dezembro do ano passado, a assinatura dele aparece em
grande parte da documentao. Depois dessa poca, a assinatura no arquivo
 de Margaret Bowers.
-- Vamos precisar conferir a autenticidade dessas assinaturas.
-- Entendo.
-- E qual delas aprovava e encomendava os carregamentos, as despesas, e
autorizava os pagamentos da conta. Donato Giambelli?
-- Signore Cutter, eu vou mandar verificar as assinaturas, examinar esta
questo do ponto de vista legal e orientar o senhor sobre sua posio e
recurso. Farei isso -- acrescentou -- quando tiver a permisso da prpria
Signora Giambelli. Trata-se de uma questo delicada.
-- Entendo, e foi por isso que Donato Giambelli no foi informado sobre esta
reunio. Confio na discrio de vocs, signori. As Giambelli no desejam mais
escndalos pblicos, nem como empresa nem como famlia. Poderiam me dar
um momento, por favor, para entrar em contato com La Signora na
Califrnia e relatar a ela o que acabamos de conversar?

ERA SEMPRE TRAIOEIRO PARA UM ESTRANHO QUESTIONAR A
integridade e a honestidade de algum do ncleo. David no era italiano,
nem Giambelli. Dois golpes. O fato de que fora trazido para a organizao
apenas quatro meses antes era o terceiro.
Ele iria enfrentar Donato Giambelli como algum j fora de sua lista de
candidatos. Havia dois meios, em sua opinio, de lidar com a situao. Ser
agressivo e dar a tacada. Ou esperar, com o basto no ombro, o lanamento
perfeito.
De volta s metforas esportivas, pensou, parado diante da janela do
escritrio, mos nos bolsos, vendo o trfego aqutico fluir. Muito
apropriado. Que eram os negcios seno outro jogo? Exigiam-se habilidade,
estratgia e sorte.
Donato imaginaria que tinha a vantagem do prprio campo. Mas, assim que
entrasse no escritrio, estaria na praia de David, que pretendia deixar isso
bem claro.
O telefone interno do escritrio zumbiu.
-- O Signore Giambelli est aqui para v-lo, Signore Cutter.
-- Obrigado. Diga que j vou ter com ele.
Deixe-o esperar apenas um pouco, decidiu David. Se a comunicao boca a
boca ali se espalhava to rpido quanto na maioria das empresas, Don j
sabia que se realizara uma reunio. Contadores, advogados, perguntas,
arquivos. E ele se perguntaria, se preocuparia.
Teria, se fosse inteligente, alguma explicao razovel  mo. Respostas em
linha, o cara em seu lugar. A jogada mais esperta seria fria, indignao. E
dependeria muito da lealdade de famlia, do fluxo de sangue, para ajud-lo a
atravessar a crise.
David encaminhou-se para a porta, abriu-a e viu Donato andando de um lado
para outro na ante-sala.
-- Don, obrigado por vir. Desculpe deixar voc esperando.
-- Voc fez parecer importante, por isso vim logo. -- Don entrou no
escritrio e varreu-o com os olhos. Relaxou um pouco quando o encontrou
vazio. -- Se eu tivesse sido informado antes de tomar as providncias para
sua viagem, teria liberado minha agenda para poder lhe mostrar Veneza.
-- As providncias foram tomadas muito rapidamente, mas j visitei Veneza
antes. Estou louco  para conhecer o castello e os vinhedos. Sente-se.
-- Se me disser quando planeja ir, darei um jeito de acompanh-lo. Vou
sempre l, para me certificar de que est tudo nos conformes. -- Sentou-se
e cruzou as mos. -- Agora, que posso fazer por voc?
Dar a tacada, decidiu David, e ocupou seu lugar atrs da sua mesa.
-- Poderia explicar a conta Cardianili.
Don ficou com o rosto branco. Disparando os olhos de um lado para outro,
conseguiu dar um sorriso perplexo.
-- No entendo.
-- Nem eu -- disse David, rindo. -- Por isso  que estou pedindo que
explique.
-- Ah, bem, David. Voc d  minha memria crdito demais. No me lembro
de cada conta, nem dos detalhes. Se me der tempo para abrir os arquivos e
a informao...
-- Oh, j tenho tudo. -- David tocou com o dedo a pasta sobre a mesa. No
muito inteligente, decidiu, surpreso. Nem preparado.
-- Sua assinatura aparece em muitos vales de despesas, correspondncias e
outras papeladas pertencentes a essa conta.
-- Minha assinatura aparece em muitos documentos desse tipo de contas. --
Don comeava a suar, clara e visivelmente. -- No posso me lembrar de
todas.
-- Esta devia ressaltar. Pois no existe. No existe nenhuma conta
Cardianili, Donato. H uma considervel papelada gerada para ela, muito
dinheiro envolvido. Faturas e despesas, mas nenhuma conta. Ningum com
esse nome... -- Fez uma pausa, abriu a pasta e retirou uma folha de papel
timbrado da Giambelli. -- Giorgio Cardianili, com quem voc parece ter se
correspondido vrias vezes nos ltimos anos. Ele no existe, nem o depsito
com um endereo em Roma ao qual se relacionou o embarque de vrios
carregamentos de vinho. Esse depsito, para onde voc,  custa da empresa,
viajou a negcios duas vezes nos ltimos oito meses, no est l. Como
explicaria isso?
-- Eu no entendo. -- Donato levantou-se de um salto. Mas no parecia
indignado. Parecia apavorado. -- De que est me acusando?
-- No momento, de nada. Estou pedindo que me explique esse arquivo.
-- No tenho explicao. Desconheo esse arquivo, essa conta.
-- Ento como a sua assinatura aparece neles? Como  que cobrou em sua
conta de despesas mais de dez milhes de liras em relao a essa conta?
-- Um engano. -- Donato umedeceu os lbios. Pegou o papel timbrado do
arquivo. -- Uma falsificao. Algum me usou para roubar dinheiro de La
Signora, da minha famlia. Mia famiglia -- repetiu, em italiano, batendo com
a mo trmula no corao. -- Vou examinar isso imediatamente.
No, nada inteligente mesmo, decidiu David. Nem perto.
-- Tem quarenta e oito horas.
-- Voc ousaria? Ousaria me dar um ultimato desses, quando algum est
roubando a famlia?
-- O ultimato, como voc chama, vem de La Signora. Ela exige sua explicao
em dois dias. Enquanto isso, toda a atividade nessa conta fica bloqueada.
Daqui a dois dias, toda a documentao gerada por essa questo deve ser
apresentada  polcia.
-- A polcia? -- Don ficou branco. Com a compostura em frangalhos, as mos
comearam a tremer e a voz a tropear. -- Isso  ridculo. Trata-se
obviamente de algum tipo de problema interno. No queremos uma
investigao de fora, a publicidade...
-- La Signora quer resultados. Custe o que custar.
Don fez ento uma pausa, esforando-se para pensar, encontrar uma corda
balanando sobre o buraco em que to de repente se viu caindo.
-- Com Tony Avano como executivo da conta,  fcil ver a origem do
problema
-- De fato. Mas no identifiquei Avano como o executivo da conta.
--  natural que eu tenha assumido... -- Don esfregou as costas da mo na
boca. -- Uma conta importante.
-- Eu no qualifiquei Cardianili como importante. Aceite os dois dias -- disse
David, tranqilo. -- E aceite meu conselho. Pense em sua mulher e filhos. 
mais provvel que La Signora mostre compaixo se voc enfrentar a
responsabilidade pelo que tem sido feito, e pela sua famlia.
-- No me diga o que fazer com a minha famlia, nem com a minha posio.
Trabalhei com a Giambelli toda a vida. Sou Giambelli. E serei por muito
tempo depois que voc se for. Eu quero esse arquivo.
-- Voc ter de bom grado o arquivo. -- David ignorou a mo imperiosa e
estendida e fechou a pasta. -- Em quarenta e oito horas.

INTRIGAVA DAVID O FATO DE DONATO GIAMBELLI ESTAR TO
despreparado, to perdido. Inocente, no, pensou, enquanto atravessava
a Praa So Marcos. Donato enfiara a mo na sujeira at o cotovelo. Mas
no arquitetara o golpe. No dirigira o espetculo, Avano talvez. Muito
possivelmente, embora o volume escumado sob seu nome fosse um
insignificante dinheiro de bolso perto do que Donato amealhara. E Avano
morrera quatro meses antes. Os detetives encarregados do homicdio na
certa se interessariam pela nova informao. E quanto dessa sombria luz se
refletiria em Pilar?
Praguejando baixinho, ele dirigiu-se a uma das mesas que invadiam a calada.
Sentou-se e, durante algum tempo, ficou apenas olhando os turistas
aflurem do outro lado do calamento de pedras, entrando e saindo da
catedral. Entrando e saindo das lojas que se enfileiravam na praa.
 Avano vinha espoliando a empresa, pensou. Era um dado concreto e j
conhecido. Mas o que David agora trazia na pasta levava tudo a outro nvel.
Donato elevara tudo a uma fraude.
E Margaret? Nada indicava que ela tivera conhecimento, ou participao, em
qualquer espoliao antes de ser promovida. Trocara de lado to rpido? Ou
soubera da conta falsa e esse conhecimento a conduzira  morte?
Qualquer que fosse a explicao, no respondia  mais espinhosa das
perguntas: quem assumira o comando agora? A quem Donato, a essa altura
tomado de pnico, ligava, com certeza, em busca de instrues, de ajuda?
Algum acreditaria, com a mesma facilidade com que acreditara Donato, que
La Signora pretendia levar a questo  polcia? Ou algum de sangue-frio
pagaria para ver?
De qualquer modo, dali a dois dias Donato Giambelli seria posto para fora. O
que acrescentava uma nova camada  dor de cabea de David. Don teria de
ser substitudo, e rpido. A investigao interna teria de continuar at se
taparem todos os vazamentos.
Seu prprio tempo na Itlia seria provavelmente estendido, e logo nesse
momento da vida em que desejava e precisava estar em casa.
Pediu uma taa de vinho, conferiu as horas no relgio de pulso e pegou o
celular.
-- Maria? Aqui  David Cutter. Pilar pode atender?
-- Um momento, Sr. Cutter.
Ele tentou imaginar onde ela se achava na casa e o que fazia.
Na ltima noite que haviam passado juntos, fizeram amor no furgo,  beira
do vinhedo. Como um casal de adolescentes eufricos, ele lembrou. To
desejosos um pelo outro, to desesperados para se tocarem.
E a lembrana provocou uma dolorosa saudade.
Era mais fcil, descobriu, imagin-la sentada  sua frente, e a luz,
enfraquecendo para os lados do crepsculo, atingindo a cpula da catedral
como uma flecha, o ar enchia-se do alvoroo dos pombos em pleno vo.
Quando tudo isso terminasse, prometeu a si mesmo, teria esse momento
com ela.
-- David?
O fato de ela estar um pouco ofegante levou-o a sorrir. Devia ter corrido
para atender ao telefone.
-- Estou apenas sentado aqui, na Praa So Marcos. -- Pegou a taa de vinho
que o garom trouxera e tomou um gole. -- Bebendo um interessante
chiantizinho e pensando em voc.
-- Tem msica? -- Uma pequena orquestra do outro lado da praa, tocando
melodias de espetculos americanos. Meio que estraga o momento.
-- De jeito nenhum. Para mim, no.
-- Como esto os garotos?
-- timos. Na verdade, acho que Maddy e eu estamos cautelosamente
beirando a amizade. Ela foi  estufa ontem aps a escola. Eu tive uma aula
de fotossntese, grande parte da qual ultrapassou a minha compreenso.
Theo rompeu com a menina com quem vinha saindo.
-- Julie?
-- Julie foi no ltimo inverno, David. Precisa se manter atualizado. Carrie.
Ele e Carrie romperam, e Theo ficou deprimido durante uns dez minutos.
Jurou que no quer saber mais de meninas e pretende dedicar a vida 
msica.
-- J ouvi essa. Deve durar talvez um dia.
-- Eu te conto depois. Como est tudo a?
-- Melhor agora, por conversar com voc. Pode dizer aos dois que vou ligar 
noite para eles? Por volta das seis, no horrio de vocs.
-- Tudo bem. Acho que voc ainda no sabe quando poder voltar, sabe?
-- Ainda no. Surgiram algumas complicaes. Saudade de voc, Pilar.
-- Tambm sinto saudade de voc. Pode me fazer um favor?
-- J fiz.
-- S fique sentado a algum tempo. Tome seu vinho, oua a msica, veja a
luz mudar. Vou pensar em voc a.
-- Tambm vou pensar em voc a. Tchau.
Quando ele desligou, perdeu tempo com o vinho. Fora uma experincia e
tanto falar assim com uma mulher -- com ela -- sobre os filhos. Com algum
que os entendia, que os apreciava. Isso os ligava de tal maneira que quase os
tornava uma famlia. E era, percebeu, o que queria. Queria mais uma vez uma
famlia. Todos os elos que formavam o crculo.
Com a respirao instvel, largou o vinho. Queria uma mulher. Queria que
Pilar fosse sua mulher.
Rpido demais?, perguntou-se. Excessivo?
No. No, no era. De qualquer modo que via, parecia exatamente o certo.
Eram adultos com metade da vida atrs. Por que deveriam desperdiar o
resto avanando devagar e aos poucos, por estgios?
Levantou-se e jogou algumas liras na mesa.
Por que desperdiar mais um minuto? Que melhor lugar para comprar um
anel para a mulher a quem amava seno Veneza? Quando se voltou, a
primeira vitrina que lhe atraiu o olhar foi a de uma joalheria, e considerou-a
um sinal.
No era to fcil quanto imaginava que seria. No queria diamante. Ocorreu-
lhe que Avano na certa lhe dera um, e descobriu em si mesmo uma profunda
e arraigada averso por dar a Pilar qualquer coisa que Avano dera.
Queria uma coisa que falasse aos dois, uma coisa que mostrasse a ela como a
entendia de um modo que ningum mais entendera Nem poderia.
Competitivo, imaginou ao entrar em outra loja. E da?
Subiu as escadas da Ponte de Rialto, apinhada, onde as lojas se enfiavam
lado a lado naquela elevao acima da gua. Compradores vidos
acotovelavam-se e abriam caminlio empurrando uns aos outros como se o
ltimo suvenir fosse apanhado antes que pudessem compr-lo.
Passou aos trancos pelos estandes que ofereciam artigos de couro,
camisetas, bugigangas e tentou concentrar-se nas vitrinas das lojas. Cada
uma transbordava como rios de ouro e pedras preciosas. Uma ofuscao que
confundia os olhos. Desanimado, chateado e cansado da longa caminhada,
quase deu por encerrada a noite. Podia esperar e pedir  sua secretria em
Veneza uma recomendao. Ento se virou e examinou mais uma vitrina. E
viu-o. O anel era incrustado com cinco pedras, todas em delicada forma de
corao, formando um suave arranjo de cores. Como as flores dela, pensou.
Cinco pedras, ele pensou, ao chegar mais perto. Uma para cada um dos dois,
e uma para cada um dos seus filhos. Imaginou que a azul era safira, a
vermelha, rubi, e a verde, esmeralda. No sabia o que eram as pedras roxa e
dourada. Que importncia tinha? Era perfeito.
Trinta minutos depois, saiu da loja. Tinha a descrio do anel -- ametista e
citrino-topzio para as duas ltimas pedras, lembrou a si mesmo. Tambm
tinha o anel enfiado no bolso. Mandara grav-lo com a data que comprara.
Queria que ela soubesse, sempre, que o encontrara ao cair da noite em que
se sentara na Praa de So Marcos, enquanto a luz se suavizava,
conversando com ela.
Caminhava com passos mais leves do que quando deixara a ponte.
Perambulava agora sem pressa pelas ruas, proporcionando-se a delcia de um
passeio a esmo. A multido diminua com o cair da noite e tornava os canais
de um preto brilhante. De vez em quando ele ouvia o eco de suas prprias
passadas na lambida de gua esparramada contra uma ponte.
Decidiu no voltar para o apartamento, mas mergulhar sob o toldo de uma
trattoria. Se voltasse, iria trabalhar e estragar o prazer, a antecipao da
noite. Pediu linguado e meia garrafa do vinho branco da casa.
Demorou-se saboreando a refeio, sorrindo, sentimental, para um casal em
bvia lua de mel, divertindo-se com um menino pequeno que escapara dos
pais para encantar os garons. Era, imaginou, a tpica reao de um homem
apaixonado o fato de achar todos e tudo um simples deleite.
Demorou-se em torno do caf e pensou no que diria, e como diria, quando
oferecesse o anel a Pilar.
A maioria das praas j se esvaziara quando voltou ao outro lado da cidade.
As lojas haviam fechado as portas e os camels das caladas embalado seus
produtos muito tempo atrs.
De vez em quando, via o pequeno facho de luz de uma gndola levando
turistas por um canal lateral, ou ouvia uma voz elevar-se e ondular acima da
gua, mas na maior parte estava -- afinal -- sozinho na cidade.
Satisfeito consigo mesmo, seguiu sem pressa, fazendo a digesto na
caminhada e deixou drenar-se o estresse do dia, absorvendo Veneza aps o
cair da noite.
Atravessou outra ponte, caminhou pelas sombras de outra rua tortuosa.
Ergueu os olhos quando uma luz se derramou de uma janela acima e sorriu ao
ver uma jovem estendendo a roupa lavada que ondulava levemente na brisa.
A moa tinha os cabelos castanhos e soltos na altura dos ombros. Braos
longos e finos, com um claro dourado no pulso. Cantava, e a alegre
sonoridade de sua voz ressoava na rua vazia.
O momento gravou-se na mente dele.
A mulher de cabelos escuros que estendia tarde a roupa lavada do dia, e
apesar disso cantava, o cheiro do jantar dela que flutuava at embaixo. Ela
captou o olhar dele e riu, um som cheio de diverso e flerte.
David parou e virou-se, pretendendo lanar-lhe uma saudao. E, ao fazer
isso, salvou sua prpria vida.
Sentiu a dor, um repentino e horrendo fogo no ombro. Ouviu, fracamente,
uma espcie de exploso amortecida no momento em que o rosto da mulher
se embaava.
Ento j caa, caa devagar e continuamente aos rudos de grilos e ps que
corriam, at jazer, sangrando e inconsciente, nas frias pedras da rua
veneziana.
                                   + + +

NO FICOU INCONSCIENTE POR MUITO TEMPO. POR UM MOMENTO,
o mundo pareceu inundado de vermelho e, no meio daquela nvoa fosca,
vozes diversas elevavam-se e baixavam. O italiano deslizava
incompreensivelmente por sua mente entorpecida.
Sentia mais calor que dor, como se algum o segurasse acima das chamas de
uma fogueira. E pensou, com muita clareza: fui baleado.
Algum o cutucou, sacudiu-lhe o corpo de modo que despertou a dor e varou
o fogo como uma espada de prata. Ele tentou falar, protestar, defender-se,
mas conseguiu apenas pouco mais que um gemido quando sua viso escureceu.
Ao tornar a clarear, ele se viu fitando de baixo o rosto da jovem que vira
estendendo a roupa lavada.
-- Voc deve ter trabalhado at tarde da noite.
As palavras vieram-lhe claras  mente e ininteligveis aos lbios.
-- Signore, per piacere. Sta zitto. Riposta. L'aiuto sta venendo. Ele escutou
solenemente, traduzindo o italiano to devagar e compenetrado como um
aluno do primeiro ano. Ela queria que ele se calasse, repousasse. Simptico
da parte dela, pensou fracamente. A ajuda estava chegando. Ajuda para
qu?
Oh, certo. Fora baleado.
David disse-lhe, primeiro em ingls e depois em italiano:
-- Preciso ligar para os meus filhos. Preciso dizer a eles que estou bem.
Voc tem um telefone?
E com a cabea embalada no colo dela, mais uma vez desfaleceu.

--  UM CARA DE MUITA SORTE, SR. CUTTER.
David tentava concentrar-se no rosto do homem. Quaisquer que fossem as
drogas que os mdicos haviam injetado nele eram pesadas, No sentia dor
alguma, mas porque fora pressionado a no sentir nada.
E difcil concordar com voc no momento. Sinto muito, esqueci seu nome.
-- DeMarco. Sou o tenente DeMarco. Seu mdico disse que precisa de
repouso, claro. Mas tenho algumas perguntas. Pode me dizer o que lembra?
Ele se lembrava de uma bonita jovem estendendo a roupa lavada, e que as
luzes cintilavam na gua, nas pedras.
-- Eu vinha andando -- comeou e esforou-se para sentar-se. -- O anel de
Pilar. Tinha acabado de comprar um anel.
-- Est comigo. Acalme-se. O anel, a carteira e o relgio. Estaro seguros.
A polcia, lembrou David. Pessoas chamavam a polcia quando algum era
baleado na rua. Esse parecia um policial, no to elegante quanto o detetive
em So Francisco. Era meio atarracado, meio careca. Compensava as duas
coisas com um exuberante bigode preto que escorria pelo lbio superior.
Falava um ingls preciso e correto.
-- Eu voltava a p para o meu apartamento, passeando um pouco. Tinha feito
uma compra, o anel, depois do trabalho. E jantei. Era uma noite agradvel e
eu tinha ficado trancado o dia todo no escritrio. Vi uma jovem numa janela.
Ela torcia a roupa lavada. Formava uma imagem e tanto. Cantava. Parei e
olhei para cima. Ento desabei na rua. Ca... -- Com cuidado, ergueu o brao
at o ombro. -- Eu soube que tinha sido baleado.
-- J foi baleado antes?
-- No. -- David fez uma careta. -- Foi exatamente como se imagina que
seria. Devo ter desmaiado. A mulher estava comigo quando voltei a mim.
Acho que ela desceu correndo, quando viu o que aconteceu.
-- E o senhor viu quem atirou?
-- S vi as pedras da calada se aproximando a toda de mim.
-- Por que acha, Sr. Cutter, que algum atiraria no senhor?
-- Eu no sei. Assalto, imagino.
-- Mas seus objetos de valor no foram roubados. Qual  seu ramo de
negcios em Veneza?
-- Sou o COO da Giambelli-MacMillan. Tive reunies.
-- Ah. O senhor trabalha para La Signora.
-- Trabalho.
-- La Signora teve alguns problemas, no, nos Estados Unidos?
-- Teve, mas no vejo o que isso tem a ver com a agresso a mim em Veneza.
Preciso ligar para os meus filhos,
-- Sim, sim, isso ser providenciado. Conhece algum em Veneza que
poderia desejar o senhor ferido, Sr. Cutter?
-- No, -- Assim que negou, David pensou em Donato. -- No -- repetiu. --
No conheo ningum que me balearia na rua. Disse que tinha meus objetos
de valor, tenente. O anel que comprei, minha carteira e meu relgio. Minha
pasta.
-- No encontramos nenhuma pasta. -- DeMarco recostou-se. A mulher que
testemunhou o disparo afirmara que a vtima levava uma pasta. Descrevera-
a muito bem. -- Qual o contedo dessa pasta?
-- Papelada de escritrio -- respondeu David. --Apenas documentos.

ERA DIFCIL, PENSOU TEREZA, RESISTIR A TANTOS GOLPES. SOB
ataques assim to constantes, seu nimo comeava a esmorecer. Ela
mantinha a postura ereta ao entrar com Eli no salo da famlia. Sabia que as
crianas estavam l,  espera do telefonema do pai.
Inocncia, pensou, vendo Maddy refestelada no sof com o nariz enfiado
num livro, Theo socando o piano. Por que se tinha de roubar a inocncia
dessa forma e to rapidamente?
Deu um aperto no brao de Eli. Para tranqiliz-lo e preparar-se, e depois
avanou sala adentro.
Pilar ergueu os olhos do trabalho de agulha. Um olhar para a me e o corao
dela congelou-se. O bordado deslizou-lhe das mos quando se levantou
devagar.
-- Mama?
-- Por favor, sente-se. Theo. -- Fez um gesto para silenci-lo. -- Maddy.
Primeiro preciso dizer a vocs que seu pai est bem.
-- Que aconteceu? -- Maddy rolou para fora do sof. -- Aconteceu alguma
coisa com ele. Por isso  que no ligou. Ele nunca liga tarde.
-- Foi ferido, mas passa bem. Est no hospital.
-- Acidente? -- interveio Pilar, pondo a mo no ombro de Maddy. A menina,
que antes teria se desvencilhado da mo, a segurou com mais fora.
-- No, acidente, no. Foi baleado.
-- Baleado? -- Theo precipitou-se do piano. O terror revestiu sua garganta
como blis. --  um erro, um engano. Papai no anda por a sendo baleado.
-- Ele foi levado direto ao hospital -- continuou Tereza. -- Falei com o
mdico que tratou dele. Seu pai est se recuperando muito bem. J foi
considerado em bom estado.
-- Me escutem. -- Eli avanou, tomou a mo de Maddy e depois a de Theo. --
No amos dizer a vocs que ele est bem se no estivesse. Sei que esto
assustados, preocupados, e ns tambm. Mas o mdico foi muito claro. Seu
pai  saudvel e forte. Vai ter uma recuperao total.
-- Quero que ele venha para casa -- disse Maddy, os lbios trmulos. --
Quero que ele venha para casa j.
-- Ele vir assim que receber alta do hospital -- disse Tereza. -- Vou tomar
as providncias. Seu pai ama voc, Madeline?
-- Claro que ama.
-- Sabe o quanto ele est preocupado com voc no momento? Com voc e seu
irmo, e como essa preocupao torna mais difcil ele descansar, se curar?
Ele precisa que vocs sejam fortes.
Quando o telefone tocou, Maddy afastou-se num rodopio e saltou em cima.
-- Al? Al? Papai! -- As lgrimas brotavam-lhe dos olhos e sacudiam o corpo
de cima a baixo. Apesar disso, deu um tapa em Theo, quando o irmo tentou
agarrar o telefone. -- Est tudo bem. -- A voz baixou, e ela virou-se para
Tereza. -- Est tudo bem -- repetiu, passando a mo embaixo do nariz e
respirando fundo. -- E a. Conseguiu guardar a bala?
Ela ouvia a voz do pai, e observava La Signora assentir-lhe com a cabea.
-- , Theo est bem aqui, me empurrando. Posso dar nele? Tarde demais --
respondeu. -- J dei. , ele est aqui.
Passou o telefone para o irmo.
-- Voc  uma mulher forte -- disse-lhe Tereza. -- Seu pai deve estar muito
orgulhoso.
-- Faa com que ele venha para casa, sim? S faa com que venha para casa.
Dirigiu-se aos braos de Pilar e sentiu-se melhor chorando ali.

Captulo Vinte e Trs
A cabea latejava como uma ferida aberta, mas no era nada comparado
com a dor no corao. Ela ignorou as duas e ocupou seu lugar atrs da sua
mesa. Contra as objeoes de Eli e Pilar, Tereza deixou as crianas
participarem da reunio de emergncia. Era ainda a lder da famlia
Giambelli, e eles tinham direito de saber por que ela julgava que o pai fora
ferido.
Tinham o direito de saber o que se relacionava ao sangue dela.
-- Falei com David -- comeou, e sorriu para os filhos dele. -- Antes de o
mdico chegar e obrigar seu pai a descansar.
--  um bom sinal. -- Sophia acomodou-se ao lado de Theo. Ele parecia to
jovem, to indefeso. -- Os homens so to infantis quando se machucam.
Simplesmente no conseguem parar de falar disso.
-- Corta essa. A gente , tipo, estico.
Theo tentava ser, mas a emoo no parava de desafi-lo.
-- Seja como for -- continuou Tereza. -- Com a aprovao do mdico, ele
tomar o avio para casa em poucos dias. Enquanto isso, a polcia est
investigando o incidente. Tambm falei com o homem encarregado da
investigao. -- E tinha, em curta e implacvel ordem, pesquisado o relatrio
dele. DeMarco servia. Tereza dobrou as mos sobre o arquivo do tenente. --
Houve vrias testemunhas. Eles tm uma descrio, embora no muito boa,
do agressor. No sei como vo encontrar o cara, nem se ele tem alguma
importncia.
-- Como pode dizer isso? -- Maddy se sacudiu na cadeira. -- Ele atirou no
meu pai.
Aprovando a reao, Tereza falou-lhe como faria com uma igual:
-- Porque acredito que ele foi contratado para fazer isso, como se compra e
usa qualquer ferramenta. Para roubar os documentos em posse de seu pai.
Um ato desorientado e desprezvel de proteo pessoal. Tem havido...
discrepncias em muitas contas. Os detalhes podem esperar. Ficou claro
hoje mais cedo, pelo trabalho de David, que meu sobrinho tem desviado
dinheiro da empresa para uma conta de fachada.
-- Donato. -- Sophia sentiu uma forte pontada no peito. -- Roubando de
voc?
-- De ns. -- Isso Tereza j aceitara e absorvera. -- Ele se encontrou com
David em Veneza esta tarde e teria percebido que suas aes logo seriam
descobertas. A resposta dele foi o que aconteceu com seu pai -- disse a
Theo e Maddy. -- Minha famlia causou essa dor em vocs. Sou a chefe da
famlia e responsvel por essa dor.
-- Papai trabalha para senhora. Ele cumpria a obrigao dele. -- Com a
emoo ainda o desafiando, Theo cerrou os dentes. --A culpa  desse
canalha, no sua. Ele est na priso?
-- No. Ainda no encontraram Donato. Parece que ele fugiu. -- Desprendia-
se da voz dela um fio de desdm. -- Abandonou a mulher, os filhos, e fugiu.
Prometo que ser encontrado, e punido. Vou cuidar disso.
-- Ele vai precisar de dinheiro. Recursos -- interveio Ty.
-- Voc vai precisar de algum em Veneza para esclarecer tudo. -- Sophia
levantou se. -- Eu partirei hoje  noite.
-- No vou por um dos meus em perigo.
-- Nonna, se Donato usava uma conta para espoliar fundos, tinha ajuda. Meu
pai.  to meu sangue -- ela continuou em italiano -- quanto seu. Minha honra
como sua. No pode me negar o direito de consertar os erros. -- Ela inspirou
fundo e mudou para o ingls: -- Partirei hoje  noite.
-- Que inferno -- bronqueou Ty. -- Ns partiremos hoje  noite.
-- Eu no preciso de bab.
-- , falou. -- Ele ergueu os olhos e recebeu os dela com ao gelado. --
Temos uma aposta igual nisso, Sophia Giambelli. Voc vai, eu vou. --
Inspecionarei os vinhedos, o lagar -- disse a Tereza. -- Se tiver alguma
coisa fora do normal l, vou identificar. Deixarei a papelada
comprometedora com o burocrata.
Ento, pensou Tereza, olhando para Eli no outro lado da sala. O passo
seguinte no ciclo. Passamos os fardos para os jovens.
-- Fechado. -- Tereza ignorou a exalao sibilante de Sophia. -- Sua me vai
se preocupar menos se voc no estiver sozinha.
-- No, vou simplesmente estender a preocupao por duas pessoas -- disse
Pilar. -- Mama, e Gina e os filhos?
-- Eles sero mantidos. No acredito nos pecados do pai. -- Tereza desviou
o olhar para Sophia e travou-o. --Acredito no filho.

A PRIMEIRA COISA QUE DAVID FEZ AO SER LIBERADO DO HOS-
pital, ou, mais exatamente, ao liberar a si mesmo, foi comprar flores. Como o
primeiro buqu pareceu inadequado, comprou outro, e mais um terceiro.
No era fcil carregar uma imensa braada de flores com um dos braos na
tipia, pelas ruas abarrotadas de Veneza, mas ele conseguiu. Assim como
conseguiu encontrar o local onde fora baleado.
Preparara-se para o choque, mas no percebera que viria junto com a fria.
Algum o julgara dispensvel, furara-lhe a carne com ao e derramara o seu
sangue. E chegara bem perto de deixar seus filhos rfos.
Algum, prometeu David a si mesmo, parado sobre as manchas dio prprio
sangue, com o brao bom cheio de flores, ia pagar por pensar nisso. No
importava o que exigisse e por mais demorado que fosse.
Ergueu os olhos. Embora no visse as roupas secando ento, a janela
continuava aberta. Mudou as flores de posio, afastou-se da rua e entrou
no prdio. Surpreendeu-o a exausto que sentiu aps a subida. Os membros
fracos, a pele escorregadia de suor. Ficou fulo de raiva ao ver-se ofegante e
encostado, trpego, na parede diante do apartamento.
Como, diabo, ia voltar ao apartamento dos Giambelli, arrumar a mala, fazer a
reserva de um vo, quando mal conseguira subir essa escada? O fato de o
mdico ter dito isso, em essncia, antes de ele assinar a prpria sada do
hospital apenas o aborrecia.
Tanto assim que, ainda arquejando, empertigou-se e bateu.
No esperava encontr-la em casa, pretendia deixar as flores na entrada ou
procurar uma vizinha amistosa que as recebesse por ela. Mas a porta abriu-
se e l estava a jovem.
-- Signorina.
-- Si? -- Ela olhou-o sem expresso, e ento o belo rosto iluminou-se. --
Signore! Come sta? Oh, oh, che bellezza! -- Arrebanhou as flores e indicou-
lhe que entrasse. -- Liguei para o hospital esta manh -- continuou, rpido,
em italiano. -- Disseram que estava repousando. Fiquei to assustada. No
podia acreditar que uma coisa dessas fosse acontecer bem ali fora... Oh. --
Bateu de leve na cabea com a mo. -- O senhor  americano -- disse, em
cuidadoso ingls. -- Scusami. Desculpe. Meu ingls no  bom.
-- Eu falo italiano. Queria agradecer a voc.
-- A mim? Eu no fiz nada. Por favor, entre, se sente. Est to plido,
-- Voc estava ali. -- Ele olhou o apartamento em volta. Pequeno, simples,
com bonitos toquezinhos. -- Se no estivesse, e eu no erguesse os olhos
porque quela hora voc pendurava a roupa lavada e formava um lindo quadro
fazendo isso, talvez no estivesse em p aqui agora. Signorina. -- Tomou-lhe
a mo e levou-a aos lbios. -- Mille grazie.
-- Prego. -- Ela inclinou a cabea. -- Uma histria romntica. Venha, vou
fazer caf para voc.
-- No precisa se incomodar.
-- Por favor, se salvei sua vida, preciso cuidar dela. Levou as flores para a
cozinha.
-- Ah... um dos motivos de eu estar passando por aqui to tarde foi que fiz
uma compra antes do jantar. Tinha acabado de comprar um anel, um anel de
noivado para a mulher que eu amo.
-- Oh. -- Ela suspirou e estendeu as flores na bancada. Deu uma nova olhada
nele. -- Pouca sorte para mim. Muita para ela. Mesmo assim, vou fazer seu
caf.
-- Eu gostaria. Signorina, no sei seu nome.
-- Elana.
-- Elana, espero que tome isso como eu pretendo. Acho que  a segunda
mulher mais bonita do mundo.
Ela riu e comeou a encher um jarro com as flores.
-- E, que sorte a dela!

DAVID ESTAVA FARTO DE DOR, FADIGA, MDICOS E DA CONFUSO
de pedestres que era Veneza quando retornou, afinal, aos seus aposentos.
Chegara  concluso de que no iria voltar para casa nessa noite. J seria um
felizardo se conseguisse despir-se sozinho e enfiar-se na cama, quanto mais
ficar em p o tempo suficiente para fazer a mala.
O ombro protestava, as pernas vacilavam e ele praguejou ao lutar com a
chave da fechadura na mo esquerda. Apesar disso, ergueu-a, o punho
fechado para atacar, quando a porta se abriu de repente.
-- A est voc! -- Sophia pos as mos nos quadris. Enlouqueceu? Dando alta
a si mesmo no hospital, vagando a sozinho por Veneza. Olhe para voc,
plido como um lenol. Os homens so to idiotas.
-- Obrigado, muitssimo obrigado. Posso entrar? Acho que este ainda  meu
quarto.
-- Ty saiu atrs de voc agora mesmo. -- Ela segurou o brao bom dele
enquanto falava e ajudou-o a entrar. -- Ficamos mortos de preocupao
desde que fomos ao hospital e descobrimos que voc tinha sado, passado
por cima das ordens do mdico.
-- Mesmo na Itlia, parecem no fazer a comida de hospital apetitosa. --
Entregando os pontos, ele afundou numa poltrona. -- A gente pode morrer
de fome l. Alm disso, eu no esperava ningum to cedo assim. Que
fizeram vocs? Vieram num feixe luminoso?
-- Samos ontem  noite. J viajei um longo tempo, com muito pouco sono, e
passei outro tempo longussimo andando de um lado para o outro nestes
aposentos, preocupada com voc. Por isso, no crie problemas comigo.
Ela desenroscou a tampa de um frasco e entregou-lhe uma plula.
-- Que  isto?
-- Analgsico. Voc deixou o hospital sem a receita.
-- Drogas. Voc comprou drogas para mim. Quer se casar comigo?
-- Idiota -- ela repetiu e saiu pisando forte at o frigobar para pegar uma
garrafa d'gua.
-- David, aonde voc foi?
-- Fui levar flores a uma bela mulher. -- Ele reclinou-se, estendeu a mo
para pegar a garrafa e suspirou quando Sophia a empurrou para fora de seu
alcance. -- Por favor, no provoque um homem com o remdio dele.
-- Voc esteve com uma mulher?
-- Tomando caf -- ele disse -- com a mulher que salvou minha vida. Levei
umas flores para agradecer a ela.
Refletindo, Sophia inclinou a cabea. Ele parecia exausto, meio suado e
muito romntico, com o brao numa tipia e olheiras sob aqueles olhos azul-
escuros.
-- Acho que est tudo bem. Ela  bonita?
-- Eu disse a ela que era a segunda mais bela mulher do mundo, mas com
todo prazer a rebaixo para o terceiro lugar, se voc me der essa maldita
gua. No me faa mastigar a plula, estou implorando.
Ela entregou a garrafa e agachou-se diante dele.
-- David, eu sinto muito sobre isso.
-- , eu tambm. Os meninos esto bem, certo?
-- Esto timos. Preocupados, mas tranqilos o suficiente para Theo
comear a achar que  muito legal voc ter sido baleado. No  o pai de todo
mundo que...
-- Meu bem, no faa isso consigo mesma.
-- No. No vou fazer. -- Ela inspirou fundo. -- De qualquer modo, Maddy
brincou sobre a bala ontem. Disse alguma coisa sobre voc guardar a bala?
Mas encafifou com isso agora, segundo minha me. Quer estudar o assunto.
-- Essa, sim,  a minha menina.
-- So timos meninos, David. Na certa puxaram a um pai que pensaria em
comprar flores para uma mulher quando se sentia um lixo recolhido da
calada. Venha, vamos pr voc na cama.
--  isso o que todas dizem. -- O lento e zonzo sorriso que lhe deu disse a
Sophia que a medicao fazia efeito. -- Voc no consegue tirar as mos de
cima de mim.
-- Remdio bom, hem?
-- Bom mesmo. Talvez se eu pudesse me deitar um minuto.
-- Claro. Por que no experimenta numa superfcie grande e lisa?
Ela ajudou-o a levantar-se.
-- Sophie? Pilar no est toda enrolada por causa disso, est?
-- Claro que est. Mas vai se desenrolar quando voc chegar em casa, onde
ela vai poder pr a mo na massa.
-- Estou bem, s com a cabea um pouco confusa agora. -- Ele deu uma
risada e apoiou-se pesadamente ao ser levado para o quarto. E teria jurado
que flutuava. --  melhor sobreviver com qumica.
-- Com certeza. Quase chegamos.
-- Quero ir para casa. Como vou fazer a mala s com uma mo?
-- No se preocupe. Eu fao para voc.
-- Faz? Mesmo? -- Ele virou-se para dar-lhe um beijo no rosto e errou por
mais de cinco centmetros. -- Obrigado.
-- No tem problema. Aqui vamos ns. Direto para baixo. Calma. No quero
machucar voc... Oh! Desculpe -- ela disse quando ele ganiu.
-- No, no  o brao. Est... no meu bolso. A caixa. Rolei por cima dela.
Tateou para peg-la, praguejou e sentiu-se apenas levemente sem graa
quando Sophia enfiou a mo no bolso dele e a retirou.
-- Comprando bugigangas, ? -- Ela abriu a caixa e piscou os olhos. -- Oh,
minha nossa.
-- Acho que devo contar a voc. Comprei para sua me. Vou pedir a ela que
se case comigo. -- Ele se ergueu um pouco no travesseiro e tornou a
escorregar direto para baixo. -- Tem algum problema com isso?
-- Talvez, em vista de voc ter me pedido cinco minutos atrs, seu safado
volvel. -- Com os olhos meio marejados, ela sentou-se na lateral da cama. --
 lindo, David. Ela vai adorar. Ama voc.
-- Ela  tudo que eu j quis. Linda, linda Pilar. Por dentro e por fora.Segunda
chance em toda a volta. Vou ter cuidado com ela.
-- Sei que vai ter. Eu sei. O ano no chegou nem  metade -- ela disse, em
voz baixa. -- Tudo est se movendo to rpido. Mas algumas coisas --
acrescentou --, algumas coisas seguem na direo certa. -- Curvou-se e
beijou o rosto dele. -- Feche os olhos por algum tempo. Papai.

QUANDO TYLER VOLTOU, ELA FAZIA MINESTRONE. SEMPRE O FAZIA
recuar um passo v-la trabalhando na cozinha.
-- Ele est aqui -- ela disse sem erguer os olhos. -- Dormindo.
-- Eu disse que ele sabia cuidar de si mesmo.
-- , fez um timo trabalho nisso sendo baleado, no? Fique longe dessa
sopa -- acrescentou, quando ele se curvou sobre a panela. --  para David.
-- Tem bastante para todo mundo.
-- Ainda no est pronta. Voc devia pegar o carro e ir ao vinhedo. Pode
dormir no castello esta noite. Vou ter de mandar arquivos pelo Messenger.
Posso trabalhar no computador aqui.
-- Bem, voc planejou tudo isso, no?
-- No estamos aqui para visitar lugares tursticos. Ela saiu da cozinha.
Ele levou um momento para ter certeza de que tinha o mau humor sob
controle e seguiu-a at o pequeno escritrio.
-- Que tal a gente simplesmente pr tudo para fora?
-- No tenho nada para pr para fora, Ty. Estou com a mente cheia.
-- Eu sei por que no queria que eu viesse.
--  mesmo? -- Ela carregou o sistema operacional no computador. -- Seria
porque eu tenho um monte de trabalho a fazer num curto espao de tempo?
-- Seria porque est puta da vida, trada e magoada. Essas coisas cortam
voc. E quando est magoada, fica vulnervel. As defesas caem. Tem medo
que eu chegue perto demais. No me quer perto demais, quer, Sophia? -- Ele
tomou-lhe o queixo para que a nica opo dela fosse olh-lo. -- Jamais quis.
-- Eu diria que temos estado o mais perto possvel um do outro. E era essa a
minha idia.
-- Sexo  fcil. Levante-se.
-- Estou ocupada, Ty, e nada a fim de uma trepada rapidinha no escritrio.
Ele iou-a rpida e violentamente demais e derrubou a cadeira.
-- No tente reduzir tudo a isso.
Movendo-se rpido demais, ela refletiu melhor. Coisas demais com
demasiada velocidade. Se no estivesse ao volante, como poderia manter a
direo certa?
-- No quero nada mais alm disso. Qualquer coisa a mais  problema
demais. Eu disse que estou com a cabea cheia. E voc est me machucando.
-- Eu nunca machuquei voc. -- Ele relaxou o aperto. -- Talvez isso seja
parte do problema. Voc nunca se perguntou por que acaba com o tipo de
cara com quem em geral acaba?
-- No.
Ela empinou o queixo.
-- Caras mais velhos. Caras escorregadios. O tipo que desliza porta afora
quando voc d o chute nele. Eu no sou escorregadio, Sophie, e no vou
deslizar.
-- Ento vai simplesmente acabar com o tapete queimado no seu traseiro.
-- O diabo que vou. -- Ele disparou-lhe um sorriso letal quando a ergueu nas
pontas dos ps. -- No escorrego, Sophie. Eu me grudo.  melhor voc levar
algum tempo para pensar nisso. -- Soltou-a e dirigiu-se  porta. -- Eu
voltarei.
Fechando a cara atrs dele, ela esfregou os braos. O grande filho-da-puta
na certa deixou manchas roxas, pensou.
Ia voltar a sentar-se na cadeira, mudou de idia e chutou a mesa. O gesto
mesquinho deixou-a sentindo-se um pouco melhor.
Por que o cara nunca fazia o que ela esperava? Imaginou que ele daria um
espetculo no acordo de relaes pblicas e depois fugiria, morto de tdio.
Mas ficara, e a idia levou-a a chutar mais uma vez a mesa.
Haviam agido motivados por algum puro e saudvel desejo animal, ela pensou,
e levantou a cadeira. Haviam feito um sexo estupendo. Ela esperava que ele
esfriasse nessa rea tambm. Mas no.
E se fosse verdade que ela estava um pouco preocupada porque tambm no
mostrava quaisquer sinais de esfriar? Habituara-se a certos padres na vida
Quem no se habituava? Jamais tivera qualquer inteno de passar a sentir
emoes srias porTyler MacMillan.
Deus do cu, era enfurecedor saber que tinha.
Pior ainda, ele fora exato e perfeito no resumo que fizera dela. Estava puta
da vida, sentia-se de fato trada, magoada e, em conseqncia, vulnervel. E
o queria a quase dez mil quilmetros de distncia da Califrnia? Porque
queria, desesperadamente, que ele estivesse bem ali. A uma distncia fcil
para apoiar-se.
No iria apoiar-se. Sua famlia era uma confuso s. A empresa para a qual
fora criada achava-se mergulhada em problemas. E o homem que com toda
probabilidade se tornaria seu padrasto estava deitado no quarto anexo com
um buraco de bala no ombro.
No era o bastante para preocupar-se, sem ter de pensar no medo de
compromisso?
No que tivesse medo de compromisso. Exatamente, E se tivesse, decidiu,
tornando a sentar-se, teria simplesmente de pensar nisso mais tarde.

DAVID DORMIU POR DUAS HORAS E ACORDOU SENTINDO-SE COMO
um homem baleado, ele imaginou. Mas sobrevivera. Agora, sentado na cama e
alimentando-se com minestrone, decidiu que poderia recomear a pensar.
-- Voc recuperou a cor -- disse Sophia.
-- E a maior parte do crebro tambm. -- O suficiente para perceber que
ela brincava com sua sopa, em vez de tom-la. -- Est a fim de me pr a par?
-- Posso dizer o que se fez, ou o que eu sei. No imagino que cubra todas as
lacunas. Esto procurando Donato, no apenas a policia, mas um detetive
particular contratado por meus avs. Interrogaram Gina. Eu soube que ela
est histrica e afirma no saber de nada. Eu acredito. Se soubesse de
alguma coisa, e Don a abandonasse e aos filhos no meio da confuso, ela
correria para meter o marido em encrenca. No conseguiram identificar a
mulher com quem ele anda tendo um caso. Se est apaixonado por ela, como
me disse, imagino que levou a amante junto, para companhia, por assim dizer.
-- Duro para Gina.
-- . -- Ela afastou-se da mesa, cansada de fingir que comia. -- . Eu tinha
um sentimento meio moderado por Don. Mal podia tolerar Gina e me sentia
ainda menos afetuosa em relao  prole deles. Agora ela  abandonada pelo
marido trapaceiro, ladro e possivelmente assassino. E... que se dane, no
sinto por ela. Simplesmente no posso.
-- No  impossvel que ela tenha pressionado Don em termos financeiros e
por isso ele comeou a meter a mo.
-- Mesmo que tenha feito isso, ele  responsvel pelas prprias opes,
pelas prprias aes. De qualquer modo, no  isso. Eu simplesmente no
suporto Gina. Simplesmente no consigo. Sou uma pessoa horrvel. Mas
chega de falar de mim. -- Descartou o assunto com um aceno, pegou um
pedao de po para mastigar enquanto andava de um lado para outro. --
Acredita-se que Don tenha uma conta secreta, com dinheiro que ele sangrou
da empresa. O suficiente para continuar fugindo por algum tempo, imagino,
mas, para ser franca com voc, ele no  muito inteligente para permanecer
clandestno.
-- Concordo com voc. Ele teve ajuda em tudo isso.
-- Meu pai.
-- At um determinado ponto -- disse David, observando-a. E depois que ele
morreu, talvez Margaret. A retirada deles nisso, se tinham alguma, era
mnima. No o bastante para me convencer de que algum dos dois tivesse um
papel principal.
Ela parou.
-- Acha que eram usados, e no usurios?
-- Acho que seu pai talvez tenha simplesmente feito vista grossa. Quanto a
Margaret, estava apenas encontrando o ritmo dela.
-- E a foi morta -- disse Sophia, baixinho. -- Meu pai foi morto. Tudo
poderia fechar o crculo de volta ao ponto onde estamos. De algum modo.
 possvel. Mesmo assim, Don no  sangue-frio o bastante, nem pensador
profundo, para ter armado o tipo de maracutaia que passou despercebido
pelos contadores da Giambelli durante anos.
Ele era o homem de dentro, bem informado, com as conexes. Mas algum
bolou o grande plano. Talvez a amante -- ele acrescentou com um
estremecimento.
-- Talvez. Vo encontr-lo. Ou se banhando ao sol perto da rebentao em
alguma praia tropical, ou boiando de bruos na gua. Enquanto procuram, a
gente pe de novo as peas juntas. -- Ela voltou e sentou-se. -- Donato pode
ter adulterado ou contratado algum para sabotar o vinho.
-- Eu sei.
-- Ando tendo dificuldade com o motivo. Vingana? Por que prejudicar a
reputao, e com isso a segurana fiscal, da empresa que alimenta a prpria
pessoa? E matar por isso? -- Ela fez uma pausa e examinou a atadura dele.
-- Ele poderia ter feito tudo isso. -- Comprimiu os dedos nas tmporas. --
Matou meu pai. Rene  uma mulher que custa caro, e papai precisava de
muito dinheiro. Sabia que estava sendo afastado aos poucos da Giambelli.
Tinha queimado as pontes com Mama, e eu avisei, furiosa, a ele que sabia que
tinha aprontado entre ns.
-- Foi responsvel por suas prprias opes, Sophia. -- David usou as
palavras dela. -- Suas prprias aes.
-- J me resignei em relao a isso. Ou quase. E imagino que aes poderiam
ter sido. Ele talvez tivesse pressionado Don por mais, um rombo maior, seja
o que for. No destoaria do carter dele t-lo ameaado com chantagem, de
forma civilizada, claro. Talvez tivesse sabido da adulterao, do coitado do
Signore Baptista. Depois Margaret, porque ela queria mais, ou porque ele
temia que ela descobrisse a defraudao. E voc porque percebeu que no
tinha sada.
-- Por que roubar a documentao?
-- No sei, David. Talvez ele no tenha pensado racionalmente. Imagino que
achasse que, com voc morto, ele pegaria os arquivos e ficaria por isso
mesmo. Mas voc no morreu, e deve ter passado pela cabea dele que os
arquivos no iriam enforc-lo. Ele j tinha se enforcado. Enquanto isso,
temos mais um pesadelo de relaes pblicas para resolver. J passou por
sua cabea querer se livrar da gente e correr de volta para La Coeur?
-- No, Sophia. Por que no tenta comer, em vez de destroar esse po?
-- Sim, papai. -- Ela estremeceu com o tom petulante na voz. -- Desculpe.
Fadiga decorrente de viagem area e da sordidez geral. Que tal eu cumprir
o acordo e fazer aquela mala para voc? J que insiste mais em partir do
que ficar em minha cintilante companhia, vai embarcar num vo muito cedo
amanh.

ELE SUAVA COMO UM PORCO. EMBORA AS PORTAS DO TERRAO
estivessem escancaradas e o ar frio que subia do Lago Como entrasse
impetuosamente no quarto, no parava o suor, apenas o o ransformava em
gelo.
Esperara a amante dormir antes de sair de mansinho da cama e ir para a
sala anexa. No conseguira um bom desempenho sexual, mas ela fingira que
no tinha importncia. Como poderia um homem manter uma ereo num
momento como esse?
Talvez de fato no tivesse importncia. Ela ficara excitada com a viagem,
com a deciso apressada dele de lev-la para o elegante local de frias 
margem do lago, coisa que prometera dezenas de vezes antes e jamais
cumprira. Fizera disso um jogo, dera-lhe uma absurda soma em espcie para
que ela pudesse pagar o quarto com seu caro. Ele no era conhecido ali,
disse a ela. Queria continuar assim. Que faria se algum comentasse que o
vira ali com outra mulher e no com a esposa?
Achou que fora inteligente. Muito inteligente. Quase tambm chegara a
acreditar que era um jogo mesmo. At ver o noticirio. Ver o prprio rosto.
Pde ficar apenas grato pelo fato de a amante encontrar-se no bar. Seria
fcil mant-la longe dos jornais, da televiso.
Mas no poderiam continuar. Algum o veria e o reconheceria. Precisava de
ajuda e s conhecia uma fonte.
Foi com as mos horrivelmente trmulas que ligou para Nova York.
--  Donato.
-- Eu esperava que fosse. -- Jerry deu uma olhada no relgio de pulso e
calculou. Giambelli com os suores das trs da manh, pensou. -- Tem sido um
rapaz muito ocupado, Don.
-- Acham que eu atirei em David Cutter.
-- , eu sei. Em que pensava?
-- Eu no estava... No fui eu. -- O ingls faltava-lhe. -- Dio. Voc me
mandou sair imediatamente de Veneza quando eu lhe contei o que Cutter
disse. Fiz isso. Nem sequer voltei para casa, para minha famlia. Posso
provar -- ele sussurrou, desesperado. -- Posso provar que no estava em
Veneza quando ele foi baleado.
-- Pode? No sei que bem isso faria a voc, Don. A histria  que contratou
um pistoleiro.
-- Contratei um... que  isso? Dizem que contratei algum para balear o
cara? Por que motivo? O estrago j tinha sido feito. Voc mesmo disse.
-- Eis como eu vejo a situao. -- Oh, estava ficando melhor pensou Jerry.
Melhor, mais agradvel do que imaginara. -- Voc matou duas pessoas,
provavelmente trs com Avano. David Cutter -- continuou, divertido com o
desabafo em pnico e confuso de Donato. -- Que diferena faz mais um?
Voc est regiamente fodido, companheiro.
-- Eu preciso de ajuda. Tenho de sair do pas. Tenho algum dinheiro, mas no
o suficiente. Preciso de um... um... um passaporte. Um novo nome, uma
mudana de rosto.
-- Tudo isso parece muito razovel, Don, mas por que est dizendo isso a
mim?
-- Voc consegue arranjar essas coisas.
-- Est superestimando meu alcance e interesse por voc. Vamos considerar
esta conversa um rompimento de nossa associao comercial.
-- No pode fazer isso. Se me pegarem, pegam voc.
-- Oh, acho que no. No existe maneira alguma de me ligarem a voc. Eu me
certifiquei disso. De fato, quando eu desligar o telefone, pretendo chamar a
polcia e dizer que entrou em contato comigo, e eu tentei convencer voc a
se entregar. No deve levar muito tempo para reconstituir retroativamente
esta ligao a voc.  um aviso justo, em vista de nosso relacionamento
anterior. Se eu fosse voc, pegaria a estrada, e rpido.
-- Nada disso teria acontecido... A idia foi sua.
-- Sou simplesmente cheio de idias. -- Com serenidade, Jerry examinou as
unhas manicuradas. -- Mas voc vai notar que nunca matei ningum. Seja
esperto, Don, se  que consegue. Continue correndo.
Desligou, serviu-se de uma taa de vinho e acendeu um charuto para fechar
a conta. Depois pegou o telefone e ligou para a polcia.

Captulo Vinte e Quatro
Com uma mistura de pesar e alvio, David via Veneza recuar ao longe. -- No
h motivo algum para voc se levantar da cama e me seguir de perto at o
aeroporto desta forma -- disse a Tyler, quando o txi aqutico avanara a
custo pelo trfego do incio dl manh. -- No preciso de bab.
-- , eu tenho ouvido muito isso ultimamente. -- Tyler bebericou o caf e
curvou os ombros contra o ar frio e mido. -- Est comeando a me deixar
de saco cheio.
-- Sei como tomar um avio.
-- O trato  o seguinte: eu ponho voc nessa ponta, eles pegam na outra.
Viva com isso.
David deu uma olhada mais atenta. Tyler tinha a barba por fazer e a
expresso horrorosa. Por algum motivo, isso o animou.
-- Noite dura?
-- J tive melhores.
-- Vai conseguir voltar numa boa? Seu italiano  muito limitado!
-- V se ...
David riu e mudou delicadamente o ombro de posio.
-- Pronto, me sinto melhor agora. Sophia tem feito voc passar por maus
bocados?
-- Ela tem me feito passar por maus bocados h vinte anos. J no estraga
mais o meu dia.
-- Se eu oferecer um conselho, vai me atirar pela amurada? Lembre-se de
que estou ferido.
-- No preciso de nenhum conselho no que se refere a Sophia. -- Vencendo a
prpria resistncia, Tyler fechou a cara para David. -- Qual?
-- Continue insistindo. Acho que ningum jamais continuou insistindo com ela.
No o macho da espcie, de qualquer modo. Se ela no matar voc, ser sua.
-- Obrigado, mas talvez eu no a queira. David recostou-se para curtir o
passeio.
-- Ah, sim. -- Deu uma risadinha espremida. -- Voc quer.

, ADMITIU TYLER. QUERIA. PORISSO CORRIA O RISCO DA
considervel ira dela, Sophia no gostava que ningum tocasse em suas
coisas. No gostava que lhe dissessem o que fazer, nem... no, ele corrigiu ao
embalar o pequeno escritrio porttil dela, sobretudo... quando era o melhor
a fazer.
-- Que diabos est fazendo?
Ele ergueu os olhos e l estava ela. Ainda molhada do chuveiro e soltando
fascas de mau gnio.
-- Fazendo as mochilas, parceira. Vamos viajar.
-- Tire as mos das minhas coisas. -- Ela precipitou-se, puxou de volta o
laptop e apertou-o contra o peito como um filho adorado. -- No vou a lugar
algum. Acabei de chegar,
-- Vou voltar ao castello. E aonde eu vou, voc vai. Algum motivo para no
trabalhar l?
-- Sim. Vrios.
-- Quais?
Ela apertou mais o computador.
-- Vou pensar.
-- Enquanto pensa, arrume o resto do seu equipamento.
-- Acabei de desempacotar.
-- Ento deve lembrar onde pr tudo no mesmo lugar de novo. Com essa
indiscutvel lgica, ele saiu.

ISSO A IRRITOU. ELE A PEGARA DESPREVENIDA E COM A MENTE
ainda nebulosa de uma noite insone. Aborrecia-a porque vinha planejando
fazer a viagem para o norte e passar pelo menos um ou dois dias
trabalhando no castello.
Atormentava-a reconhecer como era mesquinho ficar emburrada e calada na
viagem.
E acrescentava uma nova camada de mau humor o fato de v-lo to
sublimemente despreocupado.
-- Vamos ficar em quartos separados -- anunciou. --  hora de pormos
freios nessa rea de nosso relacionamento.
-- Tudo bem.
Ela j abrira a boca para alfinet-lo, e a resposta desinteressada de
assentimento dele a deixou pendurada e exposta.
-- Tudo bem, timo -- conseguiu dizer.
-- Tudo bem, timo. Voc sabe, estamos semanas adiante na estao de
cultivo l na Califrnia. Parece que esto apenas terminando os novos
plantios. Falei com o operador ontem, ele me disse que o tempo est bom,
sem geadas h semanas, e j v o incio de uma nova florada. Isso nos
mantm animados at o fim da florada, pois vamos ter um cenrio normal.
Oh, isto , a transformao de flor em uva.
-- Eu sei como  um cenrio normal -- ela disse, entre dentes.
-- S estou puxando conversa. -- Ele saiu da via expressa e comeou o
percurso pelas suaves colinas. -- Que belo campo! Acho que faz alguns anos
desde quefiz a ltima viagem para c. Nunca vi no incio da primavera.
Ela vira, mas quase esquecera. O tranqilo verde das colinas, o bonito
contraste das casas coloridas, as longas e uniformes fileiras cavalgando as
encostas. Campos de girassis  espera do vero e a sombra das montanhas
longnquas como uma fraca mancha contra o cu azul.
As multides de Veneza e a urbanidade de Milo ficavam a mais de
quilmetros de estrada. Ali era um coraozinho da Itlia que bombeava
constantemente, alimentado pela terra e a chuva.
Os vinhedos eram a raiz de seu destino, e o haviam determinado quando
Cezare Giambelli plantara a primeira fileira. Um sonho simples, ela pensou, e
um grande plano. De um humilde empreendimento a um imprio internacional.
Agora que o ameaavam, era surpresa o fato de ela usar tudo ao seu alcance
para defend-lo?
Viu o lagar, a construo original de pedra e seus vrios acrscimos. O
tatarav pusera as primeiras pedras. Depois o filho acrescentara outras, e
mais tarde a filha do filho. Um dia, pensou, talvez pusesse a sua.
Na elevao, com os campos se abrindo como saias, o castello imperava.
Gracioso e majestoso com a fachada em colunata, a imensido de sacadas, as
altas janelas arqueadas, erguia-se como a materializao do sonho de um
nico homem.
Ele teria lutado, ela pensou. No apenas pela contabilidade, nem apenas pelo
lucro. Mas pela terra. Pelo nome. Impressionava-a ali mais profundamente
que nos campos americanos, mais que entre as paredes dos seus escritrios
e salas de reunio. Ali, onde um nico homem mudara sua vida e, ao fazer
isso, moldara a dela.
Tyler parou o carro defronte  casa, os jardins da entrada em novos botes.
-- Que lugar maravilhoso! -- ele disse apenas, e saltou do carro.
Ela desceu mais devagar, respirando tanto a viso dele quanto respirava o ar
levemente perfumado. As vinhas espalhavam-se sobre paredes de mosaico
decorativo. Uma velha pereira florescia em violenta profuso, j derrmando
algumas das ptalas como neve.
Sophia lembrou de repente o gosto da fruta, doce e simples, e que quando
era menina o suco escorria pela garganta enquanto ela percorria as fileiras
com a me.
-- Voc queria que eu sentisse isso -- ela declarou e, com o cap do carro
entre os dois, virou-se para ele. -- Achou que eu no sentia antes?
-- Sophie. -- Ele se apoiou no cap, uma postura amistosa, companheira. --
Acho que voc sente todo tipo de coisas. Mas sei que algumas delas s vezes
se perdem na preocupao e, bem, no aqui e agora. Concentre-se com muita
fora no agora, que voc perde a viso do quadro maior.
-- Ento voc me atazanou para eu sair da cobertura de Veneza a fim de que
visse o quadro maior.
-- Em parte.  poca de florada, Sophie. No importa tudo o mais que esteja
acontecendo,  poca de florada. Voc no ia querer perder.
Ele voltou para a mala do carro e abriu-a.
-- Isso  uma metfora? -- ela perguntou, juntando-se a ele e aproximando-
se para pegar o laptop,
-- Sou apenas um fazendeiro. Que sei eu de metforas?
-- Apenas um fazendeiro, uma ova.
Ela enganchou a ala do laptop no ombro e retirou a pasta.
-- Me desculpe, mas no agento mais esses seus altos e baixos. -- Ele
pegou a sua maleta, e depois examinou a dela, repugnado. -- Por que sua mala
 duas vezes maior que a minha, e trs vezes mais pesada? Sou maior que
voc.
-- Porque -- ela adejou as pestanas -- eu sou menina. Imagino que eu deva
pedir desculpas por ter sido to arrogante com voc.
-- Por qu? -- Ele rebocou a mala dela. -- Voc no tinha inteno de ser.
-- Meio que tive, sim. Aqui, me deixe dar uma mo.
Ela estendeu o brao e pegou a bolsinha onde levava os cosmticos e saiu
andando devagar.
                                  +    +    +

PILAR ABRIU A PORTA PARA A POLCIA. DESSA VEZ, PELO MENOS,
esperava os policiais, pensou.
-- Detetive Claremont, detetive Maguire, obrigada por virem. -- Recuou em
boas-vindas e fez um gesto indicando o salo. -- O dia est lindo para um
passeio -- continuou. -- Mas sei que os dois so muito ocupados, por isso
agradeo o tempo e o incmodo.
J providenciara caf e biscoitos, e afastou-se para servir, assim que os
policiais se sentaram. Claremont e Maureen trocaram olhares pelas costas
dela, e a policial encolheu os ombros.
-- Que podemos fazer pela senhora, Sra. Giambelli?
-- Tranqilizar-me, eu espero. O que eu sei que no  tarefa de vocs.
Distribuiu os cafs e impressionou Maureen por lembrar-se de como cada
um o tomava.
-- Que tipo de tranqiizao espera? -- perguntou Claremont.
-- Entendo que vocs, seu departamento, estejam em contato com as
autoridades italianas. -- Pilar sentou-se, mas no tocou no caf. J estava
nervosa demais. -- Como talvez j saibam, minha me tem certa influncia l.
O tenente DeMarco tem sido to acessvel quanto possvel com as
informaes. Sei que meu sobrinho contatou Jeremy DeMorney ontem, e
que Jerry informou a polcia de Nova York do telefonema. Jerry ficou
preocupado o bastante para lelefonar ao meu padrasto e contar
diretamente a ele.
-- Se est to bem informada, no sei o que podemos lhe dizer.
-- Detetive Claremont,  a minha famlia. -- Pilar deixou a declarao
perdurar. -- Sei que as autoridades acabaram identificando a origem do
telefonema de Don  rea do Lago Como. Tambm sei que ele tinha ido
embora quando elas chegaram para prend-lo. Quero saber se, na opinio de
vocs, meu primo matou meu... matou Anthony Avano.
-- Sra. Giambelli. -- Maureen largou o caf ao lado. -- No  nossa funo
especular. Ns reunimos provas.
-- Estamos em ligao, vocs e eu, h meses. Vocs examinaram minha vida,
os detalhes pessoais dela. Embora eu entenda que a natureza de seu ofcio
exige uma certa distncia profissional. Estou pedindo um pouco de
compaixo.  possvel que Donato ainda esteja na Itlia. Minha filha est na
Itlia, detetive Maureen. Um homem de quem gosto, muito, foi quase
assassinado. Um homem com quem fiquei casada durante metade de minha
vida est morto. Minha filha nica est a quase dez mil quilmetros de
distncia. Por favor, no me deixe indefesa.
-- Sra. Giambelli...
-- Alex -- comeou Maureen antes que ele pudesse terminar. -- Sinto muito,
Pilar, no posso dizer a voc o que quer ouvir. Simplesmente no tenho a
resposta. Conhece seu sobrinho melhor que eu, me fale dele.
-- Tenho pensado nisso, em quase nada alm disso, h dias -- comeou Pilar.
-- Gostaria de poder dizer que ramos ntimos, que eu entendia o corao e
a mente dele. Mas no conheo. Uma semana atrs, eu teria dito, oh, Donato.
Ele pode ser insensato, mas tem uma boa natureza. Agora no h a menor
dvida de que era um ladro, que ele e o homem com quem fui casada
estavam em conluio, roubando a mulher que lhes permitiu ganharem o
sustento. -- Ela pegou o caf para ocupar as mos. -- Roubando de mim. De
minha filha. Mas mesmo ento, mesmo sabendo disso, quando tento imaginar
Don sentado na sala da minha filha, diante de um homem que conhecia todos
aqueles anos e o matando, no consigo. No consigo pr a arma na mo dele.
No sei se  porque ele no se encaixa na situao ou porque no suporto
acreditar nisso.
-- Voc tem medo de que ele v atrs de sua filha. No h motivo algum para
ele fazer isso.
-- Se ele fez todas essas coisas, no  a simples existncia dela motivo
suficiente?

EM SEU ESCRITRIO, ATRS DE PORTAS FECHADAS, KRIS DRAKE
enfurecia-se. As Giambelli, lideradas por Sophia, aquela cadelinha,
continuavam tentando arruin-la. Incitaram os policiais a atac-la, pensou,
fechando a mo em punho. Isso no ia lhes fazer bem algum. Achavam que
podiam sair pela tangente com essa inveno, compromet-la com o
assassinato de Tony. At associ-la com a adulterao do produto, com o
pequeno acidente do chefo Cutter em Veneza.
Tremendo de fria, abriu com o polegar um frasco de plulas e engoliu a seco
um tranqilizante.
No podiam provar que fora ela quem dera aquele proveitoso empurro no
terrao. No podiam provar nada. E da que dormira com Tony? Isso no era
crime. Ele era bom para ela, a apreciava, entendia, a ela e o que queria
realizar.
Fizera-lhe promessas. Promessas que as cadelas Giambelli cuidaram para que
no pudesse cumprir. Que abominvel vigarista, pensou com afeto. Se no
tivesse deixado aquela piranha convenc-lo com lbia a casar-se com ela.
Mas tudo recaa nas Giambelli, lembrou a si mesma. Fizeram questo de que
Rene Foxx, aquela puta, tambm soubesse dela. Agora seu nome vinha sendo
atirado em todo lugar na imprensa, e ela recebia olhares maliciosos dos
colegas de trabalho. Assim como recebera na Giambelli.
Chegara longe demais, dera duro demais para deixar aquelas divas italianas
arruinarem sua carreira. Sem o apoio de Jerry, talvez j houvessem
arruinado de uma forma ignbil. Graas a Deus que ele a defendia, entendia
que era uma vtima, um alvo.
Devia a ele a informao confidencial que passava adiante. Que a Giambelli
tentasse process-la. La Coeur brigaria por ela. Jerry deixara isso claro
desde o incio. Ela era valorizada ali.
La Coeur lhe daria tudo que sempre quisera. Prestgio, poder, status e
dinheiro. Quando chegasse aos quarenta anos, entraria na lista das cem
empresrias mais destacadas. Seria a executiva do ano.
E no porque algum lhe legara isso no bero. Mas porque merecera.
Mas no bastava. No bastava como retaliao pelos interrogatrios da
polcia, as manchas na imprensa, as desfeitas que sofrera quando ainda
estava na GiambeliL
A Giambelli ia desmoronar, pensou. Mas havia meios de fazer a famlia
tremer enquanto a empresa desabava.

FOI UM LONGO VO AO OUTRO LADO DO OCEANO, AO OUTRO LADO
de um continente. Ele dormiu quase o tempo todo e, quando se reanimou com
caf, ligou para a villa em busca de notcias atualizadas. Embora encontrasse
Eli e ficasse a par do que acontecera na Itlia desde que partira,
decepcionou-se por no encontrar os filhos e Pilar.
Queria a famlia. E quando aterrissou no campo de aviao da cidade de
Napa, ressentia-se at do curto trajeto que os separava.
Ento atravessou a pista de decolagem at o lugar onde lhe haviam dito que
seu motorista estaria  espera, e descobriu.
-- Papai!
Theo e Maddy pularam de portas opostas da limusine. A onda de emoo fez
com que deixasse a pasta cair no cho quando se precipitou para os filhos.
Agarrou Maddy com o brao bom e logo uma linha de dor varou-lhe o ombro
ao tentar abraar Theo.
-- Sinto muito, asa ruim. -- Quando Theo o beijou, surpresa e prazer o
atordoaram. No lembrava a ltima vez que o menino, o rapaz, fizera isso. --
Nossa, que alegria ver voc! -- Colou os lbios nos cabelos da filha e apoiou-
se no filho. -- Que alegria ver voc!
-- Nunca mais faa isso de novo. -- Maddy continuava com o rosto colado no
peito do pai. Cheirava-o, sentia seu corao bater -- Nunca, jamais, de novo.
-- Feito. No chore, querida. Tudo est bem agora. Temendo tambm
debulhar-se em lgrimas, Theo recuou e pigarreou.
-- Ento, trouxe alguma coisa para ns?
J ouviu falar em Ferraris?
-- Caraa, pai! Srio?... Uau.
Theo olhou para o avio como se esperasse ver um reluzente carro esportivo
italiano sendo descarregado.
-- Eu s queria saber se tinha ouvido falar. Mas consegui, sim, escolher duas
coisas que coubessem de fato nas minhas malas, que esto bem ali.
-- E se voc carreg-las para mim, vamos procurar um carro para comprar
neste fim de semana. O queixo de Theo caiu.
-- Srio?
-- No uma Ferrari, mas  srio.
-- Legal! Por que voc levou tanto tempo para ser baleado?
-- Engraadinho. Que maravilha voltar para casa! Vamos sair daqui e...
Interrompeu-se ao tornar a olhar para o carro. Pilar estava de p ao lado, os
cabelos esvoaando ao vento. Quando os olhos dos dois se encontraram, ela
comeou a encaminhar-se para ele. E depois j corria.
Maddy viu-a e deu o primeiro e trmulo passo para a maturidade saindo da
frente.
-- Por que ela est chorando agora? -- quis saber Theo quando Pilar se
grudou no pai dele e soluou.
-- As mulheres esperam acabar antes de chorar, principalmente quando 
importante. -- Maddy percebeu a forma como o pai virou o rosto para os
cabelos de Pilar. -- Isto  importante.

UMA HORA DEPOIS, ELE SE ACHAVA NO SOF DA SALA, SENDO
servido de caf. Sentada a seus ps, a cabea apoiada no joelho, Maddy
brincava com o colar que ele lhe trouxera de Veneza. No era uma bijuteria
de menina -- ela tinha um bom olho para essas coisas -- mas uma verdadeira
pea de joalheria.
Theo continuava usando os culos escuros de grife, e de vez em quando se
examinava no espelho para admirar sua pose europia.
-- Bem, agora que esto instalados, preciso ir. -- Pilar curvou-se sobre o
encosto do sof e roou os lbios nos cabelos de David. -- Bem-vindo ao lar.
Embora fisicamente limitado, ele foi rpido o bastante com o brao bom.
Estendeu-o para trs e agarrou a mo dela.
-- Por que a pressa?
-- Voc teve um longo dia. Vamos sentir falta de vocs, caras, na casa
principal -- ela disse a Theo e Maddy. -- Espero que continuem aparecendo.
Maddy esfregou a face no joelho de David, mas tinha os olhos no rosto dela.
-- Pai, voc no trouxe um presente de Veneza para Sra. Giambelli?
-- Mas  claro que sim.
-- Bem, que alvio! -- Ela apertou o ombro bom dele. -- Pode me dar amanh.
Precisa descansar agora.
-- Eu descansei durante quase dez mil quilmetros. No agento mais ch.
Poderia levar isso para cozinha e me dar um minuto aqui com as crianas?
-- Claro. Ligo amanh para saber como est se sentindo.
-- No fuja -- ele disse, quando ela comeou a tirar a bandeja. -- Escute...
Theo, poderia se sentar um minuto?
Obediente, vises de carros esporte danando na cabea, Theo jogou-se no
sof.
-- Podemos olhar conversveis? Seria to legal rodar por a com a capota
arriada. As gatinhas realmente se amarram nisso.
-- Nossa, Theo -- Maddy virou-se at ficar ajoelhada, as mos apoiadas nos
joelhos de David. -- Voc no vai conseguir um conversvel dizendo a ele que
vai usar o carro para pegar meninas. De qualquer modo, feche a matraca
para poder dizer  geme que quer pedir a Sra. Giambelli em casamento.
O sorriso de David com a primeira parte da declarao dela se desfez.
-- Como diabos voc consegue isso? -- ele perguntou. --  sobrenatural.
--  s seguir a lgica. Era isso que voc queria dizer a ns, certo?
-- Eu queria conversar sobre isso. Tem algum sentido fazer agora?
-- Pai. -- Theo deu-lhe um tapinha viril. --  maneiro.
-- Obrigado, Theo. Maddy?
-- Quando a gente tem uma famlia, deve ficar com ela. s vezes as pessoas
no...
-- Maddy...
-- h. -- Ela balanou a cabea. -- Ela vai ficar porque quer.
Talvez s vezes seja melhor assim.

ALGUNS MINUTOS DEPOIS, ELE ACOMPANHAVA PILAR A CASA,
pela borda do vinhedo. A lua comeava a lenta ascenso.
-- Realmente, David, eu conheo o caminho de casa, e voc no deve ficar
andando no sereno.
-- Preciso do ar, do exerccio e de um pouco de tempo com voc.
-- Maddy e Theo vo precisar de muita restaurao da confiana.
-- E quanto a voc? Ela entrelaou os dedos nos dele.
-- Estou me sentindo muito mais estvel. No pretendia desmoronar no
aeroporto. Juro que no pretendia.
-- Quer a verdade? Eu gostei.  bom pro ego do homem ver Uma mulher
chorar por ele. -- Ele levou as mos juntas dos dois aos lbios e beijou a
dela, quando avanavam pelo atalho do jardim. -- Lembra aquela primeira
noite? Dei de cara com voc aqui fora. Puxa, voc estava linda. E furiosa.
Falando sozinha.
-- Fumando um cigarro escondido para extravasar -- ela lembrou. -- E muito
encabulada por ter sido flagrada pelo novo COO.
-- O novo e fatalmente atraente COO.
-- Oh, , isso tambm.
Ele parou, puxou-a com delicadeza para um abrao.
-- Eu queria tocar em voc naquela noite. Agora posso. -- Ele deslizou os
dedos pelo rosto dela. -- E amo voc, Pilar.
-- David. Eu tambm amo voc.
-- Liguei de So Marcos e falei com voc enquanto a msica tocava e a luz se
extinguia. Lembra?
-- Claro que sim. Foi  noite em que voc levou...
-- Shiu. -- Ele levou o dedo aos lbios dela. -- Continuei ali sentado pensando
em voc. E soube.
Retirou a caixa do bolso.
Ela recuou. A presso instalou-se em seu peito, pesos cheios de pnico.
-- Oh, David. Espere.
-- No me afaste. No seja racional, no seja inacessvel. Apenas se case
comigo. -- Ele se esforou um momento e depois soltou uma risada
frustrada. -- No pode abrir esta maldita caixa? Fazer o favor de me dar
uma ajudinha?
A luz das estrelas cintilou nos cabelos dele, prata brilhante sobre dourado-
escuro. Tinha os olhos escuros, diretos e cheios de amor e diverso. Quando
ela recuperou a respirao, sentiu um aroma de jasmim-da-noite e rosas
tempors. Tudo to perfeito, pensou. To perfeito que a apavorava.
-- David, ns dois j passamos por isso antes, e sabemos que nem sempre d
certo. Voc tem filhos jovens que j foram magoados.
-- No passamos por isso juntos, e sabemos que so necessrias duas
pessoas querendo que d certo. Voc no vai magoar meus filhos, porque,
como acabou de dizer minha estranha e maravilhosa filha, voc no vai ficar
porque se espera que fique, mas porque quer. E assim  melhor.
Parte do peso desaparecera.
-- Ela disse isso?
-- Disse. Theo, como um cara de poucas palavras, apenas me disse que era
maneiro.
Ela sentiu os olhos turvarem-se, mas expulsou as lgrimas piscando. Era um
momento que exigia viso clara.
-- Voc vai comprar um carro para ele. Diria qualquer coisa que voc
quisesse ouvir.
-- V por que eu amo voc? J fisgou meu filho.
-- David, eu tenho quase cinqenta anos. Ele apenas sorriu.
-- E?
-- E eu... -- De repente pareceu tolice. -- Imagino que tinha de dizer isso
mais uma vez.
-- Tudo bem. Voc  velha. Saquei.
-- No to mais velha que... -- Ela interrompeu-se dessa vez, bufando forte
quando ele riu. -- No consigo pensar direito.
-- timo. Pilar, me deixe pr nestes termos. Qualquer que seja a data na
sua certido de nascimento, seja o que for que voc fez ou no fez at o
momento, eu amo voc. Quero passar o resto da vida com voc, dividir minha
famlia com voc e compartilhar da sua. Por isso, me ajude a abrir esta
maldita caixa.
-- Vou ajudar. -- Ela esperava que os dedos tremessem, mas isso no
aconteceu. --  lindo. -- Contou as pedras e entendeu o smbolo. -- 
perfeito.
Ele tirou-o da caixa e deslizou-o no dedo dela.
-- Foi isso que pensei.
QUANDO PILAR ENTROU EM CASA, ELI PREPARAVA CH NA COZINHA.
-- Como David est se arranjando?
Bem, eu acho. Melhor do que eu imaginava. -- Ela correu o polegar pelo anel
que parecia to novo, e to certo, no dedo. -- S precisa descansar.
-- E no  o que todos precisamos? -- Ele suspirou. -- Sua me subiu para o
escritrio. Ela anda me preocupando, Pilar. Mal comeu hoje.
-- Vou subir e levar um pouco de ch para ela. -- Pilar esfregou a mo nas
costas do padrasto. -- Vamos todos superar isso, Eli.
-- Eu sei. Acredito que sim, mas estou comeando a perguntar a que custo.
Ela  uma mulher orgulhosa. Isso a est prejudicando em parte.
A preocupao de Eli insinuou-se no ntimo de Pilar quando levou a bandeja
ao escritrio da me. Ocorreu-lhe que pela segunda vez numa noite levava
ch para algum que na certa no o queria.
Mesmo assim, era um gesto destinado a acalmar e ela faria o melhor
possvel.
A porta estava aberta e Tereza sentada  escrivaninha, uma agenda aberta
 frente.
-- Mama. -- Pilar entrou. -- Gostaria que no trabalhasse tanto. Deixa o
resto de ns envergonhado.
-- No estou com disposio de nimo para ch, Pilar, nem para companhia.
-- Bem, eu estou. -- Ela ps a bandeja na mesa e comeou a servir. -- David
est com uma aparncia admiravelmente boa. Voc vai ver amanh.
-- Envergonha-me que um dos meus tenha feito uma coisa dessas.
-- E, claro, voc  responsvel. Como sempre.
-- Quem mais?
-- O cara que atirou nele. Eu achava, me habituei a me deixai achar, que era
responsvel pelas coisas vergonhosas que Tony fez.
-- Vocs no eram do mesmo sangue.
-- No, foi eu quem o escolheu, e isso  pior. Mas eu no era responsvel
pelo que ele fazia. Ele, sim. Se existia responsabilidade de minha parte, era
por permitir que ele fizesse o que fez comigo, e com Sophia. -- Ela levou o
ch at a escrilvaninha e largou a xcara. -- A Giambclli  mais que vinho.
-- Ah. Voc acha que preciso que me digam?
-- Acho que voc precisa que digam agora. Acho que precisa ser lembrada de
tudo que se fez, de todo o bem. Os milhes de dlares para instituies de
caridade que a famlia dispersou ao longo dos anos. As inmeras famlias que
tm ganhado o sustento na empresa. Trabalhadores do campo, vinicultores,
fabricantes de vinho, engarrafadores, distribuidores, operrios de fbrica,
escriturrios. Cada um deles depende de ns, e do que fazemos, Mama. --
Ela sentou-se ao lado da escrivaninha e viu com satisfao que tinha a total
ateno da me. -- Trabalhamos, nos preocupamos e apostamos com risco no
tempo toda estao. Fazemos o melhor possvel e temos f. Isso no mudou.
Jamais mudar.
-- Fui injusta com ele, Pilar? Com Donato?
-- Voc duvida de si mesma? Agora vejo por que Eli est preocupado, Se eu
disser a verdade, vai acreditar em mim?
Cansada, Tereza levantou-se da escrivaninha e foi at a janela. No via os
vinhedos no escuro. Mas via-os na mente.
-- Voc no mente. Por que eu no acreditaria em voc?
-- Voc s vezes  dura. Isso s vezes  assustador. Quando eu era
pequena, via voc percorrendo as fileiras a passos largos e achava que
parecia um general sado de um dos meus livros de histria. Ereta e severa.
Ento voc s vezes parava, examinava a vinha e conversava com um dos
trabalhadores. Sempre soube o nome deles.
-- Um bom general sabe o nome de seus soldados.
-- No, Mama, a maioria no sabe. So fantoches annimos, impessoais. Tm
de ser, para o general mand-los rudemente para batalha. Voc sempre
soube o nome deles, porque importava para voc quem eram. Sophia tambm
sabe. Esse foi o dom que voc passou para ela.
-- Meu Deus, voc me reconforta.
-- Espero que sim. Voc nunca foi injusta. Nem com Donato nem com
ningum. E no  responsvel pelos atos de ganncia, crueldade ou egosmo
daqueles que s vem pees annimos.
-- Pilar. -- Tereza apoiou a testa na janela, um gesto to raro de fadiga que
Pilar logo se levantou para ir ter com ela. -- O Signore Baptista. Ele no me
sai da cabea.
-- Mama. Ele nunca culparia voc. Nunca culparia La Signora. E acho que
ficaria decepcionado com voc se culpasse a si mesma.
-- Espero que esteja certa. Talvez eu tome um pouco do ch. -- Ela virou-se
e tocou a face de Pilar. -- Voc tem um corao bom e forte. Eu sempre
soube. Mas tem uma viso mais clara do que antes eu lhe creditava.
-- Mais ampla, acho. Levei muito tempo para juntar coragem e tirar os
antolhos. Isso mudou minha vida.
-- Para o bem. Vou pensar no que me disse.
Ela ia sentar-se e viu o lampejo das pedras no dedo de Pilar. Estendeu a mo
como um aoite, com a rapidez de uma cobra, e tomou-lhe a mo.
-- Ento, que  isto?
--  um anel.
-- Eu sei que  um anel -- disse Tereza secamente. -- Mas no, imagino,
outro que voc comprou para substituir o anterior.
-- No, no comprei. E no  substituio. Seu ch est esfriando.
-- Voc no estava usando este anel quando saiu para pegar David e deix-lo
em casa.
-- Nada errado com a sua viso, mesmo quando remoendo problemas. Tudo
bem. Eu s queria chamar Sophia primeiro, para Mama, David me pediu em
casamento. Eu aceitei.
-- Entendo.
-- S isso?  tudo que tem a me dizer?
-- No terminei. -- Tereza puxou a mo de Pilar e ps sob a luz da
escrivaninha, examinou o anel e as pedras. Ela, tambm, reconhecia os
smbolos. E valorizava essas coisas. -- Ele deu a voc um famlia para usar na
mo.
-- . A dele e a minha. A nossa.
-- Difcil para uma mulher com seu corao recusar um gesto desses. --
Enroscou com fora os dedos nos de Pilar. -- Voc me disse o que achava
sobre alguma coisa no meu corao. Agora eu vou dizer a voc. Uma vez um
homem pediu que casasse com ele. Voc aceitou. Ah! -- Ela ergueu o dedo
antes que Pilar pudesse falar. -- Era uma menina ento. E uma mulher agora,
e escolheu um homem melhor. Cara. -- Tereza emoldurou o rosto da filha
com as mos e beijou-lhe as duas faces. -- Estou feliz por voc. Agora tenho
uma pergunta.
-- Tudo bem.
-- Por que mandou David para casa, e depois me trouxe ch? Por que no o
trouxe aqui para pedir minha bno e de Eli, e tomar champanhe, como  o
certo?
-- Mama. Ele est cansado, no muito bem.
-- No to cansado e bem o bastante para despentear seus cabelos e tirar
com beijos o batom de sua boca. Telefone -- ela ordenou, num tom que
eliminava qualquer argumento. -- Isso precisa ser feito corretamente, com a
famlia. Vamos descer, abrir um vinho de nossa melhor safra e ligar para
Sophia no castello. Eu aprovo os filhos dele -- acrescentou, voltando-se para
fechar o dirio na escrivaninha e guard-lo no lugar. -- A menina vai ganhar
o colar de prolas minsculas de minha me, e o menino, as abotoaduras de
prata de meu pai.
-- Obrigada, Mama.
-- Voc me deu... a todos ns... alguma coisa para comemorar. Diga a eles
para se apressarem -- ela ordenou e saiu, ereta e esguia, chamando Maria
para trazer o vinho.

PARTE QUATRO
A Fruta
QUEM compra a alegria de um minuto para uma semana prantear?
Ou vende a eternidade para um brinquedo ganhar?
Por uma doce uva que o vinho destruir?
WILLIAM      SHAKESPEARE

Captulo Vinte e Cinco
Tyler estava imundo, com uma torturante e mortal pontada de dor nas
costas, e arranjara um detestvel ferimento, mal enfaixado, nos ns dos
dedos da mo esquerda.
Mas sentia-se no paraso.
As montanhas ali no eram muito diferentes dos recortados afloramentos
de sua prpria Vaca Ville, em So Francisco. Onde o solo l era de cascalho,
este era rochoso, mas apesar disso com alto nvel de acidez que produzia um
vinho bem suave.
Ele entendia por que Cezare Giambelli fincara as razes de seu sonho ali e
batalhara com o arado por aquele solo rochoso. A tosca beleza  sombra
daquelas colinas atraa alguns homens, desafiava-os. No se tratava de uma
questo de dom-las, refletiu Ty, mas de aceit-las pelo que eram, e tudo
que poderiam ser.
J que tinha de passar algum tempo longe dos prprios vinhedos, ali parecia
o lugar certo para fazer isso. O tempo era perfeito, os dias longos e
aprazveis e o operador do castello mais que disposto a aproveitar o tempo e
a competncia de outro vinicultor.
E os msculos, pensou, refazendo o caminho de volta pelas fileiras rumo ao
solar. Passara boa parte dos ltimos dias ajudando a equipe a instalar novos
encanamentos desde o reservatrio aos novos plantios. Era um bom sistema,
bem planejado, e as horas que passara com o pessoal deram-lhe uma
oportunidade de conhecer esse brao da empresa.
E de perguntar casualmente aos homens sobre Donato.
A barreira lingstica no fora um problema to grande quanto previra.
Mesmo os que no falavam ingls se dispunham a conversar. Com sinais
manuais, expresses faciais e a generosa ajuda de vrios intrpretes, Tyler
obteve um quadro muito claro.
Nenhum dos homens no campo considerava Donato Giambelli mais que uma
piada.
Agora, com as sombras alongando-se rumo  noite, Tyler ponderava essa
opinio. Transferiu-se do campo para o jardim, onde floresciam hortnsias
grandes como bolas de basquete e impacientes rios rosa-claro serpeavam
abrindo uma trilha por uma inclinao acima em direo a uma gruta. A gua
ali esguichava de uma fonte guardada por Netuno.
Os italianos, pensou, eram grandiosos em seus deuses, fontes e flores.
Cezare Giambelli certamente usara todos eles ali nesse belo palcio enfiado
nas colinas.
Um palcio pequeno e muito rico, imaginou Tyler, e apoiou as mos nos
quadris, contornando um lento crculo.
Pessoalmente, achava-o um bonito lugar para visitar, mas como podia algum
morar ali, com todos aqueles aposentos e criados? S os terrenos, com os
jardins, os gramados, as rvores, as piscinas e a estaturia exigiriam um
pequeno exrcito para manter.
Mas tambm alguns homens gostavam de ter pequenos exrcitos ao seu
dispor.
Passou entre as paredes de mosaico com figuras em baixo-relevo de ninfas
bem-feitas de corpo, desceu os degraus que circundavam mais uma piscina
com canteiros de lrios. Dali via os campos, o corao do reino. Com mais
acuidade, decidiu, os que trabalhavam nos campos no viam quem se
refestelava ali. Imaginou que Cezare quisera alguma intimidade em certos
cantos de seu imprio.
O que se via, alm das flores, a expanso de terraos, era a piscina. E
projetando-se ao sair dela, como Vnus, Sophia.
Ela usava um simples mai preto, que deslizava pelo corpo como a gua que
dele flua. Tinha os cabelos escorridos para trs, e ele viu o brilho, na certa
de diamantes, lampejar nas orelhas. Quem, alm de Sophia, nadaria com
diamantes?
Vendo-a, teve uma incmoda sensao de luxaria e desejo.
Era perfeita -- elegante, sensual e inteligente. Ele se perguntava, ao sentir
o abdomem contrair-se diante daquela viso, se existia alguma coisa mais
desestabilizadora para o homem que a perfeio da mulher.
Uma coisa, decidiu, ao encaminhar-se para ela. Amar essa mulher at a
idiotice.
-- A gua deve estar fria -- comentou.
Ela ficou imvel, a toalha que pegara escondendo-lhe o rosto por mais um
instante.
-- Estava. Eu queria fria.
Descontrada, largou a toalha de lado e no se apressou ao vestir o roupo
de tecido atoalhado. Sabia que ele a olhava, examinava-a naquela sua
maneira completa e paciente. Queria que o fizesse. Toda vez que passara
por uma janela nesse dia, olhara em direo aos campos e localizara-o entre
os homens.
Examinou-o.
-- Voc est imundo.
-- .
-- E satisfeito por estar -- ela decidiu. Imundo, pensou, suado. E
deslumbrante de uma forma primitiva que no deveria ser to danada de
atraente assim. -- Que fez com a mo?
-- Lasquei vrias camadas de pele, s isso. -- Ergueu a mo e olhou-a. -- Uma
bebida cairia bem.
-- Querido, um banho de chuveiro cairia bem.
-- As duas coisas Que tal eu me limpar? Encontro voc no ptio central
daqui a uma hora.
-- Para qu?
-- Vamos abrir uma garrafa de vinho e falar um ao outro do nosso dia. Duas
coisas que quero repassar com voc.
-- Tudo bem, pra mim est bem. Tambm tenho umas coisas a repassar.
Algumas pessoas podem cavar sem terminar cobertas de terra.
-- Ponha alguma coisa bonita -- ele gritou atrs dela e riu quando ela se
virou. -- S porque no toquei, no quer dizer que no olhei.
Ele pegou a toalha molhada quando ela entrou em casa, respirou o perfume
que a impregnara. A beleza, pensou, era dura para o homem. No, no queria
dom-la, no mais do que domar a terra. Mas, por Deus, era hora de
aceitao, dos dois lados.

ELA LHE DARIA MUITA COISA PARA OLHAR. MUITA COISA PARA
desejar. Afinal, era uma especialista em embalagem. Vestiu azul, a cor de
um relmpago. O corpete mergulhava bem embaixo, emoldurando a
ascendente intumescncia dos seios; a saia subia at o alto e exibia as coxas
longas e esguias. Acrescentou uma fina corrente de diamantes, com uma
nica gota de safira que caa grudada na fenda entre os seios.
Enfiou as sandlias de saltos agulha, aspergiu perfume em todos os lugares
certos e considerou-se pronta.
Olhou-se no espelho.
Por que se sentia to infeliz? O tumulto em sua volla a atormentava, a
desafiava, mas no era a causa dessa profunda infcll cidade. Ela ficava
muito bem quando trabalhava, quando se concentrava no que tinha de ser
feito e em como faz-lo melhor. Mas, assim que parava, to logo deixava a
mente divagar da tarefa imediata  mo, l se instalava de novo a tristeza.
Essa tristeza prolongada o achatamento do nimo.
E com isso, admitiu, uma raiva que no sabia identificar. Nem sequer sabia
mais com quem estava furiosa. Don, o pai, consigo mesma, Ty.
Que importncia tinha? Faria o que precisava fazer e se preocuparia com o
resto depois.
Por enquanto, tomaria vinho e conversaria, poria Tyler a par do que soubera
nesse dia. E com a vantagem a mais de deix-lo numa vertigem sexual. No
todo, era uma tima forma de passar a noite.
-- Meu Deus! Eu me detesto -- disse em voz alta. -- E no sei por qu.
Deixou-o aguardando, mas ele j esperava por isso. A verdade foi que lhe
deu tempo para pr tudo no lugar. A noite sombreava o ptio ladrilhado. Luz
de velas projetadas da mesa, de candelabros sobre o jardim circular, de
luminrias enfiadas entre os vasos de flores.
Escolhera o vinho, um suave e jovem branco, e pedira alguns canaps ao
pessoal da cozinha. Os empregados da casa, notara, eram dedicados a
Sophia e apreciavam o sabor de romance.
Uma boa coisa, decidiu, pois se haviam precipitado a correr instalando as
velas, acrescentando garrafinhas com ramos de flores, nas quais ele jamais
teria pensado, e at pondo msica no volume mnimo nos alto-falantes ao ar
livre.
S esperava que estivesse  altura das expectativas deles.
Ouviu o rudo dos saltos dela nos ladrilhos, mas no se levantou. Sophia,
pensou, habituara-se demais a homens saltando em posio de sentido em
sua presena. Ou caindo a seus ps.
-- Que significa tudo isso? -- ela perguntou.
-- O pessoal se esmerou. -- Ele indicou a cadeira a seu lado. -- Pea um
vinhozinho e queijo aqui e receber tratamento rgio. -- Olhou -a enquanto
tirava o vinho do balde. -- Veja o que acontece quando eu lhe peo pra usar
uma coisa bonita.  isso que surge quando se est num castelo.
-- No  seu estilo, mas voc parece estar se superando.
Cavar algumas valas hoje me deixou de bom humor. -- Ele entregou-lhe uma
taa e bateu de leve a sua na dela. -- Salute.
-- Como eu disse, andei cavando tambm. Os empregadosforam muito
informativos Soube que Don fazia visitas regulares aqui, visitas no-
comunicadas. Embora nunca ficasse sozinho, raras vezes vinha com Gina.
-- Ah, o ninho de amor.
-- Parece. O nome da amante  Signorina Chezzo. Jovem, loura, tola e gosta
do caf-da-manh na cama. Uma hspede freqente nos ltimos anos. Don
insultou os empregados, subornando-os para que mantivessem as visitas dela
em segredo, mas, como ningum aqui gosta de Gina, aceitaram o dinheiro e
aquiesceram. Teriam sido discretos sem o dinheiro, claro.
-- Claro. Falaram dos outros visitantes? -- Sim. Meu pai, mas j tnhamos
deduzido isso, e a mulher com quem ele veio uma vez, que no era Rene. Kris.
Tyler armou uma carranca olhando o vinho.
-- No consegui tanta coisa assim do vinhedo.
-- Pra mim,  mais fcil arrancar com jeitinho informaes do pessoal da
casa. De qualquer modo, mal chegam a ser novidades.  uma obviedade
absoluta que ele usava meu apartamento para encontros amorosos quando
lhe convinha. Por que no o castello?
-- Voc no quer que eu diga que sinto muito, mas sinto.
-- No, no me importa que diga. E sinto muito tambm Torna muito mais
adorvel o fato de Mama ter encontrado algum que vai faz-la feliz.
Algum em quem todos ns podemos confiar. Digo isso sabendo que ele
trabalhou antes para Jerry DeMorney na La Coeur, e que Jerry tambm tem
sido hspede aqui.
Dessa vez Tyler assentiu com a cabea.
-- Eu j imaginava. A equipe do campo s soube me dar uma descrio, e no
foi clara. Tende a prestar mais ateno s mulheres que aos homens de
terno.
--  mesmo? -- Nervosa, ela levantou-se e tomou o vinho enquanto andava de
um lado para outro, -- Jerry odiava meu pai. Uma espcie de dio civilizado,
do qual eu sempre desconfiei.
-- Por qu?
-- Voc sempre continua realmente por fora, no ? -- ela respondeu. --
Alguns anos atrs, meu pai teve um caso trrido com a mulher de Jerry.
Mantiveram a coisa em segredo, mas era de absoluto conhecimento no
crculo interno. Ela deixou Jerry, ou ele deu um chute nela. Esse pedao da
torta  servido de diferentes formas, dependendo que quem corta. Jerry e
meu pai eram razoavelmente amigos antes disso, e depois as coisas
esfriaram. Mas persistia algum calor sob a frieza, o que descobri dois anos
atrs, quando Jerry deu em cima de mim.
-- Ele deu em cima de voc?
-- Claro e forte. Eu no estava interessada. Ele ficou chateado e tinha
muitas coisas deselegantes a dizer sobre meu pai, sobre mim e minha
famlia.
-- Maldito seja, Sophie. Por que no me contou antes?
-- Porque ele fez questo de ir me ver no dia seguinte mesmo, com muitas
desculpas. Disse que tinha ficado mais desesperado com o divrcio do que se
deu conta, se sentiu pssimo e envergonhado por ter descontado em mim e
chegou  concluso de que seu casamento tinha acabado muito antes de tudo
aquilo acontecer. E assim por diante, nessa linha. A explicao era razovel,
compreensvel. Ele disse as coisas certas e no tornei mais a pensar no
assunto.
-- Que pensa disso hoje?
-- Vejo um ardiloso tringulo ntimo. Meu pai, Kris e Jerry. Quem vinha
usando quem eu no sei, mas acho que Jerry est envolvido, ou pelo menos
sabe do desvio de dinheiro, talvez at da adulterao. Seria lucrativo para
La Coeur, foi lucrativo a Giambelli lutar com a inquietao do consumidor, o
escndalo pblico e a discrdia interna. Acrescente Kris  histria e tem
meus planos, minha campanha e meu trabalho jogados no colo deles antes de
eu ter uma chance de realiz-los. Sabotagem empresarial, espies, isso 
muito comum nos negcios.
-- Assassinato, no.
-- No, isso  que torna a coisa pessoal. Ele poderia ter matado meu pai.
Consigo ver mais Jerry do que Donato com uma arma na mo. No sei se 
uma idia mais baseada no desejo do que na realidade. H uma distncia
muito grande entre espionagem empresarial e assassinato a sangue-frio.
Mas...
-- Mas?
-- Viso retrospectiva -- ela respondeu com um encolher de ombros. --
Repensando agora as coisas que ele me disse quando perdeu o controle, e
mais, em como disse. Ele se mostrou primeiro um homem  beira do abismo e
pronto pra saltar. Doze horas depois, arrependido, envergonhado,
controlado, me trouxe dzias de rosas. Mesmo assim, de um modo
levemente civilizado, dando em cima de mim. Eu devia ter visto que o
primeiro incidente era verdadeiro e o resto, fachada. Mas no vi. Porque
estou habituada aos homens darem em cima de mim. -- A infelicidade e a
insatisfao tentaram mais uma vez chegar  superfcie e ela as reprimiu. --
E uso isso pra conseguir o que quero.
-- Por que no? Voc  bastante esperta pra usar as ferramentas  mo. Se
o cara deixa,  problema dele. No seu.
-- Ora. -- Ela deu uma leve risada e tomou um gole de vinho --  inesperado,
vindo de um homem com quem eu usei essas ferramentas.
-- No me machucou nada. -- Ele esticou as pernas, cruzou os tornozelos e
viu que ela tentava decifr-lo. Nada mal, pensou. Que tenha a curiosidade de
saber, pra variar. -- De qualquer modo, o cara que corresponde  descrio
de DeMorney passou algum tempo no lagar -- continuou. -- Teve acesso ao
setor de engarrafamento. Com Donato.
-- Ah. -- Que tristeza, ela pensou. -- O tringulo se refaz numa caixa de
quatro lados. Jerry se liga a Don, Don a meu pai. Jerry e papai se ligam a
Kris. Certinho.
-- O que voc quer fazer em relao a isso?
-- Contar  polcia, aqui e em So Francisco. E quero falai com David. Ele
saber mais sobre Jerry na La Coeur. -- Ela fisgou um morango do prato e
mordeu-o devagar. -- Amanh vou a Veneza. Concordei em dar algumas
entrevistas, durante as quais vou enforcar Don pelos colhes. Desgraa para
a famlia, uma traio aos leais empregados e clientes da Giambelli. Nosso
choque, pesar e tristeza, e nossa resoluta cooperao com as autoridades,
na esperana de que ele seja logo levado  justia, e poupar mais
sofrimentos  esposa, inocente e grvida, aos filhos pequenos e  me,
inconsolvel. -- Ela pegou a garrafa para servir-se mais uma vez. -- Voc
acha que  frio, duro e apenas meio srdido.
-- No, acho que  duro para voc. Duro dizer essas coisas, mantendo a
cabea erguida ao dizer. Voc herdou a fibra de sua av, Sophie.
-- De novo inesperado, mas grazie. Vou ter de lidar com Gina e com minha
tia tambm. Se quiserem apoio da famlia, emocional e o importantssimo
financeiro, elas tero de cooperar com a linha de ao que tomamos em
pblico.
-- A que horas a gente parte?
-- Eu no preciso de voc para isso.
-- No seja idiota. No combina com voc. A MacMillan est igualmente
envolvida, igualmente vulnervel. Funciona melhor na imprensa se fizermos
isso como uma equipe. Famlia, companhia, parceria. Solidariedade.
-- Partimos s sete em ponto. -- Ela tornou a sentar-se. -- Vou ditar uma
declarao, algumas respostas pra voc. Pode repassar no caminho, para
ficarem frescas na mente, caso seja interrogado.
-- timo. Mas vamos tentar deixar claro que essa  a nica rea em que
voc pe palavras na minha boca.
--  difcil resistir com tipos taciturnos como voc, mas tentarei.
Ele passou pat num biscoito e entregou a ela.
-- Ento, vamos mudar de canal por algum tempo. Que acha de sua me e
David?
-- Acho o mximo.
-- Acha mesmo?
-- Acho, voc no?
-- Com certeza. Mas me pareceu que voc ficou meio desligada desde que
eles telefonaram com o grande anncio.
-- Acho que, nessas circunstncias, tenho direito a ficar um pouco desligada.
Mas se trata de uma virada dos acontecimentos que me satisfaz. Parece
certo. Estou feliz por ela. Por eles. Ele vai ser bom com ela, para ela. E os
meninos... Mama sempre quis mais filhos, agora vai ter. Embora j sejam
meio crescidos.
-- Eu era meio crescido e ela conseguiu ser mais uma me pra mim que a
minha.
Os ombros dela, tensos quando ele fez a pergunta, mais uma vez relaxaram.
-- Mama  jovem demais pra ser sua me.
--  o que eu dizia a ela. E ela dizia que isso no tinha a ver com idade, mas
com maturidade e experincia.
-- Ela adora voc. Muito.
-- O sentimento  mtuo. De que est rindo?
-- No sei. Acho que andei um pouco deprimida hoje, com uma coisa ou outra.
E no esperava terminar o dia aqui sentada com voc, na verdade relaxando.
Ter dito todo aquele negcio medonho em voz alta me faz bem. Limpa o
palato -- ela acrescentou com outro gole de vinho. -- Depois passar para uma
coisa agradvel com que a gente concorda.
-- Temos mais algo em comum agora do que qualquer um de ns teria
imaginado um ano atrs.
-- Acho que temos. E me impressiona o fato de que, em vez de ter essa
conversa dentro de casa, com as suas botas apoiadas numa mesa de centro,
estarmos sentados aqui. Vinho, luz de velas, at msica. -- Ela recostou-se e
olhou para o cu. -- Estrelas, legal saber que voc sabe apreciar um lugar
atraente, mesmo para uma conversa que , em essncia, de negcios e
estressante.
--  isso a. Mas a verdade  que eu quis montar tudo aqui para a gente ter
um belo cenrio quando eu seduzir voc.
Ela se engasgou com o vinho c conseguiu rir.
-- Me seduzir? Onde isso est no seu programa?
-- Subindo bem aqui. -- Ele roou a ponta do dedo pela coxa dela, logo
abaixo da bainha da saia. -- Gosto do seu vestido
-- Obrigada. Eu pus pra atormentar voc.
-- Eu imaginei. -- Ele travou o olhar no dela. -- Tiro certeiro o seu.
Ela curvou-se, tornou a pegar a garrafa e serviu-se. Quando se tratava de
combates sexuais, considerava-se uma veterana.
-- Concordamos que parte de nosso relacionamento terminou.
-- No, voc s estava tendo um faniquito por alguma coisa, e eu deixei.
-- Um ataque de raiva. -- Ela mergulhou a ponta do dedo no vinho e bateu-a
de leve na lngua. -- No tenho faniquitos.
-- Tem, sim. O tempo todo. Sempre foi uma criana malcriada. Uma criana
malcriada e sexy. E, nos ltimos tempos, passou por momentos muito duros.
A fibra que ele acabara de elogiar enrijeceu-se.
-- No estou em busca de sua solidariedade, MacMillan, nem de sua
tolerncia.
-- Est vendo? -- O sorriso dele, um insulto calculado, lampejou. --J
comeou a se dirigir pra um faniquito.
O mau gnio enfiou-se furtivamente pela espinha dorsal dela e acrescentou
calor  rigidez.
-- Oua bem o que tenho a dizer a voc: se essa  a sua idia de seduo,
surpreende que j tenha marcado pontos em alguma conquista amorosa.
-- A est uma das diferenas entre mim e a maioria dos homens que voc
conhece. -- Com as pernas estendidas, a voz dele saiu indolente: -- Eu no
marco pontos. No penso em voc como uma ranhura numa perna da cama ou
um trofu.
-- Oh,  Tyler MacMillan mesmo. Altos princpios, moralista, racional.
Mais uma vez ele riu para ela, mas agora muito divertido. -- Acha que me
insulta? Est usando o mau gnio como defesa.  seu mecanismo. Na maioria
das vezes, no me incomodo de revidar, mas no estou com disposio de
nimo pra uma briga. Quero fazer amor com voc, comear aqui, devagar, e
continuar com ns dois subindo juntos as escadas para aquela cama
fantstica e grande no seu quarto.
-- Quando quiser voc na minha cama, eu aviso.
-- Exatamente. -- Sem se apressar, ele levantou-se e a levantou. -- Voc
est gamada por mim, no est?
-- Gamada? -- Ela teria ficado boquiaberta se no estivesse to ocupada em
ridiculariz-lo: -- Por favor. Voc vai causar vexame a si mesmo.
-- Louca por mim. -- Ele a abraou, dando risadinhas, mas ela o empurrou
pelo peito e se afastou. -- Vi voc hoje, mais de uma vez, parada na janela
olhando pra mim.
-- No sei do que est falando. Talvez eu tenha olhado pela janela.
-- Olhando pra mim -- ele continuou, puxando-a devagar para junto de si. --
Do jeito que eu olhava pra voc, me querendo. -- Esfregou o rosto de leve no
pescoo dela. -- Do jeito que eu queria voc. E mais. -- Roou os lbios pela
face dela, assim que ela se virou. -- H mais coisas entre ns que apenas
necessidade.
-- No h nada...
Ela arquejou quando ele lhe apertou a nuca com a mo, e gemeu quando ele
esmagou a boca na sua.
-- Se fosse s isso, s o calor, voc no ficaria to amedrontada.
-- Eu no tenho medo de nada. Ele recuou.
-- No precisa ter. No vou magoar voc.
Ela balanou a cabea, mas ele colou de novo os lbios nos dela com
delicadeza, agora, e insuportavelmente afetuoso. No, ela pensou,
amolecendo colada nele. No iria mago-la. Mas ela com certeza iria mago-
lo.
-- Ty. -- Comeou a empurr-lo de novo e acabou agarrando sua camisa.
Sentira falta do calor com que ele a inundava. Aquelas sensaes
emaranhadas de risco e legurana. -- Isso  um engano.
-- No me parece. Sabe o que achio? -- Ele ergueu-a no colo. -- Acho uma
burrice discutir, principalmente quando ns dois sabemos que eu tenho
razo.
-- Pare com isso. Voc no vai me levar no colo para dentro de casa. O
pessoal vai fofocar sobre isso durante semanas.
-- Imagino que j fizeram apostas de que isso iria acabar acontecendo. E se
voc no quer que os empregados fofoquem, no devia ter empregados.
Quando chegarmos aos Estados Unidos, acho que deve ir morar comigo. A
ningum ter nada a ver com o que fazemos.
-- Morar... morar com voc? Voc pirou? Ty, me ponha no cho. No vou ser
carregada escadaria acima como uma herona de romance de amor.
-- No gosta? Tudo bem, ento a gente faz assim. -- Ele mudou-a de
posio, erguendo-a e apoiando-a no ombro. -- Melhor?
-- No tem a menor graa.
-- Querida. -- Ele deu uma palmada no traseiro dela. -- Da minha posio, .
De qualquer modo, h muito espao em minha casa para as suas coisas.
Tenho trs quartos extras com armrios vazios. Devem bastar para as suas
roupas.
-- Eu no vou me mudar pra sua casa.
-- Vai, voc vai sim.
Ele entrou no quarto dela e fechou a porta com um chute atrs. Tinha de
dar crdito ao pessoal da casa. No vira nenhum deles na ida para cima. Nem
ouvira um pio. Tambm deu nota mxima a Sophia. No o chutava nem
gritava. Classe demais, imaginou, enquanto, com ela ainda no ombro, acendia
as velas espalhadas pelo quarto.
-- Tyler, posso recomendar um bom terapeuta. No  vergonha alguma
buscar ajuda para instabilidade mental.
-- No vou esquecer isso. Sabe Deus que minha cabea no anda muito boa
desde que me enredei com voc. A gente pode marcar uma consulta juntos,
depois que voc se mudar pra minha casa.
-- Eu no vou nie mudar pra sua casa.
-- Vai, voc vai sim. -- Ele deixou-a deslizar at ficar de novo em p e de
frente para ele. -- Porque isso  o que eu quero.
-- Se acha que dou a mnima para o que voc quer no momento...
-- Porque -- ele continuou, deslizando os dedos pelo rosto dela -- sou to
doido por voc quanto voc por mim. Fechou a matraca, no fechou? J 
hora, Sophia, de comearmos a lidar com esse fato, em vez de danar em
volta dele.
-- Sinto muito. -- A voz dela saiu trmula. -- Eu no quero.
-- Tambm sinto muito que no queira. Porque  a verdade. Olhe pra mim. --
Ele emoldurou o rosto dela com as mos. -- Eu tambm no estava atrs
disso. Mas j vem rolando h muito tempo. Vamos ver aonde nos leva. --
Baixou a boca na dela. -- S ns dois.
Bem prprio dele, ela pensou. Queria acreditar e confiar em todos aqueles
sentimentos suaves que fluam nela. Amar algum e fazer com que fosse
forte e verdadeiro. Ser capaz de fazer. Ser digna disso.
Queria acreditar.
Ser amada por um homem honesto, que faria promessas e cumpriria. Que se
importaria com ela, embora ela no merecesse.
Era um milagre.
Queria acreditar em milagres.
A boca dele na sua era quente e firme, despertando com pacin cia o desejo.
A firme e irresistvel elevao da paixo era um alvio. Isso, ela entendia;
nisso, confiava. E isso, pensou quando o abraou, sabia dar.
Foi com Ty de bom grado quando ele a baixou sobre a cama.
Ele mantinha o calor aceso. Dessa vez no haveria engano algum que o que
aconteceu entre eles foi um ato de amor. Generoso, altrusta e amoroso. Ele
entrelaou os dedos nos dela ao aproun<l.n o beijo, saboreando o incio de
rendio nos lbios macios.
Destinava-se a ser ali, na velha cama no castello, onde tudo comeara um
sculo atrs. Ali, outro incio, outra promessa. Outro sonho. Olhando-a, ele
soube.
-- Tempo de florada -- ele disse, em voz baixa. -- A nossa.
-- Sempre o fazendeiro -- ela comentou com um sorriso, desabotoando a
camisa dele.
Mas a mo tremeu, sem firmeza, quando ele a tomou na dele e levou-a aos
lbios.
-- A nossa -- ele repetiu.
Despiu-a devagar, viu a luz das velas tremeluzir em sua pele, a forma como
prendeu a respirao, soltou-a e prendeu-a mais uma vez quando a tocou. Ela
sabia que as barreiras entre os dois desmoronavam? Ele sabia; sentiu-as
desmoronarem quando ela estremeceu. E soube o momento preciso em que o
corpo dela se rendeu ao corao.
Os dois pareciam afundar na cama como amantes numa piscina. Sophia
entregou-se s sensaes daquelas palmas speras deslizando por ela, a
boca persuasiva vagando por onde queria.
Abriu os braos e ergueu-se para ele. Correspondeu. A tranqila beleza de
saber que ele estava ali, que iria continuar da mesma forma que ela e
derramar-se nela como vinho no sangue.
Quando ele encostou a cabea no peito dela, ela sentiu vontade de chorar.
Ningum mais, ele pensou, perdendo-se nela. Ningum mais o desvendara
assim. Sentiu a elevao dela sob si, um arco de acolhimento. Ouviu o
entrecortado gemido fundir-se com o dele ao alcanar o pico. E soube
quando a olhou que ela imergia no que davam um ao outro.
Uma fuso, rara e perfeita, partilhada afinal.
Mais uma vez entrelaou as mos nas delas, apertando-as agora.
-- Me receba, Sophie. -- O corpo trmulo, o controle mal mantido, ele
deslizou dentro dela. -- Me receba. Eu amo voc.
A respirao dela tornou a travar-se quando a sensao a encheu por dentro
e varou-lhe o corao. Medo e alegria irrompendo.
-- Ty. No.
Ele levou os lbios aos dela, o beijo delicado. Devastador.
-- Eu amo voc, me receba. -- Manteve os olhos abertos e nos dela, viu as
lgrimas nadarem e tremeluzir. -- Diga.
-- Ty. -- O corao dela estremeceu e pareceu transbordar. Ela enroscou os
dedos com fora nos dele. -- Ty -- repetiu. -- Ti amo.
Ela tomou-lhe a boca com a sua, colando-a uma na outra, e deixou que ele a
arrebatasse.
-- Diga de novo. -- Extasiado, ele correu a ponta do dedo acima e abaixo da
espinha dela. -- Assim, em italiano.
Ela fez que no com a cabea, o nico sinal de que ouviu o pedido, e manteve
a face encostada no corao dele.
-- Gosto do som. Quero ouvir de novo.
-Ty...
-- No tem sentido algum retirar o que disse. -- Ele continuou a tranqila
carcia e a voz era clara e calma. -- No vai escapar impune.
-- As pessoas dizem todo tipo de coisas no calor da paixo. Ela se
desvencilhou dele e quase o derrubou da cama.
-- Calor da paixo? Se voc comear a usar clichs assim, vou perceber que
est atrapalhada. -- Num movimento gil, ele puxou-a de volta para a cama.
-- Diga de novo. No  to difcil na segunda vez. Acredite.
-- Quero que voc me escute. -- Ela levantou-se e enrolou-se na colcha. Pela
primeira vez que se lembrava, sua prpria nudez deixou-a constrangida e
exposta. -- Seja o que for que talvez eu sinta no momento, no quer dizer...
Nossa! Detesto quando voc me olha assim. Pacincia divertida. 
enfurecedor. Insultante.
-- E voc est tentando mudar de assunto, No vou brigar com voc, Sophia.
Sobre isso, no. Apenas me diga de novo.
-- Ser que no entende? -- Ela fechou as mos em punhos. Sei do que sou
capaz. Conheo minhas foras e minhas fraquezas. Eu simplesmente vou
ferrar tudo.
-- No, no vai. No a deixarei ferrar. Ela correu a mo pelos cabelos. --
Voc me subestima, MacMillan.
-- No,  voc quem se subestima.
Era isso, ela percebeu ao tornar a baixar devagar as mos. Essa f simples e
tranquila nela, mais do que tinha em si mesma,  que a deixava
desamparada.
-- Ningum mais jamais me diria isso. Voc  a nica pessoa que diria isso a
mim. Talvez por isso  que eu...
Embora os nervos dele comeassem a se retesar, Ty fez um carinho
despreocupado no tornozelo dela.
-- Continue em frente. Quase l.
-- E tem mais. Voc insiste. Ningum mais jamais insistiu.
-- Nenhum dos outros amou voc. Est amarelando, Sophie. Covarde.
Ela estreitou os olhos. Os dele eram um calmo lago azul, pensou. Apenas um
pouco divertidos, apenas um pouco... No, percebeu com um sobressalto. No
convencidos e divertidos. Tinha tenso atrs, e nervos. No entanto, ele
esperava que ela lhe desse o que precisava.
-- Voc no  o primeiro homem com quem estive -- irrompeu.
-- Chega de rodeios. -- Ele curvou-se para a frente e tomou o queixo dela na
mo. A pacincia no rosto comeava a passar para mau humor. Isso a
deliciou. -- Mas tenho uma notcia pra voc.
-- Com toda certeza vou ser o ltimo.
E isso, ela decidiu, era absolutamente certo.
-- Tudo bem, Ty. Eu nunca disse a outro homem. Nunca tive o cuidado de no
dizer, porque nunca foi um problema. Na certa no vou fazer favor algum em
dizer a voc, mas agora voc vai ter de lidar com isso. Eu amo voc.
-- Pronto, no foi to difcil. -- Ele correu as mos pelos ombros dela,
fortalecido pelo alvio que o bombeava. -- Mas voc no disse em italiano. O
som  realmente maravilhoso em italiano.
-- Seu idiota. Ti amo.
Ela riu, lanando-se em cima dele.

Captulo Vinte e Seis
O tenente DeMarco passou a ponta do dedo pelo bigode. -- Agradeo a sua
vinda, signorina. A informao que me trouxe, junto com o Signore
MacMillan,  interessante. Ser examinada.
-- Que quer dizer exatamente isso? Examinada? Estou dizendo que meu
primo usou o castello para encontros amorosos com a amante, para
encontros clandestinos com um concorrente e uma funcionria que eu demiti
pessoalmente.
-- Nada disso  ilegal. -- DeMarco estendeu as mos. Interessante, at
suspeito, por isso  que vou examinar. Mas ou encontros dificilmente eram
clandestinos, pois vrios empregados no castello e nos vinhedos tinham
conhecimento disso.
-- No tinham da identidade de Jeremy DeMorney, nem da ligao dele com
a empresa La Coeur. --Tyler ps a mo no ombro de Sophia enquanto falava.
Se no estivesse enganado, ela iria disparar da cadeira e varar direto o
teto. -- O que se deduz disso, como conseqncia lgica,  que DeMornay
estava envolvido na sabotagem que resultou em vrias mortes. Possivelmente
outros de La Coeur esto envolvidos, ou pelo menos cientes.
Como no podia empurrar a mo de Ty, Sophia fechou a sua em punho.
-- Jerry  sobrinho-neto do atual presidente da La Coeur.  um homem
ambicioso, inteligente, que tinha rancor contra meu pai. E muito
provavelmente contra minha famlia. Toda fatia de mercado que a Giambelli
perdeu durante essas crises tem sido lucro nos bolsos de La Coeur. Como
membro da famlia, isso  lucro no bolso de Jerry, e satisfao pessoal
tambm.
DeMarco deixou-a acabar de falar:
-- E no tenho a menor dvida de que, quando receberem essa informao,
as autoridades competentes vo querer interrogar esse Jeremy DeMorney.
Obviamente, como ele  um cidado americano, residente em Nova York, eu
no posso fazer isso. A esta altura, minha principal preocupao  a priso
de Donato Giambelli.
-- Que vem escapando de vocs h quase uma semana -- comentou Sophia.
-- Soubemos da identidade da companheira de viagem dele, ou, devo dizer, a
mulher que acreditamos viajar com ele, s ontem. O carto de crdito da
Signorina Chezzo tem vrios dbitos altos. Espero a qualquer momento mais
informaes.
-- Claro que ele usou o carto de crdito dela -- disse Sophia, impaciente. --
 idiota, mas no louco. Com certeza  esperto o bastante pra cobrir seu
rastro e sair da Itlia da maneira mais rpida e fcil. Cruzar a fronteira
para Sua, eu imagino. Entrou em contato com Jerry do distrito de Como. A
fronteira sua fica a minutos de distncia. Os guardas l mal olham um
passaporte.
-- Sabemos disso e as autoridades suas esto nos ajudando.  s uma
questo de tempo.
-- O tempo  um bem valioso. Minha famlia tem sofrido em termos pessoais,
emocionais e financeiros h meses. At Donato ser preso e interrogado, at
termos as respostas e garantias de que no se planejou nenhuma outra
sabotagem, no podemos acabar com isso. Meu pai fez parte disso, a
extenso dessa parte ainda no sei. D pra entender o que sinto?
-- Sim, creio que entendo, signorina.
-- Meu pai foi morto. Preciso saber quem o matou e por qu. Se eu tiver de
caar Don sozinha, se tiver de enfrentar Jerry DeMorney pessoalmente e
interrogar toda a organizao La Coeur pra obter essas respostas, acredite,
 o que vou fazer.
-- Voc  impaciente.
-- Ao contrrio, tenho tido uma pacincia admirvel. -- Ela levantou-se. --
Preciso de resultados.
Ele ergueu um dedo quando o telefone tocou. Sua expresso mudou um
pouco enquanto ouvia a srie de informaes. Ao desligar, cruzou as mos.
-- J tem seus resultados. A polcia sua acabou de prender seu primo.

FOI UM APRENDIZADO V-LA EM AO. TYLER NO DISSE UMA
palavra, no sabia se teria alguma a dizer se tentasse. Ela bombardeara
DeMarco com perguntas, exigncias, escrevendo as informaes no bloco de
anotaes. Quando saiu do escritrio do tenente, marchando, Tyler teve de
aumentar consideravelmente o passo apenas para alcan-la. Sophia movia-
se como um foguete e com um celular grudado na orelha.
Ele no entendia metade do que ela dizia, de qualquer modo, Comeou em
italiano, passou para o francs em algum momento e retornou ao italiano com
algumas breves ordens em ingls. Abria caminho entre os turistas que
apinhavam as ruas estreitas, transpunha com agilidade as belas pontes e
atravessava em linha reta as praas. Sem parar de falar, nem de andar,
mesmo quando teve de enfiar o celular entre a orelha e os ombros para
retirar a agenda e fazer mais anotaes.
Passava por vitrinas de lojas sem dar sequer uma olhada. Ele calculou que, se
ela passara a toda pela Armani sem nenhuma pausa no andar, nada iria det-
la.
No cais principal, Sophia saltou num txi aqutico, e Tyler captou a palavra
"aeroporto" na gil torrente que ela proferia em italiano. Ele imaginou que
fora uma boa coisa ter o passaporte no bolso, seno seria deixado para trs.
Ela nem se sentou, ento, mas se apoiou na amurada atrs do motorista e
deu mais telefonemas. Fascinado, ele se acomodou no outro lado e ficou a
olh-la. O vento assanhava o curto gorro de cabelos dela, o sol refletia-se
nas lentes escuras de seus culos. Veneza flua atrs, um antigo e extico
pano de fundo para uma mulher contempornea com lugares aonde ir e
pessoas para ver. No admirava que ele fosse louco por ela. Tyler cruzou os
braos, inclinou a cabea para trs e deixou-se aproveitar as ltimas brisas
da cidade construda sobre a gua. Se conhecia sua mulher, e conhecia, os
dois iriam passar algum tempo nos Alpes.
-- Tyler! -- Ele virou-se quando ela bateu os dedos nele. -- Quanto dinheiro
ns temos? Em espcie?
-- Comigo? No sei. Duzentas mil liras, talvez cem dlares.
-- timo. -- Ela deu meia-volta para as escadas quando o barco atracou. --
Pague ao motorista.
-- Sim, senhora.
Sophia varou o aeroporto do mesmo modo que varara as ruas da cidade. Por
suas ordens, o jato da empresa j esperava abastecido e liberado para o
vo. Menos de uma hora aps ter recebido a notcia de que o primo fora
preso, ela prendia o cinto de segurana para a decolagem. E pela primeira
vez nesse perodo desligou o telefone, fechou os olhos e inspirou fundo.
-- Sophia?
-- Che? Que ?
-- Voc  demais.
Ela tornou a abrir os olhos e deu um sorriso lento e sarcstico. Certssimo.
                                  + + +

ELE FORA LEVADO DE UM PEQUENO REFGIO DE FRIAS ANINHADO
nas montanhas ao norte de Chur e perto da fronteira austraca. O mais
distante em que pensara de antemo fora, talvez, cruzar essa fronteira, ou
ento ir para Liechtenstein. A meta era apenas pr tantos pases entre a
Itlia e ele quanto possvel.
Mas enquanto olhava para o norte, Donato deixara de olhar seu prprio
terreno. A amante no era to obtusa quanto imaginara, nem metade to
leal. Vira uma reportagem no noticirio da televiso enquanto se refestelava
num banho de espuma, e encontrara o esconderijo do dinheiro dele em sua
mala.
Pegara o dinheiro, fizera a reserva de um vo e dera um nico telefonema
annimo. Achava-se a caminho da Riviera francesa, consideravelmente mais
rica, quando a eficiente polcia sua irrompera no quarto de Donato e o
arrancara de debaixo das cobertas.
Agora numa cela sua, ele deplorava seu destino e xingava todas as
mulheres como maldio da existncia.
No tinha nem dinheiro para contratar um advogado, e precisava
desesperadamente de um para lutar contra a extradio pelo maior tempo
possvel. Pelo tempo necessrio, em nome de Deus, para pensar no rumo com
clareza.
Iria jogar-se aos joelhos e pedir misericrdia a La Signora. Escaparia e
fugiria para a Bulgria. Convenceria as autoridades de que nada fizera, alm
de fugir com a amante. No iria apodrecer na priso a vida toda. Com os
pensamentos dando voltas no mesmo crculo, voltas e voltas, ele ergueu os
olhos e viu um guarda no outro lado das grades. Informado de que tinha
uma visita, levantou-se trmulo. Pelo menos os suos haviam tido a decncia
de deix-lo usar suas roupas, embora no lhe permitissem gravata, cinto,
nem sequer os cadaros dos sapatos Gucci.
Ajeitou os cabelos com as mos ao ser levado para a rea de visita. No lhe
interessava quem viera v-lo, desde que algum o ouvisse.
Quando viu Sophia do outro lado do vidro, seu nimo se elevou. Famlia,
pensou. O sangue ouviria o sangue.
-- Sophia! Grazie a Dio.
Desabou na cadeira e atrapalhou-se com o telefone.
Ela deixou-o falar, desconexo, em pnico, as splicas, as negaes e o
desespero. E quanto mais ele fazia isso, mais espesso ficava o aperto em
volta do corao dela.
-- Stai zitto.
Ele de fato se calou com a tranqila ordem da prima. Devia ter visto que ela
agora representava a av e que tinha a expresso fria e inclemente.
-- No estou interessada em desculpas, Donato. No vim aqui pra ouvir suas
lamentveis alegaes de que tudo foi um terrvel engano. No pea a minha
ajuda. Eu fao as perguntas e voc d as respostas. Depois decidirei o que
ser feito. Est claro?
-- Sophia, voc tem de me ouvir...
-- No. No tenho. No tenho de fazer nada. Posso me levantar e ir embora.
Voc, por outro lado, no pode. Voc matou meu pai? -- No. In nome di Dio !
No pode acreditar nisso.
-- Nessas circunstncias, acho fcil acreditar. Voc roubou da famlia.
Donato comeou a negar e, lendo a resposta nos olhos dele, Sophia largou o
telefone e fez meno de levantar-se. Em pnico, ele bateu com a palma da
mo no vidro e gritou. Quando os guardas comearam a avanar, ela
friamente os repeliu com um gesto e tornou a pegar o telefone.
-- Voc ia dizer?
-- Sim. Sim, roubei. Eu errei, fui idiota. Gina, ela me deixa louco, me
atormenta por mais. Mais filhos, mais dinheiro, mais coisas. Peguei dinheiro.
Pensei: que importncia tinha? Por favor, Sophia, cara, no vai deixar me
manterem na priso por causa de dinheiro.
-- Pense melhor. Eu deixaria, sim. Minha av talvez no. Mas no foi s o
dinheiro. Voc adulterou o vinho. Matou um velho inocente. Por dinheiro,
Don? Quanto ele rendeu a voc?
-- Foi um erro, um acidente. Juro. Era s pra deixar Baptista um pouco
doente. Ele sabia... Viu... Cometi um erro.
A mo tremia quando ele a esfregou no rosto.
-- Sabia o que, Donato? Viu o qu?
-- No vinhedo. Minha amante. Ele desaprovava, e poderia ter contado a Zia
Tereza.
-- Se continuar a me tomar por idiota, eu vou embora e deixo voc
apodrecer. Acredite. A verdade, Don. Toda.
-- Foi um erro, juro. Dei ouvidos a um mau conselho. Fui induzido a erro. --
Desesperado, ele puxava o colarinho j aberto. Sentia a garganta fechar-se,
sufocando-o. -- Eu ia ser pago, entenda, e precisava de dinheiro. Se a
empresa tivesse algum problema, se houvesse imprensa ruim, processos, eu
ia ganhar mais. Baptista, ele viu... as pessoas com quem falei. Sophia, por
favor. Eu estava furioso, muito furioso. Dei duro. A vida toda. La Signora
nunca me deu valor. A gente tem orgulho. Eu queria que ela me desse valor.
-- E matar um velho inocente, atacar a reputao dela, foi a resposta?
-- O primeiro foi um acidente. E a reputao da empresa...
--  a mesma coisa. Como poderia no saber disso?
-- Achei que, se houvesse apuros, depois eu ajudaria a consertar, e ela veria.
-- E seria pago pelas duas pontas -- concluiu Sophia. -- No deu certo com o
Signore Baptista. Ele no adoeceu, ele morreu. E enterraram o coitado
achando que o corao dele tinha apenas parado de funcionar, afinal. Que
frustrao para voc! Que irritao! Ento, quase imediatamente, Nonna
reorganizou a empresa.
-- , , e ela me recompensa pelos meus anos de servio? No --
Sinceramente indignado, ele deu um soco no balco. -- Traz um estranho,
promove uma americana que depois pode me questionai
-- Ento voc matou Margaret e tentou matar David.
-- No, no. Margaret. Foi um acidente. Eu estava desesperado. Margaret
andava examinando as contas, as faturas. Eu precisava... queria... s atras-
la, um breve tempo. Como podia saber que ia beber tanto vinho? Uma taa,
at duas, s a teria feito adoecer.
-- Que desconsiderao dela estragar tudo! Voc enviou garrafas de vinho
envenenado ao mercado. Ps vidas em perigo.
-- No tive opo. Nenhuma opo. Precisa acreditar em mim.
-- Meu pai sabia? Do vinho? Da adulterao?
-- No. No, era apenas um jogo pra Tony. A empresa era o jogo dele. No
soube da conta fantasma porque nunca se deu ao trabalho de olhar. No
soube de Baptista porque no conhecia ningum que trabalhava nos campos.
No era a vida dele. Sophia, era a minha vida.
Ela recostou-se brevemente. O pai fora fraco, um triste exemplo de marido,
at de homem. Mas no tomara parte alguma em assassinato ou sabotagem.
J era, pelo menos, um pequeno alvio.
-- Voc levou DeMorney ao castello, ao lagar. Recebeu dinheiro dele, no
foi? Ele pagava voc pra trair seu prprio sangue.
-- Me escute. -- A voz dele caiu para um suspiro. -- Fique longe de
DeMorney. E um homem perigoso. Voc tem de acreditar em mim. O que
quer que eu tenha feito, voc tem de acreditar que eu nunca quis magoar
voc. Nada vai par-lo.
-- Assassinato? Meu pai?
-- No sei. Juro pela minha vida, Sophia. Ele quer arruinar a famlia, me usou
pra isso. Me escute -- ele repetiu, pondo mais uma vez a palma da mo no
vidro. -- Fui induzido a erro. Agora ele vai deixar que me enforquem por
isso. Imploro a voc que me ajude. Imploro a voc que fique longe dele.
Quando eu soube que Cutter ia me denunciar, fugi. S fugi, Sophia, juro a
voc. Esto dizendo que contratei algum, um bandido das ruas pra atirar
nele e roubar os documentos.  mentira. Por que eu faria isso? J tinha
acabado tudo pra mim. Estava liquidado.
As reviravoltas de mentiras e verdades tinham de ser desenredadas. Fazer
isso exigia uma mo fria e firme, ela pensou. Mesmo agora, depois de tudo
que soubera dele, em parte ela queria estender a mo. No podia permitir-
se faz-lo.
-- Voc quer minha ajuda, Don? Conte tudo que sabe sobre DeMorney. Tudo.
Se eu ficar satisfeita, vou cuidar pra que a Giambelli providencie amparo
legal pra voc, e pra que seus filhos sejam cuidados e protegidos.
Quando Sophia voltou, Tyler achou-a exausta. Esmorecida. Antes que
pudesse falar, ela tocou a mo na dele.
-- No me pergunte ainda. Vou fazer uma teleconferncia no vo pra contar
logo tudo.
-- Tudo bem. Tentemos isso, ento. Ele puxou-a e abraou-a.
-- Obrigada. Voc pode se arranjar sem as coisas que levou ao castello por
alguns dias? Mandarei embalar e despachar. Precisamos ir pra casa, Ty. Eu
preciso estar em casa.
-- A melhor notcia que recebi em dias. -- Ele beijou o topo da cabea dela.
-- Vamos.

-- VOC ACREDITA NELE?
Tyler esperou que ela terminasse o telefonema e informasse tudo que tinha
a dizer. Em p agora, andando de um lado para outro da cabine, Sophia
tomava a terceira xcara de caf desde a decolagem.
-- Acredito que ele  um idiota, de carter fraco e egosta. Acredito que se
convenceu de que o Signore Baptista e Margaret foram acidentes infelizes.
Ele se deixou usar pelo dinheiro, e pelo ego, por algum muito mais
inteligente. Agora est arrependido, mais arrependido, porm, por ter sido
agarrado. Mas acredito, com toda convico, que ele tem medo de Jerry.
No acho que Dom matou meu pai. Nem que tentou matar David.
-- Imagina que seja DeMorney.
-- Quem mais? Provar no vai ser fcil. Ligar Jerry a qualquer coisa
relacionada a isso e confirmai no ser uma tarefa fcil. Tyler levantou-se e
tirou o caf da mo dela.
-- Est indo acelerada demais. Desligue por algum tempo.
-- No consigo. Quem mais, Ty? Vi que voc no concordou quando
estvamos na teleconferncia. Vejo agora.
-- Ainda no sei o que pensar. Levo mais tempo que voc pra processar as
coisas. Mas no consigo imaginar por que seu pai iria se encontrar com Jerry
no seu apartamento, nem por que, depois de todo esse tempo, esse
planejamento, Jerry iria matar Tony. Iria correr esse risco, se dar ao
trabalho. No se encaixa para mim. Mas eu no sou policial, nem voc.
-- Vo ter de interrog-lo. Mesmo segundo a palavra de algum como
Donato, vo ter de interrogar. Jerry vai resvalar e usar de subterfgios,
mas... -- Ela parou e inspirou fundo. -- Vamos parar em Nova York para
reabastecer.
-- Trs pases em um nico dia.
-- Bem-vindo ao meu mundo.
-- No vai conseguir arrancar nada dele, Sophie.
-- S uma oportunidade de cuspir na cara dele.
--  isso a. -- E ele a acusaria de ter feito isso. -- Sabe como encontr-lo?
 uma cidade grande.
Ela tornou a sentar-se e pegou a agenda.
-- Fazer ligaes  uma das minhas melhores coisas. Obrigada.
-- Escute, s vou junto pela carona.
-- Me deixe dizer uma coisa a voc que no escapou  minha observao
hoje.
-- Sophie, nada escapa,
-- Exatamente. Eu estava abrindo caminho no meio dessa confuso, dando
telefonemas, tomando providncias, apertando todos os botes e voc no
me interrompeu, no me fez perguntas, no afagou minha cabea nem me
mandou recuar pra que cuidasse disso.
-- Acontece que no falo trs lnguas.
-- No foi isso. No ocorreu a voc dar uma demonstrao de fora e
assumir o controle, me mostrar que pode resolver as coisas por mim. Do mi
mim modo que no feriu seu ego o fato de que eu
sabia o que tinha de fazer e como. No precisa mostrar fora porque sabe
que est a. E eu tambm sei.
-- Talvez eu simplesmente goste de ver voc mostrar a sua. Ela levantou-se
para acomodar-se e enroscar-se no colo dele.
-- Em toda a minha vida fiz questo de me ligar a homens fracos. Tudo
ostentao, nenhuma substncia. -- Com a cabea no ombro dele, ela pde
afinal descansar. -- Agora veja o que fiz.

O PRPRIO JERRY DEU VRIOS TELEFONEMAS. DE TELEFONES
pblicos. Mais que um problema, considerava Donato uma inconvenincia. E
mesmo isso seria resolvido muito em breve. Ele realizara o que planejara e
decidira realizar.
A Giambelli lutava para encontrar a sada de mais outra crise, a prpria
famlia se achava em tumulto, a confiana do consumidor mergulhava para o
menor nmero de todos os tempos. E ele vinha colhendo as recompensas em
termos pessoais, profissionais e financeiros.
Nada do que fizera -- nada do que fizera e pudesse ser provado -- fora
ilegal. Apenas fizera seu trabalho, como faria um empresrio agressivo, e
aproveitara as oportunidades que se apresentaram.
Sentiu-se mais divertido que aborrecido quando o segurana do saguo
anunciou que tinha visitas. Preparado para ser entretido, liberou a entrada
delas e virou-se para a companheira.
-- Temos companhia. Uma velha amiga sua.
-- Jerry, temos duas horas completas de trabalho para terminar noite
adentro. -- Kris descruzou as pernas do sof. -- Quem ?
-- Sua ex-chefe. Que tal abrirmos uma garrafa do Pouilly Fuiss? O de 96.
-- Sophia. -- Kris levantou-se cie um .salto. -- Aqui? Por qu?
-- J vamos descobrir -- ele respondeu quando a campainha tocou. -- Seja
uma boa menina, sim? Pegue o vinho.
Dirigiu-se sem pressa para a porta.
-- Mas que adorvel surpresa. No tinha a menor idia de que vocs estavam
na cidade -- disse.
Na verdade, curvara-se para beijar a face de Sophia. Ela foi rpida, porm
Tyler foi ainda mais. Calcou com fora a mo no peito dele.
-- No comecemos sendo idiotas -- aconselhou.
-- Desculpe. -- Erguendo as mos, Jerry recuou. -- No percebi que as
coisas entre vocs tinham mudado. Entrem. Eu ia abrir agora mesmo uma
garrafa de vinho. Os dois conhecem Kris.
-- Sim. Que aconchegante -- comeou Sophia. -- A gente vai pular o vinho,
obrigada. No vamos nos demorar. Voc parece estar aproveitando todas as
vantagens de seu novo patro, Kris.
-- Prefiro muito mais o estilo do meu novo patro ao da minha antiga patroa.
-- Tenho certeza que deve ser muito mais simptica com seus associados.
-- Senhoras, por favor -- pediu Jerry, fechando a porta. -- Somos todos
profissionais aqui. E sabemos que executivos trocam de empresas todo dia.
Isso so negcios. Espero que no estejam aqui para me criticar por roubar
um dos seus. Afinal, a Giambelli levou um dos nossos melhores h apenas um
ano. Como vai David, alis? Eu soube que ele escapou por pouco em Veneza,
recentemente.
-- Est muito bem. Felizmente pra Kris, a Giambelli tem uma firme
orientao poltica contra tentar matar ex-empregados.
-- Mas parece que no muito forte contra guerras internas. Fiquei chocado
ao saber de Donato. --Jerry sentou-se no brao de um sof. -- Realmente
chocado.
-- No estamos com microfones ligados, DeMorney. -- Tyler correu o brao
pelo de Sophia para acalm-la. -- Portanto, pode poupar esse nmero.
Fizemos uma visita a Don pouco antes de partirmos da Europa. Ele tinha
algumas coisas interessantes a dizer sobre voc. Acho que a polcia no vai
chegar muito tempo depois de ns.
--  mesmo? -- Ele fora rpido, pensou Jerry, mas parece que no o
bastante. -- Tenho mais f em nosso sistema e no acredito que a polcia, ou
qualquer outro, alis, dar muito crdito aos delrios de um homem que
roubava a prpria famlia. So tempos difceis pra voc, Sophia. -- Ele
tornou, a levantar-se. -- Se eu puder fazer alguma coisa...
-- Poderia ir pro inferno, mas no sei se vo aceitar voc. Devia ter sido
mais cuidadoso -- ela continuou. -- Os dois -- ela acrescentou com um aceno
da cabea para Kris. -- Passar um tempo no castello, no lagar, no setor de
engarrafamento.
-- Isso no  ilegal. -- Jerry deu de ombros. -- De fato, no  uma prtica
incomum que concorrentes amistosos visitem uns aos outros assim. Fomos
convidados, afinal. Voc e qualquer membro de sua famlia so sempre bem-
vindos a qualquer operao na La Coeur.
-- Voc usou Donato.
--  verdade. -- Jerry abriu as mos. -- Mas, tambm, no h nada de ilegal
nisso. Ele me procurou. Receio que seu primo se sentia infeliz na Giambelli
havia um bom tempo. Conversamos sobre a possibilidade de ele ser bem
recebido na La Coeur.
-- Voc disse a ele pra adulterar o vinho. Explicou, como fazer.
-- Isso  ridculo e ultrajante. Tome cuidado, Sophia. Entendo que esteja
transtornada, mas tentar desviar os problemas de sua famlia tanto pra mim
quanto pra minha famlia no  a resposta.
-- Vou lhe contar como tudo aconteceu. -- Tyler passara as horas no ar
elaborando tudo na cabea. Sentou-se ento e ficou  vontade. --Voc
queria causar problemas, srios problemas. Avano saltou sobre sua mulher. 
difcil o homem aceitar isso, mesmo quando o outro cara vive dando em cima
de toda mulher que encontra. Mas o problema apenas resvala direto em
Avano. Ele mantm a mulher dele exatamente onde a quer, que  onde no
atrapalha, mas perto o suficiente para garantir sua posio na organizao
da famlia. Isso  um p no saco para voc.
-- Minha ex-mulher no  da sua conta, MacMillan.
-- Mas era da sua, e tambm de Avano. Os malditos Giambelli do rdeas
livres ao filho-da-puta. Ora, deve haver um jeito de pegar aquelas rdeas e
enforcar todos eles. Talvez voc saiba que Avano vinha desviando dinheiro,
talvez no. Mas sabe o bastante para pensar em Don. Ele tambm engana a
mulher e  muito amigo de Avano. Don  um cara acessvel. No seria difcil
para voc se aproximar dele, insinuar que La Coeur adoraria t-lo na equipe.
Mais dinheiro, mais poder. Voc joga com as queixas, o ego e as
necessidades dele. Descobre a conta de fachada e, agora, tem alguma coisa
contra ele.
-- Est jogando verde, MacMillan, e jogar verde me chateia.
-- Vai melhorar. Avano comea a transar com a segunda de Sophia no
comando. No  interessante? Prometeu timas recompensas e dela obter
um punhado de informaes confidenciais. Ele ofereceu dinheiro a voc,
Kris? Ou s um escritoriozinho, com uma bela e brilhante placa de metal?
-- No sei do que voc est ralando. -- Mas ela se afastou de Jerry com um
passo rpido e cuidadoso. -- Meu relacionamento com Tony nada teve a ver
com meu cargo na La Coeur.
-- Continue pensando assim -- disse Tyler, tranqilo. -- Enquanto isso,
DeMorney, voc continua jogando com Don, empurrando-o junto. Cada vez
mais fundo. Ele tem alguns problemas de dinheiro. Quem no tem? Voc
empresta um pouco, apenas um emprstimo amigvel. E traz Don na coleira
com a mudana pra La Coeur. Que mais ele pode pr na mesa? Informao
confidencial? No  bom o suficiente.
-- Minha empresa no precisa de inside information.
-- No  sua empresa. -- Tyler inclinou a cabea ao ver a fria jorrar dos
olhos de Jerry. -- Voc apenas quer que seja. Fala com Don sobre a
adulterao, s algumas garrafas. Mostra o que ele deveria fazer, poderia
fazer, e depois como interferir e ser um heri quando a merda bater no
ventilador. Assim como voc ser um heri na La Coeur por estar preparado
e pronto para avanar quando a Giambelli receber o golpe. Ningum vai sair
realmente ferido, ou  o que voc diz ao coitado do tolo Don. Mas isso
abalou de fato o produto da empresa.
-- Lamentvel. -- Sob a elegante camisa feita sob medida, uma linha de suor
escorria pelas costas de Jerry. -- Ningum vai acreditar nesse conto de
fadas.
-- Oh, a polcia talvez fique muito entretida. Vamos concluir -- sugeriu
Tyler. -- Sai errado pra Don, e um velho morre. Sem esfolar em nada o seu
traseiro, claro. Voc tem Don sob total controle agora. Ele fala, e  capaz
de assassinato. Enquanto isso, a Giambelli segue em frente. Avano continua
esgueirando-se. E um dos seus se muda para o campo inimigo.
-- Conseguimos avanar com sucesso sem a ajuda de David Cutter. -- Jerry
quis servir vinho, despreocupado, mas descobriu que a mo tremia. -- E voc
j me tomou tempo demais.
-- Quase no fim. Voc j abriu uma segunda frente de batalha, cortejando
um dos crebros na promoo, alimentando a insatisfao e as invejas dela.
Quando a crise irromper, e vai garantir que irrompa, vai desequilibrar a
Giambelli.
-- Eu no tive nada a ver com isso. -- Kris pegou a sua pasta e comeou a
enfiar papis. -- No sei de nada disso.
-- Talvez no. Seu estilo  mais do tipo punhalada nas costas.
-- No me interessa o que voc pensa nem nada que tenha a dizer. Vou
embora.
Precipitou-se para a porta e bateu-a atrs.
-- Eu no contaria com muita lealdade  empresa daquela ali comentou Tyler.
-- Voc subestimou Sophia, DeMorney. Assim como superestimou a si
mesmo. Obteve sua crise, derramou sangue mas no bastou pra voc. Quer
mais, e  isso que vai sufocar voc. Ir atrs de Cutter foi idiotice. O
jurdico tem cpias da documentito e Don sabia disso.
Kris no o preocupava. Podia ser sacrificada, como qualquer ttere.
--  bvio que Don entrou em pnico. O homem que matou uma vez no tem
escrpulos para matar de novo.
-- Correto. No consta que o velho Don tenha matado algum. Foi o vinho. E
ele estava ocupado demais com a fuga para temer David. Eu me pergunto
quem deu a voc a pista da reunio em Veneza, e Don correu para retirar o
dinheiro de sua conta particular. Os policiais tambm vo trabalhar nesse
ngulo, e comear a associar voc. Vai ter um monte de perguntas a
responder, e muito em breve seu prprio pesadelo como relaes-pblicas.
La Coeur vai podar voc, amigo, assim com faria com um galho doente. --
Tyler levantou-se. -- Achou que tinha se protegido em cada centmetro.
Ningum nunca consegue isso. E, quando Don afundar, vai arrastar voc com
ele. Quanto a mim, vou adorar ver voc afundar pela terceira vez. Eu no
gostava muito de Avano. Era um idiota egosta que no valorizava o que
tinha. Don se inclui na mesma categoria, num nvel pouqussimo mais alto.
Mas voc, voc  um covarde castrado, que paga pessoas pra fazerem o
servio sujo que no  homem pra fazer. No surpreende que sua mulher
tenha sado  caa de algum com colhes em outro lugar.
Ficou onde estava, as mos estendidas nos lados, quando Jerry deu o bote. E
recebeu o direto na mandbua sem fazer um movimento para bloque-lo.
Deixou at Jerry empurr-lo de costas contra a porta.
-- Viu isso? -- perguntou calmamente Tyler a Sophia. -- Ele me socou e
agora pe as mos em mim. Vou pedir com educao que pare. Ouviu,
DeMorney? Peo com educao que pare.
-- Foda-se.
Jerry fechou a mo em punho e teria golpeado a barriga de Tyler se no
fosse detida a dois centmetros do alvo. Se no fosse de repente esmagada
e a dor que irradiava pelo brao dele acima no o derrubasse sem ar de
joelhos.
-- Vai precisar radiografar essa mo -- disse Tyler, dando-lhe um
empurrozinho para finalizar a queda ao cho de Jerry, que se contorcia de
agonia. -- ACHO que ouvi o estalo de um osso. Pronta, Sophie?
-- Ah... sim. -- Meio tonta, ela deixou Tyler pux-la porta afora at o
elevador. J dentro, exalou uma respirao que no se dera conta de ter
prendido. -- Eu gostaria de fazer uma observao.
-- Desembuche.
Ele apertou o boto do trreo e recostou-se.
-- Eu no interrompi, nem fiz perguntas. No me senti compelida a mostrar
fora -- continuou, quando Tyler entortou a boca.
-- Nem a provar a voc que posso resolver tudo. Queria apenas dizer tudo
isso.
-- Saquei. Voc tem suas reas de percia e eu, as minhas. -- Ele passou o
brao pelos ombros dela. --Agora, vamos pra casa.

Captulo Vinte e Seis
-- E a... -- Sophia raspava o resto da lasanha, com a famlia reunida na
cozinha da villa. -- Ty agarrou a mo dele, no sei nem como aconteceu. Foi
como um raio. Cobriu com sua manzorra a bonita e manicurada mo de Jerry,
que na certa ainda doa do soco na mandbula dele. Seja como for -- tragou
um bom gole de vinho --, de repente Jerry ficou branco, revirou os olhos e
se encolheu como, no sei, um acordeo rumo ao cho. E no escorreu nem
uma gota de suor do grandalho aqui. Estou de olhos esbugalhados, eu sei,
mas quem no ficaria? E Ty, com educao, sugere que Jerry talvez precise
mandar radiografar a mo, porque acha que ouviu um osso estalar.
-- Santo Deus. -- Pilar serviu-se de um pouco de vinho. -- Serio?
-- Hum. Sophia engoliu, morrendo de fome. Assim que cruzara a porta, viu
que morria de fome. -- Ouvi o estalido, como quando a gente pisa em um
graveto. Meio horrvel, na verdade. Depois simplesmente samos. E preciso
dizer... Tome, Eli, sua taa est vazia. Mas preciso dizer que foi
silenciosamente perverso e excitante. To excitante, e eu no me
envergonho de dizer, que, quando voltamos ao avio, saltei em cima dele.
-- Nossa, Sophie. -- Tyler sentiu o calor subir pela nuca. -- Feche a matraca
e coma.
-- No deixou voc encabulado na hora -- ela comentou. -- Acontea o que
acontecer, resulte o que resultar disso, vou sempre guardar a imagem de
Jerry enrascado no cho como um camaro de coquetel. Ningum pode tirar
isso de mim. Tem sorvete?
-- Vou pegar. -- Pilar levantou-se da mesa, parou e deu um beijo no cocuruto
de Ty. -- Seja um bom menino.
Eli inspirou e expirou.
-- Ele quase no chegou a deixar marca na mandbula.
-- O cara tem mos de boiola -- disse Ty, sem pensar, e estremeceu. -- Peo
perdo, La Signora.
-- E deve pedir mesmo. No aprovo essa linguagem  minha mesa. Mas, como
estou em dvida com voc, vou ignorar.
-- No me deve nada.
-- Eu sei. -- Ela tomou-lhe a mo e segurou-a apertado, -- Por isso  que
devo a voc. Meu prprio sangue traiu a mim e aos meus. Durante dias, esse
conhecimento abriu um buraco em mim, me fez duvidar de mim mesma. Esta
noite olho e vejo a filha da minha filha e o menino que Eli uma vez me
trouxe. E o buraco torna a se fechar. No me arrependo de nada. No me
envergonho de nada. Como poderia? Acontea o que acontecer, seguiremos
em frente. Temos um casamento a planejar -- disse, sorrindo, enquanto
servia o sorvete. -- Uma empresa a dirigir e vinhas a cuidar. -- Ergueu a
taa. -- Perfamiglia.

SOPHIA DORMIU COMO UMA PEDRA E ACORDOU CEDO. S SEIS DA
manh, j trancada no escritrio, revisava um comunicado  imprensa e fazia
chamadas pessoais ,i contas chave na Europa. s sete, abrangera desde o
outro lado do Atlntico at a Costa Leste. Tomou cuidado, muito cuidado,
para no tocar no nome de Jerry e no acusar um concorrente de prticas
suspeitas. Mas deixou a insinuao deitar razes.
s oito, julgou que era tarde o bastante para telefonar para a casa dos
Moore.
-- Tia Helen, desculpe ligar to cedo.
-- No to cedo. Vou sair daqui a quinze minutos. Ainda est em Veneza?
-- No, em casa, e precisando de uma opinio jurdica. Sobre vrios assuntos
incmodos, na verdade. Alguns envolvem direito internacional.
-- Empresarial ou criminal?
--Ambos. Sabe que Donato foi preso? Vai ser extraditado hoje para a Itlia.
No vai se defender. Ele revelou o comprometimento de algum, em privado,
pra mim, um concorrente americano. Essa pessoa tinha, no mnimo,
conhecimento da adulterao e do desvio de dinheiro, e muito possivelmente
estava mais envolvida. Isso no consiste em conspirao? Ele pode ser
acusado? Margaret morreu aqui nos Estados Unidos, logo...
-- Espere, espere. Voc est avanando rpido demais, Sophie. A lei  uma
roda lenta. Primeiro, est avanando a partir de uma coisa que Don contou a
voc. Ele no  muito digno de crdito no momento.
-- Vai ser mais -- ela prometeu. -- Eu s quero um quadro.
-- No sou especialista em direito internacional, nem advogada criminal, por
falar nisso. Voc precisa falar com James, e vou pass-la pra ele num
minuto. Mas, antes, quero dizer o seguinte, como sua amiga. Trata-se de uma
questo para a polcia e o sistema. No quero que faa nada, e tome muito
cuidado com o que diz e com o que imprime. No faa declaraes sem
passar tudo antes por mim, James ou Linc.
-- Redigi comunicados  imprensa daqui e do exterior. Vou enviar todos por
fax, se estiver tudo bem,
-- Faa isso. Agora fale com James. No faa nada.
Sophia mordeu o lbio. Perguntou-se o que diriam a tia adotiva e o juiz sobre
a visita que ela e Ty haviam feito a Jerry na noite anterior.
                                  +     +    +
NO MEIO DA MANH, DAVID PAROU ENTRE AS VINHAS E AS NOVAS
mostardas no vinhedo MacMillan. Sentia-se intil, fora de sintonia e mais
que um pouco em pnico, porque o filho, que acabara de fazer dezessete
anos, fora para a escola nessa manh atrs do volante de um conversvel de
segunda mo.
-- No tem alguma papelada pra pr em dia? -- Tyler perguntou.
-- Da sua altura.
-- Nesse caso, no vou sugerir que v s adegas checar o sangramento
mensal do vinho dos barris. Vamos testar o Merlot de 93 para iniciantes.
-- Eu comeo a degustar vinho e voc a brigar.
-- A  que est. Alm disso, no chegou a ser bem uma briga.
-- Pilar disse que voc derrubou o cara com uma mo s. Uma mo ainda 
tudo que tenho, embora o sdico do fisioterapeuta dissesse que terei de
novo as duas a qualquer momento. Quero dar uma porrada em Jerry. --
David passeava entre as fileiras para extravasar. -- Trabalhei pro filho-da-
me. Durante anos. Participei de reunies com ele, almoos, sesses
estratgicas tarde da noite. Umas poucas sobre como cortejar algumas das
contas da Giambelli, algumas das suas, para ns. Faz parte do negcio.
--  verdade.
-- Quando La Coeur ganhou a exclusividade nos vos de ida e volta da
Europa, sa para comemorar com ele. Vencemos a Giambelli nessa
concorrncia, por pouco. Eu me parabenizei durante dias por isso. Agora
revejo a poca, refao os passos e percebo que ganhamos porque ele teve
inside information da proposta. Don passou para ele o lance da Giambelli
antes que fosse feito.
--  assim que algumas pessoas fazem negcios.
-- Eu no.
Foi o tom que o fez parar. Imaginou que de algum modo, nos ltimos meses,
se haviam tornado amigos. Quase da famlia. Prximos o bastante para ele
entender a culpa e a frustao.
-- Ningum est dizendo isso, David. Ningum acha isso.
-- No. Mas eu lembro o quanto queria aquela conta. -- Comeou a enterrar
as mos nos bolsos, e o brao ruim latejou. -- Maldito seja.
-- Vai acabar de se espancar logo? Porque eu tenho um monte de trabalho
pra pr em dia, visto que tive de ir  Itlia ajudar a limpar seu sangue da
rua. A bala que levou teve um efeito adverso no meu cronograma.
David virou-se de volta para ele.
-- Usou esse mesmo tom quando sugeriu a DeMorney fazer uma radiografia?
-- Provavelmente.  o nico que uso quando algum fica um saco de idiotice.
A tenso de David se desfez e o primeiro brilho de humor cintilou em seus
olhos.
-- Eu daria um soco em voc por isso, mas voc  maior que eu.
-- Mais moo tambm.
-- Safado. Agora que pensei nisso, poderia derrubar voc, mas vou dar uma
folga porque Sophia est vindo pra c. Eu detestaria que ela tivesse de ver
o futuro padrasto chutar seu traseiro.
-- S nos sonhos.
-- Vou gastar meu mau humor nas adegas. -- Afastou-se e parou quando
passou por Tyler. -- Obrigado.
-- s ordens. -- Tyler seguiu na direo contrria at se encontrar com
Sophia. -- Est atrasada. De novo.
-- Prioridades. Aonde vai David? Queria perguntar como se sentia.
-- Faa a si mesma um favor e esquea. Ele est no estgio nervoso da
recuperao. Que prioridades?
-- Oh, solidificar algumas contas abaladas, manipular a imprensa e pedir
orientao legal. S mais um dia tranqilo para a herdeira das vinhas. Como
andam as coisas aqui fora?
-- As noites tm sido frias e midas. Provocam orvalho. Vamos fazer a
segunda asperso de enxofre logo depois de as uvas se acomodarem. No
estou preocupado.
-- timo. Vou tirar algum tempo amanh para o vinicultor, e voc tira para a
perita da promoo. De volta  equipe de trabalho. Agora, por que no me
deu um beijo de boas-vindas?
-- Porque estou trabalhando. Quero verificar os novos plantios, dar uma
passada na velha destilaria e checar os toneis de fermentao. E vamos
fazer degustao hoje nas adegas. Depois temos de mudar suas coisas pra
minha casa.
-- Eu no disse que ia me...
-- Mas como est aqui, de qualquer modo. Ele curvou-se e beijou-a.
-- Vamos ter de conversar sobre isso -- ela comeou e retirou o telefone
que tocava no bolso. -- Sem demora -- acrescentou. -- Sophia Giambelli.
Chi? S va bene. -- Afastou o telefone. --  do escritrio do tenente
DeMarco. Don foi transferido para a priso dele hoje. Ah. -- Mudou o
telefone mais uma vez de lugar. -- Si, buongiorno, Ma che... semi? No, no. --
Ainda grudada no telefone, ela afundou no cho. -- Come! -- conseguiu dizer.
Agarrando a mo de Tyler antes que ele pudesse tirar-lhe o celular, Sophia
abanou violentamente a cabea. -- Donato. -- Ergueu o olhar estupefato
para o de Tyler. -- E' morto.
Ele no precisou que ela traduzisse o final. Tomou-lhe o telefone,
identificando-se, perguntou como Donato Giambelli morrera.
-- UM ATAQUE CARDACO. ELE NO TINHA NEM QUARENTA ANOS.
-- Sophia andava de um lado para outro. -- Isso foi obra minha. Pressionei
meu primo, depois fui a Jerry e pressionei o cara. Era melhor ter desenhado
um alvo nas costas de Don.
-- Voc no fez isso sozinha -- lembrou Tyler. -- Fui eu quem puxou a
corrente de DeMorney.
-- Basta -- ordenou Tereza, mas sem nfase. Se descobrirem que Donato
morreu por causa de drogas, se descobrirem que foi assassinado quando nas
mos da polcia, no temos culpa. As opes de Donato o puseram onde
estava, e, alm de proteger, a polcia tinha obrigao de cont-lo. No
aceito que lancem a culpa em minha casa. -- E isso, decidiu, encerrava a
questo. -- Ele foi uma decepo pra mim. Mas lembro que tambm foi um
menino doce, com um lindo sorriso. Vou sentir pelo menino.
Estendeu o brao, encontrou a mo de Eli e levou-a aos lbios, num gesto
que Sophia nunca a vira fazer.
-- Nonna. Eu vou pra Itlia, ao enterro, representar a famlia.
-- No, a hora de voc assumir meu lugar chegar muito em breve. Ainda
no. Preciso que fique aqui. Eli e eu vamos, e  assim que deve ser. Vou
trazer Francesca, Gina e as crianas, se quiserem. Deus nos ajude se
quiserem -- ela concluiu com vigor e levantou-se.

SOPHIA EXAMINAVA O ESCRITRIO DE LINC. NINGUM,
decidiu, podia acus-lo de tratamento paterno preferencial. A sala era
pouco mais que um cubculo, entulhada, sem janela e empilhada de livros e
documentos em pastas de arquivo. Imaginou que houvesse uma escrivaninha
escondida atrs das pilhas de papis.
-- Bem-vinda ao meu calabouo. No  grande coisa -- disse Linc, esvaziando
uma cadeira para ela. -- Mas... no  grande coisa.
Jogou os arquivos e livros no cho.
-- O bom de comear por baixo  que no se pode descer ainda mais baixo.
-- Se eu for um bom menino, vou ter meu prprio grampeador. Com uma
habilidade que lhe disse que ele j fizera isso, Linc contornou a montanha
com a cadeira de rodzios. De algum lugar sob os montes de papis e livros,
um telefone comeou a tocar.
-- Precisa atender? Onde quer que esteja.
-- Se eu atender, algum vai simplesmente querer falar comigo. Eu prefiro
falar com voc.
Como algum podia trabalhar em to grande confuso e desordem estava
alm da compreenso dela. Precisou sentar-se mentalmente nas mos para
impedir-se de p-las em ao e organizar toda a baguna.
-- Agora me sinto culpada por aumentar sua carga de trabalho. Mas no o
bastante pra me impedir de perguntar se os papis que lhe enviei se
encontram em algum lugar aqui, e se voc teve uma chance de olhar.
-- Eu tenho um sistema de organizao.
Ele enfiou a mo debaixo de uma pilha no canto esquerdo da escrivaninha e
retirou um arquivo.
--  como o truque da toalha de mesa do mgico -- ela comentou. -- Bom
trabalho.
-- Quer que eu puxe um coelho da cartola? -- Rindo, ele sentou-se. -- Voc
se cobriu muito bem -- comeou. -- Dei uma pequena mexida nos
comunicados  imprensa, tenho de ganhar meus honorrios inflados, afinal.
-- Estendeu os papis revisados. -- Pelo que sei, voc est atuando como
porta-voz da Giambelli-MacMillan.
-- Estou, tambm, pelo menos enquanto Nonna e Eli esto na Itlia. Mama
no tem formao pra esse tipo de coisa. Eu sim.
-- David? Ty?
-- Vou distribuir cpias pra eles tambm, por vias das dvidas. Mas  melhor
que o representante da mdia seja algum da famlia Giambelli. Ns  que
temos sido chutados.
-- Sinto muito por Don.
-- Eu tambm. -- Ela baixou mais uma vez os olhos para os comunicados, mas
no os via. -- O enterro  hoje. No paro de pensar na ltima vez em que
falei com ele, em como estava apavorado. Sei o que fez, e no o perdo por
isso. Mas tambm no paro de pensar em como estava apavorado, e em como
fui fria com ele.
-- No pode ficar se punindo por isso, Sophie. Mame e papai me puseram a
par do que aconteceu, pelo menos o que temos certeza. Ele ficou ganancioso
e idiota. Foi responsvel por duas mortes.
-- Acidentes, foi como chamou. Eu sei o que ele fez, Linc. Mas quem foi
responsvel pela dele?
O que nos traz de volta a DeMorney. Vai ter de ser muito cuidadosa a.
Manter o nome dele fora de suas declaraes. Mantenha La Coeur fora
delas.
-- h. -- Alheia, ela examinou as unhas manicuradas. -- Vazou que a polcia
o est interrogando em relao  adulterao,  conta fraudulenta e at ao
assassinato de meu pai. No imagino como a imprensa obteve a informao.
-- Voc  muito sorrateira, Sophia.
-- Falou como meu amigo ou meu advogado?
-- Os dois. Apenas seja cuidadosa. No precisa que a origem dos vazamentos
seja rastreada at voc. E se lhe perguntarem sobre DeMorney, e com
certeza vo, no faa comentrios,
-- Tenho muitos comentrios.
-- E os que voc tem na cabea podem envolv-lo num processo judicial.
Deixe o sistema percorrer o tortuoso caminho em direo  meta final. Se
DeMorney estava envolvido, voc no tem provas -- ele lembrou. -- Deixe-
me ser o advogado. Se ele estava envolvido, a coisa vir  tona. Mas a
palavra de Don no basta.
-- Ele controlava a situao nos bastidores. Tenho certeza e isso basta para
mim. Pessoas morreram, e por qu? Porque ele queria uma fatia maior do
mercado? Pelo amor de Deus.
-- Pessoas mataram por menos, mas tenho de dizer que esse  o ponto fraco.
Ele  um empresrio rico e respeitado. Vai ser um duro caminho envolv-lo
numa espionagem empresarial, desvio de dinheiro, adulterao de produto,
quanto mais assassinato.
-- Ele se exps a isso e a imprensa vai saltar na parte suculenta sobre a
mulher dele e meu pai. Humilhar DeMorney em pblico. Ele nos odeia, e vai
odiar mais quando tudo vier a pblico. Senti isso quando o visitei em Nova
York. No se trata de negcios ou apenas negcios.  muito pessoal, Linc.
Voc viu nosso novo anncio?
-- O do casal na varanda? Pr-do-sol no lago, vinho e romance. Brilhante e
muito atraente. Desprende-se seu nome de toda a imagem. O seu, quer
dizer, no apenas da empresa.
-- Obrigada. Minha equipe investiu muito trabalho e idias nisso. -- Ela
enfiou a mo na pasta e retirou a fotografia de um arquivo. -- Algum me
mandou isto ontem.
Ele reconheceu o anncio, embora a cpia tivesse sido feita por computador
e alterada . Nesse, a jovem tinha a cabea inclinada para trs e a boca
aberta num grito silencioso. De uma taa cada na varanda, o vinho
derramava-se e manchava de vermelho o branco. No alto dizia:
                             CHEGOU A SUA HORA
                                 DE MORRER
-- Meu Deus, Sophie. Isso  doentio, asqueroso. Cad o envelope?
-- Aqui. Sem endereo do remetente, claro. Carimbado no correio de So
Francisco. A princpio pensei em Kris Drake.  o estilo dela. Mas acho que
no. -- Sophia examinava agora o anncio sem um nico estremecimento. --
Acho que ela est se retirando para se manter imune aos efeitos colaterais
adversos. No sei se Jerry estava na Costa Oeste, mas foi ele o autor.
-- Precisa levar isso  polcia.
-- Levei o original de manh. Este  uma cpia. Tenho a impresso de que,
enquanto examinam, vo encarar isso como mais uma medonha
brincadeirinha de mau gosto. -- Ela se levantou. -- Quero que o detetive
particular que voc contratou d uma olhada tambm. E no quero que fale
disso a ningum.
-- Concordo com a primeira parte, mas acho a segunda uma tolice.
-- No  tolice. Minha me est planejando o casamento dela. Nonna e Eli
tm muita coisa a resolver. David e Tyler tambm. Alm disso, foi enviado a
mim. Pessoalmente. Quero resolver pessoalmente.
-- Nem sempre voc pode ter o que quer. Isso  uma ameaa.
-- Talvez. E, acredite em mim, pretendo ser muito cuidado ! Mas no vou
deixar que estraguem esse momento da minha me. Ela esperou tempo
demais para ser feliz. No vou despejar mais tenso sobre meus avs. E no
vou contar a Ty, ainda no, pelo menos, por que ele vai reagir de forma
exagerada Portanto,  entre mim e voc, Linc. -- Ela estendeu a mo e
tomou a dele. -- Conto com voc.
-- Vou fazer o seguinte: -- ele acabou dizendo aps um momento -- vou pr o
detetive a par e dar a ele quarenta e oito horas pra trabalhar antes de eu
dizer alguma coisa. Se durante esse tempo voc receber outro do tipo, tem
de me procurar na mesma hora.
-- Prometo. Mas quarenta e oito horas...
--  esse o trato. -- Ele se levantou. -- S vou dar esse tempo porque gosto
de voc e sei o que est sentindo. No vou dar nada mais porque gosto de
voc e sei o que eu estou sentindo.  pegar ou largar.
-- Tudo bem. Tudo bem -- ela repetiu, num longo suspiro. -- No estou sendo
valente e idiota, Linc. Obstinada, talvez, mas no idiota. Ele quer me
apavorar e atirar minha famlia em mais confuso. No vai conseguir. Agora
mesmo vou me encontrar com minha me e com a sua. Vamos sair pra
comprar um vestido de casamento. -- Ela beijou as duas faces de Linc. --
Obrigada.

A IDIA QUE MADDY TINHA DE FAZER COMPRAS ERA PERAMBULAR
pelo shopping, olhando os meninos que andavam de olho nas meninas e gastar
a mesada em alguma comida cheia de carboidrato e novos brincos. Imaginava
que seria uma chatice terminal passar o dia com trs adultas em lojas de
vestidos elegantes.
Mas levou em considerao que os pontos que ganhara com o pai ao
concordar com a sada se traduziriam nas mechas coloridas que queria pr
nos cabelos. E se jogasse as cartas certas, poderia obter alguma coisa muito
legal de Pilar.
As novas madrastas em potencial eram excelentes frutas a serem colhidas.
Culpa e nervos, pelos clculos de Maddy, igualavam-se a sacolas de compras.
Esperava-se que chamasse agora a Sra. Giambelli de Pilar. O que era
estranho, porm, melhor do que cham-la de me ou coisa que o valha.
Primeiro teria de agentar at o fim do trato e almoar com Pilar e a mulher
do juiz. Um almoo de meninas, ela pensou com escrnio. Minsculas pores
de comida refinada, de baixas calorias e sem gosto, enquanto esperavam que
conversasse sobre roupas e forma fsica. No seria to ruim se Sophia
estivesse com elas. Mas os certeiros palpites de Maddy de que se grudaria
em Sophia enquanto ela fizesse suas tarefas foram por gua a baixo.
Resignou-se a uma ou duas horas infelizes; mais pontos, ela decidiu. Ento se
surpreendeu ao ver-se entrar num ruidoso restaurante italiano onde o ar
recendia a temperos.
-- Eu devia pedir uma salada. Eu devia pedir uma salada -- repetiu Helen. --
Mas no vou. J ouo a berinjela recheada de parmeso chamando meu
nome.
-- Fettuccine  Alfredo.
-- Claro, timo pra voc -- disse Helen a Pilar. -- Nunca engorda um nico
grama. No vai ter de se preocupar em como vai ficar nua na noite de
npcias.
-- Ele j viu a noiva nua -- disse Maddy, o que fez as duas mulheres se
virarem para olh-la.
Ela sentiu as costas se enrijecerem e as sobrancelhas baixarem,
preparando-se para um sermo. Em vez disso, ouviu uma boa gargalhada, e
Helen passou o brao pelo seu ombro.
-- Vamos pra um reservado de canto, e a voc pode me contar todas as
coisas obscenas sobre seu pai e Pilar que no consegui arrancar dela.
-- Acho que fizeram do lado de fora de casa, ontem  noite. Papai chegou
com a cala jeans cheia de grama.
-- Voc pode ser comprada? -- perguntou Pilar.
Maddy entrou no reservado.
-- Claro.
-- Vamos negociar.
Pilar sentou-se a seu lado.

NO ESTAVA CHATEADA, SURPREENDEU-SE AO VER QUE SE DIVER-
tia, que no a mandavam calar-se por fazer observaes jocosa, nem
esperavam que se sentasse em silncio e se comportasse. Algo como, pensou,
a sair com Theo e seu pai -- apenas diferente. Bem diferente. Tinha
esperteza suficiente para perceber que era a primeira sada com mulheres
que j tivera. Esperteza suficiente para entender que Pilar tambm sabia
disso.
Nem se incomodou por ser arrastada  loja de vestidos, e tampouco ver a
conversa dar uma virada absoluta e completa para roupas, tecidos, corte e
cor.
E quando viu Sophia chegar esbaforida, afogueada e feliz, Maddy, que ainda
no completara quinze anos, teve uma revelao. No se importaria de ser
como ela, como Sophia Giambelli. Ela provara, no? Que uma mulher podia
ser inteligente, muito inteligente, fazer exatamente o que queria no mundo,
e como queria faz-lo, e ser ao mesmo tempo deslumbrante.
No se vestia como se quisesse chamar ateno, mas chamava ainda assim.
-- No me diga que ainda no experimentou nada.
-- No, ainda no. Queria esperar voc. Que acha dessa seda azul?
-- Humm, talvez. Oi, Maddy. Tia Helen. -- Ela curvou-se para dar um beijo
em Helen, e ento emitiu um rpido gritinho: -- Oh, Mama! Veja este. A
renda  fabulosa... romntica, elegante. E a cor ficaria perfeita em voc.
--  lindo, mas no acha um pouco jovem? Mais para voc?
-- No, no.  pra uma noiva. Para voc. Tem de experimentar. Enquanto
examinava o vestido, Pilar apoiou a mo no ombro da filha. Meio distrada,
pensou Maddy. S para tocar. Sua me jamais a tocara distrada, que se
lembrasse, no. Jamais haviam tido essa ligao. Se houvesse, ela no
poderia t-la abandonado com tanta facilidade.
-- Experimente os dois -- insistiu Sophia. -- E este de linho cor-de-rosa que
Helen escolheu.
-- Se ela no estivesse com tanta pressa de agarrar esse rapaz, podia
mandar fazer alguma coisa num estilista. E eu perderia dez quilos antes de
usar o longo de madrinha do casamento. D tempo de eu fazer
lipoaspirao?
-- Oh, pare. Tudo bem. Vou comear com estes trs. Quando Pilar saiu com a
vendedora para o vestirio, Sophia esfregou as mos.
-- Muito bem; sua vez.
Surpresa, Maddy piscou os olhos para ela.
--  uma loja para mulheres.
-- Voc  da mesma altura que eu, na certa do mesmo tamanho --
acrescentou Sophia, examinando o alvo. -- Mama prefere cores suaves, por
isso fiquei nelas. Mas eu gostaria de pr voc em cores de pedras preciosas.
-- Eu gosto de preto -- disse Maddy, por prazer.
-- , e voc usa bem preto.
-- Uso?
-- h, mas vamos expandir seus horizontes para esta ocasio particular.
-- No vou usar cor-de-rosa. Maddy cruzou os braos.
-- Que pena, eu imaginava um de organdi cor-de-rosa -- disse Helen -- com
tufos e sapatinhos Mary Jane.
-- Que so sapatinhos Mary Jane?
-- Ai. Estou velha. Vou at a seo de roupas simples para durante o dia e
amargar meu mau humor.
-- Bem, que so? -- perguntou Maddy, enquanto Sophia deslizava pelas
escolhas.
-- Pode ser sapato de couro para menina, salto baixo, e com uma nica tira
presa ao lado, ou marijuana, maconha, fazendo trocadilho com Maria e
Juana, ou as duas coisas. No tenho certeza. Gosto deste.
Ela retirou um longo sem mangas azul-pastel.
-- Ficaria bem em voc.
-- No para mim, para voc.
Sophia viiou BC e ergueu o vestido diante de Maddy.
-- Eu? Srio?
-- E, srio. Quero ver voc nele com os cabelos pra cima. Exibindo o
pescoo e os ombros.
-- E se eu cortar. Meus cabelos, quer dizer. Curtos.
-- Hum. -- Lbios franzidos, Sophia cortou e redesenhou a cabeleira
escorrida de Maddy. -- , curto em volta do rosto, um pouco mais comprido
atrs. Algumas luzes.
-- Mechas? -- perguntou Maddy, quase sem fala de alegria.
-- Luzes, sutis. Pea a seu pai que eu levo voc ao meu cara.
-- Por que eu tenho de pedir pra cortar os cabelos? So meus.
-- Bem pensado. V experimentar este. Eu ligo pro salo e pergunto se
podem encaixar voc antes de voltarmos pra casa. -- Ia entregando o
vestido a Maddy quando parou. -- Oh, Mama.
-- Que acha? -- Ela comeara com o pssego, a renda marfim dando um
toque romntico ao corpete, a saia ondulando-se atrs numa delicada cauda.
-- Seja brutal.
-- Helen, venha ver -- gritou Sophia. -- Voc est linda, Mama.
-- Como uma noiva -- concordou Helen, e fungou. -- Droga, l se vai o rimel.
-- Aprovado. -- Meio devaneando, Pilar girou num crculo. -- Maddy? Qual a
sua nota?
-- Voc est demais. Os olhos de papai vo saltar.

NO FOI TO SIMPLES ASSIM. PASSARAM PARA OS CHAPUS,
enfeites de cabea, sapatos, jias, bolsas e at roupas de baixo. J
escurecera quando rumavam para o norte, a parte de trs do SUV entulhada
de sacolas de compras e caixas. Que no incluam os prprios vestidos,
pensou Maddy, maravilhada. Esses ainda teriam de ser modificados,
ajustados e provados.
Mas ela terminara com uma pilha de roupas e sapatos novos, brincos
realmente legais que usava agora. Sobressaam fantsticos de seu
maravilhoso corte de cabelo. E fizera luzes.
O acordo dessa nova menina de famlia tinha destaques definitivos.
-- Os homens -- dizia Sophia dirigindo-se ao norte -- se consideram
caadores. Mas no so. Veja, decidem ir atrs de um urso-pardo e
concentram todo o foco nisso. Assim, enquanto perseguem o grande urso,
perdem todas as outras caas por causa da viso limitada. As mulheres, por
outro lado, podem caar o urso-pardo, mas antes, ou at enquanto caam,
tambm abatem todas as outras caas.
-- E mais, os homens atiram no primeiro urso grande que vem -- contribuiu
Maddy do banco de trs. -- No levam em conta o mundo todo de ursos-
pardos.
-- Exatamente. -- Sophia bateu no volante. -- Mama, essa menina tem
verdadeiro potencial.
-- Concordo, mas no quero ser censurada pelos sapatos com solas de meio
metro que ela est usando. Essa  pra voc.
-- So incrveis. Excntricos.
-- . -- Satisfeita com eles, e consigo mesma, Maddy ergueu o p. -- E as
solas s tm uns dez centmetros.
-- No sei por que voc quer andar de forma pesada e ruidosa com eles.
Os olhos de Sophia encontraram os de Maddy no espelho retrovisor.
-- Isso  coisa de me. Ela tem de dizer. Voc tinha de ver a cara dela
quando coloquei um piercing no umbigo.
-- Voc tem piercing no umbigo? -- Fascinada, Maddy soltou a trava do cinto
de segurana. -- Posso ver?
-- Deixei fechar de novo. Sinto muito -- ela disse, com um risinho contido,
ao ver Maddy tornar a recostar-se, indignada. -- Incomodava.
-- E ela tinha dezoito anos -- observou Pilar, virando a cabea para lanar a
Maddy um olhar de advertencia. -- Logo, nem pensar nisso antes de chegar
l.
-- Isso tambm  coisa de me?
-- Com certeza. Mas quero dizer que as duas acertaram em relao ao
penteado. Ficou timo.
-- Ento, quando papai se esquentar, acalme ele logo, certo?
-- Bem, eu... -- Pilar virou-se quando o carro cantou pneus numa curva. --
Sophia, corro o risco de dizer outra coisa de me, reduza a velocidade.
-- Apertem os cintos. -- Franzindo o cenho, Sophia apertou as mos no
volante. -- Tem algum problema com os freios,
-- Oh, meu Deus. -- Instintivamente, Pilar virou-se para Maddy. -- Prendeu o
cinto?
-- h. -- Ela agarrou-se ao banco para firmar-se quando o carro fez toda a
outra curva fechada. -- Puxe o freio de mo.
-- Mama, puxe. Preciso das duas mos aqui.
As duas mos queriam tremer, mas ela no as deixou. No se deixou pensar
em nada alm de manter o controle. O carro cantou pneus mais uma vez e
rabeou na curva seguinte.
-- Est todo puxado, querida. E o carro no reduziu a marcha. E se
desligasse o motor?
-- A direo trava. -- Maddy engoliu em seco, com o corao saltando na
garganta. -- Ela no ia conseguir controlar a direo.
Sophia tentava manter o carro na estrada, os pneus levantando cascalho.
-- Use meu telefone, chame ajuda.
Olhou de relance para baixo. Meio tanque de gasolina, pensou. No teria
ajuda ali. E no iria conseguir controlar naquela velocidade o carro, ao
contornar as curvas em S que se aproximavam.
-- Diminua a marcha! -- gritou Maddy de trs. -- Tente diminuir a marcha.
-- Mama, engrene a terceira quando eu mandar. Isso vai nos dar um
solavanco infernal, portanto se segurem. Mas talvez funcione. No posso
soltar o volante.
-- J peguei. Vai dar tudo certo.
-- Certo, Segure. -- Ela desembreou e o carro pareceu ganhar mais
velocidade. -- Agora !
O carro sacudiu-se com fora. Embora Maddy mordesse o lbio, no
conseguiu reprimir o grito.
-- Pra segunda -- ordenou Sophia, girando com toda a fora o volante no
acostamento. Uma linha de suor escorria-lhe pelas costas. -- J!
O carro refugou, lanou-a para a frente e de novo para trs. Ela teve um
momento de pnico, temendo que os airbags se abrissem e a deixassem
impotente.
-- Reduzimos um pouco a velocidade. Boa idia, Maddy -- disse Pilar.
-- Vamos rumar morro abaixo, contornar mais curvas. --A voz de Sophia saiu
fria como ao. -- E ganhar de novo mais velocidade. Eu dou conta. Assim que
passarmos por ela, tomamos uma subida e isso deve bastar. Pegue meu
telefone, Mama, por via das dvidas. E todo mundo se segure.
No olhava o velocmetro. Tinha agora os olhos grudados na estrada, a
mente prevendo cada curva. Percorrera aquela estrada inmeras vezes. Os
faris altos varavam a escurido e aoitavam o trfego que vinha em sentido
contrrio. Ela ouvia o rudo irado das buzinas troando quando atravessava a
faixa do meio.
-- Quase l, quase l.
Jogava o volante para a esquerda e depois para a direita. Deslizava sob suas
palmas midas agora.
Via e sentia o cho comear a nivelar-se. S mais um pouco, pensou. Um
pouco mais.
-- A primeira, Mama. Passe a primeira.
Ouviu-se um terrvel barulho, um tremendo solavanco. Sophia sentiu-o como
se um enorme punho tivesse socado o cap do carro. Alguma coisa guinchou
e depois trincou. E quando a velocidade baixou, ela pegou o acostamento.
Ningum disse nada quando pararam. Um carro passou zunindo aps outro.
-- Todo mundo bem? -- Pilar pegou a trava do cimo de segurana e descobriu
que tlinha os dedos dormentes. -- Todo mundo bem?
-- T. -- Maddy limpou as lgrimas das faces. -- Tudo bem. Acho que a gente
devia saltar agora.
--  uma boa idia. Sophie, querida?
-- . Vamos dar logo o fora.
Ela conseguiu descer e chegar ao outro lado do carro antes de as pernas
cederem. Apoiando as mos no cap, esforou-se para recuperar o flego, e
s conseguiu ofegar.
-- Isso  que  dirigir bem -- disse Maddy a Sophia.
-- . Obrigada.
-- Venha, querida, venha. -- Pilar virou-a e abraou-a quando se instalou a
tremedeira. E, abraada  filha, estendeu a mo para Maddy. -- Venha,
querida -- repetiu.
Maddy colou-se naquele crculo de reconforto e deixou as lgrimas
correrem.

Captulo Vinte e Oito
Quase cego de terror e alvio, David disparou para fora de casa. Enquanto o
carro da polcia freava, envolveu Maddy e segurou-a aninhada nos braos,
como um beb.
-- Voc est bem. -- Colava os lbios nas faces e nos cabelos dela. Conseguia
respirar aliviado ali, quando os tremores que conti vera desde o telefonema
o dominaram. -- Voc est bem.
Ele repetiu uma dezena de vezes com ela enrroscada nos braos.
-- T tudo bem. No estou ferida nem nada. -- Mas quando o pai enlaou no
prprio pescoo os braos dela, todo o mundo de Maddy logo tornou a ficar
certo. -- Sophie dirigiu como um daqueles caras que voc e Theo gostam de
ver na pista de corridas. Foi meio legal.
-- Meio legal. .
Blanando-se agora, acalmando se, ele manteve o rosto enterrado na curva
da garganta dela, quandoThco, desajeitado, dava um tapinha nas costas da
irm.
-- Aposto que foi um paseio espetacular. -- Com ar viril, Theo tentou
engolir, apesar da garganta seca. Sentia um nervosismo no peito que vinha
tanto de ver o pai desmantelar-se quanto da ansiedade por Maddy. -- Eu
levo Maddy pra dentro, pai. Voc vai estraalhar o brao dela.
Sem poder falar, David fez que no com a cabea e continuou como estava.
Sua filhinha, era s o que pensava. Sua filhinha podia ter desaparecido.
-- T tudo bem, pai -- disse Maddy. -- Todo mundo t bem agora. Eu posso
andar. A gente ficou com aquela tremedeira depois, mas j superou. Mas
Theo pode carregar todos os despojos. -- Ela esfregou a face na do pai. --
Compramos metade do shopping, certo, Pilar?
-- Certo. Eu aceitaria uma ajudinha, Theo.
-- Theo e eu vamos pegar -- disse Maddy, contorcendo-se at o pai larg-la,
-- O que voc fez nos cabelos?
David passou a mo pelo atrevido corte curto e deixou a mo quente apoiada
na nuca da filha.
-- Me livrei da maior parte. Que acha?
--Acho que faz voc parecer adulta. Est me superando. Droga, Maddy, eu
gostaria que no. -- Ele suspirou e colou os lbios no alto da cabea dela. --
S mais um minuto, sim?
-- Claro.
-- Eu amo tanto voc. Agradeceria se no me apavorasse assim
de novo no futuro prximo.
-- No planejo fazer isso. Espere at ver o vestido que comprei. Combina
com o penteado.
-- Maravilha. V em frente, pegue sua pilhagem.
-- Voc vai ficar, no vai? -- perguntou Maddy a Pilar.
-- Vou, se voc quiser.
-- Acho que deve. Como Theo j tinha tirado as sacolas, ela saiu atrs dele
com passos pesados e ruidosos nos extravagantes sapatos.
-- Oh, David, sinto muito.
-- No diga nada, s me deixe olhar voc. -- Ele envolveu o rosto dela e
deslizou as mos pelos seus cabelos. Pilar tinha a pele fria, os olhos imensos
e cheios de preocupao. Mas estava ali, inteira. -- S me deixe olhar.
-- Eu estou bem.
Ele puxou-a mais para perto, pareceu fundir-se a ela e balanar.
-- Sophia?
-- Est bem. -- O fio retesado que a mantivera reta e firme rompeu-se
quando se enterrou nele. -- Meu Deus, David, meu Deus. Nossas filhinhas.
Nunca me senti to apavorada, e o tempo todo em que a coisa acontecia
elas... elas foram incrveis. No gostei de deixar Sophie l atrs lidando com
a polcia, mas no queria que Maddy viesse pra casa sozinha, por isso...
-- Ty j est a caminho.
Ela inspirou com dificuldade e logo uma segunda vez, que foi mais fcil.
-- Achei que ele ia. Ento est tudo bem.
-- Entre. -- Ele a mudou de posio, mantendo-a ao seu lado. -- E me conte
tudo.
TYLER PAROU ATRS DA VIATURA POLICIAL COM UMA FREADA
estridente. Nas luzes piscando, Sophia viu-o atravessar a rua a passos
largos. Viu-o bem o suficiente para reconhecer a raiva. Com o mximo de
calma possvel, deu as costas ao policial que a interrogara e encaminhou-se
para ele.
Ele agarrou-a to rpido e forte que lhe tirou o ar. Nada jamais lhe dera
uma sensao de tanta segurana.
-- Eu esperava que voc viesse. Esperava mesmo.
-- Voc levou alguma pancada?
-- No. Mas o jipe... Acho que quebrei a caixa de marchas Tyler, eu no
tinha freios. Simplesmente desapareceram. Sei que vo rebocar o carro e
inspecionar, mas eu j sei. -- As palavras despejaram-se dela, trmulas a
princpio, depois ganhando fora e fria..
-- No foi acidente, nem falha mecnica. Algum quis me machucar e no se
preocupou com que minha me e Maddy tambm se machucassem. Maldito
seja, ela  apenas uma menina. Forte, forte. Forte e inteligente. Foi ela
quem me mandou diminuir a marcha, e nem sabe dirigir.
A raiva teria de esperar. Ele teria de esperar para quebrar alguma coisa ao
meio, enfiar o punho em alguma coisa, qualquer coisa. Sophia tremia e
precisava de cuidados.
-- Os adolescentes sabem um pouco de tudo. Entre no carro. Hora de outra
pessoa pegar o volante,
Um pouco tonta agora, ela olhou para trs.
-- Acho que eles ainda querem falar comigo.
-- Podem falar amanh. Vou levar voc pra casa.
-- Por mim, tudo bem. Tenho algumas sacolas de compras. Ele sorriu e o
aperto nela relaxou para uma carcia.
-- Claro que tem.

ELE FALOU SRIO SOBRE LEV-LA PARA CASA. A CASA DELE. COMO
Sophia no discutiu a questo, ele imaginou que ela estava mais abalada do
que admitira.
-- Voc quer, no sei, um banho quente, um drinque?
-- Que tal um drinque num banho quente?
-- Vou tratar disso. Devia ligar para sua me, dizer a ela que j voltou. E que
vai ficar aqui.
-- Tudo bem, obrigada.

TYLER DESPEJOU METADE DE UMA BISNAGA DE GEL PARA BANHO
que tinha desde o Natal na banheira. Cheirava a pinho silvestre, mas
borbulhava. Ele imaginava que ela quisesse banho de espuma. Grudou duas
velas na bancada. As mulheres adoravam banhos a luz de velas, por motivos
que ele no compreendia. Serviu uma taa de vinho, ps na beira da banheira
e j recuava, tentando imaginar o que mais fazer, quando Sophia entrou no
banheiro.
O nico e imenso suspiro dela disse-lhe que ele j acertara o alvo.
-- MacMillan, eu amo voc.
-- E, assim voc disse.
-- No, no, neste momento... neste exato momento ningum jamais amou
nem amar voc mais que eu. O bastante para deixar que entre comigo.
Numa banheira cheia de bolhas? Ele achava que no. E podia ignorar a
mortificao disso pelas bvias vantagens -- ela estava arrasada.
-- Eu passo essa, se dispa e entre.
-- Seu safado romntico. Meia hora aqui e vou me sentir humana de novo.
Ele deixou-a e foi pegar as coisas dela. Segundo seu jeito de pensar, se
jogasse a pilhagem das compras no quarto, ela levaria muito mais tempo para
fugir de novo. Pelo que sabia, tratava-se do primeiro estgio para faz-la
mudar-se.
Pegou a bolsa, a pasta, quatro -- santo Deus -- sacolas cheias de compras e
comeou a subir as escadas. Desde que se mantivesse ocupado, disse a si
mesmo, fizesse o que surgisse em seguida, no se entregaria  fria que o
sufocava.
-- Que foi que comprou? Pequenos paraleleppedos?
Ele jogou tudo na cama e considerou terminada a tarefa, quando a pasta
caiu. Tentou agarr-la pela ala e, ao tentar pux-la para cima, derrubou
todo o contedo.
Por que algum precisava de tanta tralha numa pasta? Resignado agachou-se
e comeou a catar tudo de novo. Tudo bem, entendia a garrafa d'gua, a
agenda bojuda, e a eletrnica. Mas as canetas s Deus sabia por que ela
precisava de meia dzia. Batom.
Ociosamente, destampou-o e grou o cilindro. Uma cheiradia e sentiu o gosto
dela.
Tesouras de viagem. Hurnm. Adesivos Post-its, clipes de papel, aspirinas, um
troo de p-de-arroz, um de unhas, outro sortimento de coisas de menina
que o fez perguntar-se por que ela se dava ao trabalho de levar tambm uma
bolsa, e que diabo punha nela. Dropes de hortel para o hlito, um saquinho
de balas fechado, um minigravador, lenos umedecidos, fsforos, dois
disquetes e alguns arquivos, dois marcadores de texto e um vidrinho de
esmalte incolor. Impressionante, decidiu. Surpreendia ela no andar torta
assim que pendurava a ala no ombro. Apenas para passar o tempo, folheou
os arquivos ao rep-los no lugar. Tinha uma folha arrancada do primeiro
anncio, uma impresso de computador do segundo, uma resma de anotaes
escritas  mo e uma pilha de digitadas. Encontrou os comunicados 
imprensa, com as anotaes escritas em cima. Lbios franzidos, leu a verso
em ingls e achou consistente, forte e inteligente. No esperava outra
coisa. Ento encontrou o anncio alterado.
Segurando-o, e a cpia de um envelope endereado a ela, levantou-se. Ainda
os segurava quando abriu de supeto a porta do banheiro.
Ela j estava quase adormecendo. Quando piscou os olhos, a primeira coisa
que viu foi a cara furiosa dele. E a segunda, as folhas em suas mos.
-- Que estava fazendo com a minha pasta?
-- No importa. Onde arranjou isto?
-- Na correspondncia.
-- Quando? -- Uma hesitao, breve, mas longa o bastante para dizer-lhe
que ela pensava num subterfgio. -- No se faa de boba comigo, Sophie.
Quando recebeu isto?
-- Ontem.
-- E planejava me mostrar... quando?
-- Daqui a uns dois dias. Escute, se importaria de eu terminar aqui antes de
discutirmos isso? Estou nua e coberta de espuma de banho masculino.
-- Dois dias?
-- , eu queria pensar a respeito e levei isso  polcia. E a Linc ainda hoje,
para pedir uma opinio jurdica. Posso tratar disso, Ty.
-- . -- Ele olhou-a, mergulhada at o queixo em espuma, o rosto tomado por
sombras de fadiga. --Voc  uma verdadeira controladora, Sophia. Acho que
esqueci essa parte.
-- Ty... -- Ela deu um soco na gua quando ele saiu e fechou a porta. --
Espere s um minuto.
Saiu da banheira e, em vez de enxugar-se, apenas enrolou uma toalha no
corpo. Foi atrs dele, deixando uma trilha de gua e bolhas de sabo.
Chamou-o de novo, xingou-o e, ao descer correndo para o trreo, ouviu a
porta dos fundos fechar-se.
Acendeu as luzes externas e viu os longos e furiosos passos dele levarem-no
em direo aos vinhedos. Apertando a toalha com a mo, correu para fora.
Pisou forte com o p descalo numa pedrinha, o que lhe inspirou uma nova
srie de xingamentos na continuao daquela corrida coxa.
-- Ty! Espere um minuto, droga. -- Lanava-lhe insultos nas costas at
perceber que falava em italiano e que as palavras bem poderiam ser
promessas de amor eterno aos ouvidos dele. -- Escute, seu idiota, covarde.
Pare onde est e lute como homem. -- Como ele parou e rodopiou, ela quase
se chocou direto nele. Parou de chofre, resfolegando como uma locomotiva e
desejando tirar o peso do p dolorido. -- Aonde acha que vai? -- exigiu
saber.
-- Voc no vai querer ficar perto de mim agora.
-- Engana-se. -- Para provar, ela deu-lhe um soco no peito. -- Quer dar um
direto em mim, timo. -- Virou o queixo. -- Prefiro algum que me d um
murro honesto a uma pessoa que amarela na hora H.
-- Por mais tentador que isso parea, e, acredite, estou com vontade de
esmurrar algum, no bato em mulheres. Volte para casa. Est molhada e
seminua.
-- S volto quando voc voltar. Enquanto isso, podemos resolver a parada
aqui fora mesmo. Est furioso porque no corri pra voc por causa daquele
negcio nojento. Bem, lamento, fiz o que julguei melhor.
-- Em parte voc est certa. Fez o que julgou melhor, mas no lamenta. O
que me surpreende  que tenha se dado ao trabalho de me chamar hoje 
noite s porque algum tentou matar voc.
-- Ty, no  a mesma coisa. Isso no passa de uma imagem idiota. Eu no ia
deixar que me preocupasse, nem a voc, nem a ningum.
-- Voc no ia deixar. A est. Trabalho de equipe, uma ova. -- Gritava agora,
ocorrncia to rara que ela s pde arregalar os olhos para ele. Um homem
enorme, furioso, que perdera, afinal, as estribeiras. -- Voc decide o que, o
quanto e quando d. Todo mundo tem de obedecer ao seu cronograma, ao seu
plano. Bem, que se foda, Sophie. Que se foda tudo! Eu simplesmente sa da
linha. Eu amo voc, porra. -- Ergueu-a nos polegares, mos calosas contra
pele delicada. Voc  o que eu preciso. Se no for igual nos dois lados, no 
nada. Sacou? Nada. -- Furioso com os dois, ele tornou a larg-la. -- Agora
entre e se vista. Vou levar voc para casa.
-- Por favor, no. Por favor -- ela disse, tocando-lhe o brao quando ele
comeou a se afastar. -- Por favor, meu Deus. No v embora. --A
tremedeira voltara, mas nada tinha a ver com o medo de salvar a prpria
vida. Era muito mais. -- Sinto muito. Sinto muito que, por no fazer uma
coisa que achei que ia preocupar voc, fiz algo que o magoou. Estou
habituada a cuidar de mim mesma, habituada a tomar minhas prprias
decises.
-- No  assim que funciona mais. Se no puder lidar com isso, a gente est
perdendo tempo.
-- Tem razo. E est me assustando, porque entendo que isso  importante a
ponto de fazer voc se afastar de mim. No quero que isso acontea. Voc
est certo e eu errei. Queria resolver  minha
maneira e errei. Berre comigo, me xingue, mas no me rechace.
0 ataque de fria dele chegara ao ponto mximo, reflura e, como sempre,
deixara-o aborrecido consigo mesmo.
-- Voc est com frio. Vamos entrar.
-- Espere. -- A voz dele foi to decisiva e distante que deu ns na barriga
dela. -- Apenas escute.
Ela agarrou-lhe o brao e enterrou os dedos, desesperada, na sua camisa. Se
a abandonasse agora, ela sabia que ficaria sozinha como nunca se sentira
antes na vida.
-- Estou escutando.
-- Eu fiquei furiosa quando chegou. S pensava que o canalha, sei que 
Jerry, est usando meu prprio trabalho pra me provocar. Tentar me
apavorar, e no vou deixar que faa isso. No vou deixar que me preocupe,
nem a minha me nem a ningum de que eu goste. E percebo, parada aqui
agora, que, se voc tivesse feito a mesma coisa, eu ficaria igualmente
magoada e furiosa como voc est. -- Modulou a voz e temeu soluar.
Tticas injustas, lembrou a si mesma, e reprimiu a dor. -- Eu amo voc.
Talvez esta seja a nica coisa com que no sei lidar. Ainda no. Achei que
podia cuidar de mim e proteger voc da preocupao. Me d uma chance de
aprender. Estou pedindo que no desista de mim.  a nica coisa que no
posso aceitar. Precisar de algum, amar algum e ver o cara ir embora -
-- Eu no sou seu pai. -- Ele colocou a mo embaixo do queixo dela. Viu as
lgrimas transbordando e a valente tentativa dela de reprimi-las. -- Nem
voc. O fato de eu estar ao seu lado para o que der e vier, tirar algum peso
de suas costas, no torna voc fraca. Nem menor, Sophie.
-- Ele sempre deixou os outros lidarem com as partes mais difceis. -- Ela
inspirou fundo e expirou, trmula. -- Sei o que estou fazendo, Ty, quando
afasto as pessoas pra resolver meus problemas sozinha. Sei o que estou
tentando provar. Sei at que  idiotice e egosmo. Mas parece que nem
sempre consigo parar.
-- Prtica. -- Ele tomou-lhe a mo. -- Eu disse antes que ia mi colar. No
disse?
Um tremor traspassou-a de cima a baixo.
-- , disse. -- Para acalmar-se, ela levou as mos unidas dos dois  face. --
Nunca fui isso para ningum antes. Ningum nunca foi isso para mim. Parece
que voc .
-- Para mim est bem. Estamos quites agora?
-- Acho que sim. -- Ela sorriu. Ele tornava tudo to simples, pensou. Ela s
tinha de permitir-lhe. -- Foi uma noite infernal at agora.
-- Vamos voltar e liquid-la.
Ele enlaou-a e conduziu-a de volta para casa, automaticamente absorvendo
o peso dela quando mancava.
Fez-lhe bem, pensou, ter se irritado com ele daquela maneira.
-- Machucou o p?
O tom divertido e satisfeito no escapou a Sophia.
-- Pisei numa pedra enquanto corria atrs desse culo grande e idiota.
-- Que seria eu. Entendo bastante italiano de esgoto pra saber quando a
mulher a quem amo me chama de bundo.
-- Mas com muito carinho. Como voc est preparado para lngua, que tal
terminar a noite... -- Ela ergueu-se e suspirou no ouvido dele, concluindo o
provocativo italiano com uma rpida mordiscada no lbulo da orelha.
-- Huuumm. -- Embora no tivesse pista alguma do que ela dissera, com
satisfao deixou por conta dela. --Acho que vou precisar de uma traduo
disso.
-- Com prazer -- ela disse. -- Assim que a gente entrar.

SURPREENDEU PILAR VER TYLER DO LADO DE FORA DA PORTA DA
cozinha no que ela imaginou que ele considerava o meio da manh.
Surpreendeu-a muito mais ver o buqu de flores na mo dele.
-- Bom-dia.
-- Oi. Ele entrou na cozinha de Cutter e quase arrastou os ps. -- No
esperava encontrar voc aqui, seno teria... -- Sem graa, sacudiu as flores
na mo. -- Voc sabe, trazido mais.
-- Entendo. Trouxe pra Maddy? Ty. -- Maravilhada com ele, ela estendeu as
mos e apertou as faces dele. -- Voc  mesmo um amor.
-- , certo. Bem. Como se sente?
-- tima. Felizarda. -- Ela dirigiu-se para a porta interna e chamou Maddy,
-- Sophia foi impressionante. Firme como uma rocha.
-- , esta  Sophie. Dei uma folga a ela, deixei que dormisse esta manh. --
Olhou de relance quando Maddy entrou. -- Oi, mocinha.
-- Ei. Que  isso?
-- Acho que so flores. Para voc. Ela uniu as sobrancelhas, perplexa.
-- Pra mim?
-- Eu preciso ir. Vou s me despedir de David e Theo. -- Pilar beijou Maddy
de leve, distrada, na face, e a fez enrubescer. -- At mais tarde.
-- . Tudo bem. Como podem ser pra mim? -- ela perguntou a Tyler.
-- Porque eu soube que voc se saiu muito bem. -- Ele as entregou. -- Quer
ou no?
-- Quero sim, valeu. -- Pegou-as e notou um tremor na barriga ao cheir-las.
Um tipo de reflexo muscular, ela imaginou. -- Ningum nunca me deu flores
antes.
-- Vo dar. Imaginei que devia trazer alguma coisa para seu crebro
tambm, mas ainda no me ocorreu o qu. De qualquer modo, o que fez nos
cabelos?
-- Cortei. Ento?
-- Ento... s perguntando. -- Ele esperou enquanto ela pegava um jarro. O
novo penteado fazi-a parecer uma fadinha inteligente, pensou. Os meninos,
percebeu com um pequeno puxo de pesar, iam comear a farejar na porta
Quer passar o dia comigo hoje? Preciso inspecionar as videiras,  cata de
mldio, a doena causada por fungos, e depois ver como anda o trabalho na
velha destilaria. Comear a limpar as ervas daninhas.
-- , vai ser legal.
-- Avise o seu pai.

QUANDO SE INSTALOU NO CARRO AO LADO DE TYLER, MADDY
cruzou as mos no colo.
-- Quero perguntar duas coisas a voc.
-- Claro. Desembuche.
-- Se eu fosse tipo dez anos mais velha e tivesse seios de verdade, voc me
namoraria?
-- Nossa, Maddy.
-- No tenho nenhuma paixonite por voc, nem nada disso. Eu meio que tive
quando a gente se mudou pra c, mas j superei. Voc  velho demais pra
mim, e ainda no estou pronta pra um relacionamento srio, ou sexo.
-- Com toda certeza, no.
-- Mas, quando estiver pronta, quero saber se um cara daria em cima de
mim. Teoricamente.
Tyler correu a mo pelo rosto dele.
-- Teoricamente, e deixando de fora os seios, porque no  isso que um cara
procura mesmo se voc fosse dez anos mais velha, j me sinto cado por
voc. Certo?
Ela sorriu e ps os culos escuros.
-- Certo. Mas o absurdo dos seios  o seguinte: os caras dizem que procuram
personalidade e inteligncia. Alguns dizem que so as pernas, seja l o que
mais, que fazem a cabea deles. Mas so os seios.
-- E como voc sabe disso?
-- Porque  uma coisa que temos que vocs no tm.
Ele abriu a boca e tornou a fech-la. No era um debate em que entraria 
vontade com uma adolescente.
-- Voc disse que tinha duas perguntas.
-- , bem... -- Ela deslocou-se no banco para olh-lo de frente. -- A outra 
uma idia. Vinhoterapia.
-- Vinhoterapia?
-- , eu li sobre isso. Cremes e coisas faciais baseados em caroo de uva.
Estive pensando que a gente podia comear uma linha de produtos.
-- Podia?
-- Preciso fazer mais pesquisas, algumas experincias. Mas j tem uma
empresa fazendo na Frana. A gente podia monopolizar o mercado
americano. Veja, o vinho tinto contm antioxidantes... polifenis e...
-- Maddy, eu sei tudo sobre polifenis.
-- Certo, certo. Mas veja os caroos... que voc joga fora durante a
produo de vinho... eles tm antioxidantes. E isso  bom mesmo para a pele.
E mais, ando pensando que a gente tambm podia fazer um acordo
fitoterpico interno. Uma linha completa de sade e beleza.
Sade e beleza. E em seguida?
-- Escute, mocinha, eu fabrico vinho, no creme facial.
-- Mas podia -- ela insistiu. -- Se me desse os caroos quando colhesse e um
lugar pra fazer experincias. Voc disse que queria me dar uma coisa pro
meu crebro. Ento me d isso.
-- Eu pensava mais num equipamento de qumica -- ele resmungou. -- Mas me
deixe refletir sobre o assunto.
Pretendia deixar a reflexo para depois do trabalho, mas Maddy tinha
outras idias.
Sophia j se encontrava no vinhedo, vendo os cortadores capinarem as ervas
daninhas com foices. Maddy rumou direto para ela e comeou antes que ela
pudesse falar.
-- Acho que devamos entrar em vinhoterapia como aquela empresa
francesa.
--  mesmo? -- Sophia franziu os lbios, claro sinal de que vinha pensando
nisso cuidadosamente. --  interessante, porque tenho essa idia em banho-
maria j faz algum tempo. Experimentei a mscara facial.  maravilhosa.
-- Somos fabricantes de vinho -- comeou Ty.
-- E sempre seremos -- concordou Sophia. -- Mas isso no exclui dedicar-se
a outras reas. H um mercado enorme pra produtos de beleza naturais.
Tive de engavetar essa idia porque tivemos um ano difcil e outras coisas
exigiram minha ateno. Mas talvez seja um bom momento pra pensar no
assunto. Expanso em vez de controle de danos -- refletiu, e j estava
embalada. -- Preciso acumular mais dados, claro.
-- Eu posso buscar -- disse Maddy. -- Sou boa em pesquisa.
-- Est contratada. Assim que a fase de pesquisa avanar para pesquisa e
desenvolvimento, vamos precisar de uma cobaia.
Como uma unidade, elas se viraram para examinar Tyler. Ele empalidecera.
Sentira, de fato, o sangue esvair-se do rosto.
-- Esqueam.
-- Covarde. -- A expresso sorridente de Sophia se desfez quando ela
localizou as duas figuras que se encaminhavam para eles. -- A polcia est
aqui. Claremont e Maguire. No pode ser boa notcia.

DE MODO DELIBERADO, PENSOU SOPHIA AO SENTAR-SE NA SALA
de estar de Tyler. O jipe tinha sido adulterado, com a mesma deliberao
que o vinho. Em parte ela j sabia disso, mas t-lo confirmado agora com
fetos duros e frios causou-lhe novo arrepio pelo corpo.
-- Sim, eu uso esse veculo muitas vezes. Antes dirigia meu carro na ida e
volta da cidade, mas s tem dois lugares. Ns trs amos passar o dia em
So Francisco, fazendo compras para o casamento de minha me.
Precisamos do carro maior.
-- Quem sabia dos seus planos?
Vrias pessoas, eu imagino. A famlia. Iamos nos encontrar com a juza
Moore e a famlia dela.
-- Teve reunies com algum?
-- Na verdade, no. Parei pra visitar Lincoln Moore antes de encontrar as
outras para almoar. O resto do dia foi perdido.
-- E qual foi o ltimo lugar em que pararam por algum tempo? -- perguntou
Claremont.
-- Jantamos. No Moose's, em Washington Square. O carro ficou
estacionado por cerca de uma hora e meia. Partimos para casa de l.
--Alguma idia, Srta. Giambelli, de quem ia querer lhe fazer mal?
-- Sim. -- Ela recebeu o olhar dele com firmeza. -- Jeremy DeMorney. Ele
est envolvido na adulterao do produto, no desvio de fundos, em todos os
problemas que minha famlia teve este ano. Acredito que seja responsvel
por isso, que planejou tudo e usou meu primo e o que mais, quem mais,
surgisse  mo. E como eu disse tudo isso a ele pessoalmente,  improvvel
que esteja satisfeito comigo agora mesmo.
-- O Sr. DeMorney foi interrogado.
-- E tenho certeza que deu muitas respostas.  o responsvel.
-- Vocs viram o anncio que ele enviou a Sophia. -- Frustrado, Ty levantou-
se. -- Era uma ameaa, que ele cumpriu bem.
-- No podemos provar que DeMorney enviou o anncio. -- Maureen Maguire
viu Tyler vaguear pela sala. Mos enormes, pensou. DeMorney deve ter
desmoronado como reboco sob elas. -- Confirmamos que ele estava em Nova
York quando o envelope foi expedido pelo correio em So Francisco,
-- Ele mandou enviar, ento. Encontrem uma forma de provar isso -- rebateu
Tyler. -- Esse  o trabalho de vocs.
-- Acredito que ele matou meu pai. -- Sophia manteve a voz calma. --
Acredito que o dio dele por meu pai est no mago de tudo que aconteceu.
Ele pode dizer a si mesmo, de uma forma distorcida, que se trata de
negcios. Mas  pessoal.
-- Baseando-se no suposto caso amoroso entre Avano e a ex-Sra. DeMorney,
 um longo tempo para esperar pela vingana.
-- No, no . -- Maddy tomou a palavra. -- No se a pessoa quer fazer a
coisa certa e envolver todo mundo.
Claremont aceitou a interrupo sem dificuldade e lanou a Maddy um olhar
tranqilo, incentivando-a a continuar.
-- Se DeMorney vai atrs do pai de Sophia logo aps o divrcio, a todo
mundo sabe que ele est envolvido no caso. -- Ela passara algum tempo
analisando a histria, dissecando teorias. -- Como, se quero pegar Theo por
alguma coisa, recuo, espero e imagino como atingi-lo melhor. A, quando o
atinjo, ele no est esperando e nem sequer sabe por que levou a bordoada.
 cientfico, e muito mais satisfatrio.
-- Essa menina  um gnio -- comentou Ty.

-- A VINGANA UM PRATO QUE SE COME FRIO -- REFLETIU
Claremont no trajeto de volta  cidade. -- Combina com o perfil de
DeMorney. Ele  arrojado, sofisticado e erudito. Tem dinheiro, posio e um
gosto impecvel. Vejo esse tipo esperando, planejando e mexendo os
pauzinhos. Mas no vejo esse tipo correndo o risco de perder a posio por
causa de um casamento rompido. Que faria voc se seu homem a enganasse?
-- Oh, eu daria um chute nele, depois o escalpelava no divrcio, e faria tudo
que estivesse ao meu alcance pra tornar o resto da vida dele um inferno,
incluindo enfiar alfinetes na garganta e nos colhes de um boneco feito 
imagem dele. Mas, tambm, no sou sofisticada nem erudita.
-- E as pessoas se espantam por que no sou casado. -- Claremont abriu o
bloco de anotaes. -- Vamos conversar mais uma vez com Kristin Drake.

ERA ENFURECEDOR RECEBER A POLCIA NO LOCAL DE TRABALHO. AS
pessoas iam falar, especular e rir baixinho. No havia nada que Kris odiasse
mais do que pessoas fofocando pelas suas costas. E a culpa disso recaa
direto nos ombros de Sophia.
-- Se querem minha opinio, os problemas que a Giambelli vem enfrentando
este ano foram provocados porque Sophia est mais interessada em
promover seu prprio programa do que a empresa ou as pessoas que
trabalham pra ela.
-- E que programa  esse?
-- Sophia  seu prprio programa.
-- E o interesse prprio dela, como voc v, resultou em no menos que
quatro mortes, um atentado a bala e o que poderia ter sido um acidente
fatal envolvendo ela mesma, a me, uma amiga e uma adolescente.
Ela lembrou a violenta raiva no rosto de Jerry quando estava em Nova York
e Sophia e seu fazendeiro o haviam encurralado.
--  bvio que ela deixou algum puto.
-- Alm de voc, Srta. Drake? -- perguntou Maguire, amvel.
-- No  nenhum segredo de que deixei a Giambelli em termos no muito
amigveis, e o motivo foi Sophia. Eu no gosto dela e me ressinto do fato de
ela ter sido contratada pra um cargo acima de mim, quando eu claramente
tinha mais tempo de servio e experincia. E pretendo fazer com que ela
pague por isso nos negcios.
-- H quanto tempo vinha sendo cortejada por DeMorney e La Coeur quando
ainda recebia salrio da Giambelli?
-- No existe lei alguma contra examinar outras propostas enquanto se est
empregada em outra empresa. So negcios.
-- Quanto tempo? Ela deu de ombros.
-- Fui procurada no ltimo outono.
-- Por Jeremy DeMorney?
-- Sim. Ele indicou que La Coeur ficaria muito satisfeita em me receber na
equipe deles. Fez uma oferta e eu levei algum tempo analisando.
-- Que decidiu?
-- Apenas percebi que no seria feliz na Giambelli naquelas condies. Eu me
sentia criativamente sufocada l.
-- Mas continuou l, sufocada, durante meses. Nesse perodo, a senhorita e
DeMorney mantinham contato um com o outro?
-- No existe lei alguma contra...
-- Srta. Drake -- interrompeu Claremont. -- Estamos investigando
assassinato. Simplificaria o processo se nos desse um quadro claro. Ns
simplificamos fazendo perguntas aqui, em vez de lev-la pra delegacia, onde
a atmosfera no  nem de longe to agradvel. Voc e DeMorney mantinham
contato um com o outro nesse perodo?
-- E da se mantnhamos?
-- Durante esses contatos, a senhorita deu ao Sr. DeMorney informaes
confidenciais sobre a Giambelli, prticas comerciais, campanhas
promocionais, informao pessoal que talvez tivesse chegado ao seu
conhecimento relacionada aos membros da famlia?
Ela ficou com as palmas midas. Quentes e midas.
-- Quero chamar um advogado.
-- E um direito seu. Pode responder  pergunta e talvez admitir a culpa de
algumas prticas comerciais antiticas que no nos interessa usar contra a
senhorita. Ou permanecer intransigente e possivelmente acabar acusada
como cmplice de assassinato.
-- No sei nada de assassinato. No sei nada disso! E se Jerry... Meu Deus.
Meu Deus.
Comeava a suar. Quantas vezes refizera o cenrio que Tyler pintara no
apartamento de Jerry? Quantas vezes se perguntara se o que ele dissera,
mesmo parte do que dissera, era verdade?
Se fosse, ela com certeza seria envolvida. Era hora, decidiu, de cortar a
ligao.
-- Estou disposta a jogar duro pra conseguir o que quero, no trabalho. No
sei nada de assassinato, adulterao de produto. Passei algumas
informaes a Jerry, sim. Dei a ele uns alertas sobre os grandes planos de
Sophia pro centenrio, a programao. Talvez perguntasse sobre assuntos
pessoais, no era nada mais que fofocas de escritrio. Se ele teve alguma
coisa a ver com Tony... -- Ela interrompeu-se, os olhos brilhando com
lgrimas que se aproximavam. -- No espero que acreditem em mim. E no
me importo. Mas Tony significou muito pra mim. Talvez, a princpio, eu tenha
comeado a sair com ele porqueencarei a coisa como um novo tapa em
Sophia, mas mudou.
-- Estava apaixonada por ele? --- Maureen infundiu simpatia na voz.
-- Ele importava pra mim. Fez promessas, sobre meu cargo na Giambelli. Sei
que as teria cumprido se no tivesse morrido. J disse a vocs que tinha me
encontrado duas vezes com Tony no apartamento de Sophia. No --
acrescentou -- na noite em que foi assassinado. A coisa vinha esfriando
entre ns. Admito que tenha ficado transtornada com isso a princpio. Rene
enfiou as garras fundo nele.
-- Ficou magoada quando ele se casou com ela?
-- Fiquei puta. -- Kris comprimiu os lbios. -- Quando ele me disse que
estavam noivos, fiquei furiosa. Eu no queria me casar com ele. Quem
precisa disso? Mas gostava da companhia de Tony, ele era bom de cama e
apreciava meus talentos profissionais. Eu no ligava pro dinheiro dele. Sou
capaz de ganhar o meu prprio. Rene no passa de uma prostituta cavadora
de ouro.
-- Foi disso que a chamou quando ligou pro apartamento dela em dezembro
ltimo -- declarou Maureen.
-- Talvez sim, No me arrependo de dizer o que penso. Dizer o que penso
fica a uma grande distncia de ter alguma coisa a ver com assassinar
algum. Meu relacionamento com Jerry tem sido profissional, de ponta a
ponta. Se ele teve alguma coisa a ver com Tony, ou qualquer um dos outros,
isso  com ele. No vou balanar com ele. No  assim que fao o jogo.

-- BELO JOGO. -- MAUREEN DESLIZOU PARA TRS DO VOLANTE. --
Prefiro um belo e claro "matei o cara porque ele me fechou na rodovia" a
qualquer hora.
-- Kris est ficando apavorada. Tremendo da cabea aos ps. Acha que
DeMorney armou tudo isso e ela est na fila pra assumir a culpa.
-- Ele  um filho da puta escorregadio.
-- . Vamos bombear presso nele. Quanto mais escorregadios so, com mais
fora os esprememos.

Captulo Vinte e Nove
Ele no ia tolerar. A polcia idiota estava com certeza na folha de
pagamento da Giambelli. No tinha a menor dvida. Claro que no poderiam
provar nada. Mas o msculo na face de Jerry se contraa, enquanto as
dvidas danavam na cabea. No, tinha certeza. Certeza. Fora muito, muito
cuidadoso. Mas isso era irrelevante.
Os Giambelli o haviam humilhado em pblico uma vez antes. O caso de Avano
com sua mulher pusera o nome dele em lnguas ferinas, obrigara-o a mudar
de vida, de estilo de vida. Dificilmente poderia ter continuado casado com a
piranha infiel -- sobretudo quando as pessoas sabiam,
Custara-lhe colocao e prestgio na empresa. Para o tio-av, o homem que
perdia a esposa para um concorrente poderia perder contas para um
concorrente.
E Jerry, sempre considerado o herdeiro legtimo de La Coeur, em particular
por si mesmo, perdera um doloroso ponto.
Os Giambelli no sofreram por causa disso. As trs Giambelli permaneceram
acima de tudo. O falatrio sobre Pilar fora de respeitosa solidariedade, e
sobre Sophia, de discreta admirao. E jamais se ouvira sobre a poderosa La
Signora.
Ou no se ouvira, lembrou Jerry a si mesmo. At ele faz-lo.
Anos de planejamento e de classe na realizao, sua vingana varara at o
mago da Giambelli.
Quem fora degradado agora?
Mesmo com todo o seu planejamento, os cuidadosos estgios, todos se
voltaram contra ele. Sabiam que os superara em excelncia, e tentavam
arrast-lo para baixo.
Achavam que toleraria seus associados especularem sobre ele -- um
DeMorney? A idia fazia-o tremer de sombria e ressentida raiva.
A prpria famlia o questionara. Questionara sobre prticas comerciais.
Hipcritas. Oh, no se importaram de ver a fatia de mercado da empresa
aumentar. Haviam feito perguntas, ento? Mas, ao primeiro sinal de que
talvez houvesse uma marola no lago, fizeram os trabalhos de base para
torn-lo o bode expiatrio.
Tambm no precisava deles. No precisava do questionamento santarro de
sua tica, mtodos e programa pessoal. No iria esperar que pedissem sua
demisso, se ousassem fazer isso. Tinha uma situao financeira
confortvel. Talvez fosse hora de tirar uma folga dos negcios. Umas frias
prolongadas, uma completa recolocao.
Iria mudar-se para a Europa e l s a sua reputao lhe garantiria uma
posio de primeira em qualquer empresa que escolhesse. Quando estivesse
mais uma vez pronto para trabalhar. Quando estivesse pronto para fazer La
Coeur pagar por sua deslealdade.
Mas, antes de tornar a reestruturar a vida, concluiria a misso. Em pessoa
desta vez. MacMillan achava que ele no tinha coragem de puxar o gatilho?
Iria aprender que sim, prometeu Jerry a si mesmo. Iriam todos aprender
que sim.
As Giambelli pagariam caro por ofend-lo.

SOPHIA PASSOU A TODA PELO SEU E-MAIL INTERNO ENTRE
escritrios. Preferia responder aos relatrios, aos memorandos, s
questes pessoalmente, no de So Francisco. Mas estipulara-se a lei agora.
Ela no iria mais  cidade desacompanhada. Ponto.
Tyler recusou ser retirado dos campos. A extirpao das ervas daninhas no
terminara e constatou-se uma branda infestao de uma espcie de
gafanhotos que atacavam uvas. Nada muito problemtico, ela pensou com
uma leve ponta de ressentimento ao responder a um pedido de informao.
As vespas se alimentavam dos ovos do gafanhoto. Por isso se plantavam em
todo o vinhedo arbustos de amora silvestre, que serviam de hospedeiros
para o predador.
Dificilmente se passava uma estao sem uma leve infestao. Contavam-se
histrias de infestao pelos bastardinhos,
Ela no iria conseguir retirar Tyler at ele ter certeza de que a praga se
achava sob controle, e a essa altura estaria to ocupada com os detalhes de
ltima hora do casamento da sua me que no teria um dia de folga para ir
ao escritrio, muito menos aos vinhedos.
Quando terminasse o casamento, comearia a colheita. Ento ningum teria
tempo para nada alm da espremedura.
Pelo menos as exigncias e o horrio apertado mantinham sua mente longe
de Jerry e da investigao policial. Fazia duas semanas que ela enfrentara
as curvas sem freios. Pelo que sabia, a investigao continuava paralisada.
Jerry DeMorney era outra histria.
Tambm ela tinha suas fontes. Sabia muito bem do falatrio sobre ele.
Perguntas, no apenas da polcia, mas dos superiores dele. E os membros do
conselho, liderados -- de forma bem mortificante, esperava -- pelo prprio
tio-av.
Causava-lhe certa satisfao saber que ele estava sendo acuado, como fora
a famlia dela, entre os gananciosos punhos de mexerico e suspeita.
Ela abriu outro e-mail e clicou para ler o arquivo anexo.
Ao deslizar a tela, sentiu o corao falhar e comear a disparar,
Era uma cpia do anncio seguinte, programado para divulgao em agosto.
Piquenique de famlia, uma inundao de sol, uma mancha de sombra de um
imenso carvalho. Vrias pessoas espalhadas a uma comprida mesa de
madeira, cheia de comida e garrafas de vinho.
Na cabeceira, o modelo, que lembrava Eli, sentado, o copo erguido como num
brinde. Predominavam risos na imagem, continuidade, tradio de famlia.
A imagem fora alterada. Sutil e astuciosamente. Trs dos rostos dos
modelos haviam sido substitudos. Sophia examinou a av, a me e a si
mesma. Tinha os olhos arregalados de horror, a boca escancarada
reproduzindo-o. Enterrada no seu peito, como uma faca, uma garrafa de
vinho.
Dizia:
                           ESTA  A SUA HORA.
                           SER A SUA MORTE
                               E DOS SEUS

-- Seu filho-da-puta, seu filho-da-puta.
Ela golpeou o teclado, mandou imprimir a cpia, salvou o arquivo e fechou-o.
No iria abal-la, prometeu a si mesma. E no ameaaria a sua famlia
impunemente. Ela trataria dele. Resolveria isso.
Comeou a enfiar a cpia impressa do anncio num arquivo e hesitou.
Voc  uma controladora, dissera Tyler.

FAZER ENXERTO NAS VIDEIRAS ERA UMA AGRADVEL MANEIRA
de passar um dia de vero. O sol estava quente, a brisa suave como um beijo.
Sob a brilhante taa azul de cu, a circular Vacas Ville estofada de verde,
as colinas ondulando luxuriantes com a promessa do vero.
As uvas eram protegidas desse sol torrencial de meio dia por uma
verdejante abbada de folhas. O guarda sol da natureza, como a chamava o
av.
A safra alcanara mais da metade do tamanho maduro, e muito em breve as
variedades de uvas pretas comeariam a mudar de cor, as bagas verdes
milagrosamente ficando azuis e depois arroxeadas, quando avanassem para
a ltima onda de maturidade. E colheita.
Cada estgio de crescimento exigia cuidado, assim como levava a estao 
sua inevitvel promessa.
Quando Sophia se acocorou ao seu lado, ele continuou o trabalho, e o prazer.
-- Achei que voc ia ficar enfurnada no escritrio o dia todo, desperdiar
essa luz do sol. Maneira legal de ganhar a vida, se quer minha opinio.
-- Eu imaginava o que um grande e importante vinicultor como voc teria
mais a fazer do que ficar fazendo enxertos em pessoa. -- Ela correu a mo
pelos cabelos dele, profusamente raiados pelo sol. -- Cad o chapu,
companheiro?
-- Em algum lugar por a. Essas Pinot Noir vo ser as primeiras a
amadurecer. Apostei cem com Paulie nessas belezinhas. Afirmo que vo nos
dar a melhor safra em cinco anos. Ele apostou nas Chenin Blanc.
-- Tambm quero participar. A minha aposta  nas Pinot Chardonnay.
-- Voc devia economizar seu dinheiro. Vai precisar dele pra financiar as
idias geniais de Maddy.
--  um projeto inovador, progressista. Ela j me forneceu os dados. Vamos
elaborar uma proposta juntas para La Signora.
-- Se quiser esfregar caroos de uva por todo o corpo, eu poderia fazer pra
voc. Sem cobrar nada. -- Ty mudou de posio, os joelhos deles se
colidiram e ps a mo na dela. -- Que foi que houve, querida?
-- Recebi outra mensagem, outro anncio alterado. Veio num arquivo anexo
ao e-mail interno do escritrio. -- Quando ele retesou a mo, ela virou a sua
para entrelaarem os dedos. -- Eu j identifiquei. Foi enviado sob o nome de
tela P.J. Ela no me enviou mensagem nenhuma hoje. Algum usou o
computador dela ou tinha a informao de sua conta e senha. Pode ter vindo
de qualquer lugar.
-- Onde est?
-- Em casa. J imprimi e tranquei numa gaveta. Vou mandar para a polcia
acrescentar  pilha. Mas quis contar primeiro a voc. Por mais que odeie a
idia, acho que a coisa a fazer  convocar uma reunio de cpula para que
todo mundo na famlia saiba e fique de sobreaviso. Mas... quis contar
primeiro a voc.
Ele ficou onde estava, acocorado, sua mo engolindo a dela.
-- Veja o que eu quero fazer. Quero agarrar o cara e arrancar a pele dos
ossos com uma faca cega. At esse dia glorioso, quero que voc me prometa
uma coisa.
-- Se eu puder.
-- No, Sophie, no tem se. Voc no vai a nenhum lugar sozinha. Nem da
villa pra c. Nem para uma caminhada nos jardins, nem uma rpida ida ao
maldito mercadinho. Falo srio.
-- Entendo como voc est preocupado, mas...
-- No pode entender, porque  irracional.  indescritvel. -- Ele fez o
corao dela saltar tomando-lhe a mo livre e colando os lbios na palma. --
Se acordo no meio da noite e voc no est ali, rompo num suor frio.
-- Ty.
-- Feche a matraca, simplesmente feche a matraca. -- Num movimento
fluido, ele se levantou para liberar os nervos e a raiva andando. -- Nunca
amei ningum antes. No esperava que fosse voc. Mas  e pronto. Voc no
vai fazer nada que bagunce isso para mim.
-- Ora, claro, podemos no bagunar.
Ele virou-se e lanou-lhe um olhar de profunda frustrao.
-- Voc sabe o que eu quero dizer, Sophie.
-- Felizmente pra voc, sei. No pretendo fazer nada que bagunce isso para
voc nem para mim.
-- Maravilha. Vamos arrumar suas malas.
-- No vou me mudar para a sua casa.
-- Por que no, droga?--A frustrao levou-o a correr as mos pelos
cabelos. -- Voc j fica l metade do tempo mesmo. E no venha com a
desculpa esfarrapada de que precisa ficar em casa para ajudar no
casamento.
-- No  desculpa esfarrapada,  um motivo. Em potencial, um motivo
esfarrapado. No quero morar com voc.
-- Por qu? S me diga por qu.
-- Talvez eu seja antiquada.
-- O diabo que .
-- Talvez seja -- ela repetiu -- nessa rea. Acho que no devamos morar
juntos. Acho que devamos nos casar.
-- Isso  s outra... -- As palavras penetraram, embotando-lhe por um
momento a mente. -- Opa!
-- , e com essa cintilante resposta, preciso voltar para casa e ligar para a
polcia.
-- Sabe, um dia voc vai me deixar lidar com um assunto do meu jeito, tempo
e espao. Mas como no  o caso aqui, pelo menos podia me pedir em
casamento de uma forma mais tradicional.
-- Quer que eu pea? Beleza. Quer se casar comigo?
-- Claro. Novembro est bem pra mim. -- Ele segurou os cotovelos dela e
ergueu-a uns cinco centmetros do cho. -- Que era quando eu ia propor...
mas voc tem sempre de ser a primeira. Imaginei que a gente podia se
casar, ter uma bela lua-de-mel e voltar pra casa antes da poca da poda.
Meio como um ciclo certinho e simblico, no acha?
-- No sei. Tenho de pensar nisso. Culo.
-- De volta a voc, querida. -- Ele deu-lhe um beijo com vontade e largou-a
de novo no cho. -- Me deixe terminar esta vinha que a gente vai chamar os
tiras. E a famlia.
-- Ty?
-- Humm.
-- S porque fui eu quem props no significa que no queira um anel.
-- T, t, vou cuidar disso.
-- Eu vou escolher.
-- No, no vai.
-- Por que no? Sou eu quem vai usar.
--  voc que usa seu rosto, tambm, mas no foi voc quem escolheu.
Com um suspiro, ela ajoelhou-se ao lado dele.
-- No faz o menor sentido. -- Mas ela apoiou a cabea no ombro dele,
enquanto ele trabalhava. -- Quando cheguei aqui, estava apavorada e
furiosa. Agora estou apavorada, furiosa e feliz.  melhor -- decidiu. --
Muito melhor.

-- ISSO  QUEM SOMOS -- COMEOU TEREZA, ERGUENDO A TAA.
-- E quem escolhemos ser.
Jantavam ao ar livre, numa espcie de reflexo Giambelli do anncio. Uma
escolha proposital, pensou Sophia. A av ia resistir em p a uma ameaa e
mat-la a chutes nos colhes, se necessrio fosse.
O anoitecer era tpido, a luz do sol ainda brilhante. Nos vinhedos alm dos
gramados e jardins, as uvas engordavam e a Pinot Noir, como previra Tyler,
comeava a mudar de cor.
Faltavam quarenta dias para a colheita, pensou Sophia. Era a antiga regra.
Quando as uvas adquiriam cor, quarenta dias as separavam da colheita. A
me a essa altura estaria casada e recm-chegada da lua-de-mel. Maddy e
Theo se tornariam seus irmo e irm, e teriam voltado  escola. Ela se veria
planejando o prprio casamento, embora houvesse insistido com Tyler para
que no anunciasse ainda o compromisso deles.
A vida continuaria porque, como disse La Signora, isso era quem eles eram. E
quem haviam escolhido ser.
-- Quando temos problemas -- continuou Tereza --, nos unimos. Famlia.
Amigos. Este ano trouxe problemas, mudanas e tristeza. Mas tambm
alegria. Daqui a algumas semanas Eli e eu teremos um novo filho, e mais
netos. E, parece -- acrescentou, virando-se para Maddy --, uma nova
empresa. Nesse meio-tempo, fomos ameaados. Pensei muito no que se pode
e se deve fazer. James? Sua opinio legal sobre nossas opes.
Ele largou o garfo e reuniu as idias.
-- Embora os indcios indiquem o envolvimento de DeMorney, at que ele
talvez tenha sido instrumental, no esquema de desfalque, adulterao, no
h prova alguma concreta. Apesar das afirmaes de Donato, no h o
suficiente para convencer o promotor pblico a abrir um processo sobre
essas questes e a morte de Tony Avano. Confirmaram que ele estava em
Nova York quando o carro de Sophia foi adulterado.
-- Teria contratado algum -- comeou David.
-- Seja o que for, e eu no discordo, at a polcia ter prova contra ele, nada
pode fazer. E vocs -- acrescentou James -- nada podem fazer. Meu melhor
conselho  ficar acima disso, deixar o sistema trabalhar.
-- Sem nenhuma ofensa a voc nem ao seu sistema, tio James, mas ele no
tem trabalhado muito bem at agora. Donato foi assassinado enquanto
estava no sistema -- observou Sophia. -- E David foi baleado numa rua
pblica.
-- So questes para as autoridades italianas, Sophie, e apenas nos deixam
com as mos ainda mais atadas.
-- Ele est atormentando Sophie com esses anncios. -- Tyler empurrou o
prato. -- Por que no podem ser reconstitudos retroativamente a ele?
-- Quisera eu ter as respostas. No se trata de um homem idiota nem, at
agora, descuidado. Se estiver no centro de tudo isso, ele se cobriu com
camadas de proteo, libis.
-- Ele entrou no meu apartamento, sentou-se e atirou no meu pai a sangue-
frio. Eu consideraria isso, no mnimo, um ato descuidado. Ele precisa ser
punido. Devia ser caado, perseguido e atormentado, da mesma forma que
tem caado, perseguido e atormentado a familia.
-- Sophia. -- Helen estendeu a mo do outro lado da mesa. -- Sinto muito.
s vezes a justia no  o que queremos ou o que esperamos que seja,
-- Ele planejou nos arruinar -- disse Tereza, calma. -- No arruinou.
Prejudicou, sim, nos causou perdas. Mas vai pagar um preo por isso. Hoje
pediram que se demitisse do cargo na La Coeur. Fico satisfeita em achar que
as conversas que Eli e eu tivemos com certos membros do conselho deles, e
as que David teve com executivos importantes da empresa, renderam esse
fruto em particular.
-- No basta -- comeou Sophia.
-- Talvez seja demais -- corrigiu Helen. -- Se DeMorney for to perigoso
quanto voc acredita, esse tipo de interferncia s vai encurral-lo e tornar
mais imperativo que revide. Como advogada, como sua amiga, eu lhe peo... a
todos vocs, que no interfiram nisso.
-- Me. -- Linc balanou a cabea, consternado. -- Voc poderia?
-- Sim. --A nica slaba foi uma feroz declarao.-- Para proteger o que 
mais importante, poderia. E faria. Tereza, sua filha vai se casar em breve.
Ela encontrou a felicidade. Sobreviveu a uma tempestade, como todos vocs.
O momento  para comemorar, seguir em frente, no para se concentrar em
vingana e retaliao.
-- Cada um de ns protege o que  mais importante, Helen -- disse Tereza.
--  nossa maneira. O sol est se pondo. Tyler, acenda as velas.  uma noite
agradvel. Vamos aproveitar. Queria saber se voc ainda  mais seu Pinot
Noir que meu Chenin Blanc?
-- Sou. -- Ele contornou a mesa e acendeu as velas. -- Claro que se trata de
uma situao de ganho mtuo, pois somos uma fuso. -- Quando chegou 
cabeceira da mesa, encontrou os olhos dela. -- Por falar em fuses, eu vou
me casar com Sophia.
-- Maldito seja, Tyler! Eu disse a voc ...
-- Calada -- ele respondeu to  vontade que ela caiu no silncio. -- Foi ela
que me pediu, mas achei que era uma tima idia.
-- Oh, Sophie.
Pilar levantou-se de um salto da mesa e correu para abraar a filha.
-- Eu s queria esperar at depois do seu casamento pra contar, mas o
linguarudo a no consegue manter a boca fechada.
-- Essa parte tambm foi idia dela -- concordou Tyler, contornando a mesa.
-- Sophie no erra tantas vezes assim, por isso  difcil reconhecer quando
est errada. Eu acho que as boas notcias nunca so demais. Tome. -- Ele
pegou a mo dela, segurando-a quando ela a puxou. Tirou um anel do bolso e
deslizou o simples e espetacular diamante de lapidao quadrada no dedo
dela. -- Isto fecha um trato.
-- Por que no pode simplesmente...  lindo.
-- Era da minha av. MacMillan para Giambelli. -- Tomou a mo dela, ergueu-
a e beijou-a. -- Giambelli para MacMillan. Serve pra mim.
Ela suspirou.
-- Detesto de verdade quando voc tem razo.

A VINGANA, DECIDIU JERRY, FORMAVA PARCEIROS SEXUAIS MAIS
estranhos que a poltica. No que j tivessem ido exatamente para a cama.
Mas iriam. Rene era um alvo muito mais fcil do que ele poderia julgar,
-- Agradeo a voc por vir me ver assim. Escutar. Ouvir meu desabafo. --
Ele estendeu o brao e tomou a mo de Rene. -- Temia que acreditasse
nesses perversos boatos que as Giambelli andam divulgando.
-- Eu no acreditaria em nenhuma delas mesmo que dissessem que o sol
surge no leste.
Ela recostou-se no sof, ficando  vontade. Alm do dio pelas Giambelli,
havia a aguada viso de um homem rico. Andava esgotando rpido o
dinheiro.
Tony, desgraado, no fora honesto com ela, que j tivera de vender
algumas jias. E se ela no fisgasse logo outro peixe, teria de voltar a
trabalhar.
-- No digo que no joguei pesado, este  o meu trabalho. Acredite, La
Coeur me apoiou o tempo todo. At as coisas ficarem difceis.
-- Parece o modo como as Giambelli trataram Tony.
-- Exatamente. -- Oh, ele ia usar isso, usar isso e o dio inato dela para
virar a mar. -- Don me ofereceu informaes confidenciais, eu aceitei.
Claro, a Giambelli no toleraria isso, no tolera que as pessoas saibam que
foram solapados pelos seus prprios. Ento tinha de ser eu, eu tenho de ter
coagido, trapaceado, subornado, sabe Deus o que mais. Peguei o que me
ofereceram. No apontei uma arma para a cabea deles. -- Ele interrompeu-
se e apertou a mo dela. -- Nossa, Rene, sinto muito. Que coisa mais idiota
de dizer!
-- Est tudo bem. Se Tony no tivesse mentido pra mim, no tivesse me
trado e transado com aquela vagabundazinha que trabalhava com Sophia,
ainda estaria vivo hoje.
-- Kris Drake. -- Pelo efeito, ele apertou a mo na testa. -- Eu no sabia
sobre Kris e Tony antes de contrat-la. A idia de que talvez ela tenha
alguma coisa a ver com a morte de Tony...
-- Se teve, ainda trabalhava pra eles. Eles esto por trs disso. De tudo
isso.
Poderia ser ela mais perfeita? Ele s desejava ter pensado em usar Rene
meses antes.
-- Arruinaram minha reputao. Acho que eu mesmo causei parte disso. No
devia querer vencer tanto.
-- Vencer  tudo. Ele sorriu-lhe.
-- E eu sou um cara que detesto perder. Em qualquer coisa. Sabe, quando
conheci voc, no sabia que voc e Tony formavam um casal, e eu... Bem,
nunca tive a chance de competir, por isso imagino que isso no se qualifica
como perder. Mais vinho?
-- Sim, obrigada. -- Ela franziu os lbios, pensando em como encenar a coisa
enquanto ele estendia a mo para pegar a garrafa. -- Fui arrebatada pelo
charme de Tony -- comeou. -- E admirava o que julguei ser a ambio dele.
Eu me sinto muito atrada por empresrios inteligentes.
-- Srio? Eu era um -- ele disse, ao servir o vinho.
-- Ora, Jerry, voc ainda  um empresrio inteligente. Vai cair de p.
-- Quero acreditar que sim. Ando pensando em me mudar para a Frana.
Tenho algumas ofertas l. -- Ou teria, pensou com raiva. Com toda certeza,
teria. -- Por sorte, no preciso de dinheiro. Posso negociar e escolher, sem
me apressar. Talvez me faa bem apenas viajar durante algum tempo,
desfrutar as vantagens dos anos de trabalho duro que dei.
-- Eu adoro viajar -- ela ronronou.
-- Sinto que no posso partir enquanto no consertar tudo isso. Enquanto
no tiver tratado cara a cara com as Giambelli. Vou ser franco com voc,
Rene, porque acho que vai entender. Quero me vingar deles por terem posto
essa mancha em mim.
-- Entendo sim. -- No que se poderia tomar por solidariedade, ou o
contrrio, ela ps a mo no corao dele. -- Elas sempre me trataram como
uma coisa barata que se podia facilmente ignorar. Odeio todos eles.
-- Rene. -- Ele avanou devagar. -- Talvez a gente possa encontrar um modo
de se vingar delas. Ns dois.
Mais tarde, quando ela se estendia nua, com a cabea apoiada em seu ombro,
Jerry sorriu no escuro. A viva de Tony iria desobstruir o caminho dele
direto para o corao das Giambelli. E ele iria extirp-lo.

SERIA DIVERTIDO, RENE VESTIU-SE COM TODO APRUMO PARA O
papel que iria representar. Terninho escuro, conservador, o mnimo de
maquiagem. Ela e Jerry haviam elaborado tudo, exatamente O que ela iria
dizer, exatamente como iria comportar-se. Ele a fizera ensaiar inmeras
vezes. O cara era meio exigente demais para seu gosto, mas ela imaginava
que ia p-lo na linha. Se ficasse com ele tempo suficiente.
Por enquanto, ele era til, divertido e um meio para chegar a um fim. E,
como fazia a maioria dos homens, subestimava-a. No percebia que ela sabia
que ele tambm a considerava til, divertida e um meio para chegar a um
fim.
Mas Rene Foxx era muito esperta. Sobretudo com os homens.
Jerry DeMorney estava sujo at o n da gravata Hermes. Se ele no tivesse
dado as ordens em todo aquele negcio de adulterao de produto, ela ia
comear a usar roupas prontas triviais. Ele deu quelas podres Giambelli um
bom chute no traseiro com o que fez, pensou. No que lhe dizia respeito, um
homem esperto e desonesto o bastante para aprontar essa era exatamente
o que ela procurava.
Decidiu que entrar na diviso de homicdios com a caixa nas mos era seu
primeiro passo para um amanh muito lucrativo.
-- Preciso ver o detetive Claremont ou Maureen -- comeou e localizou
Claremont, que acabava de levantar-se de trs de sua mesa. -- Ah, detetive.
-- Alegrou-a t-lo encontrado primeiro. Sempre se saa melhor com homens.
-- Preciso ver voc. Agora.  urgente. Por favor, tem algum lugar...
-- Calma, Sra. Avano. -- Ele tomou-lhe o brao. -- Que tal um pouco de caf?
-- Oh, no posso. No consigo manter nada no estmago. Fiquei acordada
boa parte da noite.
Concentrada no trabalho a desempenhar, ela no percebeu 0 rpido sinal
dele  parceira.
-- Vamos conversar na sala do caf. Por que no me conta o que a aflige?
-- Sim, eu... detetive Maureen. Que bom que est aqui tambm. Estou muito
confusa, muito aflita. -- Largou a valiosa caixa cofre na mesa, empurrou a
para o centro como se quisesse distncia e sentou-se. -- Eu estava revendo
algumas das coisas de Tony, os documentos. No tive condies antes.
Encontrei esta caixa na prateleira de cima do armrio dele. No imaginava o
que podia conter.
J tinha tratado de todos os papis do seguro, os documentos legais. --
Adejou as mos. -- Tinha uma chave na caixa de jias dele. Lembro que me
deparei com isso antes, mas sem saber para que era. Esta -- disse, com um
gesto. -- Era pra guardar isso. Abra. Por favor. No quero passar por tudo
de novo. -- Relatrios -- disse, quando Claremont abriu a caixa e comeou a
folhear a papelada. -- Livros de contabilidade, ou sei l como so chamados,
daquela conta falsa que as Giambelli armaram. Tony deve ter descoberto. E
foi por isso que elas mandaram mat-lo. Sei que ele devia estar juntando
provas. Tentando fazer o certo, e... isso custou a vida dele.
Claremont passou os olhos pelas contas e correspondncias e entregou-as a
Maureen.
-- Acredita que seu marido tenha sido assassinado por causa desses papis?
-- Sim, sim! -- Que era ele, Rene pensou com impacincia, um idiota? --
Temo que talvez possam me considerar responsvel em parte. Tenho medo
do que pode acontecer comigo. Sei que algum anda me vigiando -- ela disse,
baixando a voz. -- Parece parania, eu sei, mas tenho certeza. Sa do meu
apartamento como uma ladra pra vir aqui. Acho que contrataram algum pra
me seguir.
-- Quem faria isso?
-- As Giambelli. -- Ela estendeu a mo e agarrou a de Claremont. -- Devem
estar se perguntando se eu lembro, mas no me lembrei at encontrar isso.
E se souberem, elas vo me matar.
-- Que voc sabe o qu?
-- Que Sophia matou meu Tony.
Rene tapou a boca com a mo e sacrificou a maquiagem com lgrimas.
--  uma acusao sria. -- Maureen levantou-se para pegar lenos de papel.
-- Por que est fazendo isso?
A respirao de Rene travou-se, a mo tremia ao pegar os lenos. Quando
encontrei isso, lembrei. Eu tinha chegado em casa. Faz muito tempo, um ano
atrs. Sophia estava l. Ela e Tony brigavam no andar de cima. Ela estava
furiosa, e ele tentava acalmar a filha. Nem perceberam que eu tinha
entrado. Fui para a cozinha. Ainda ouvia a voz dela. Gritava como faz quando
irrompe naquele terrvel gnio dela. Dizia que no iria tolerar. Que no era
da conta dele. No ouvi o que ele disse, porque falava baixo. Ela enxugou
mais uma vez as lgrimas.
-- Tony nunca elevou a voz para a filha. Ele a adorava. Mas ela... ela o
detestava por minha causa. A conta Cardianili... Sophia disse o nome, mas eu
no tornei mais a pensar nisso. A conta Cardianili devia ser deixada em paz,
e isso seria o fim. Se ele fizesse alguma coisa com os documentos, ela iria
faz-lo pagar. Disse muito claramente: "Se no deixar isso em paz, eu mato
voc." Sa ento da cozinha, porque fiquei furiosa. Quase ao mesmo tempo,
ela desceu voando as escadas. Quando me viu, disse uma coisa perversa em
italiano e irrompeu porta afora.
Ela exalou uma respirao trmula e fungou delicadamente.
-- Quando perguntei a Tony, vi que ele estava abalado, mas descartou o
problema, disse que eram negcios e que ela estava apenas desabafando.
Deixei passar. Sophia sempre desabafava assim. Nunca achei que
pretendesse fazer o que ameaou. Mas fez. Ele sabia que a filha estava
envolvida em desfalque, e ela matou o pai por isso.

-- ENTO. -- MAUREEN RECLINOU NA CADEIRA AO FICAR A SS COM
o parceiro. --Acredita em qualquer coisa disso?
-- Para a algum que no dormiu a noite passada, ela parecia muito alerta.
Para a algum apavorada e aflita, lembrou-se de combinar os sapatos com a
bolsa e coordenar a meia-cala.
-- Voc  um verdadeiro policial da moda, parceiro. De jeito nenhum ela
acabou de encontrar esses papis. Deve ter vasculhado cada gaveta, armrio
e cubculo no dia seguinte  morte dele, pra no deixar de ter acesso a cada
centavo.
-- Maureen, acho que voc no gosta da viva Avano.
-- No gosto de pessoas que acham que sou idiota. Pergunta: se ela tinha os
papis esse tempo todo, por que entregar s agora? Se no tinha antes,
quem passou pra ela?
-- DeMorney est em So Francisco. -- Claremont tamborilou com a ponta
dos dedos na mesa. -- Eu queria saber h quanto tempo ele e a viva tm um
caso.
-- Uma coisa  certa: os dois se ferraram com as Giambelli, e essa a quer
ferrar Sophia G., e pra valer.
-- Pra valer a ponto de dar uma declarao falsa  polcia.
-- Ah, que nada, ela adorou. E  esperta demais pra saber que no disse
nada que possamos incrimin-la. No podemos provar se e quando encontrou
os papis. E se resolvermos essa questo, a cena da briga seria a palavra
dela contra a de Sophia, que na certa discutiu com o pai em algum momento
durante o ltimo ano de vida dele. No temos como incrimin-la nisso, mesmo
que quisssemos nos dar ao trabalho.
-- Nunca fez sentido ela se casar com Avano e matar o marido no dia
seguinte. Ela no se encaixa a pra mim. No iria ganhar nada, e est nisso
pelo que pode ganhar.
-- Se a gente engolisse essa histria, ela poderia obter uma vingancinha. 
disso que est atrs agora.
-- , e DeMorney tambm. -- Claremont levantou-se. -- Vamos ver como
podemos ligar os dois.
Rene deslizou para o sof ao lado de Jerry e aceitou a flte de champanhe.
-- Tive uma informao muito interessante hoje no salo.
-- Que poderia ser?
-- Vou contar. -- Ela correu o dedo pelo centro da camisa dele
-- Mas vai lhe custar.
-- Srio?
Ele tomou-lhe a mo, ergueu-a e mordeu-a de leve no pulso.
-- Oh, isso  gostoso, tambm, mas quero uma coisa diferente Vamos sair,
amor. Estou cansada de ficar em casa. Me leve a uma boate com muita
gente, msica e coisas pecaminosas.
-- Benzinho, voc sabe que eu adoraria. No  sensato sermos vistos em
pblico juntos ainda.
Ela fez um biquinho de amuo e aconchegou-se nele. -- Vamos a um lugar onde
ningum nos conhea. E mesmo que conhea, Tony j morreu h meses e
meses. Ningum espera que eu fique de luto para sempre, sozinha.
Pelas notcias que haviam circulado de um lado a outro do Atlntico, Rene
no ficara de luto sozinha nem uma semana.
-- Agente s um pouco mais. Eu compenso. Quando liquidarmos com tudo e
todos aqui, iremos pra Paris. Agora, que foi que descobriu hoje?
-- Tomando emprestado o linguajar daquela vigarista da Kris, a piranha
nmero trs vai dar  cadela nmero dois uma festinha na sexta-feira 
noite... vspera do casamento. S de mulheres. Est instalando um centro de
beleza espetacular na vlla para a noite. Tratamentos faciais, do corpo,
massagens, servio completo.
-- E que vo ficar fazendo os homens enquanto as mulheres so escovadas e
esfregadas?
-- Imagino que vendo filmes porn e tocando punheta. Vo dar a festa de
despedida de solteiro na casa de MacMillan. Noivo e noiva no podem fazer
obscenidades na noite antes do casamento. Hipcritas.
-- Interessante. -- E exatamente o que ele vinha esperando. -- Vamos saber
onde todo mundo est. E a escolha do momento no podia ser melhor, antes
do feliz acontecimento. Rene, voc  uma jia.
-- No quero ser, s quero ter jias.
-- Daqui a uma semana, estaremos em Paris, e cuidarei disso. Mas primeiro
voc e eu temos um encontro marcado pra noite de sexta-feira, na Villa
Giambelli.

ELA A QUERIA PERFEITA, O TIPO DE NOITE DE QUE TODAS
lembrassem e rissem durante anos. Planejara-a, organizara-a, refinara
todos os detalhes, at o perfume das velas para os tratamentos de
aromaterapia. Dali a vinte e quatro horas, pensou Sophia, a me iria vestir-
se para o casamento, mas, para a ltima noite como solteira, poderia
refestelar-se num mundo de mulheres.
-- Quando tivermos nossos produtos, talvez possamos vender direto a
clnicas de beleza por algum tempo. -- Maddy cheirou os leos essenciais j
arrumados junto  mesa de massagem. -- Fazer todos, tipo to exclusivos
que as pessoas vo morrer por eles.
-- Voc  uma mocinha inteligente, Madeline. Mas nada de negcios esta
noite. Esta noite  de ritual feminino. Ns somos as serviais.
-- Vamos comear a falar de sexo?
-- Claro. Isso no tem nada a ver com troca de receitas. Ah, chegou a
mulher da hora.
-- Sophie. -- J no longo roupo branco, Pilar contornou a piscina da casa. --
No acredito que tenha tido todo esse trabalho.
Vrios postos de servio foram instalados, com espreguiadeiras e cadeiras
de salo. A luz do anoitecer tremeluzia rumo ao pr-do-sol e perfumes dos
jardins espalhavam-se no ar. As mesas continham abundantes travessas de
frutas e chocolates, garrafas de vinho e gua mineral, cestas e potes de
flores.
Ao longo da parede, a gua jorrava da escultura de metal e caa na piscina,
acrescentando uma msica sensual.
-- Eu planejei uma coisa tipo banho romano. Gosta mesmo?
--  maravilhoso. Eu me sinto uma rainha.
-- Quando terminar, voc vai se sentir como uma deusa. Cad as outras?
Estamos desperdiando tempo de paparico.
-- L em cima. Vou busc-las.
-- No, voc no. Maddy, sirva um pouco de vinho a Mama. Ela no vai
levantar um s dedo, a no ser pra pegar um morango coberto de chocolate.
Vou chamar todo mundo.
-- Que bebida voc quer? -- perguntou Maddy.
-- S gua por enquanto, querida, obrigada. Que noite mais adorvel! --
Dirigiu-se para as portas abertas e riu com vontade. -- Mesas de massagem
no ptio. S Sophie.
-- Eu nunca fiz uma massagem antes.
-- Humm. Vai adorar. -- Ao falar, examinando o jardim, Pilar correu
ausentemente a mo pelos cabelos de Maddy e deixou-a apoiada em seu
ombro. O gesto fez tudo dentro da menina aquecer-se. E ela suspirou. --
Que foi que houve?
-- Nada. -- Maddy entregou a taa a Pilar. -- No houve nada. Acho que no
vejo a hora de... tudo acontecer.

-- EST BLEFANDO -- DISSE DAVID, O CHARUTO GRUDADO NOS
dentes, e encarou Eli, tentando ver se ele desviava o olhar.
-- ? Ponha o dinheiro, filho, e pague pra ver.
-- V em frente, pai. -- Theo tambm tinha um charuto apagado nos dentes
e sentia-se como um homem. -- Se no se  corajoso, no se  glorioso.
David jogou as fichas na bolada de apostas.
-- Pago. Mostre o jogo.
-- Trs duquezinhos -- comeou Eli e viu os olhos de David brilharem. --
Vigiando duas belas damas.
-- Filho-da-me.
-- Escocs no blefa com dinheiro. Exultante, Eli raspou as fichas.
-- O cara me escalpelou tantas vezes ao longo dos anos que uso um capacete
quando nos sentamos pro carteado. -- James gesticulou com a taa. -- Voc
vai aprender.
Linc espichou a cabea ao ouvir a batida  porta.
-- Algum pediu uma danarina de striptease, certo? Sabia que o rapaz a
no ia me decepcionar.
--  a pizza. -- Theo se levantou de um salto.
-- Mais pizza? Theo, no  possvel que queira mais pizza.
-- Claro que quero -- ele gritou para o pai atrs. -- Ty disse que eu podia.
-- Eu disse que podia pedir pra mim. Ele inalou o ltimo pedido.
Linc enviou a Tyler um olhar pesaroso.
-- No podia arranjar uma stripper pra entregar a pizza?
-- Esto em falta. Conveno de maonaria.
-- Histria para boi dormir. Bem, espero que tenha pedido de pepperoni,
pelo menos.
                                  +    +     +

-- MEU DEUS, SOPHIE, QUE IDIA BRILHANTE!
-- Obrigada, tia Helen. -- Sentadas lado a lado, inclinavam a cabea para
trs, o rosto coberto de mscara purificadora espessa e verde. -- Eu queria
que mame se sentisse relaxada e completamente feminina.
-- Vai dar certo. Est vendo Tereza e Maddy ali fazendo os ps e
discutindo?
-- Humm -- disse Sophia. -- Elas discordam do nome dos produtos de beleza
que nem temos ainda. No sei se  Maddy ou a idia, mas levantou o moral de
Nonna.
-- Que bom saber disso! Tenho andado preocupada com ela, com todos
vocs, desde que conversamos pela ltima vez. A idia de Rene fazer de
Tony um heri e voc uma vil sobre o negcio Cardianili funde a minha cuca.
Sophia retesou-se e, com deliberao, tornou a se relaxar.
-- Foi uma jogada idiota. DeMorney est por trs e essa  uma das primeiras
jogadas verdadeiramente idiotas que ele fez. Est desmoronando.
-- Talvez esteja. Mas causou mais transtornos. -- Ela ergueu a mo. -- E 
s o que vou dizer sobre isso. Esta noite no  pra problemas, mas pra
indulgncia. Cad Pilar?
No pense nisso, ordenou Sophia a si mesma. Tenha pensamentos puros.
-- Tratamento Quarto B... tambm conhecido como banho de acesso ao nvel
inferior. Facial e corpo inteiro. A gente precisa ficar perto de um chuveiro.
-- Fabuloso. Sou a prxima.
-- Champanhe?
-- Maria. -- Sophia ergueu o copo o suficiente apenas para sentar-se. Voc
no est aqui no momento paRa servir. Voc  minha convidada..
-- Minhas unhas das mos j secaram. -- Vou fazer as dos ps em seguida.
Pode me trazer champagne ento.
-- Fechado.
Maria ergueu os olhos quando Pilar, parecendo calma e relaxada, voltou.
-- Voc fez sua me feliz esta noite. Tudo vai dar certo agora.

-- VOC SABE COM CERTEZA PROPORCIONAR A UMA MULHER UMA
boa diverso.
Jerry passou a mo no traseiro da cala preta colada de Rene.
-- Voc ainda no viu nada. Vai ser uma noite inesquecvel. Para todo mundo.
Avanavam pelo vinhedo agora. Fora uma longa caminhada desde o carro, e o
saco que ele carregava parecia ganhar peso a cada passo. Mas era preciso
dizer uma coisa sobre a sensao que nunca tivera antes, de realizar a
misso em pessoa. No era apenas a satisfao divertida que sentira nas
outras vezes, mas uma profunda e pessoal excitao.
E se alguma coisa desse errado, apenas sacrificaria Rene. Mas no pretendia
que nada desse errado.
Conhecia a configurao eletrnica ali. Entre Don, Kris e suas prprias
observaes, sabia como era a instalao de segurana e como evitar o
disparo de alarmes. Era apenas uma questo de pacincia e cuidado. E uma
impetuosa ambio individual.
Antes do fim da noite, a Giambelli desabaria, de uma ou de outra forma, em
runas.
-- Fique perto -- ele disse a Rene.
-- Eu estou. No  pra estragar a festa, mas queria ter tanta certeza
quanto voc de que vai dar certo.
-- Nada de reconsideraes agora. Sei o que estou fazendo e como fazer.
Assim que o lagar ficar em chamas, eles vo transbordar aos borbotes
como formigas num piquenique.
-- No me importa que voc reduza toda a porra do vinhedo a cinzas. -- Na
verdade, a imagem a empolgava, alm da de se ver danando na borda das
chamas. -- S no quero ser apanhada.
-- Faa o que digo e no ser. Assim que estiverem ocupados com as
providncias para apagar o fogo, entramos, plantamos o pacote no quarto de
Sophia e samos. Pegamos o carro e tomamos o caminho de volta cinco
minutos depois. Chamamos os tiras de uma cabine telefnica, damos uma
dica annima e estamos de volta ao seu apartamento estourando champanhe
antes de a fumaa se dissipar.
-- A velha dama vai subornar os tiras. No vai deixar a preciosa neta ir para
a priso.
-- Talvez. Que ela tente, no tem importncia. Estaro arruinados. Mais
cedo ou mais tarde, vai encontrar a ltima gota, e  esta que far
transbordar o copo e tornar tudo insuportvel. No  o que voc quer?
Alguma coisa na voz dele fez um calafrio subir pela espinha de Rene, mas ela
assentiu com a cabea.
--  exatamente o que eu quero.
Quando chegou ao lagar, Jerry pegou as chaves. Don fora astuto o bastante
para fazer cpias, e ele o bastante para duplic-las.
-- Estas sero jogadas na baa depois que terminarmos. -- Ele enfiou a chave
na primeira fechadura. -- Ningum vai precisar delas aps esta noite. Vo
passar um tempo infernal explicando como um incndio comeou dentro de
um prdio trancado.
Com essa declarao, abriu a porta.

SOPHIA DEITOU-SE NA MESA DE MASSAGEM E OLHOU AS ESTRELAS
acima.
-- Mama, eu sou obsessiva?
-- .
-- Isso  ruim?
Pilar virou-se e deu uma olhada de relance da borda do ptio, onde se
achava.
-- De vez em quando, chato, mas no ruim.
-- Perco o quadro como um todo porque fico examinando os detalhes?
-- Raras vezes. Por que pergunta?
-- Estava pensando no que eu mudaria em mim mesma se pudesse. Se
devesse.
-- Eu no mudaria nada.
-- Porque sou perfeita? -- perguntou Sophia com um sorriso.
-- No, porque voc  minha. Isso tem a ver com Ty?
-- No, comigo. At agora... bem, no sei com exata certeza quando, mas at
agora eu sabia com certeza que tinha tudo que imaginei. Sabia o que queria e
como iria conseguir.
-- No tem mais certeza?
-- Oh, no, ainda sei. Ainda sei o que quero e como vou conseguir. Menos as
coisas que quero mudar em mim. Estava pensando se sempre existiram, e eu
apenas no via o quadro completo. Eu... poderia nos dar um minuto? -- pediu
 terapeuta. Sentou-se e segurou o lenol junto aos seios ao ficar a ss com
a me. -- Por favor, no fique aborrecida.
-- No vou ficar,
-- At pouco tempo atrs, eu continuava querendo que voc e papai
voltassem. Queria porque no sabia o que mais querer, eu acho. Porque
achava que se voc voltasse ele seria o que eu precisava que fosse. No o
que voc precisava nem o que ele era, mas o que eu precisava. Este foi o
detalhe que nunca deixou de me obcecar, e no vi o quadro maior. Eu
mudaria, se pudesse.
-- Eu no. Voc teria sido uma boa filha para seu pai se ele tivesse deixado.
Queria ser, precisava ser. No, eu no mudaria isso.
-- Foi uma grande ajuda. -- Ela tomou a mo de Pilar e virou-a para conferir
as horas no relgio de pulso. --  meia-noite em ponto. Feliz dia do
casamento, Mama.
Levou a mo da me  face e comeou a deitar-se de novo.
-- Que  aquilo? Parece... Oh, meu Deus. O lagar! O lagar est em chamas.
Maria! Maria, ligue prs bombeiros. O lagar est em chamas!
Ela rolou para fora da mesa e agarrou o roupo na corrida.
                                   +    +   +

COMO JERRY PREVIRA, ELAS AFLUIRAM DA CASA. VOZES ALTEADAS,
ps correndo. Das sombras do jardim, ele contou as figuras envoltas em
roupes brancos que se precipitavam do atalho e atravessavam o vinhedo.
-- Dentro e fora -- ele sussurrou a Rene. -- Moleza. V na frente.
Rene dera-lhe a localizao e a disposio do quarto de Sophia, mas ele
queria que ela entrasse primeiro. Talvez cometesse um erro. Afirmava que
s entrara uma vez no quarto de Sophia, mas essa nica vez era mais do que
conseguira.
No podia correr o risco de acender a luz, embora tivesse certeza de que a
lanterna bastava. S precisava plantar o pacote no fundo do armrio dela,
onde a polcia, mesmo que fosse idiota, encontraria.
Seguiu atrs de Rene e subiu a escada aos terraos, olhando de relance para
trs. Viu o luminoso laranja e dourado do fogo contra o cu noturno. Uma
viso brilhante. Iluminava as figuras que corriam como mariposas assustadas
em direo s chamas.
Conseguiriam apagar, claro, mas no rpido. Levariam tempo para perceber
que a gua fora desligada do sistema de extintores de incndio, tempo para
pensarem com calma e clareza, tempo para verem, impotentes, as preciosas
garrafas explodirem, o equipamento arruinar-se e o deus da tradio deles
queimar at o inferno.
Ento ele no tinha coragem de fazer seu prprio trabalho sujo, hem?
Cuidadosamente, flexionou a mo. Ainda causava pontadas de dor de vez em
quando. Veriam quem tinha a coragem quando o sol surgisse.
-- Jerry, pelo amor de Deus -- sibilou Rene do terrao diante do quarto de
Sophia. -- Isso no  uma atrao turstica. Voc disseque a gente tinha de
se apressar.
-- Sempre tem tempo para um momento de prazer, querida. Ele avanou,
pavoneando-se, at a porta do terrao. -- Tem certeza de que  o dela?
-- Sim, tenho.
-- Pois bem.
Empurrou as portas e entrou. Deu ento uma profunda e prazerosa aspirada
no perfume dela assim que Sophia se precipitou quarto adentro pela porta
oposta e acendeu as luzes.
O sbito claro aoitou os olhos dele e o choque imobilizou-lhe a mente.
Antes que pudesse recuperar-se das duas coisas, j repelia cinqenta quilos
da mulher enfurecida.
Sophia saltou para cima dele, a fria cega catapultando-a do outro lado do
quarto. Mesmo quando enterrava os dentes nele, as bordas de sua viso
ardiam vermelhas com desejo de sangue. O nico pensamento claro dela era
infligir dor, monstruosa dor. E quando ele uivou, a emoo bestial esguichou
dentro dela como lava.
Ele revidou, atingindo-a na ma do rosto, mas ela nem sentiu. Partiu para os
olhos dele e deu navalhadas com as unhas recm-manicuradas j pintadas de
vermelho, que erraram por um triz e sulcaram como dentes de ancinho o
rosto dele.
O ardor o enlouqueceu. Sem nenhuma meta alm de libertar-se, empurrou-a
para o lado e jogou-a sobre Rene, que emitia guinchos. Ele sentiu o cheiro do
prprio sangue. Intolervel. Ela arruinara todos os seus cuidadosos planos.
Imperdovel. Assim que ela se arrastou e levantou-se, preparada para saltar
mais uma vez em cima dele, viu o revlver sair da bolsa, na mo dele, que
tinha o dedo suado no gatilho.
Quase a liquidou ento, com um nico aperto do dedo nervoso. Ento ela
parou de repente com um sobressalto e os olhos sem mais raiva e cheios de
choque e medo.
Finalmente, ele pensou, cara a cara. E queria mais que sobrevivncia. Queria
satisfao.
-- Ora. No  interessante? Voc devia ter corrido com os outros, Sophia.
Mas talvez o destino queira que termine como seu pai intil. Com uma bala no
corao.
-- Jerry, temos de sair daqui. S ir embora. -- Rene levantou-se e
arregalou os olhos pata a arma. -- Meu Deus! Que est fazendo? Voc no
pode simplesmente atirar nela.
-- Oh? -- Ele achava que podia, o que foi uma revelao. Acreditava que no
teria qualquer problema, -- E por que no?
--  loucura. Assassinato. No quero tomar parte alguma num assassinato.
Vou embora j. Me d as chaves do carro. Me d a porra das chaves,
-- Feche a porra dessa matraca.
Disse isso friamente e num gesto quase ausente esmagou o lado da cabea
de Rene com a arma. Quando ela caiu como uma pedra, ele nem sequer a
olhou, mas manteve os olhos fixos nos de Sophia.
-- Ela era um p no saco, nisso concordamos. Mas til. E a situao, perfeita.
Voc vai apreciar o resultado, Sophia. Rene comeou o incndio. Queria se
vingar de voc esse tempo todo. Ela procurou os tiras alguns dias atrs,
tentou convencer os dois de que voc matou seu pai. E esta noite veio aqui,
incendiou o lagar e arrombou seu quarto pra plantar provas contra voc,
Voc a flagrou, lutou, a arma disparou. A arma -- ele acrescentou -- usada
para balear David Cutter. Foi enviada a mim. Pensamento antecipado, o que
sei que voc aprecia. Voc est morta, e ela  presa por isso. Muito
certinho.
-- Por qu?
-- Porque ningum fode comigo e fica impune. Vocs, Giambelli, acham que
tm tudo, e agora vo acabar sem nada.
-- Por causa do meu pai? -- Ela via o luminoso brilho laranja do fogo pelas
portas abertas atrs dele. -- Tudo isso porque meu pai envergonhou voc?
-- Envergonhou? Ele roubou de mim... minha mulher, meu orgulho, minha
vida. E o que qualquer um de vocs perdeu? Nada. Apenas mais um percalo
pra vocs. Peguei de volta o que  meu, e mais. Eu teria ficado satisfeito em
arruinar voc, mas a morte  melhor. Voc  a chave. Tereza, bem, ela no 
to jovem quanto antes. Sua me no aprendeu o que  preciso para tornar a
erguer uma empresa. Sem voc, o corao e a mente morrem. Seu pai era
um aproveitador, mentiroso e trapaceiro.
-- , era. -- Ningum viria em seu socorro, ela pensou. Ningum voltaria
correndo do incndio para salv-la. Iria enfrentar a morte sozinha. -- Voc
 tudo isso, e muito menos.
-- Se houvesse tempo, a gente trocaria idias sobre isso, Mas estou um
pouco pressionado aqui, assim... -- Ele ergueu a arma mais dois centmetros.
-- Ciao, bella.
-- Vai a farti fottere -- xingou-o com voz firme.
Desejou fechar os olhos -- encontrar uma prece, a imagem de alguma coisa
para levar consigo. Mas manteve-os abertos. Esperou. Quando a arma
explodiu, ela cambaleou para trs. E viu o sangue vazar por um pequeno
orifcio na camisa de Jerry.
Um choque desnorteado tomou-lhe o rosto, ento outro disparo jogou o
corpo dele para o lado e o fez tombar. Na entrada do quarto, Helen baixou a
arma ao lado.
-- Oh, meu Deus. Oh, Deus. Tia Helen. -- As pernas de Sophia cederam, ela
cambaleou at a cama e deixou-se cair. -- Ele ia me matar.
-- Eu sei. -- Devagar, Helen entrou no quarto e sentou-se pesada na cama ao
lado dela. -- Eu voltei pra lhe dizer que os homens haviam chegado. Vi...
-- Ele ia me matar. Como matou meu pai.
-- No, querida. Ele no matou seu pai. Fui eu. Fui eu -- ela repetiu e largou
no cho a arma que tinha na mo. -- Sinto muito.
-- No. Isso  loucura.
-- Eu usei esta arma. Era do meu pai, nunca foi registrada, No sei por que a
levei comigo naquela noite. Acho que no planejava mat-lo. Eu... no
conseguia nem pensar. Ele queria dinheiro. Mais uma vez. Aquilo no ia
terminar nunca.
-- Do que est falando? -- Sophia segurou os ombros de Helen. Sentia
cheiro de plvora e de sangue. -- Que est dizendo?
-- Linc. Ele estava usando Linc contra mim. Linc, Deus me ajude. Linc  filho
de Tony.
-- Eles j tm tudo sob controle. ... -- Pilar cruzou correndo as portas do
terrao e parou de chofre. -- Oh, amado Deus. Sophie!
-- No, espere. -- Sophia levantou-se de chofre. -- No entre. No toque em
nada. -- A respirao saa em arquejos, mas ela pensava, pensava rpido. --
Tia Helen, venha comigo. Venha comigo agora. No podemos ficar aqui.
-- Isso vai destruir James, e Linc. Arruinei tudo, afinal. Movendo-se rpido
ento, Sophia levantou Helen e puxou-a para o terrao.
-- Eu matei Tony, Pilar. Tra voc. A mim mesma. Tudo em que acredito.
-- No  possvel. Em nome de Deus, que foi que aconteceu aqui?
-- Ela salvou minha vida -- disse Sophia. Uma forte rajada varou o ar quando
as garrafas explodiram no lagar. Ela mal se encolheu. -- Ele ia me matar,
com a arma usada contra David. Tinha mandado buscar na Itlia e guardou
como suvenir. Helen, que foi que aconteceu com meu pai?
-- Ele queria dinheiro. Durante anos me procurava quando precisava de
dinheiro. Na verdade, nunca exigia, nunca ameaava. Apenas falava em Linc...
que timo rapaz era, que rapaz brilhante e promissor. Ento dizia que
precisava de um pequeno emprstimo. Eu dormi com Tony. -- Ela comeou a
chorar ento, baixo. -- Todos aqueles anos. ramos todos to jovens. James
e eu andvamos tendo problemas. Eu estava muito zangada com ele, muito
confusa, e nos separamos por algumas semanas.
-- Eu lembro -- murmurou Pilar.
-- Corri pra Tony. Ele era to compreensivo, to solidrio. Voc e ele
tambm no estavam tendo um bom relacionamento. J pensavam numa
separao. Ele era sedutor, prestava ateno. Como James no fazia. No
tem desculpa, deixei a coisa acontecer. Depois, senti muita vergonha, fiquei
repugnada comigo mesma. Mas o fato foi consumado e no podia ser mudado.
Descobri que estava grvida. No era de James, porque no tnhamos ficado
juntos desse jeito. Ento cometi meu segundo erro hediondo e contei a
Tony. Foi o mesmo que ter comunicado uma mudana de estilo do meu
penteado. Ele dificilmente poderia esperar pagar pela indiscrio de uma
noite, poderia? Ento eu paguei. -- Lgrimas escorriam-lhe pelas faces. -- E
paguei.
-- Linc  filho de Tony.
--  de James. -- Helen olhou suplicante para Pilar. -- Em todos os sentidos,
menos nesse. Ele no sabe, nenhum dos dois sabe. Fiz tudo que pude para
compensar aquela noite. Para James, para Linc... meu Deus, Pilar, para voc.
Dormi com o marido de minha melhor amiga. Eu era jovem, zangada,
ignorante e jamais me perdoei por isso. Mas fiz tudo que pude para
compensar. Dava dinheiro a ele, todas as vezes que pedia. Nem sei quanto,
ao longo dos anos.
-- E no pde dar mais -- concluiu Pilar.
-- Na noite da festa, ele disse que precisava me ver, quando e onde. Eu
recusei. Foi a primeira vez que fiz isso. Deixei-o furioso e isso me assustou.
Se no fizesse o que me mandou, ele entraria ali e, ento, contaria a James,
a Linc e a voc.
"Eu no podia correr esse risco. Meu filhinho, Pilar. Meu menino com os
cordes dos sapatos desamarrados. Quando cheguei em casa, tirei a arma
do cofre. Estava l h anos, no sei por que pensei nela. No sei por que a
peguei. Era como um vu sobre a minha mente. Ele tinha posto msica no
apartamento e uma boa garrafa de vinho. Sentou-se e me falou de seus
problemas financeiros. Encantador, como se fssemos velhos e queridos
amigos. No lembro uma nica coisa que ele disse; no sei nem se ouvia. Ele
precisava do que chamava de emprstimo. Um quarto de milho desta vez.
Estaria disposto, claro, a aceitar metade at o fim da semana, e me dar mais
um ms para o restante. No era pedir muito, afinal. Tinha me dado um
excelente filho.
"Eu no percebi que tinha a arma na mo. S soube que a usei quando vi o
vermelho contra a camisa branca do smoking dele. Ele me olhou, muito
surpreso, apenas um pouco chateado. Quase o imaginei dizendo! 'Porra,
Helen, voc arruinou minha camisa.' Mas no disse, claro. No disse nada.
Fui para casa e tentei me convencer de que aquilo nunca tinha acontecido.
Nunca aconteceu, de modo algum. Trago a arma comigo desde ento. Eu a
levo a toda parte."
-- Podia ter jogado fora -- disse Pilar baixinho.
-- Como? E se um de vocs fosse preso? Eu precisava dela ento para provar
que fui eu. No podia deixar Tony magoar meu filhinho, nem James. Achei
que talvez tivesse acabado. E agora... preciso contar a James e Linc
primeiro. Preciso contar a eles antes de falar com a polcia.
Os ciclos, pensou Sophia. s vezes precisavam ser interrompidos.
-- Se voc no tivesse usado essa arma pra salvar minha vida esta noite, no
teria de dizer nada a eles.
-- Eu amo voc -- disse apenas Helen.
-- Eu sei. E foi isso o que aconteceu aqui esta noite. Exatamente o que
aconteceu. -- Ela tomou Helen pelos ombros. -- Preste ateno em mim.
Voc voltou, viu Jerry me prendendo sob a mira de uma arma. Foi ele quem
trouxe as duas armas... pretendia plantar as duas no meu quarto pra me
incriminar. Ns lutamos e a outra arma, a que matou meu pai, estava cada no
cho perto da entrada. Voc pegou e atirou nele antes que ele atirasse em.
mim.
-- Sophia.
-- Foi o que aconteceu. -- Ela tomou a mo da tia, apertou-a. Tomou a da
me. -- No , Mama?
-- . Foi exatamente o que aconteceu. Voc salvou minha filha. Acha que eu
no salvaria os seus?
-- No posso.
-- Sim, pode. Quer me compensar? -- perguntou Pilar. -- Ento faa o
seguinte. No me importa nem um pouco o que aconteceu numa noite h
quase trinta anos, mas me importa sim o que aconteceu nesta. E o que voc
foi pra mim durante quase toda a minha vida. No vou deixar algum que amo
ser destrudo. Pelo qu? Por dinheiro, por orgulho, poi imagem? Se voc me
ama, se quer compensar esse erro to antigo, faa exatamente o que Sophia
est lhe pedindo. Tony era o pai dela. Quem mais tem o direito de deciidir
do que ela?
-- Jerry est morto -- disse Sophia. -- Ele matou, ameaou e destruiu, tudo
por causa de um ato egosta de meu pai. E isso termina aqui. Vou chamar a
polcia. Algum deve dar uma olhada em Rene. -- Ela curvou-se e roou os
lbios na face de Helen. -- Obrigada. Pelo resto da minha vida.

MAIS TARDE, BEM MAIS TARDE NA NOITE, SOPHIA SENTOU-SE NA
cozinha tomando ch com um toque de conhaque. Dera sua declarao e
sentara-se segurando a mo de Helen, quando a tia dera a dela.
A justia, pensou, nem sempre vinha como a gente esperava. Helen dissera
isso uma vez. E ali estava a inesperada justia. No prejudicara o fato de
Rene ter ficado histrica, tagarelando com todo mundo, incluindo Claremont
e Maureen quando chegaram, dizendo que Jerry era louco, assassino e a
obrigara sob a mira de uma arma a acompanh-lo.
Algumas cobras escapavam serpenteando, imaginou Sophia. Porque a vida era
uma coisa complicada.
Agora, pelo menos, a polcia se fora, a casa silenciara. Ela ergueu os olhos
quando a me e a av entraram.
-- Tia Helen? -- perguntou.
-- Conseguiu dormir, afinal? Vai ficar bem. Vai renunciar  magistratura.
Imagino que precise. -- Pilar ps as xcaras na mesa. -- Contei tudo a Mama,
Sophia. Achei que ela tinha o direito de saber.
-- Nonna. -- Sophia tomou-lhe a mo. -- Eu agi certo?
-- Agiu com amor. O que muitas vezes  mais importante. Foi corajoso de
sua parte, Sophia. Corajoso da parte de ambas. Estou orgulhosa. -- Tereza
sentou-se e suspirou. -- Helen tirou uma vida e deu uma de volta. Isso fecha
o crculo. No tornaremos mais a falar do assunto. Amanh minha filha vai se
casar e teremos mais uma vez alegria nesta casa. Em breve, a colheita... a
abundncia. E outra estao chega ao fim. A prxima  sua -- disse a Sophia.
-- Sua e de Tyler. Sua vida, seus legados. Eli e eu vamos nos aposentar no
primeiro dia do ano.
-- Nonna.
-- As tochas so para serem passadas. Aceite a que eu dou a voc. A leve
irritao na voz da av fez a neta sorrir.
-- Aceito. Obrigada, Nonna.
-- Agora  tarde. A noiva precisa descansar, e eu tambm. -- Levantou-se,
deixando o ch intocado, --- Seu rapaz voltou para o iagar. Voc no precisa
de muito sono.
Pura verdade, pensou Sophia, ao atravessar correndo os terrenos para o
lagar. Tinha tanta energia, tanta vida em seu ntimo, que achava que jamais
precisaria dormir de novo.
Ele acendera as luzes, e o antigo prdio agigantou-se sob elas. Sophia viu a
cintilao dos vidros quebrados nas janelas, as manchas escuras de fumaa,
os chamuscados das labaredas. Mas, apesar disso, manteve-se de p.
Resistiu.
Talvez ele a pressentisse. Gostava de pensar assim. Ele saiu pela porta
quebrada quando ela correu ao seu encontro. E pegou-a, segurou-a junto,
apertado, e centmetros acima do cho.
-- A est voc, Sophia. Imaginei que precisasse de um tempinho com sua
me, e depois eu ia te pegar.
-- Peguei voc primeiro. Segure firme, certo? Apenas continue segurando
firme.
-- Pode contar com isso. -- Mesmo a segurando, um calafrio deslizou mais
uma vez pela barriga dele, quando colou o rosto nos cabelos dela. -- Deus.
Deus do cu. Quando penso...
-- No pense. No --- ela disse e virou a boca para a dele.
-- No vou ter condies de deixar voc fora da minha vista pelos, h,
prximos dez ou quinze anos.
-- No momento, isso me serve muito bem. Est sozinho aqui?
-- Estou. David precisou levou os garotos pra casa e mandei vov embora
antes que ele desmaiasse, de to exausto. James continua muito abalado, e
por isso Linc levou o pai de volta para minha casa, visto que Helen est com
sua me.
-- Perfeito. Tudo como manda o figurino. -- Ela apoiou a cabea no ombro
dele e olhou em direo ao lagar. -- Poderia ter sido pior.
Ele soltou-a, tocando os lbios de leve no hematoma na face dela.
-- Muitssimo pior,
-- Voc devia ter visto como ficou o outro cara.
Ele conseguiu dar uma risada estrangulada ao apert-la mais uma vez nos
braos.
-- Isso  meio doentio.
-- Talvez, mas sou o que sou. Ele morreu com a minha marca no rosto, e me
alegro com isso, me alegra ter causado alguma dor a ele. E agora posso
enterrar isso. Enterrar tudo e recomear a partir de agora. Tudo, Ty.
Vamos reconstruir o lagar, reconstruir nossas vidas. E tornar essas vidas
nossas, s nossas. A Giambelli-MacMillan vai voltar maior e melhor que
nunca.  o que eu quero.
-- Empatamos, porque tambm  o que eu quero. Vamos pra casa, Sophie.
Ela encaixou a mo na dele e afastou-se dos danos e cicatrizes. Os
primeiros sinais do amanhecer iluminavam o cu no leste. Quando surgisse o
sol, pensou, seria um belssimo comeo.



FIM

